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quinta-feira, 15 de março de 2012

20 perrengues na hora de escrever a matéria


1. Ficar travadão e não saber como começar o texto.

2. Ter que decifrar as letras apagadas do teclado.

3. Apurar outras duas matérias enquanto escreve.

4. Sofrer pra se concentrar, porque a colega ao lado não pára de brigar com o marido no telefone.

5. Sofrer pra se concentrar, porque o Datena não pára de falar merda na TV.

6. A pressão do chefe pra acabar o texto em cinco minutos.

7. O torpedo do(a) namorado(a): “Vai chegar cedo em casa hoje?”

8. Precisar escrever 40 linhas, mas ter informação só pra 10.

9. Precisar escrever 10 linhas, mas ter informação pra 40.

10. Esquecer onde anotou aquela declaração superimportante.

11. O computador que demora séculos pra salvar um texto.

12. A barriga que ronca de fome.

13. Não poder acessar o Facebook enquanto escreve, porque o deadline não deixa.

14. Não ter tempo de checar a grafia correta de “obsessão”.

15. Por que na adolescência eu não acabei meu curso de datilografia?

16. O torpedo do gerente do banco: “Seu cheque voltou de novo. Me liga.”

17. O sono.

18. A angústia de que a “obra-prima” que você está criando pode não ser lida por ninguém.

19. Descobrir lá pela 39ª linha que aquela matéria de 40 (a que você só tinha 10 linhas de informação, lembra?) caiu.

20. A maldita voz do Datena que continua falando merda na TV.


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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Quem mexeu no meu texto?


Jornalista tem uma certeza: seu texto é imexível.

O orgulho do jornalista não admite que o texto tem vícios, erros. É seu filho perfeito. O lead está sempre no lugar certo. Clichê é o máximo. Nariz-de-cera, então, é a coisa mais bonita do papai.

A vaidade do jornalista não aceita críticas ao texto. É sua obra-prima. Não tolera pitacos, desconstrução de idéias, novos enfoques. É provocação. Que danação! Seu texto é sagrado, pra ser venerado. Jamais profanado.

O ciúme do jornalista o torna possessivo. O texto é sua nêga. E tem sempre gente querendo botar a mão. O editor é o mais vil dos cobiçadores de texto alheio, de amor alheio. Ricardão maldito. Deflorador. Deleta aqui, corrige ali, reescreve acolá. Corta pelo pé.

Você pode até mexer com a mãe de um jornalista. Mas experimenta só mexer no texto dele. Experimenta.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O texto jornalístico


Seria bom, né não, se texto sem clareza fosse crime sem perdão?

Seria bom, não vê, cagar pra essa coisa de o que, quem, quando, onde, como e por quê?

Seria bom, não imagina, se os manuais sufocantes não fossem nossa sina?

Seria bom, não crê, exorcizar a escrita de todo tipo de clichê?

Seria bom, não acha, se o uso da crase não causasse tanta desgraça?

Seria bom, não diga, se as muletas não se intrometessem pra dar liga?

Seria bom, não pensa, achar a cura pro nariz-de-cera, essa doença?

Seria bom, não é, se não cortassem nosso texto pelo pé?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A matéria da sua vida


A repórter buscou ajuda até de Mãe Samantha, a cartomante. Não queria saber nada de futuros namorados, das coisas do coração. Só perguntava sobre a tal grande reportagem da sua vida. Qual seria? Quando seria?

Jornalista não nasceu só para cobrir o buraco na rua.

O jornalista persegue a matéria da sua vida assim como os Cavaleiros da Távola Redonda buscavam o Santo Graal. É o nosso cálice sagrado. Perfeição, prestígio, ascensão.

Há quem nunca consiga encontrar a matéria da sua vida. Sensação de morrer virgem.

A matéria da sua vida é diferenciada. Impactante. Dá notoriedade ao jornalista. Muitas vezes, é apenas fama passageira. Em outros casos, pode abrir portas, janelas, horizontes.

A matéria da sua vida pode ser uma denúncia de derrubar presidente. Ou o chefão da Polícia. Ou o padre pedófilo. Pode ser uma entrevista exclusiva, com o Fidel, ou com o serial killer da zona sul foragido há meses.

A busca pela matéria da sua vida exige reuniões de pauta mentais. Uma viagem interna. Longas reflexões, grandes sacadas. Exige também bom relacionamento com delegados, promotores, políticos e outras fontes influentes. As nada influentes são ainda melhores, como o tiozinho que faz a limpeza no Congresso e conhece histórias que ninguém conhece.

Tem gente que faz de tudo pela matéria da sua vida. Até consultar uma cartomante.

Mãe Samantha segurou as mãos suadas da repórter e, antes de decretar o destino da moça, pigarreou. A grande reportagem da sua vida, minha filha, ainda vai demorar um pouco. Você vai ter que ter paciência. Mas eu vejo um loiro alto e bonito em seu caminho. Serve?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Efêmera


Repórter de jornal diário passa horas apurando uma matéria, entrevista Deus e o capeta, toma esporro do chefe, escreve, revisa, corrige aqui e acolá. E a matéria acaba rapidinho na vala comum. Resiste apenas 24 horas. Envelhecimento precoce. Morte súbita. Dá até pena. Só quem escreveu a mantém viva. Saboreia a cria até enjoar. Sonha mostrar pros netos. Do resto do mundo só ganha desprezo. Repugnância. A matéria de ontem está condenada a enrolar peixe e banana na feira. A ser fuzilada pela merda dos passarinhos. Pelo mijo dos cães.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O privilégio do nosso olhar



Horacio Oliveira, o argentino que buscava um sentido para sua existência em Rayuela (O Jogo da Amarelinha), de Cortázar, passou tardes a observar o amor dos clochards (ou mendigos) às margens do Sena e em outros pontos de Paris. Para muitos, a vida e os hábitos daqueles miseráveis representariam apenas algo repugnante e nojento, mas, para Horacio, significavam muita coisa. Tudo o ajudava a compor o quebra-cabeça da vida.

Saber prestar a atenção nas pessoas que estão ao nosso redor, sobretudo as marginais e as aparentemente mais insignificantes deste mundo, é um dom reservado a raros seres humanos. É bem provável que apenas os artistas, os jornalistas (retratistas ou os que lidam com as palavras) e outros poucos tenham a capacidade de olhar essa gente e descobrir histórias maravilhosas.

O que teria para nos contar, por exemplo, aquele traveco esculpido a silicone barato que faz ponto nas esquinas pobres das grandes cidades? E aquele flamenguista sofrido, sem dentes e com uma imagem de santa nas mãos, sempre presente na geral do Maracanã? Não podemos esquecer também o catador de sucata, que empurra seu carrinho pesado no meio do trânsito caótico, escoltado o tempo todo pelo fiel vira-lata. Além de vários outros personagens que rendem matérias deliciosas.

Há muitas histórias bacanas por trás dessa gente, muitas mensagens por trás de seus gestos. Fica aqui uma dica para os jornalistas iniciantes: nunca desperdicem esse dom, esse nosso olhar privilegiado!