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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O juramento do jornalista


Juro (sem cruzar os dedos) ser um jornalista responsável e comprometido com a verdade.

Juro ouvir o outro lado. Mas só até o fechamento da edição.

Juro respeitar os valores aprendidos na faculdade, como não roubar no jogo de truco, nem chamar o adversário de “marreco”.

Juro não chorar se receber cinco pautas num mesmo dia.

Juro (cruzando os dedos) usar a carteira da Fenaj apenas nos eventos em que estiver a trabalho.

Juro honrar a tradição jornalística de comer porcaria em botecos de má reputação.

Juro não cobiçar a pauta alheia.

Juro não ficar contando piadinhas em velórios de gente famosa, com exceção do velório do Gilmar Mendes.

Juro não praticar jornalismo sensacionalista, a menos que a audiência esteja muito fraca.

Juro (cruzando os dedos das duas mãos) recusar todo tipo de jabá em coletivas de imprensa.

Juro não rasgar o meu diploma, apesar da vontade que vai me dar de vez em quando.

Juro encher de porrada o não-jornalista que falar mal da minha profissão.

Juro não esmorecer nos dias mais difíceis da carreira, que serão praticamente todos os dias.

Juro ser um jornalista etílico e, claro, ético também.

Juro que esta é a última vez que eu juro tanta coisa ao mesmo tempo. Ô, troço chato!

 
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segunda-feira, 6 de junho de 2011

A imprensa segundo G.H.


- Sente-se, seu Onofre, por favor. Dona Lurdes, dois cafés.

- Sim, senhor.

- Mas me diga, seu Onofre, em que posso ajudar? O senhor parece aporrinhado.

- E não é pra estar, seu Genival Herculano?

- Me chame de G.H., por favor.

- É sobre a notícia de minha pastelaria na edição da semana de seu jornal, seu G.H..

- Seu Onofre, acabo de voltar de viagem. Minha senhora quis ir pra Miami. Como aquela lá adora ter contato com uma nova cultura e, claro, fazer umas comprinhas. Nem acompanhei direito a nossa última edição.

- O seu jornal publicou uma nota dizendo que um cliente mastigou uma barata em um de meus pastéis.

- Não acredito, seu Onofre!

- Pois foi verdade, seu G.H..

- A barata?

- Não, a nota. A barata também... mas era uma barata miudinha. Não era pra tanto estardalhaço, entende?

- Não foi nenhuma baratona, cascuda, voadora.

- Longe disso, seu G.H..

- Entendo.

- Meu filho, que é metido com essas coisas de internet, me contou que a pastelaria virou até piada no Tuide, Tuite, sei lá.

- Seu Onofre, isso com certeza foi coisa do Clayton Júnior. O menino é bom repórter, mas tem mania de achar que jornalismo é denúncia, investigação. Já falei pra ele que aqui na cidade não podemos nos indispor com os amigos, com o prefeito Paulão, os comerciantes...

- A pastelaria tem anúncio de página inteira toda semana no seu jornal. Não é justo, o senhor sabe.

- Claro que não, seu Onofre. Mas o erro será reparado.

- Como?

- Pra semana que vem, vamos fazer uma matéria de capa com sua pastelaria. Haverá um grande pastelaço na cidade! O que o senhor acha? Eu mesmo vou aparecer numa foto comendo o seu pastel. Vamos mostrar que a barata não passou de um mal-entendido!

- Isso parece muito bom, seu G.H..

- Isso é ótimo. E peça pra seu filho divulgar o pastelaço no Twitter!

- O senhor é um grande homem da comunicação, seu Genival.

- G.H., por favor!

- G.H.!

- E tome logo esse café, seu Onofre, porque está esfriando. O senhor prefere açúcar ou adoçante?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

As mentiras que os jornalistas contam


Para celebrar este 1º de abril, resolvi relembrar frases clássicas de jornalistas nem um pouco comprometidas com a verdade.

Fique tranquilo que, se você está me dizendo que é off, a gente não vai publicar.

Sabe a foca gostosa, a namoradinha do editor-executivo? Então, comi ontem.

Já decidi: vou parar de beber, de comer porcaria e começar a cuidar mais da minha saúde.

Faz o seguinte: manda o release pro meu e-mail que depois eu leio com calma, ok?

Meu amigo, tô trabalhando. Você acha que eu sou o tipo que fica dando carteirada por aí?

Eu não trabalho num jornaleco que se vende por qualquer anúncio. Eu sou da grande imprensa. Temos independência.

Não vejo a hora de abandonar essa profissão ingrata. Como eu odeio o jornalismo!

E as mentiras que os jornalistas ouvem

Finalmente o jornal decidiu que vai ter um plano de carreira para vocês.

Meu bem, é claro que eu não me importo de você trabalhar até as quatro da manhã.

Querido, olha, a pauta é ótima, superinédita. Eu tô mandando o release só para vocês, viu?

Futuros jornalistas, percebam como é nobre a nossa profissão. Vocês têm a chance de mudar o mundo!

Aqui, na nossa agência de assessoria, você só vai atender um ou, no máximo, dois clientes. O trabalho é bem fácil.

O doutor acabou de entrar em outra reunião, ainda mais urgente, e não vai poder te dar a entrevista agora.

Paulo Maluf não tem nem nunca teve conta no exterior.


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sexta-feira, 30 de julho de 2010

As mentiras que os jornalistas contam


Fique tranqüilo que, se você está me dizendo que é off, a gente não vai publicar.

Sabe aquela foca gostosa, a namoradinha do editor-executivo? Então, comi ontem.

Já decidi: vou parar de beber, de comer porcaria e começar a cuidar mais da minha saúde.

Faz o seguinte: manda o release pro meu e-mail que depois eu leio com calma, ok?

Meu amigo, eu tô trabalhando. Você acha que eu sou o tipo que fica dando carteirada por aí?

Eu não trabalho num jornaleco que se vende por qualquer anúncio. Eu sou da grande imprensa. Temos independência.

Não vejo a hora de abandonar essa profissão ingrata. Como eu odeio o jornalismo!

E as mentiras que os jornalistas ouvem
Finalmente o jornal decidiu que vai ter um plano de carreira para vocês, meus caros jornalistas. Aguardem!

Meu bem, é claro que eu não me importo de você trabalhar até as quatro da manhã. Te espero ansiosamente em nossa cama, tá?

Querido, olha, a pauta é ótima, superinédita. Eu tô mandando o release só para vocês, viu?

Futuros jornalistas, percebam como é nobre a nossa profissão. Vocês têm a chance de mudar o mundo!

Aqui, na nossa agência de assessoria de imprensa, você só vai atender um ou, no máximo, dois clientes. O trabalho é bem fácil.

O doutor acabou de entrar em outra reunião, ainda mais urgente, e não vai poder te dar a entrevista agora.

Paulo Maluf não tem nem nunca teve conta no exterior.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O deputado, a sogra e a cabeça do repórter



Deputado influente fala com seu assessor

Entendeu o que eu te pedi? Quero que você ligue agora para o editor do jornal e peça para ele demitir aquele repórter irresponsável. Onde se viu escrever que minha sogra tá empregada lá no gabinete, recebe salário e não aparece para trabalhar? Tudo bem que é verdade, mas que direito esse reporterzinho de merda tem de publicar isso? Deixa a velha sossegada, porra! Cadê o respeito com a terceira idade? Mas esse repórter, que é um moleque, vai se dar mal. Vai aprender a não se meter mais comigo! E, outra coisa: não esquece de lembrar o editor que o dono da bosta daquele jornal é meu amigo há muitos anos, que tomamos uísque juntos. E fala grosso, viu? Diz assim: “O deputado tá muito puto com a safadeza desse repórter”.

Assessor fala com o editor do jornal

Tudo bem? Então, é sobre a matéria que saiu sobre a sogra do deputado. Na verdade, o deputado ficou um pouco magoado com o que o seu repórter escreveu. Todos sabem que o deputado sempre foi preocupado com a ética, sempre combateu o nepotismo e agora esse rapaz escreve isso, você entende? E, além de tudo, envolveu a sogra do deputado, que é uma senhora. Eu sei que pode ter sido uma infelicidade do repórter, que ainda é muito jovem, mas o deputado gostaria muito que você desligasse esse jornalista da empresa. Parece que o deputado é amigo do dono do seu jornal, acho que até tomam uísque juntos. É mais para não ferir a amizade que eles têm. Acho que você me entende, não?

FINAL FELIZ

Editor do jornal fala com o repórter


Sabe quem me ligou agora há pouco? O assessor do deputado da sogra. Acredita que o desgraçado do deputado pediu a tua cabeça? Filho-da-puta! Ele acha que é só ligar, dizer que não gostou da matéria e a gente vai mandando pra rua. Queria que você soubesse desta história. Pode ficar tranqüilo que você continua em nossa equipe. Confio no seu trabalho e no seu potencial. Ah, e o assessor veio até com um papinho furado de que o deputado e o dono do jornal são amigos, que tomam uísque juntos. Babacas.

FINAL INFELIZ

Editor do jornal fala com o repórter


Opa, tudo bom? Sabe aquela matéria que você escreveu sobre o deputado que emprega a sogra no gabinete e que a sogra não aparece para trabalhar? Então, parece que você cometeu um equívoco na apuração e desagradou a muita gente. O deputado não gostou, o dono do jornal também. A sogra, que é velha, passou mal. Meu caro, jornalismo é coisa séria. Tem de ter muito cuidado com o que se escreve para não prejudicar ninguém. Mas você é muito jovem ainda, tem muito tempo para aprender... Bom, o departamento pessoal fica no segundo andar, ok? Passa lá. Ah, e não se esqueça de esvaziar a sua gaveta.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Você é um jornalista ético?


Responda ao teste abaixo e confira o resultado no final. Só não vale mentir!

1) Se alguma fonte lhe pedir off, você:
A) Guarda o segredo, afinal deu sua palavra que não falaria nada.
B) Usa a informação e, depois, dá uma de “João-sem-braço”, justificando à fonte que esqueceu o pedido.
C) Pede à fonte uma boa grana para não abrir a boca.

2) Se um entrevistado tentar te subornar para que você não divulgue uma matéria:
A) Você não aceita a proposta e segue em frente com a publicação do texto.
B) Fica na dúvida e pede um tempo para pensar, afinal está com o aluguel de casa atrasado há três meses.
C) Topa a parada numa boa, mas antes dá uma de durão para conseguir um dinheirinho a mais.

3) Se você encontrar a agenda de telefones do repórter especial do jornal perdida na redação, você:
A) Devolve ao dono sem copiar contato algum.
B) Copia um ou outro telefone de seu interesse, mas devolve a agenda.
C) Pega a agenda para você, afinal o que é achado não é roubado.

4) Você já inventou o depoimento de algum personagem de sua matéria?
A) Nunca. Isso é inconcebível para um repórter.
B) Uma vez ou outra, por necessidade, pois o deadline era curto e as frases não comprometiam ninguém.
C) Já fiz isso várias vezes, pois não tenho saco de ouvir gente sem nada interessante para contar.

5) Você ouve os dois lados da história antes de publicar uma matéria?
A) Sempre, este é um dos princípios básicos do jornalismo.
B) Tento ouvir, mas, se não consigo, coloco no texto que fulano foi procurado, mas não deu retorno até o fechamento da edição.
C) O único lado que me interessa é o meu.

6) Você aceita jabás?
A) Não, acho esta prática muito promíscua.
B) Se o presentinho for bom, por que não aceitar?
C) Claro, com o salário de fome que eu ganho, qualquer agradinho por fora é bem-vindo.

7) Você publicaria uma mentira apenas para prejudicar alguém?
A) Isso, além de falta de ética, é crime. Jamais.
B) Se este alguém for a minha sogra ou o folgado do meu cunhado, acho até que publicaria.
C) Tenho o poder de escrever o que quiser. Por que não usá-lo?

8) Você é a favor de puxar o tapete de um colega de jornal para se dar bem na carreira?
A) Não, cada profissional deve vencer pelo talento.
B) Sou contra, mas se botarem na minha bunda, devolvo na mesma moeda.
C) Claro, o mundo é dos espertos, principalmente num mercado canibal como o do jornalismo.

9) Você se envolveria sexualmente com uma fonte?
A) Nunca, não misturo trabalho com interesses pessoais.
B) Se a fonte for gostosa, “vamu que vamu”.
C) Sem dúvida, principalmente se a fonte for casada, pois assim tenho uma forma de chantageá-la no futuro.

10) Você se venderia a um empresário rico e desonesto?
A) Jamais.
B) Por quanto?
C) Demorô!


RESULTADOS

Se a maior parte de suas respostas foi a letra “A”: Parabéns, você é um jornalista ético. Isso significa que seus netos terão orgulho de você no futuro, embora você vá continuar ganhando uma merda no presente. Seu chefe não lhe dará um aumento salarial pelo fato de você ter princípios, porque, embora pareça diferencial, isso é obrigação de todo jornalista.

Se a maior parte de suas respostas foi a letra “B”: Você tem tudo para se tornar um crápula da imprensa, mas ainda tem cura. Como tratamento (ou penitência), leia na íntegra o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, um documento mais chato do que regulamento interno de condomínio. Se chegar até o final, já é um sinal de boa vontade em mudar.

Se a maior parte de suas respostas foi a letra “C”: Você já conquistou uma vaga no inferno. Você é a escória da imprensa, um verme nojento que suja a imagem da categoria. É um caso sem salvação. A melhor coisa a fazer é abandonar o jornalismo e tentar a carreira de político. Com certeza, terá muito sucesso.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O testemunhal


O intervalo chega ao fim. O apresentador de TV ajeita a gravata segundos antes de seu programa jornalístico voltar ao ar. Em programa ao vivo não se pode vacilar. Mas ele é um cara experiente, não erra. O programa volta. Momento importante. Momento do testemunhal. No teleprompter, o texto sobre a empresa X, previamente preparado, é lido pelo apresentador, com ar de credibilidade. Dois minutos depois, o testemunhal acaba e emissora e apresentador estão um pouco mais ricos.

A história do testemunhal se repete por meses. Neste período, a empresa X é citada várias vezes no noticiário do programa. Curiosamente, sempre de forma positiva.

Até que, num certo dia, o apresentador começa a descer a porrada na empresa X. Faz duras críticas no ar, ao vivo. Chega a pegar pesado. Cadê o respeito com o consumidor?, cobra, em frente às câmeras. Fim do bloco, intervalo. O apresentador solta a gravata e coloca um sorriso leve no rosto, antes sisudo por tanta indignação com a empresa X. Passa pelo diretor e comenta: “Quero só ver se eles não vão voltar a pagar o testemunhal rapidinho.”

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

São tantas emoções


Tenho a lembrança de duas grandes mentiras ditas por um professor de ética na faculdade: “o jornalista tem a obrigação de ser absolutamente racional” e “vou colocar apenas a cabecinha” (no caso, para algumas inocentes alunas que embarcavam com ele em aventuras extracurriculares). Neste post, vou abordar apenas a primeira grande mentira. Será que o jornalista precisa ter a frieza de uma boneca inflável para contar uma história sem distorcer a realidade?

A questão me voltou à mente ao ver o Jornal Nacional da última sexta-feira, quando os apresentadores, imbuídos de um sensacionalismo dateniano, anunciaram por todo o telejornal uma matéria sobre o resgate de uma haitiana presa sob os escombros, três dias após o terremoto em Porto Príncipe. O que me chamou a atenção foi a postura da repórter, que mesmo visivelmente emocionada, no local da tragédia, conseguiu relatar o trabalho de resgate feito por militares brasileiros.

Carlos Alberto Di Franco, um crítico da imprensa brasileira, escreveu certa vez: “Jornalismo não é ciência exata e jornalistas não são autômatos. Além disso, não se faz bom jornalismo sem emoção. A frieza é anti-humana e, portanto, antijornalística.” Concordo com ele. Em certas coberturas é muito difícil ficar indiferente a situações de extrema penúria humana, como acompanhar flagelados de uma catástrofe natural, sobreviventes de uma guerra ou fãs ensandecidos em um show da banda Calypso.

Um professor dizer que um jornalista não tem o direito de se emocionar – que precisa fazer o tipo durão – é o mesmo que um pai dizer para o filho que homem não chora, que isso é coisa de menininha. Tudo bem que não precisamos nos tornar uma Helena do Manoel Carlos diante de uma cena de terror. Mas um pouco de coração mole não faz mal à isenção jornalística de ninguém.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Confissões de um jornalista


Estava na igreja para se confessar. Junqueira era um repórter de Política, usava terno e gravata, o cabelo e a barba bem aparados e óculos, com ar de seriedade. Nem parecia jornalista. Era um homem de princípios, que tinha medo de queimar no inferno.

– Padre, fiz uma matéria que acabou com a reputação de um homem. Só porque ele é contrário ao partido apoiado pelo jornal em que trabalho. Não concordei, mas fui obrigado pelo meu chefe.

– Engolimos sapos para manter o emprego, meu filho. Você só cumpriu ordens e sente culpa por isso. Reze dez ave-marias.

– Padre, tem uma outra coisa. Numa recente viagem de trabalho, todos os meus colegas falsificaram umas notas fiscais para ter um reembolso melhor. Eu não podia furar com eles. Colocamos tudo na conta do táxi. Ganho um salário de fome, sem hora extra...

– A vida está dura, meu filho. Reze mais dez ave-marias.

– Obrigado, padre, me sinto mais aliviado agora.

– Vá com Deus, meu filho. Mas não se esqueça de pagar sua contribuição para a manutenção da igreja, que anda meio atrasada.

Com todas as contas acertadas, Junqueira seguiu para a redação, onde teria um dia de muito trabalho. Encontraria também a estagiária do caderno de Economia, uma daquelas jovens ambiciosas que adoram homens de terno e gravata. Casado, o repórter sentia-se culpado pela idéia de ceder às provocações da garota, que o estava deixando maluco. Será que queimaria mesmo no inferno? Bem que o padre alertou: a vida está dura.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Meu caro diploma


Vamos considerar, apenas para efeito de cálculo, que a mensalidade de um curso de jornalismo custe 800 reais. Em um ano, um estudante gastaria 8 mil reais (10 mensalidades). Em quatro anos, esta facada subiria para 32 mil, sem contar gastos com transporte, alimentação, livros e cachaça (mais uns 5 mil reais). Tudo isso para conquistar o precioso diploma.

É certo que, além do canudo, o aluno adquire conhecimentos para toda a vida. Eu, por exemplo, aprendi a jogar truco e nunca mais esqueci. Mas, cá entre nós, 37 mil reais por um pedaço de papel que não vale mais nada é coisa pra cacete. Então fica a pergunta: o que você teria feito com a grana investida no diploma? A nova enquete está no ar. Custa nada participar!

A pesquisa que acabou de ser encerrada – Você acha que um jabá pode corromper um jornalista? – teve como grande vitoriosa a alternativa “Não. Acredito na ética, apesar de ganhar um salário de merda”, com 41% dos votos. Isso não significa, porém, que estes jornalistas cheios de nobres intenções recusem o presentinho. Apenas não deixarão que o mimo influencie no texto final, quer dizer, acho que não deixarão, sei lá, mil coisas...

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A culpa dos outros


O ser humano, dono de uma capacidade infinita de fazer merdas, de forma consciente ou não, aprendeu que a melhor defesa é sempre colocar a culpa nos outros. Você nunca está errado no trânsito, o casamento é arruinado pelo parceiro, o treinador é quem não sabe escalar o time. O sujeito solta um peido e, imediatamente, olha para o lado com ar indignado, procurando o responsável por tamanha indelicadeza.

Lendo o noticiário dos últimos dias, fiquei com a certeza de que tem coisa pior do que uma iminente pandemia de gripe suína. O quê, por exemplo? Gente como o Ciro Gomes, o maior humorista do Ceará de todos os tempos, e o Michel Temer, um dos líderes do PMDB (Partido do Me Dei Bem). Não agüento mais ver estes nobres deputados defenderem, com aquela cara de quem peidou e olhou para o lado, seus coleguinhas em escândalos e mais escândalos. E, naturalmente, a culpa de toda essa lama sobrou para nós, jornalistas.

Será que essa gente nobre nunca terá um pouco de vergonha na cara? Vai sempre querer intimidar os jornalistas e acabar com o nosso legítimo direito e dever de denunciar toda a picaretagem que há anos, décadas, faz parte da cultura do Congresso? Se a imprensa adora fazer o papel de abutre a rondar a carniça, como muitos dizem com razão, por que não assumir logo a podridão e tratar de moralizar a coisa?

Os jogadores de futebol, por sua vez, culpam os jornalistas pela falta de privacidade, mas não têm o menor cuidado ou pudor ao andar por aí com travecos ou com a Mulher-Picanha. Muitos artistas culpam os críticos, mas esquecem que seu ego é maior do que o seu talento. Daqui a pouco seremos os responsáveis por todas as mazelas da humanidade, os novos mordomos.

sexta-feira, 27 de março de 2009

O outro lado


Passo a manhã toda em uma favela. Ouço moradores e líderes comunitários que acusam a administração pública da cidade de omissão e negligência. Não são exatamente essas as palavras usadas, mas é exatamente isso que eles querem me dizer. Visito os pontos mais drásticos da favela, conheço de perto as promessas que não foram cumpridas. “Político é tudo safado”, diz, revoltada, uma moradora.

Almoço numa padoca qualquer (para variar um pouco) e volto à redação no início da tarde. Preciso ouvir o “outro lado”. O outro lado em questão é um secretário do governo municipal, sujeito com pouca disposição em falar com a imprensa, ainda mais nesta situação. A pedido do assessor de imprensa, ligo diretamente para ele, mas sua secretária me diz que “ele não vai poder estar me atendendo” neste momento por conta de uma reunião.

- Duda, já falou com o secretário? Podemos fechar a matéria?, pergunta meu editor, no meio da tarde.

Não, não falei. Já liguei algumas vezes. E nada. O sujeito nunca “vai poder estar me atendendo” simplesmente porque não quer me atender. É a reunião que não acaba, depois a audiência com alguém importante ou são os despachos do dia.

- Não podemos colocar que “procurado pela reportagem, o secretário não foi encontrado até o fechamento desta edição”?, sugiro a meu chefe. Mas a resposta é um duro “não”.

É sempre mais fácil dizer que “fulano não foi encontrado até o fechamento desta edição”, mas não podemos. Temos, sim, de ouvir o outro lado! Estou irritado com o passar das horas e nada de conseguir ouvir o outro lado. Quem foi o filho-da-puta que inventou essa coisa de ouvir o outro lado? Se o cara não quer falar, azar dele. O desgaste me faz questionar até os princípios éticos do bom jornalismo.

Ele fica de retornar minhas ligações e aguardo, sem qualquer paciência. “Ele vai estar ligando para o senhor”, promete a secretária do secretário. Tomo copos e mais copos de café. Não tiro os olhos do telefone, que não toca. Lembro aquela mulher apaixonada, que espera com uma ansiedade sem fim o telefonema de seu amado no dia seguinte ao primeiro encontro. Será que ele gostou de mim? Do meu papo inteligente? Da minha escova marroquina? Será que vai querer me comer de novo?

O secretário não me ligou.

- Duda, fecha esta matéria sem o outro lado mesmo, porque já acabou o seu tempo, grita meu editor. Coloca aí que “procurado pela reportagem, o secretário não foi encontrado até o fechamento desta edição”.