Quem não tem um emprego tem, ao menos, tardes livres. Desempregado, consigo resolver certos problemas ideais para serem resolvidos em tardes comuns da semana, como ir ao banco renegociar os juros do cheque especial ou levar o meu Corsa Wind 97 modelo 98 a uma oficina mecânica para um sujeito cheio de graxa consertar o radiador furado.
Para fugir da loucura do fim de semana, decidi visitar a Bienal do Livro de São Paulo na tarde da última quinta-feira. Eu queria paz e tranqüilidade, mas embarquei numa aventura. O pavilhão do Anhembi tinha sido invadido por hordas de crianças com uniforme escolar que não respeitavam este jornalista velho. Aquilo parecia mais um parque de diversões do que uma feira de livros. Um dos estandes chegava a lembrar um brinquedo do Playcenter, do tipo visita à casa do terror, com direito a uma fila enorme e barulhenta.
Estava tão incomodado com aquela bagunça infanto-juvenil que, por um instante, eu, grande defensor da idéia de que os jovens precisam ler cada vez mais, mudei radicalmente a minha opinião. “Porra, por que essa molecada não está na Internet agora? Vão para os seus PCs, notes, celulares, MSNs, joguinhos on-line e me deixem em paz! Livro não dá futuro pra ninguém!”, pensei em gritar. Mas não gritei. O máximo que fiz foi me esquivar dos grupos que vinham em direção oposta, com medo de ser atropelado. E talvez pisoteado.
Aquela molecada tem uma velocidade assustadora e, no fundo, está perfeitamente conectada ao mundo, que é igualmente veloz. Eu é que fiquei velho e lento. Esta é a verdade. Os jovens fazem tudo muito freneticamente. À noite, em suas camas, devem até sonhar em apenas 140 caracteres. Mas a Bienal também me ensinou que, mesmo um pouco fora da realidade, o velho pode sobreviver e conviver com o novo, pois lá, em meio a tantas tecnologias, como audiolivros, e-books e Kindles, resistia, com bravura e dignidade, o estande da enciclopédia Barsa.
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segunda-feira, 23 de agosto de 2010
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Alguns tipos de jornalistas “high-tech”
Matheus ouviu falar em jornalismo colaborativo. Depois, na queda da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. As duas coisas convergiram e ele passou a ser um “jornalista colaborador sem diploma”. Com um celular que tira fotos e faz gravações de vídeo e áudio em alta qualidade, passou a farejar flagras pelas ruas. Quando começa a chover em São Paulo, corre para os pontos mais críticos de enchente na esperança de registrar algum salvamento heróico com exclusividade. Se captar um afogamento heróico, ainda melhor, pois acredita que emplacaria o vídeo no Datena. No dia em que lhe perguntaram se não sentia falta das aulas de ética jornalística de uma faculdade, hesitou um instante, levantou a sobrancelha esquerda e respondeu com outra pergunta: “O que é isso?”.
Patrícia decidiu ter um blog, afinal todos os seus jovens amigos jornalistas tinham um blog. Ouviu alguém dizer – aliás, quem mesmo? – que o jornalista hoje tem obrigação de ter um blog. Seu primeiro dilema foi: o que escrever? Descobriu que não tinha nada de interessante para escrever, mas isso não inibiria sua empreitada. Como não arrumava emprego mesmo, até que não era uma má idéia ter um blog. Decidiu que seria uma página opinativa. Comentaria sobre tudo, política, cinema e até futebol, mesmo sem entender do assunto. O diferencial seria o tom polêmico. Ouviu alguém dizer – quem mesmo? – que jornalista tem de ser provocador. Apenas as suas duas melhores amigas leram seu primeiro post – o impacto do fenômeno Lady Gaga na determinação da sexualidade das futuras gerações. Acharam o texto meio sem nexo, mas Patrícia considerou a discordância saudável. Empolgou-se tanto com o blog que, além de opiniões diversas - e muitas vezes sem nexo -, criou um canal para divulgar, “em primeira mão”, notícias que chupa dos grandes portais.
Eduardo gaba-se de ter rompido com o primitivismo das clássicas ferramentas de trabalho de um jornalista. Coisas de velho. É um jornalista impregnado de tecnologia. Novos tempos, enfim. Aboliu o bloquinho de anotações e a caneta, que lhe eram completamente inúteis. Nunca saía da redação para fazer reportagens mesmo. Bloquinho pra quê? Sua praia é outra. Manja tudo de softwares de edição de texto, de fotos, de vídeos. Vive falando de podcasts, webcasts, novas plataformas, redes sociais. E nisso é bom mesmo, melhor do que qualquer um na redação. Até que num dia o editor convocou Eduardo para uma força-tarefa nas ruas. Participaria de uma grande cobertura, deveria entrevistar gente comum. “Mas como se entrevista gente de verdade?” O editor lhe deu algumas instruções rápidas de como fazer uma apuração minimamente decente e, por fim, acrescentou: “preste muita atenção nas pessoas, nas coisas ao redor. Observar é muito importante. E quer saber? Ao vivo é bem melhor do que pela webcam!”.
Patrícia decidiu ter um blog, afinal todos os seus jovens amigos jornalistas tinham um blog. Ouviu alguém dizer – aliás, quem mesmo? – que o jornalista hoje tem obrigação de ter um blog. Seu primeiro dilema foi: o que escrever? Descobriu que não tinha nada de interessante para escrever, mas isso não inibiria sua empreitada. Como não arrumava emprego mesmo, até que não era uma má idéia ter um blog. Decidiu que seria uma página opinativa. Comentaria sobre tudo, política, cinema e até futebol, mesmo sem entender do assunto. O diferencial seria o tom polêmico. Ouviu alguém dizer – quem mesmo? – que jornalista tem de ser provocador. Apenas as suas duas melhores amigas leram seu primeiro post – o impacto do fenômeno Lady Gaga na determinação da sexualidade das futuras gerações. Acharam o texto meio sem nexo, mas Patrícia considerou a discordância saudável. Empolgou-se tanto com o blog que, além de opiniões diversas - e muitas vezes sem nexo -, criou um canal para divulgar, “em primeira mão”, notícias que chupa dos grandes portais.
Eduardo gaba-se de ter rompido com o primitivismo das clássicas ferramentas de trabalho de um jornalista. Coisas de velho. É um jornalista impregnado de tecnologia. Novos tempos, enfim. Aboliu o bloquinho de anotações e a caneta, que lhe eram completamente inúteis. Nunca saía da redação para fazer reportagens mesmo. Bloquinho pra quê? Sua praia é outra. Manja tudo de softwares de edição de texto, de fotos, de vídeos. Vive falando de podcasts, webcasts, novas plataformas, redes sociais. E nisso é bom mesmo, melhor do que qualquer um na redação. Até que num dia o editor convocou Eduardo para uma força-tarefa nas ruas. Participaria de uma grande cobertura, deveria entrevistar gente comum. “Mas como se entrevista gente de verdade?” O editor lhe deu algumas instruções rápidas de como fazer uma apuração minimamente decente e, por fim, acrescentou: “preste muita atenção nas pessoas, nas coisas ao redor. Observar é muito importante. E quer saber? Ao vivo é bem melhor do que pela webcam!”.
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quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Manual de adaptação para um jornalista velho
Você ficou um longo tempo afastado do mercado de trabalho e, agora, com 50 e muitos anos e hábitos jurássicos, resolveu voltar a uma redação jovem e diferente. Sobreviverá? Sucumbirá? O blog apresenta aqui dicas essenciais para você, jornalista velho.
Não banque o saudosista. Você corre o risco de ser visto como “o chato”. Nostalgia funciona bem num especial de fim de ano do Roberto Carlos, mas não no dia a dia de uma redação jovem. Nada de ficar repetindo que antigamente tudo era melhor, que era gostoso ouvir o barulho das máquinas de escrever, que se podia fumar tranquilamente enquanto se trabalhava, que se tinha mais tesão pela profissão. Valorize o presente com frases como “Irado este iPad!” ou “Que bom trabalhar 15 horas sem parar!”.
Atualize-se quanto aos termos jornalísticos. Copydesk é coisa do passado. Hoje, os jornalistas recorrem ao corretor ortográfico do Word. Se você não quiser ser chamado de repórter das cavernas, não ouse mencionar palavras do tipo paste-up, paica, calhau e drops. Os jovens vão pensar: “Que merda esse tiozinho tá falando?”. Aprenda termos do século 21, como jornalismo colaborativo e convergência de mídias. Seja um coroa antenado.
Renove seu jeito de vestir. Nada de usar camisa social de mangas curtas, calça tradicional e sem charme acima do umbigo ou aquela blusa de malha comprada há umas duas décadas em Jacutinga. Pochete na cintura, então, está proibidíssima. Compre roupas descoladas. Mas atenção: sem exagero. Se você ainda cultiva um barrigão de chope, evite usar aquelas camisetas justíssimas encontradas na Mundo Mix ou na Benedito Calixto.
O calor humano do passado e as brincadeiras são cada vez mais raras. Os jornalistas andam muito estressadinhos e individualistas. Preferem se isolar na baia de trabalho, sua pequena redação particular. Vivemos a ditadura do fone de ouvido. Nem pense em perguntar algo ou fazer uma piadinha com o seu colega ao lado quando ele estiver entretido com seu fone. Ele não vai te ouvir. Se tiver urgência, é mais fácil mandar uma mensagem instantânea.
Saiba que passar muito tempo dentro de uma redação, fazendo entrevistas por telefone e cozinhando releases, é a nova realidade. Não fique deprimido se não puder sair todos os dias para reportagens in loco. O antigo hábito de fazer uma parada estratégica no bar durante a pauta na rua, para uma cachacinha e uma partida de sinuca com o motorista do carro de reportagem, também não existe mais. Aprenda a jogar paciência no computador do jornal, embora seja muito difícil você ter um tempo ocioso para isso.
Seja politicamente correto. Vivemos hoje, inclusive nas redações, a era do politicamente correto! Ou seja, sufoque aquela vontade louca de dar uma cantada na estagiária gostosa. Sabia que só cantar – nem sonhe com sexo selvagem! – já pode ser considerado assédio sexual? Nem pense também em fazer piadinhas com os gays da redação, hein? Respeite as minorias. Hoje, é até bem provável que existam mais gays do que heterossexuais a seu lado.
Procure fazer parte das redes sociais. Isso é muito importante para ser aceito pelos jovens jornalistas da redação. Que tal criar uma conta no Facebook e no Twitter? Faça parte de comunidades virtuais como “Jornalismo 4.0” ou “Adoro ler notícias em portais”. Nada de “Eu amo minha máquina de escrever”, ok? Destaque preferências pessoais como “música eletrônica” e “livros sobre vampiros”. Assim como fazem os jovens, divulgar algumas fotos é uma boa ideia, mas, cuidado, nada de fotos em frente ao espelho, em poses sensuais.
Já comprou o livro do Duda Rangel? Conheça a loja aqui, curta, compartilhe. Frete grátis para todo o Brasil.
Curta a página do blog no Facebook aqui.
Não banque o saudosista. Você corre o risco de ser visto como “o chato”. Nostalgia funciona bem num especial de fim de ano do Roberto Carlos, mas não no dia a dia de uma redação jovem. Nada de ficar repetindo que antigamente tudo era melhor, que era gostoso ouvir o barulho das máquinas de escrever, que se podia fumar tranquilamente enquanto se trabalhava, que se tinha mais tesão pela profissão. Valorize o presente com frases como “Irado este iPad!” ou “Que bom trabalhar 15 horas sem parar!”.
Atualize-se quanto aos termos jornalísticos. Copydesk é coisa do passado. Hoje, os jornalistas recorrem ao corretor ortográfico do Word. Se você não quiser ser chamado de repórter das cavernas, não ouse mencionar palavras do tipo paste-up, paica, calhau e drops. Os jovens vão pensar: “Que merda esse tiozinho tá falando?”. Aprenda termos do século 21, como jornalismo colaborativo e convergência de mídias. Seja um coroa antenado.
Renove seu jeito de vestir. Nada de usar camisa social de mangas curtas, calça tradicional e sem charme acima do umbigo ou aquela blusa de malha comprada há umas duas décadas em Jacutinga. Pochete na cintura, então, está proibidíssima. Compre roupas descoladas. Mas atenção: sem exagero. Se você ainda cultiva um barrigão de chope, evite usar aquelas camisetas justíssimas encontradas na Mundo Mix ou na Benedito Calixto.
O calor humano do passado e as brincadeiras são cada vez mais raras. Os jornalistas andam muito estressadinhos e individualistas. Preferem se isolar na baia de trabalho, sua pequena redação particular. Vivemos a ditadura do fone de ouvido. Nem pense em perguntar algo ou fazer uma piadinha com o seu colega ao lado quando ele estiver entretido com seu fone. Ele não vai te ouvir. Se tiver urgência, é mais fácil mandar uma mensagem instantânea.
Saiba que passar muito tempo dentro de uma redação, fazendo entrevistas por telefone e cozinhando releases, é a nova realidade. Não fique deprimido se não puder sair todos os dias para reportagens in loco. O antigo hábito de fazer uma parada estratégica no bar durante a pauta na rua, para uma cachacinha e uma partida de sinuca com o motorista do carro de reportagem, também não existe mais. Aprenda a jogar paciência no computador do jornal, embora seja muito difícil você ter um tempo ocioso para isso.
Seja politicamente correto. Vivemos hoje, inclusive nas redações, a era do politicamente correto! Ou seja, sufoque aquela vontade louca de dar uma cantada na estagiária gostosa. Sabia que só cantar – nem sonhe com sexo selvagem! – já pode ser considerado assédio sexual? Nem pense também em fazer piadinhas com os gays da redação, hein? Respeite as minorias. Hoje, é até bem provável que existam mais gays do que heterossexuais a seu lado.
Procure fazer parte das redes sociais. Isso é muito importante para ser aceito pelos jovens jornalistas da redação. Que tal criar uma conta no Facebook e no Twitter? Faça parte de comunidades virtuais como “Jornalismo 4.0” ou “Adoro ler notícias em portais”. Nada de “Eu amo minha máquina de escrever”, ok? Destaque preferências pessoais como “música eletrônica” e “livros sobre vampiros”. Assim como fazem os jovens, divulgar algumas fotos é uma boa ideia, mas, cuidado, nada de fotos em frente ao espelho, em poses sensuais.
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segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Eu tô no Twitter
Depois que a minha mulher me trocou por um legítimo representante da geração Y, daqueles que passam o dia todo ouvindo música num iPod ou em redes sociais na web, cheguei à conclusão de que precisava aderir às novas mídias. Essa coisa de ser um legítimo representante dos tempos da máquina de escrever não estava dando mais certo. A primeira ação foi criar um blog, o Desilusões perdidas, que já celebrou seis meses no ar. Depois, entrei no Orkut e, agora, faço parte do mundo do Twitter (http://twitter.com/duda_rangel).
O jovem Duda, que na faculdade diagramava jornais toscamente, com um lápis e uma régua na mão e um trocadilho infame com a palavra paica (do Inglês, “pica”) na cabeça, nunca imaginou que um dia tudo seria digital. Chegou a era do template, que deixa as coisas mais fáceis. Assim é a vida.
O Twitter foi feito para gente econômica com as palavras – o que é bom, muitas vezes –, e para gente preguiçosa – o meu caso. E, como sou preguiçoso além da conta, já aviso que não vou ficar postando a cada cinco minutos uma mensagem sobre o que estou fazendo. Tentarei ainda evitar tweets que revelem momentos de grande intimidade, como “estou no banheiro; faltou papel higiênico; cadê meu diploma de jornalista?”.
O blog Desilusões perdidas seguirá firme e forte no ar, uma prova clara de que, a cada dia, estou ligado mais e mais à “convergência de mídias”. Aliás, puta expressão mala!
O jovem Duda, que na faculdade diagramava jornais toscamente, com um lápis e uma régua na mão e um trocadilho infame com a palavra paica (do Inglês, “pica”) na cabeça, nunca imaginou que um dia tudo seria digital. Chegou a era do template, que deixa as coisas mais fáceis. Assim é a vida.
O Twitter foi feito para gente econômica com as palavras – o que é bom, muitas vezes –, e para gente preguiçosa – o meu caso. E, como sou preguiçoso além da conta, já aviso que não vou ficar postando a cada cinco minutos uma mensagem sobre o que estou fazendo. Tentarei ainda evitar tweets que revelem momentos de grande intimidade, como “estou no banheiro; faltou papel higiênico; cadê meu diploma de jornalista?”.
O blog Desilusões perdidas seguirá firme e forte no ar, uma prova clara de que, a cada dia, estou ligado mais e mais à “convergência de mídias”. Aliás, puta expressão mala!
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sexta-feira, 17 de julho de 2009
Conflito de gerações
A máquina de escrever está quieta, num canto da mesa, quando é provocada pelo notebook.
– Hoje, serei levado a um importante evento, com políticos, artistas, intelectuais. E você?
– Saco, não vê que estou descansando?
– Deve ser triste a solidão deste escritório.
– Quem disse que estou sozinha? Veja aquela estante repleta de livros.
– Seu tempo já passou. O que vale agora é a alta tecnologia.
– É verdade, mas não se gabe só por ter uns recursos diferentes.
– Carrego softwares de todos os tipos, aplicativos, drivers. Tô conectado com a internet. Sabe o que é isso?
– Mas você é passageiro. Eu sou para sempre.
– Uma aposentada que só serve de enfeite.
– Tenho história, meu filho, experiência de vida.
– Em mim, nascem grandes matérias.
– Que morrem no dia seguinte.
– E daí? Pelo menos me sinto vivo.
– Em mim, nasceram grandes obras literárias, que vão durar décadas e décadas.
– Mas é a mim que ele procura todos os dias.
– Por obrigação de um trabalho rotineiro.
– Invejosa!
– É a mim que ele sempre jurou amor verdadeiro.
– É um velho saudosista.
O jornalista entra no escritório, apressado. Pega a bolsa, o celular e o notebook, que, antes de ir embora, olha com desprezo para a máquina de escrever.
– Pobrezinha, que vidinha sem graça ela leva – pensa o notebook.
– Coitado, nem imagina que logo será trocado por um modelo mais compacto, com webcam e bluetooth – pensa a máquina.
– Hoje, serei levado a um importante evento, com políticos, artistas, intelectuais. E você?
– Saco, não vê que estou descansando?
– Deve ser triste a solidão deste escritório.
– Quem disse que estou sozinha? Veja aquela estante repleta de livros.
– Seu tempo já passou. O que vale agora é a alta tecnologia.
– É verdade, mas não se gabe só por ter uns recursos diferentes.
– Carrego softwares de todos os tipos, aplicativos, drivers. Tô conectado com a internet. Sabe o que é isso?
– Mas você é passageiro. Eu sou para sempre.
– Uma aposentada que só serve de enfeite.
– Tenho história, meu filho, experiência de vida.
– Em mim, nascem grandes matérias.
– Que morrem no dia seguinte.
– E daí? Pelo menos me sinto vivo.
– Em mim, nasceram grandes obras literárias, que vão durar décadas e décadas.
– Mas é a mim que ele procura todos os dias.
– Por obrigação de um trabalho rotineiro.
– Invejosa!
– É a mim que ele sempre jurou amor verdadeiro.
– É um velho saudosista.
O jornalista entra no escritório, apressado. Pega a bolsa, o celular e o notebook, que, antes de ir embora, olha com desprezo para a máquina de escrever.
– Pobrezinha, que vidinha sem graça ela leva – pensa o notebook.
– Coitado, nem imagina que logo será trocado por um modelo mais compacto, com webcam e bluetooth – pensa a máquina.
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