Narrador:
Comeeeço de pauta, torcida brasileira. Olha lá o repórter, já se manda para o ataque. Não quer perder tempo. Vai ligar para o entrevistado, precisa apurar mais alguma informação para fechar o texto. Pega o celular pelo canto esquerdo da mesa, tá procurando o telefone da fonte. Não acha. Recomeça o lance. Abre agora a gaveta pela direita, procura o bloquinho. Deve ter anotado em algum lugar este telefone.
Comentarista:
Tá um começo de pauta meio desorganizado. Tá faltando criatividade ao repórter para encontrar o telefone da fonte.
Narrador:
O repórter decidiu jogar no Google o nome do assessor. Tá lá, consegue o telefone do assessor, parece que ele vai ligar. Ligou. O telefone tá tocando, tá tocando, tá tocando! Cadê o assessor, minha gente? Atendeu! Pede para esperar um instantinho. Que música chata, torcida brasileira. O repórter espera! (Merchan: tá no vermelho? Tá precisando pagar o aluguel? Ligue agora para a CrediPress, a única financeira que empresta dinheiro só para jornalistas. Saia da miséria hoje mesmo!) E o repórter ainda tá esperando o assessor.
Comentarista:
É uma pauta de muita paciência. Não vai ser fácil furar a retranca do assessor.
Narrador:
Acabou a musiquinha chata, o assessor voltou. Diz que a fonte está numa reunião. Sei não! Tá com cara de simulação. A fonte tá fazendo cera. O assessor pede pro repórter ligar mais tarde. O repórter diz tudo bem, mas tá ansioso. O que é que só você viu?
Repórter de campo:
O editor, aqui na beira da redação, já pediu para o repórter dar um gás na pauta, porque hoje o deadline tá apertado.
Narrador:
Haaaja emoção! O repórter decide se levantar da mesa, acho que vai tomar um café. Sai pela esquerda, dribla a mesa do editor, passa pela secretária, consegue chegar à maquina do café. Procura as moedas. Cadê as moedas? Como é atrapalhado esse repórter! Acha as moedas no bolso pela direita. Aperta o botão. Cappuccino. Sem açúcar. O teeempo passa. O repórter tá nervoso por causa do entrevistado que não fala. Acaba de beber o cappuccino, decide voltar para sua mesa. Vai ligar de novo pro assessor. Tá voltando pra mesa. Que é isso? Ele deu uma bela olhada pra bunda da estagiária gostosa. Pode isso?
Comentarista de arbitragem:
Pode, claro que pode. Quem nunca olhou pra bunda da estagiária gostosa? Lance normal. Segue a pauta.
Narrador:
(Merchan: tá a fim de comprar um livro sobre jornalismo com bom humor? Compre já “A vida de jornalista como ela é”, do Duda Rangel. À venda pela página do blog no Facebook!) O assessor pede para o repórter esperar na linha. Acho que acabou a reunião. Não, acabou não. Ou melhor, acabou, mas o entrevistado já entrou em outra reunião. Tá complicada a vida do repórter. E você confere comigo o teeempo da pauta. Faaaltam 20 minutos para o deadline!
Comentarista:
O que o entrevistado está fazendo é a típica antipauta. O fair play passou longe.
Narrador:
(Merchan: Dia dos Namorados chegando e você encalhado, amigo jornalista? Cadastre-se hoje mesmo no Dateline.com, o único site de relacionamento dedicado exclusivamente a jornalistas encalhados. Saia da seca hoje mesmo!) Olha lá o repórter, descolou o celular do entrevistado. Vai ligar direto para a fonte. Não quer esperar mais. Ligou! O celular toca, toca. Atendeu a fonte. Agora não dá pra fugir mais. O repórter é rápido, já faz uma pergunta, mais outra, anota tudo. Quero ver só entender esta letra depois. Faz uma terceira pergunta. Já pode pedir música no Fantástico. Conseguiu tudo.
Repórter de campo:
O editor já avisou que não vai acrescentar nenhum minuto. É só o tempo regulamentar do deadline mesmo.
Narrador:
Minuuutos finais de pauta. O repórter começa a escrever. Tá tentando entender a letra no bloquinho. Eu avisei que não seria fácil. Ele mal respira. É concentração total agora. A estagiária gostosa passa desfilando ao lado do repórter e ele nem percebeu. Por essa ninguém esperava.
Comentarista:
É como diz aquele velho ditado: “cabeça de jornalista é uma caixinha de surpresas”.
Narrador:
Olha lá, o repórter já começa a redigir o título. Não vai dar nem tempo de revisar. Vai lá, vai apertar o “enter”. Apertooou o “enter”. A matéria foi embora, com todas as aspas que o repórter tanto queria.
Comentarista:
Eu diria para você que foi uma pauta apertada, mas o resultado acaba sendo justo, porque o repórter batalhou a informação, teve paciência para quebrar a retranca do entrevistado.
Narrador:
Feeecha-se o template! Fiiim de pauta, torcida brasileira!
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terça-feira, 10 de junho de 2014
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Breve análise sobre o entrevistado neurótico
O entrevistado neurótico fica naquela de querer saber quando a matéria será publicada. Vai sair amanhã, né? Como você não sabe? É que eu já avisei minha família inteira que vai sair amanhã. Quebra esse galho, vai. Mas você não é o repórter? Tá, e quem manda? Sei, e qual o nome do editor?
O entrevistado neurótico caga de medo das próprias declarações. Faz o seguinte: não coloca isso, não. Escreve que a empresa vai resolver o problema em 3 meses. Não, 3 meses, não. Bota 6 meses. Isso. Quer dizer, não sei. Melhor: tira esse negócio de vai resolver. Põe assim: a empresa espera resolver. Não, peraí, deixa eu pensar.
O entrevistado neurótico vive desconfiado do repórter. Você não vai gravar a entrevista? O outro jornalista que falou comigo gravou. Entendi. Mas como você consegue entender essa letra? Parece letra de médico. Consegue mesmo? Olha lá o que você vai escrever, hein? Jornalista adora distorcer o que a gente fala.
O entrevistado neurótico exige que a foto dele saia na primeira página do jornal. Eu prefiro aquela do soquinho no queixo. Ficou ótima! A minha foto vai sair colorida, né? Como assim, você não sabe se vai sair a foto? Não brinca. É o editor que decide isso também? Cacete, repórter não manda porra nenhuma, hein?

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O entrevistado neurótico caga de medo das próprias declarações. Faz o seguinte: não coloca isso, não. Escreve que a empresa vai resolver o problema em 3 meses. Não, 3 meses, não. Bota 6 meses. Isso. Quer dizer, não sei. Melhor: tira esse negócio de vai resolver. Põe assim: a empresa espera resolver. Não, peraí, deixa eu pensar.
O entrevistado neurótico vive desconfiado do repórter. Você não vai gravar a entrevista? O outro jornalista que falou comigo gravou. Entendi. Mas como você consegue entender essa letra? Parece letra de médico. Consegue mesmo? Olha lá o que você vai escrever, hein? Jornalista adora distorcer o que a gente fala.
O entrevistado neurótico exige que a foto dele saia na primeira página do jornal. Eu prefiro aquela do soquinho no queixo. Ficou ótima! A minha foto vai sair colorida, né? Como assim, você não sabe se vai sair a foto? Não brinca. É o editor que decide isso também? Cacete, repórter não manda porra nenhuma, hein?

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terça-feira, 16 de abril de 2013
Amélie
Já viu uma jornalista tímida? Prazer, sou eu. Um dos mais belos exemplares da espécie. Meu nome é Mariana, mas pode me chamar de Amélie. Amélie Poulain. Escolhi ser jornalista porque gosto de observar pessoas, seus movimentos, a cidade. Mas não curto falar, me aproximar demais, interagir, fazer perguntas. Ok, eu sei que você vai dizer que jornalista tímido deveria nascer morto, mas eu prefiro o meu mundo seguro.
Meu mundo seguro é o meu blog. É nele que eu falo das minhas observações. Das pessoas, seus movimentos, da cidade. Ou melhor, não falo, escrevo. É minha conexão com o tal mundo externo. As pessoas me leem e, vez ou outra, deixam lá um comentário. Sei que minhas palavras podem ajudar as pessoas. E eu gosto de ajudar as pessoas.
A proposta da minha amiga me deixa, claro, preocupada. Ou melhor, me deixa desesperada. Repórter? Sei. Fazer perguntas? Sei. Olhos nos olhos do entrevistado? Sei. Logo agora que eu estou quase curada das minhas crises de pânico, ela me vem com essa. É lógico que ela sabe que eu estou precisando de grana. Salário razoável? Sei.
Ser repórter de verdade é um puta desafio para mim. Lembra o dia em que tive de ler um poema em voz alta. Acho que na 5ª série. Além de escrever, agora vou ter que falar. Posso pular esta segunda parte? Não, não posso.
Uma coletiva de imprensa. Melhor que a estreia seja assim, porque vai ter um monte de gente na sala e eu posso só ouvir e sumir sem ser notada. Só três pessoas? Coletiva com só três repórteres? Pausa para a taquicardia. Exercícios de respiração. Quero meu mundo de volta! Pedem para eu começar e eu... (mais exercícios de respiração) pergunto! E o cara responde. E eu faço uma segunda pergunta e essa coisa de estabelecer diálogo com um estranho me deixa eufórica. Lembrou meu primeiro selinho. Na 7ª série. Ou 8ª, sei lá.
Um repórter mais velho disse certa vez que dor de barriga faz parte do ofício. Que ansiedade é coisa boa de viver. Que até o povo experiente passa por isso. Ok, eu tô curtindo conhecer o mundo real, mas confesso que tinha orgulho de ser tímida. Ou melhor, tinha um puta orgulho. Um dos mais belos exemplares da espécie.

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Meu mundo seguro é o meu blog. É nele que eu falo das minhas observações. Das pessoas, seus movimentos, da cidade. Ou melhor, não falo, escrevo. É minha conexão com o tal mundo externo. As pessoas me leem e, vez ou outra, deixam lá um comentário. Sei que minhas palavras podem ajudar as pessoas. E eu gosto de ajudar as pessoas.
A proposta da minha amiga me deixa, claro, preocupada. Ou melhor, me deixa desesperada. Repórter? Sei. Fazer perguntas? Sei. Olhos nos olhos do entrevistado? Sei. Logo agora que eu estou quase curada das minhas crises de pânico, ela me vem com essa. É lógico que ela sabe que eu estou precisando de grana. Salário razoável? Sei.
Ser repórter de verdade é um puta desafio para mim. Lembra o dia em que tive de ler um poema em voz alta. Acho que na 5ª série. Além de escrever, agora vou ter que falar. Posso pular esta segunda parte? Não, não posso.
Uma coletiva de imprensa. Melhor que a estreia seja assim, porque vai ter um monte de gente na sala e eu posso só ouvir e sumir sem ser notada. Só três pessoas? Coletiva com só três repórteres? Pausa para a taquicardia. Exercícios de respiração. Quero meu mundo de volta! Pedem para eu começar e eu... (mais exercícios de respiração) pergunto! E o cara responde. E eu faço uma segunda pergunta e essa coisa de estabelecer diálogo com um estranho me deixa eufórica. Lembrou meu primeiro selinho. Na 7ª série. Ou 8ª, sei lá.
Um repórter mais velho disse certa vez que dor de barriga faz parte do ofício. Que ansiedade é coisa boa de viver. Que até o povo experiente passa por isso. Ok, eu tô curtindo conhecer o mundo real, mas confesso que tinha orgulho de ser tímida. Ou melhor, tinha um puta orgulho. Um dos mais belos exemplares da espécie.

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terça-feira, 2 de abril de 2013
O lado bom da vida de jornalista
Quando entrevistou o trapezista, teve vontade de voar.
Quando precisou voar para a pauta, entendeu o que é ser repórter.
Quando começou a caminhar pelas ruas, aprendeu a olhar o mundo de um jeito que ninguém sabia olhar.
Quando esbarrou nas imundícies da vida, percebeu que não podia se conformar com aquilo tudo.
Quando provocou um nó na garganta do leitor, sorriu todo cheio de orgulho.
Quando meteu o pé na lama, saboreou o prazer de não viver preso num escritório.
Quando visitou o asilo de velhinhos, descobriu o valor das boas histórias que ficaram perdidas.
Quando causou uma simples mudança na sociedade, teve a certeza de que essa coisa de ser jornalista vale a pena, sim.
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Quando precisou voar para a pauta, entendeu o que é ser repórter.
Quando começou a caminhar pelas ruas, aprendeu a olhar o mundo de um jeito que ninguém sabia olhar.
Quando esbarrou nas imundícies da vida, percebeu que não podia se conformar com aquilo tudo.
Quando provocou um nó na garganta do leitor, sorriu todo cheio de orgulho.
Quando meteu o pé na lama, saboreou o prazer de não viver preso num escritório.
Quando visitou o asilo de velhinhos, descobriu o valor das boas histórias que ficaram perdidas.
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
A reunião de pauta segundo Jesus Cristo
Jesus: Gente, estou precisando muito de boas sacadas de pauta. Outros olhares, vocês entendem? A última grande manchete do nosso jornal foi quando andei sobre as águas.
André: E o milagre da multiplicação das pautas, chefe?
Jesus: Apenas como último recurso, André.
Pedro: Chefe, já que estamos falando em novos olhares, eu queria pedir para mudar de editoria. Não aguento mais as pautas chatas de sempre.
Jesus: Que pautas chatas de sempre, Pedro?
Pedro: Ué, só matéria de chuva, enchente, piscinão, o Rio Jordão que transbordou. Já estou ficando estigmatizado como o repórter da chuva. Daqui a uns séculos ou milênios, sei lá, eu viro santo e vou ser o quê? O santo da chuva. Vocês podem escrever isso.
João: Pedro, se você quiser, pode cobrir a Galileia Fashion Week no meu lugar. O evento é top. E sempre rolam umas roupinhas de presente, umas túnicas de linho lindas.
Jesus: Voltemos à reunião de pauta! Ideias, meus caros?
Tiago: A gente poderia fazer uma matéria especial sobre a UPP que instalaram lá no Monte Sinai. Pacificou geral o morro.
Jesus: Boa, Tiago. Isso dá chamada de primeira, hein?
Tiago: Obrigado, chefe!
Tomé: Senhor, uma fonte me bateu que tá rolando uma operação da PF para investigar a corrupção do Judiciário. Tem até nome: “Operação Mãos Lavadas”. Parece que o Pilatos tá envolvido. Eu não acredito que vai dar em alguma coisa, mas vou ficar de olho.
Jesus: Ok, Tomé. Veja isso, sim. O povo adora essas histórias de corrupção. Vende jornal.
Simão: Eu tô com a matéria das pet shops de ovelhas.
Jesus: Legal, Simão. Só não se esqueça de uma retranca com os pastores, foco na avaliação deles sobre o serviço, ok?
Tiago: Deixa comigo.
Jesus: E cadê o Mateus que não apareceu ainda? Ele não sabia da reunião de pauta de hoje?
João: Ele está cobrindo a história do Moisés, o lance lá de abrir o mar. Chefe, o senhor não viu o release, não?
Jesus: Meu Pai, verdade, João. Agora de manhã, não?
João: A abertura do mar estava marcada para as 9 horas. Agora, já deve estar rolando o brunch.
Jesus: Esses brunchs da assessoria do Moisés são ótimos.
João: E o cordeiro ao molho madeira que eles servem no almoço? Divino! Alguém aí já comeu?
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André: E o milagre da multiplicação das pautas, chefe?
Jesus: Apenas como último recurso, André.
Pedro: Chefe, já que estamos falando em novos olhares, eu queria pedir para mudar de editoria. Não aguento mais as pautas chatas de sempre.
Jesus: Que pautas chatas de sempre, Pedro?
Pedro: Ué, só matéria de chuva, enchente, piscinão, o Rio Jordão que transbordou. Já estou ficando estigmatizado como o repórter da chuva. Daqui a uns séculos ou milênios, sei lá, eu viro santo e vou ser o quê? O santo da chuva. Vocês podem escrever isso.
João: Pedro, se você quiser, pode cobrir a Galileia Fashion Week no meu lugar. O evento é top. E sempre rolam umas roupinhas de presente, umas túnicas de linho lindas.
Jesus: Voltemos à reunião de pauta! Ideias, meus caros?
Tiago: A gente poderia fazer uma matéria especial sobre a UPP que instalaram lá no Monte Sinai. Pacificou geral o morro.
Jesus: Boa, Tiago. Isso dá chamada de primeira, hein?
Tiago: Obrigado, chefe!
Tomé: Senhor, uma fonte me bateu que tá rolando uma operação da PF para investigar a corrupção do Judiciário. Tem até nome: “Operação Mãos Lavadas”. Parece que o Pilatos tá envolvido. Eu não acredito que vai dar em alguma coisa, mas vou ficar de olho.
Jesus: Ok, Tomé. Veja isso, sim. O povo adora essas histórias de corrupção. Vende jornal.
Simão: Eu tô com a matéria das pet shops de ovelhas.
Jesus: Legal, Simão. Só não se esqueça de uma retranca com os pastores, foco na avaliação deles sobre o serviço, ok?
Tiago: Deixa comigo.
Jesus: E cadê o Mateus que não apareceu ainda? Ele não sabia da reunião de pauta de hoje?
João: Ele está cobrindo a história do Moisés, o lance lá de abrir o mar. Chefe, o senhor não viu o release, não?
Jesus: Meu Pai, verdade, João. Agora de manhã, não?
João: A abertura do mar estava marcada para as 9 horas. Agora, já deve estar rolando o brunch.
Jesus: Esses brunchs da assessoria do Moisés são ótimos.
João: E o cordeiro ao molho madeira que eles servem no almoço? Divino! Alguém aí já comeu?
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segunda-feira, 23 de julho de 2012
Repórter sem frescura
Repórter sem frescura vai pra pauta até de busão. Escreve sem mesa. Com a bunda no chão. Não se melindra com assessor que acompanha entrevista. Dorme em banco de delegacia.
Repórter sem frescura faz anotação em verso de papel impresso. No guardanapo do bar. Caneta? Com nome de empresa, caneta-jabá. No máximo uma legítima Montblanc de camelô.
Repórter sem frescura apura matéria mesmo com o barulho de vozes, telefones e teclados na redação. Não tem aquela coisa de “chiiiiii” pra cá, “chiiiiii” pra lá. Não fica pedindo pra baixar o ar, pra subir o ar.
Repórter sem frescura almoça no bar do seu Zezé. Prato feito. Feito pedreiro. Copo d´água no copo de requeijão. Não reclama do pagode no carro de reportagem.
Repórter sem frescura não fica com nhenhenhém pra entrar em favela. Mete o pé na lama sem drama.
Repórter sem frescura não tem nojinho do mundo.
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Repórter sem frescura faz anotação em verso de papel impresso. No guardanapo do bar. Caneta? Com nome de empresa, caneta-jabá. No máximo uma legítima Montblanc de camelô.
Repórter sem frescura apura matéria mesmo com o barulho de vozes, telefones e teclados na redação. Não tem aquela coisa de “chiiiiii” pra cá, “chiiiiii” pra lá. Não fica pedindo pra baixar o ar, pra subir o ar.
Repórter sem frescura almoça no bar do seu Zezé. Prato feito. Feito pedreiro. Copo d´água no copo de requeijão. Não reclama do pagode no carro de reportagem.
Repórter sem frescura não fica com nhenhenhém pra entrar em favela. Mete o pé na lama sem drama.
Repórter sem frescura não tem nojinho do mundo.
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sexta-feira, 25 de maio de 2012
Chororô na fila do seguro-desemprego
A repórter, toda metida a superior, toda metida a engraçada, sonhava com um vídeo seu bombando no YouTube, nas redes sociais. Viral jornalístico! Um dia rolou. Entrevista na delegacia. Mas que tragédia! Ficou famosa no Brasil todo por humilhar um joão-ninguém sem a menor noção do que é um exame de próstata. Um joão-ninguém que sequer sabia pronunciar a palavra próstata.
Sua atitude foi execrada pelos colegas de profissão. Pegou mal. Mas ela não é a única culpada, é? Não importa. No mundinho jornalístico, a corda sempre estoura para o lado do mais fraco. E vejam a ironia: a repórter, que parecia tão forte, também é fraca.
Na fila do seguro-desemprego, ela é abordada por outro repórter de TV, que por coincidência também cursou a escola dateniana de jornalismo com requintes de crueldade.
– Você humilhou aquele menino na delegacia!
– Não humilhei, não. Eu só entrevistei!
– Não humilhou, mas quis humilhar.
– Fiz isso, não!
– Mas a gente tem um vídeo que mostra você humilhando o coitado.
– Este vídeo é falso. Foi uma montagem.
– Ah, é falso?
– Eu gostaria, inclusive, de pedir a ajuda daquele perito, o Semolina, para provar que o vídeo é falso!
– Qual o nome do perito?
– Semolina.
– Qual o nome?
– Semolina.
– Semolina? (o repórter se segura todo para não gargalhar)
– Não é?
– Semolina?
– É, aquele perito gordinho, com uma barbona branca, que tá sempre aparecendo na televisão.
– Qual o nome dele mesmo? Semolina? (rindo)
– Moço, eu não sei pronunciar o nome dele.
– Agora, ó, só para resumir a situação: semolina é um negócio que tem no pão, sei lá, um cereal. O nome do perito é Molina. Perito Molina!
– Molina?
– Molina! O gordinho que tá sempre aparecendo na televisão, com barba de Papai-Noel, é Molina. Não é Semolina! Entendeu, porra?
O sistema é bruto para a repórter toda metida a superior, toda metida a engraçada.
O vídeo da tal repórter na delegacia aqui.
Sua atitude foi execrada pelos colegas de profissão. Pegou mal. Mas ela não é a única culpada, é? Não importa. No mundinho jornalístico, a corda sempre estoura para o lado do mais fraco. E vejam a ironia: a repórter, que parecia tão forte, também é fraca.
Na fila do seguro-desemprego, ela é abordada por outro repórter de TV, que por coincidência também cursou a escola dateniana de jornalismo com requintes de crueldade.
– Você humilhou aquele menino na delegacia!
– Não humilhei, não. Eu só entrevistei!
– Não humilhou, mas quis humilhar.
– Fiz isso, não!
– Mas a gente tem um vídeo que mostra você humilhando o coitado.
– Este vídeo é falso. Foi uma montagem.
– Ah, é falso?
– Eu gostaria, inclusive, de pedir a ajuda daquele perito, o Semolina, para provar que o vídeo é falso!
– Qual o nome do perito?
– Semolina.
– Qual o nome?
– Semolina.
– Semolina? (o repórter se segura todo para não gargalhar)
– Não é?
– Semolina?
– É, aquele perito gordinho, com uma barbona branca, que tá sempre aparecendo na televisão.
– Qual o nome dele mesmo? Semolina? (rindo)
– Moço, eu não sei pronunciar o nome dele.
– Agora, ó, só para resumir a situação: semolina é um negócio que tem no pão, sei lá, um cereal. O nome do perito é Molina. Perito Molina!
– Molina?
– Molina! O gordinho que tá sempre aparecendo na televisão, com barba de Papai-Noel, é Molina. Não é Semolina! Entendeu, porra?
O sistema é bruto para a repórter toda metida a superior, toda metida a engraçada.
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segunda-feira, 5 de março de 2012
Repórter, o pidão
Repórter pede um pouco de atenção. Duas perguntas, senhor, depois não incomodo mais, não. Pede relato da história, detalhes e opinião. Pede nome completo, idade e profissão. Na muvuca, pede licença, pra não pisar no pé de ninguém. Na muvuca, pede desculpa, porque pisou no pé de alguém. Repórter pede ajuda ao colega assessor, resposta até as 18, sem atraso, por favor. Repórter pede a manchete do caderno à chefia. Pede só mais um minutinho, pra fechar a matéria do dia. Ao motorista do jornal pede pra pauta voar. Pede ajuda a São Longuinho, pra anotação perdida encontrar. Repórter pede o contato de todo tipo de gente, pede dica de personagem. Pede emprego, óbvio. E sempre. Repórter pede chope e porção de calabresa. Pede que o amanhã chegue logo. Com toda a sua certeza. Pede muita compreensão, da família e namorado. E, claro, do tiozinho que cobra o aluguel atrasado. Pede credencial e pede sem fingimento, pede caneta emprestada, pede pedido de aumento. Pede com jeitinho, pede desajeitado. Pede cheio de calma. Pede desesperado. Repórter vive pedindo coisas, quando tem ou não tem trabalho. Pede, pede, pede. Repórter pidão do caralho.
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
O insólito caso da piriguete com nome cheio de consoante
(Checar a grafia do nome da piriguete).
Puta que pariu! Foi só acordar, abrir o jornal e entrar em pânico. A observação ainda estava lá. Publicada. Terceira linha do quinto parágrafo. Mico-mor da minha carreira!
É o que dá fazer na pressa, não revisar o texto. E o editor que deixou passar? Putz, eu sempre tão cuidadoso.
A piriguete é uma das personagens da matéria, uma estudante. Protesto na Paulista pelo direito de ouvir música no iPod durante as aulas. Ela chamava a atenção. A única de microssaia e salto alto. Mas tinha um nome difícil, daqueles cheios de consoante, sabe? Tipo islandês, russo, sei lá.
Nos portais de informação da internet, a gente faz merda, vai lá e corrige. Impresso é diferente. Não tem como abortar informação indesejada. Impresso não tem pílula do dia seguinte.
A chefia gosta de mim, não devo perder o emprego, mas a vergonha tortura. Meu nome lá. Assinado. Vão me dizer que amanhã a vergonha passa, a gente esquece, a vida segue. Só que o hoje é uma eternidade.
Daqui a pouco chego à redação. Já estou até vendo: a galera rindo, sacaneando. Vou ganhar apelido novo: Paulo Piriguete. O Pê Pê. Vou entrar para os anais da imprensa. Virar piada em show do Maurício Menezes.
Será que alguém vai me reconhecer na rua, apontar aquele dedo que diz “ó lá o cara que escreveu piriguete no jornal”? Tormento. Sou o próprio Raskolnikov. Ras-kol-ni-kov. Porra, escrevi certo?
Medo de acessar a web. E-mails aos montes? Uma mensagem indignada da piriguete? E se eu parar nas redes sociais? Nos TTs mundiais? A cagada do repórter viralizada!
Nunca mais deixo este tipo de observação nos textos. E o principal: não entrevisto mais gente com nome difícil. Com nome cheio de consoante. Tipo islandês, russo, sei lá. E imaginar que no protesto tinha um monte de menina com cara de Maria da Graça. Rita de Cássia. Simples. Assim.
Puta que pariu! Foi só acordar, abrir o jornal e entrar em pânico. A observação ainda estava lá. Publicada. Terceira linha do quinto parágrafo. Mico-mor da minha carreira!
É o que dá fazer na pressa, não revisar o texto. E o editor que deixou passar? Putz, eu sempre tão cuidadoso.
A piriguete é uma das personagens da matéria, uma estudante. Protesto na Paulista pelo direito de ouvir música no iPod durante as aulas. Ela chamava a atenção. A única de microssaia e salto alto. Mas tinha um nome difícil, daqueles cheios de consoante, sabe? Tipo islandês, russo, sei lá.
Nos portais de informação da internet, a gente faz merda, vai lá e corrige. Impresso é diferente. Não tem como abortar informação indesejada. Impresso não tem pílula do dia seguinte.
A chefia gosta de mim, não devo perder o emprego, mas a vergonha tortura. Meu nome lá. Assinado. Vão me dizer que amanhã a vergonha passa, a gente esquece, a vida segue. Só que o hoje é uma eternidade.
Daqui a pouco chego à redação. Já estou até vendo: a galera rindo, sacaneando. Vou ganhar apelido novo: Paulo Piriguete. O Pê Pê. Vou entrar para os anais da imprensa. Virar piada em show do Maurício Menezes.
Será que alguém vai me reconhecer na rua, apontar aquele dedo que diz “ó lá o cara que escreveu piriguete no jornal”? Tormento. Sou o próprio Raskolnikov. Ras-kol-ni-kov. Porra, escrevi certo?
Medo de acessar a web. E-mails aos montes? Uma mensagem indignada da piriguete? E se eu parar nas redes sociais? Nos TTs mundiais? A cagada do repórter viralizada!
Nunca mais deixo este tipo de observação nos textos. E o principal: não entrevisto mais gente com nome difícil. Com nome cheio de consoante. Tipo islandês, russo, sei lá. E imaginar que no protesto tinha um monte de menina com cara de Maria da Graça. Rita de Cássia. Simples. Assim.
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segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Documento secreto: como irritar um jornalista
Com a Lei de Acesso à Informação, textos sigilosos começam a vir à tona. O blog Desilusões perdidas obteve, com exclusividade, documento que ensina um entrevistado a provocar o repórter, só para deixá-lo desestabilizado (ainda mais do que ele já é) emocionalmente. Confira as orientações:
Dê um chá de cadeira de horas nele.
Convide-o para almoçar num restaurante caro, mas não pague a conta sozinho.
Peça para ler as perguntas antes da entrevista para verificar se estão bem-elaboradas.
Opte por monossílabos quando ele quiser respostas aprofundadas.
Fuja malufamente das polêmicas.
Responda uma pergunta com outra pergunta.
Elogie o doutor Gilmar Mendes, mesmo fora do contexto.
Diga que tem uma informação ótima e exclusiva e, logo depois, lembre que não está autorizado a contar.
Se ele estiver com pressa, fale com a rapidez de um Suplicy.
Dê menos atenção se ele não trabalhar na “grande imprensa”.
Quando estiverem conversando, enalteça o furo do principal concorrente dele.
Chame o jornal em que ele trabalha de jornalzinho.
Lembre que ele deve ser generoso na produção do texto, afinal você é um influente anunciante.
Pergunte quando vai sair a entrevista e se sua foto terá destaque.
Elogie mais uma vez o doutor Gilmar Mendes.
Peça para aprovar a matéria antes da publicação.
Dê um chá de cadeira de horas nele.
Convide-o para almoçar num restaurante caro, mas não pague a conta sozinho.
Peça para ler as perguntas antes da entrevista para verificar se estão bem-elaboradas.
Opte por monossílabos quando ele quiser respostas aprofundadas.
Fuja malufamente das polêmicas.
Responda uma pergunta com outra pergunta.
Elogie o doutor Gilmar Mendes, mesmo fora do contexto.
Diga que tem uma informação ótima e exclusiva e, logo depois, lembre que não está autorizado a contar.
Se ele estiver com pressa, fale com a rapidez de um Suplicy.
Dê menos atenção se ele não trabalhar na “grande imprensa”.
Quando estiverem conversando, enalteça o furo do principal concorrente dele.
Chame o jornal em que ele trabalha de jornalzinho.
Lembre que ele deve ser generoso na produção do texto, afinal você é um influente anunciante.
Pergunte quando vai sair a entrevista e se sua foto terá destaque.
Elogie mais uma vez o doutor Gilmar Mendes.
Peça para aprovar a matéria antes da publicação.
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sexta-feira, 18 de novembro de 2011
A hora do fechamento
Quinze minutos, gente, quinze minutos.
Hein? Querida, não tô precisando de torpedo ilimitado. (tu-tu-tu)
Cadê a foto da 3?
Ó o calhau!
Não esquece o nome da gorda da foto-legenda da 4.
Meu Deus, por que não salvei esta merda?
Depois a gente corrige na segunda edição.
Dez minutos, gente, dez minutos.
Vem cá, o que você quis dizer com esta frase?
Pede pro Jurandir fritar a calabresa. Já tô descendo.
O título do abre da 2 tá estourando. Vê lá!
Vinte linhas são vinte linhas, não quarenta. Ainda não aprendeu?
Cacete, e esse correspondente que não manda a matéria?
Cinco minutos, gente, cinco minutos.
Já era. Corta pelo pé mesmo. O tempo já está esgot
Release? Ah, não! Liga mais tarde. Por favor. (tu-tu-tu)
Solta este texto, porra!
Hein? Querida, não tô precisando de torpedo ilimitado. (tu-tu-tu)
Cadê a foto da 3?
Ó o calhau!
Não esquece o nome da gorda da foto-legenda da 4.
Meu Deus, por que não salvei esta merda?
Depois a gente corrige na segunda edição.
Dez minutos, gente, dez minutos.
Vem cá, o que você quis dizer com esta frase?
Pede pro Jurandir fritar a calabresa. Já tô descendo.
O título do abre da 2 tá estourando. Vê lá!
Vinte linhas são vinte linhas, não quarenta. Ainda não aprendeu?
Cacete, e esse correspondente que não manda a matéria?
Cinco minutos, gente, cinco minutos.
Já era. Corta pelo pé mesmo. O tempo já está esgot
Release? Ah, não! Liga mais tarde. Por favor. (tu-tu-tu)
Solta este texto, porra!
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segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Coletiva de imprensa
Coletiva de imprensa tem credenciamento na porta da sala Esmeralda. Topázio. Rubi. Tem press kit montado às pressas. Tem recepcionista com cara de sono. Com cara de sapato apertado.
Coletiva tem microfone que não funciona, tem microfonia, tem entrevistado que fica com aquela porra de Alô, um, dois, três, testando, som, som. Testando.
Tem coletiva que é um fiasco. De crítica e público. Tem coletiva com transmissão ao vivo pela TV, corre-corre, gravadores amontoados na mesa, fios emaranhados no chão. Cinegrafistas se esforçando pra conviver em harmonia. Olha o meu tripé aí, pô.
Tem fotógrafo que conta piada sem graça enquanto a entrevista não começa. Tem o engraçadinho que grita Vai começar, vai começar só pra ver colega correndo desesperado. Tem assessor de imprensa pedindo silêncio uma, duas, três, cinco, dez vezes.
Coletiva tem repórter que demora meia hora pra fazer uma pergunta, divaga, fala da própria vida. Que faz três perguntas numa só. Que chega atrasado e faz pergunta que já foi feita. Que clama preferência porque está num link. Que sussura uma pergunta exclusiva no ouvido do entrevistado ao fim do evento.
Tem repórter que quer fazer a pergunta mais inteligente. Que ganha o dia se o entrevistado lhe diz Muito boa sua questão. Tem repórter que não abre a boca. Que dorme de boca aberta. Que baba. Tem repórter concentrado nos e-mails. No Sudoku.
Tem repórter que puxa o saco da entrevistada famosa, Dani querida pra cá, Carol linda pra lá. Tem repórter que pede autógrafo pra mãe. Pra tia. Pra rifar na redação.
Coletiva tem croissant frio, carpaccio de todo tipo. Suco de laranja de caixinha. Tem repórter que pega canapé com guardanapo pra bancar o fino. Tem quem pega com a mão mesmo. Tem pão de queijo malocado no bolso. Tem filé mignon ao molho madeira!
Tem assessor que pede um espaço bacana para o repórter. Tem repórter que pede um jabá bacana para o assessor.
Tem celular que toca quando deveria estar desligado. Entrevistado que derruba o microfone com a mão falante. Tem discussão, provocação. Tem assessor que diz Deu, né, gente? Só mais uma pra acabar, ok? Então, tem alvoroço entre a reportaiada. Braço erguido, indicador esticado. Aqui. Aqui. Voz que atropela voz.
Coletiva de imprensa é uma grande suruba.
Já comprou o livro do Duda Rangel? Conheça a loja aqui, curta, compartilhe. Frete grátis para todo o Brasil.
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Coletiva tem microfone que não funciona, tem microfonia, tem entrevistado que fica com aquela porra de Alô, um, dois, três, testando, som, som. Testando.
Tem coletiva que é um fiasco. De crítica e público. Tem coletiva com transmissão ao vivo pela TV, corre-corre, gravadores amontoados na mesa, fios emaranhados no chão. Cinegrafistas se esforçando pra conviver em harmonia. Olha o meu tripé aí, pô.
Tem fotógrafo que conta piada sem graça enquanto a entrevista não começa. Tem o engraçadinho que grita Vai começar, vai começar só pra ver colega correndo desesperado. Tem assessor de imprensa pedindo silêncio uma, duas, três, cinco, dez vezes.
Coletiva tem repórter que demora meia hora pra fazer uma pergunta, divaga, fala da própria vida. Que faz três perguntas numa só. Que chega atrasado e faz pergunta que já foi feita. Que clama preferência porque está num link. Que sussura uma pergunta exclusiva no ouvido do entrevistado ao fim do evento.
Tem repórter que quer fazer a pergunta mais inteligente. Que ganha o dia se o entrevistado lhe diz Muito boa sua questão. Tem repórter que não abre a boca. Que dorme de boca aberta. Que baba. Tem repórter concentrado nos e-mails. No Sudoku.
Tem repórter que puxa o saco da entrevistada famosa, Dani querida pra cá, Carol linda pra lá. Tem repórter que pede autógrafo pra mãe. Pra tia. Pra rifar na redação.
Coletiva tem croissant frio, carpaccio de todo tipo. Suco de laranja de caixinha. Tem repórter que pega canapé com guardanapo pra bancar o fino. Tem quem pega com a mão mesmo. Tem pão de queijo malocado no bolso. Tem filé mignon ao molho madeira!
Tem assessor que pede um espaço bacana para o repórter. Tem repórter que pede um jabá bacana para o assessor.
Tem celular que toca quando deveria estar desligado. Entrevistado que derruba o microfone com a mão falante. Tem discussão, provocação. Tem assessor que diz Deu, né, gente? Só mais uma pra acabar, ok? Então, tem alvoroço entre a reportaiada. Braço erguido, indicador esticado. Aqui. Aqui. Voz que atropela voz.
Coletiva de imprensa é uma grande suruba.
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quinta-feira, 13 de outubro de 2011
O produtor que cansou de ser produtor
Quer saber? Repórter de TV deveria ser produtor por um dia. Só por um dia.
Quer saber? Não estudei quatro anos pra aturar piti de quem se acha a estrela.
Quer saber? Faço quatro pautas por dia. Para quatro repórteres.
Quer saber? A vida na redação é uma prisão.
Quer saber? É broxante ser só um nome que aparece por poucos segundos na tela.
Quer saber? Já tô de saco cheio de pensar em matérias criativas, apurar, correr atrás de fontes confiáveis, agendar entrevistas, escolher locações, escrever toda a pauta, organizar equipe de gravação e o escambau pra você, repórter, ficar com a fama.
Quer saber? Cansei de levar culpa por matéria que sai uma merda.
Então, não quer ser produtor de telejornal por um dia?
Só por um dia?
Quer saber? Não estudei quatro anos pra aturar piti de quem se acha a estrela.
Quer saber? Faço quatro pautas por dia. Para quatro repórteres.
Quer saber? A vida na redação é uma prisão.
Quer saber? É broxante ser só um nome que aparece por poucos segundos na tela.
Quer saber? Já tô de saco cheio de pensar em matérias criativas, apurar, correr atrás de fontes confiáveis, agendar entrevistas, escolher locações, escrever toda a pauta, organizar equipe de gravação e o escambau pra você, repórter, ficar com a fama.
Quer saber? Cansei de levar culpa por matéria que sai uma merda.
Então, não quer ser produtor de telejornal por um dia?
Só por um dia?
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segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Hoje é dia de Maria
Maria Isabel a-do-ra a vida de repórter. Não a troca por nada.
Hoje é dia de Maria acordar com planos de tomar mojitos à noite, de se jogar numa pista de dança.
Hoje é dia de Maria ter um dia light na redação.
Hoje é dia de Maria ser surpreendida por uma pauta roubada.
Hoje é dia de Maria cobrir a explosão de uma casa de fogos em Guaianases.
Hoje é dia de Maria descobrir que Guaianases fica no cu do mundo.
Hoje é dia de Maria ver desgraça, gente machucada, gente morta.
Hoje é dia de Maria falar com bombeiro herói, vizinho mentiroso.
Hoje é dia de Maria almoçar pastel com Coca no bar do Ceará.
Hoje é dia de Maria reencontrar sua gastrite.
Hoje é dia de Maria trocar figurinhas com outros repórteres que também tiveram o dia premiado com uma explosão em Guaianases.
Hoje é dia de Maria tomar chuva, de pedir proteção a Santa Bárbara e ao toldo do bar do Ceará.
Hoje é dia de Maria pensar: será que eu ainda tenho o login e a senha da Catho?
Hoje é dia de Maria escrever matéria dentro do carro da reportagem.
Hoje é dia de Maria pegar um puta trânsito para voltar à redação.
Hoje é dia de Maria descobrir que Guaianases não fica no cu do mundo. Fica na hemorróida do cu do mundo.
Hoje é dia de Maria chegar tarde à redação. Molhada, faminta.
Hoje é dia de Maria pedir desculpa à amiga. Não vou mais dançar, tô um bagaço só. Você tem noção de onde fica Guaianases?
Hoje é dia de Maria tomar um banho quente e só ter forças de preparar um miojo.
Hoje é dia de Maria ligar a TV para dar mais uma olhadinha na cobertura da tragédia.
Hoje é dia de Maria ficar encanada. Dez mortos? Não eram 8? Comi bola? Porra!
Hoje é dia de Maria demorar para dormir.
Hoje é dia de Maria decidir que amanhã é dia de procurar a senha da Catho. Sem falta.
Hoje é dia de Maria sonhar com os mortos.
Amanhã é dia de Maria acordar como se nada tivesse acontecido. Com a cabeça mais uma vez nos mojitos. Na pista de dança.
Hoje é dia de Maria acordar com planos de tomar mojitos à noite, de se jogar numa pista de dança.
Hoje é dia de Maria ter um dia light na redação.
Hoje é dia de Maria ser surpreendida por uma pauta roubada.
Hoje é dia de Maria cobrir a explosão de uma casa de fogos em Guaianases.
Hoje é dia de Maria descobrir que Guaianases fica no cu do mundo.
Hoje é dia de Maria ver desgraça, gente machucada, gente morta.
Hoje é dia de Maria falar com bombeiro herói, vizinho mentiroso.
Hoje é dia de Maria almoçar pastel com Coca no bar do Ceará.
Hoje é dia de Maria reencontrar sua gastrite.
Hoje é dia de Maria trocar figurinhas com outros repórteres que também tiveram o dia premiado com uma explosão em Guaianases.
Hoje é dia de Maria tomar chuva, de pedir proteção a Santa Bárbara e ao toldo do bar do Ceará.
Hoje é dia de Maria pensar: será que eu ainda tenho o login e a senha da Catho?
Hoje é dia de Maria escrever matéria dentro do carro da reportagem.
Hoje é dia de Maria pegar um puta trânsito para voltar à redação.
Hoje é dia de Maria descobrir que Guaianases não fica no cu do mundo. Fica na hemorróida do cu do mundo.
Hoje é dia de Maria chegar tarde à redação. Molhada, faminta.
Hoje é dia de Maria pedir desculpa à amiga. Não vou mais dançar, tô um bagaço só. Você tem noção de onde fica Guaianases?
Hoje é dia de Maria tomar um banho quente e só ter forças de preparar um miojo.
Hoje é dia de Maria ligar a TV para dar mais uma olhadinha na cobertura da tragédia.
Hoje é dia de Maria ficar encanada. Dez mortos? Não eram 8? Comi bola? Porra!
Hoje é dia de Maria demorar para dormir.
Hoje é dia de Maria decidir que amanhã é dia de procurar a senha da Catho. Sem falta.
Hoje é dia de Maria sonhar com os mortos.
Amanhã é dia de Maria acordar como se nada tivesse acontecido. Com a cabeça mais uma vez nos mojitos. Na pista de dança.
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sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Poema contra o achismo
O achismo tudo sabe. Não tem dúvidas. É autoconfiante. Arrogante. Teimoso. Tira suas próprias conclusões. Não deve satisfações. Não dá ouvido a ninguém. Vive de aparências. O achismo é cego.
O achismo seduz, envolve. Engana. Cria suas próprias leis. Não tem fundamento, ética. Julga. Condena. Destrói. Se alimenta da preguiça. Da presunção. Da ignorância. Da ingenuidade. O achismo é parasita.
O achismo rima até com jornalismo. Tá sempre na TV. Nos jornais. Na rádio. Na web. Tá na boca dos repórteres. No texto dos repórteres. O achismo é altamente transmissível.
O achismo é inimigo do fato. Da boa apuração. Do checar informação. Adora fofoca. Boato. Diz-que-diz. Aceita meia gravidez. O talvez. O é e não é. O achismo detesta compromisso.
O achismo se acha.
O achismo seduz, envolve. Engana. Cria suas próprias leis. Não tem fundamento, ética. Julga. Condena. Destrói. Se alimenta da preguiça. Da presunção. Da ignorância. Da ingenuidade. O achismo é parasita.
O achismo rima até com jornalismo. Tá sempre na TV. Nos jornais. Na rádio. Na web. Tá na boca dos repórteres. No texto dos repórteres. O achismo é altamente transmissível.
O achismo é inimigo do fato. Da boa apuração. Do checar informação. Adora fofoca. Boato. Diz-que-diz. Aceita meia gravidez. O talvez. O é e não é. O achismo detesta compromisso.
O achismo se acha.
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segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Sem vergonha
Repórter não pode ter vergonha de fuçar no dicionário quando tem dúvida. De admitir que é leigo num monte de assunto. De confessar ao entrevistado que não entendeu a resposta. De não ser um intelectual.
Não pode ter vergonha de ter medo. De errar. De pedir desculpas. De tomar furo.
Repórter não pode ter vergonha de fazer pergunta em coletiva. De soltar a voz na rádio. De meter as caras na TV. De entrar onde não foi chamado. De ligar 10 vezes pra fonte que não dá retorno.
Não pode ter vergonha de cobrir buraco na rua. De fazer notinha de rodapé.
Repórter não pode ter vergonha de chorar aumento de salário pro chefe. De implorar frilas pros amigos. De revelar pra namorada o saldo de sua conta bancária. De matar a fome na boca-livre.
Repórter não pode ter vergonha de se emocionar na cobertura de uma tragédia. De dizer pra que time torce. De soltar um “puta que pariu” no meio da redação se estiver estressado. De carregar bloquinho e caneta até quando sai com os amigos.
Repórter não pode ter vergonha de ser repórter.

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Não pode ter vergonha de ter medo. De errar. De pedir desculpas. De tomar furo.
Repórter não pode ter vergonha de fazer pergunta em coletiva. De soltar a voz na rádio. De meter as caras na TV. De entrar onde não foi chamado. De ligar 10 vezes pra fonte que não dá retorno.
Não pode ter vergonha de cobrir buraco na rua. De fazer notinha de rodapé.
Repórter não pode ter vergonha de chorar aumento de salário pro chefe. De implorar frilas pros amigos. De revelar pra namorada o saldo de sua conta bancária. De matar a fome na boca-livre.
Repórter não pode ter vergonha de se emocionar na cobertura de uma tragédia. De dizer pra que time torce. De soltar um “puta que pariu” no meio da redação se estiver estressado. De carregar bloquinho e caneta até quando sai com os amigos.
Repórter não pode ter vergonha de ser repórter.

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quarta-feira, 20 de julho de 2011
Exame de vista
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segunda-feira, 11 de julho de 2011
Essa edição é pra casar
Às vezes, acho que estou velho para tantos casos. Efêmeros. Estou velho, mas ainda gosto do imprevisível, dos riscos. Não que eu seja volúvel, longe disso, é que elas me seduzem. Parece que não sei viver sem elas, sem a variedade delas. Tem gente que vai ao McDonald´s e pede sempre o número 1. Eu sempre gostei de variar, sabe?
Mas quando o homem fica velho começa a pensar se não é hora de sossegar esse fogo, buscar uma relação mais estável, mais fiel. Um amigo meu, também jornalista, vive me dizendo: “as reportagens são excitantes – quem não gosta delas? –, mas já não é tempo de você pensar em trabalhar na edição? A edição é pra casar”.
A edição é o próprio casamento. Uma vida com roteiro pronto a que você se acostuma com o tempo, uma vida mais tranqüila, mais caseira. O grande risco é você engordar, porque se come muito mais. Na reportagem, chego a passar o dia com meia dúzia de cream cracker no estômago.
As reportagens exigem pique, fôlego, preparo físico, mental, espiritual, transcendental. Você não pode falhar. Não que eu falhe, longe disso – aliás, nunca falhei, eu juro –, é que eu sinto que as reportagens se ligam mais nos garotões, nos caras que estão começando. Será que não estou fazendo o papel do tiozão bobo que ainda acha que apavora?
O tal meu amigo me disse também que, quando eu quiser, me arruma rapidinho um esquema com a edição. Mas é esquema sério, papel passado e tal. Edição decente, de família.
Mas enquanto eu não me decido, sigo com as minhas reportagens. Aliás, daqui a pouco vou para uma nova, lá no centro da cidade. O pauteiro ainda não me disse do que se trata, por isso, eu fico aqui imaginando, fantasiando. Será que é uma reportagem bem gostosa, daquelas de deixar o jornalista a tarde toda eufórico, extasiado? Só não pense que sou tarado, por favor. Longe disso.
Leia também: Separação
Mas quando o homem fica velho começa a pensar se não é hora de sossegar esse fogo, buscar uma relação mais estável, mais fiel. Um amigo meu, também jornalista, vive me dizendo: “as reportagens são excitantes – quem não gosta delas? –, mas já não é tempo de você pensar em trabalhar na edição? A edição é pra casar”.
A edição é o próprio casamento. Uma vida com roteiro pronto a que você se acostuma com o tempo, uma vida mais tranqüila, mais caseira. O grande risco é você engordar, porque se come muito mais. Na reportagem, chego a passar o dia com meia dúzia de cream cracker no estômago.
As reportagens exigem pique, fôlego, preparo físico, mental, espiritual, transcendental. Você não pode falhar. Não que eu falhe, longe disso – aliás, nunca falhei, eu juro –, é que eu sinto que as reportagens se ligam mais nos garotões, nos caras que estão começando. Será que não estou fazendo o papel do tiozão bobo que ainda acha que apavora?
O tal meu amigo me disse também que, quando eu quiser, me arruma rapidinho um esquema com a edição. Mas é esquema sério, papel passado e tal. Edição decente, de família.
Mas enquanto eu não me decido, sigo com as minhas reportagens. Aliás, daqui a pouco vou para uma nova, lá no centro da cidade. O pauteiro ainda não me disse do que se trata, por isso, eu fico aqui imaginando, fantasiando. Será que é uma reportagem bem gostosa, daquelas de deixar o jornalista a tarde toda eufórico, extasiado? Só não pense que sou tarado, por favor. Longe disso.
Leia também: Separação
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quarta-feira, 8 de junho de 2011
Loucura em três atos
Ato 1 – Que dia perfeito
- A matéria já está pronta, editor. Que matéria, que manchete! Vou arrebentar!
- Ótimo, Luís. Já estamos fechando o jornal.
- Eu sou foda, editor!
- Você é foda, Luís Cláudio! O melhor repórter que eu já conheci.
- Que dia perfeito!
- Preparado para logo mais, para receber o prêmio?
- Claro que estou, editor. Não é sempre que se ganha um Esso, né? E melhor: minha mulher e meu filho estarão presentes.
- Parabéns, Luís, parabéns!
Ato 2 – Pra que tudo isso?
- Vamos, filho, já está em cima da hora. Seu pai não vai gostar se chegarmos atrasados para a premiação. Ele sempre sonhou com esse Esso.
- Mãe, eles não vão começar a premiação sem a gente.
- Corre, Júnior. Não quero deixar o seu pai esperando.
- Não quero colocar terno, mãe. Pra que tudo isso?
- Coloca o terno rápido. Seu pai vai ficar feliz de te ver de terno.
Ato 3 – O grande momento
- Oi, doutor, como o Luís está?
- Ele está muito bem hoje, dona Carmem. Nem precisamos entrar com a medicação mais pesada.
- Que bom, doutor. Então, pode dizer a ele que nós já chegamos.
- Se a senhora e o Júnior quiserem, podem ir para a sala aqui ao lado. Os enfermeiros já estão todos lá. São eles que vão participar da cerimônia de entrega do prêmio a seu marido.
- Vamos, sim, doutor.
- Dona Carmem, só mais uma coisa: a partir de agora, não sou mais o doutor, OK? Sou o editor.
- A matéria já está pronta, editor. Que matéria, que manchete! Vou arrebentar!
- Ótimo, Luís. Já estamos fechando o jornal.
- Eu sou foda, editor!
- Você é foda, Luís Cláudio! O melhor repórter que eu já conheci.
- Que dia perfeito!
- Preparado para logo mais, para receber o prêmio?
- Claro que estou, editor. Não é sempre que se ganha um Esso, né? E melhor: minha mulher e meu filho estarão presentes.
- Parabéns, Luís, parabéns!
Ato 2 – Pra que tudo isso?
- Vamos, filho, já está em cima da hora. Seu pai não vai gostar se chegarmos atrasados para a premiação. Ele sempre sonhou com esse Esso.
- Mãe, eles não vão começar a premiação sem a gente.
- Corre, Júnior. Não quero deixar o seu pai esperando.
- Não quero colocar terno, mãe. Pra que tudo isso?
- Coloca o terno rápido. Seu pai vai ficar feliz de te ver de terno.
Ato 3 – O grande momento
- Oi, doutor, como o Luís está?
- Ele está muito bem hoje, dona Carmem. Nem precisamos entrar com a medicação mais pesada.
- Que bom, doutor. Então, pode dizer a ele que nós já chegamos.
- Se a senhora e o Júnior quiserem, podem ir para a sala aqui ao lado. Os enfermeiros já estão todos lá. São eles que vão participar da cerimônia de entrega do prêmio a seu marido.
- Vamos, sim, doutor.
- Dona Carmem, só mais uma coisa: a partir de agora, não sou mais o doutor, OK? Sou o editor.
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sexta-feira, 3 de junho de 2011
Vai que vai
Repórter vai pra onde vai a sua curiosidade.
Ou pra onde o chefe manda mesmo.
Vai pra delegacia. Vai pra guerra no morro. Vai pra guerra no campo. Vai pra enchente. Vai pra hospital. Vai pra velório. Vai pra enterro. Vai pra protesto na rua. Vai pro Congresso. Vai pro fim do mundo, pra onde Judas perdeu as pautas.
Mas vai.
Vai de carro da reportagem. Vai de avião. Vai de táxi. Vai de busão. Vai com pressa. Vai com a língua de fora. Vai com a orelha de pé. Vai pela sombra. Vai pelo sol. Vai pela chuva. Vai ao cair da noite. Vai ao cair da cama. Vai com remela nos olhos.
Mas vai.
Vai com bloquinho. Vai com gravador. Vai com máquina fotográfica. Vai com Bic quase seca. Vai com perguntas na cabeça. Vai sem nada na cabeça. Vai com o coração na boca. Vai com o cu na mão.
Mas vai.
Vai com frio. Vai com calor. Vai com sede. Vai com vontade de mijar. Vai com vontade de cagar. Vai sem vontade nenhuma. Vai de barriga vazia. Vai de saco cheio. Vai reclamando. Vai molengando. Vai aos trancos. Vai aos barrancos.
Repórter vai que vai.
Ou pra onde o chefe manda mesmo.
Vai pra delegacia. Vai pra guerra no morro. Vai pra guerra no campo. Vai pra enchente. Vai pra hospital. Vai pra velório. Vai pra enterro. Vai pra protesto na rua. Vai pro Congresso. Vai pro fim do mundo, pra onde Judas perdeu as pautas.
Mas vai.
Vai de carro da reportagem. Vai de avião. Vai de táxi. Vai de busão. Vai com pressa. Vai com a língua de fora. Vai com a orelha de pé. Vai pela sombra. Vai pelo sol. Vai pela chuva. Vai ao cair da noite. Vai ao cair da cama. Vai com remela nos olhos.
Mas vai.
Vai com bloquinho. Vai com gravador. Vai com máquina fotográfica. Vai com Bic quase seca. Vai com perguntas na cabeça. Vai sem nada na cabeça. Vai com o coração na boca. Vai com o cu na mão.
Mas vai.
Vai com frio. Vai com calor. Vai com sede. Vai com vontade de mijar. Vai com vontade de cagar. Vai sem vontade nenhuma. Vai de barriga vazia. Vai de saco cheio. Vai reclamando. Vai molengando. Vai aos trancos. Vai aos barrancos.
Repórter vai que vai.
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