Alô? Opa, é o Clark. Isso, Clark Kent. Tudo em paz, meu querido? Então, eu tô te ligando pra dizer que eu saí do Daily Planet. Isso, eu saí, semana passada, tô aí na batalha e se você precisar de alguma coisa, é só dizer. Pode ser frila, frila fixo, cobertura de férias, licença médica, o que vier nóis pega. Eu tô bem, sim. Dentro do possível, claro. Ninguém que deixa o emprego depois de tantos anos tá beeeem, mas a gente vai levando. Vida de jornalista é isso aí. É, mudou o comando do Daily Planet, isso você tava sabendo então? Os caras já chegaram mexendo em tudo e têm rabo preso com o prefeito, com meio mundo. Então eu falei “quer saber? Vou cair fora desta merda”. E saí. A Lois tá lá ainda. Tá. Até quando eu não sei. Não que antes a gente tivesse muita liberdade, mas a coisa piorou com o novo comando. Liberdade total não existe pra jornalista nenhum. É mais fácil o Lex Luthor ir pra cadeia do que a gente ter 100% de liberdade (risos). Eu acho que fecha, sim. Não demora muito e o Daily Planet acaba ou vira uma versão só digital. E tem jeito? Parece o destino de todo impresso. Aí o dono vem com aquele papinho de estratégia de multiplataforma integrada. A verdade é que o jornal impresso tá condenado. Vamos combinar? Não se renova, não encanta mais o leitor. Eu adoraria fazer uma reportagem especial com o Super-Homem salvando o jornal impresso, mas nem ele vai conseguir salvar. Pois é, a gente tá tudo fodido (risos). Então é isso, querido. Qualquer coisa, é só ligar. Aluguel em Metropolis tá caro demais. Me ajuda aí ou eu acabo virando blogueiro (risos). Mais um jornalista blogueiro no mundo. Aí danou-se de vez (risos). Então, é isso. Obrigado, viu? Um beijo para a patroa. Tchau, querido, tchau.
Clark desliga o telefone, se esparrama no sofá, liga a TV, dá uma coçada básica no saco e começa a assistir a um programa vespertino de culinária. Curte o ócio. Até alguma mocinha indefesa clamar por socorro.
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quarta-feira, 31 de outubro de 2012
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Quis porque quis fazer jornalismo
Depois de muitos anos, duas mães se reencontram num colégio, no dia de votação de uma eleição qualquer.
- Maria Helena? Você não é a mãe do Paulo Henrique, o amigo do Arturzinho, meu filho, nos tempos aqui do colégio?
- Claro! Sou a mãe do Paulo Henrique, sim. Quanto tempo, Célia! E como vai o Arturzinho?
- Arturzinho tá ótimo. Tá nos Estados Unidos. Acabou a faculdade de Economia na USP e está fazendo uma pós-graduação em Nova York. Tá todo empolgado! A família também. E o Paulo Henrique?
- Paulo é aquela coisa: nunca gostou de estudar. Quis porque quis fazer jornalismo. O pai não queria. Agora tá aí, desempregado. Diz que manda currículo todo dia, pra tudo que é lugar, mas a situação tá difícil.
- Mas isso é fase, Maria Helena.
- Deus te ouça, Célia. O Paulo Henrique passa o dia inteiro tocando guitarra no quarto. Diz que vai ser músico também. O pai não tá gostando nada. Eu queria tanto que ele fosse igual ao Arturzinho.
- Bem, Maria Helena, deixa eu ir. Sucesso pro Paulo Henrique.
Dois anos depois, numa outra eleição, novo reencontro.
- Oi, tudo bem? E o Paulo Henrique? Ainda sem emprego?
- Oi, Célia, tudo bem. O Paulo arrumou umas coisas, sim, mas tudo bico. Pelo menos tá pagando as contas dele.
- Que bom, já é alguma coisa, né?
- Ele diz que também está fazendo um blog. Acho que é esse o nome: blog. Não ganha nada. Diz que vai ganhar, mas até agora nada. Diz que é um blog sobre transparência política. Não entendo direito. Ah, esse moleque. E o Artur?
- Arturzinho tá ótimo. Já tá voltando pro Brasil. Mês que vem. Com a pós que ele fez lá nos Estados Unidos, já garantiu um superemprego aqui, num banco grande. Tão jovem e já vai ter um cargo importante, sabe? Salário excelente.
- Que bom. O Arturzinho sempre foi muito estudioso. Eu falava pro Paulo: segue o exemplo do seu amigo. Mas fazer o quê? Quis porque quis fazer essa bobagem de jornalismo...
Pelas mais diversas circunstâncias, o encontro seguinte só ocorreu depois de oito anos.
- Maria Helena, tudo bem? Lembrei de você esses dias!
- Sério?
- Me fala uma coisa: o Paulo Henrique Dias, o jornalista que denunciou o esquema de corrupção lá no Senado, é o seu filho?
- É o meu filho, sim.
- Jura?
- Paulinho tá trabalhando em Brasília há uns cinco anos ou mais. Gostou mesmo dessa coisa de política, investigação, transparência. Lembra que eu falei do blog? Arrumou até emprego por causa do blog.
- Lembro do blog, sim. Que coisa, né?
- Não ganha o salário do Arturzinho, mas tá muito feliz.
- Então, deixa eu te contar. O Artur não está mais no banco. Fez uma besteira lá num investimento alto, o banco perdeu muito dinheiro e mandou ele embora. O pai ficou uma fera. Vai estudar nos Estados Unidos pra fazer uma besteira dessas?
- Sério? Coitado...
- E quando é pra dar errado dá tudo junto. Ele tinha casado, mas depois da confusão com o banco até a mulher abandonou o Artur. Tá em depressão. Não vai nem mais às aulas de esgrima.
- O pai do Paulinho tá todo orgulhoso do filho. Eu também, sabe? Tenho uma pasta aqui com os recortes das matérias dele. Quer ver? Só matéria de capa.
- Nossa, que coisa, né?
- E não é que o Paulinho se encontrou mesmo no jornalismo?
- Maria Helena? Você não é a mãe do Paulo Henrique, o amigo do Arturzinho, meu filho, nos tempos aqui do colégio?
- Claro! Sou a mãe do Paulo Henrique, sim. Quanto tempo, Célia! E como vai o Arturzinho?
- Arturzinho tá ótimo. Tá nos Estados Unidos. Acabou a faculdade de Economia na USP e está fazendo uma pós-graduação em Nova York. Tá todo empolgado! A família também. E o Paulo Henrique?
- Paulo é aquela coisa: nunca gostou de estudar. Quis porque quis fazer jornalismo. O pai não queria. Agora tá aí, desempregado. Diz que manda currículo todo dia, pra tudo que é lugar, mas a situação tá difícil.
- Mas isso é fase, Maria Helena.
- Deus te ouça, Célia. O Paulo Henrique passa o dia inteiro tocando guitarra no quarto. Diz que vai ser músico também. O pai não tá gostando nada. Eu queria tanto que ele fosse igual ao Arturzinho.
- Bem, Maria Helena, deixa eu ir. Sucesso pro Paulo Henrique.
Dois anos depois, numa outra eleição, novo reencontro.
- Oi, tudo bem? E o Paulo Henrique? Ainda sem emprego?
- Oi, Célia, tudo bem. O Paulo arrumou umas coisas, sim, mas tudo bico. Pelo menos tá pagando as contas dele.
- Que bom, já é alguma coisa, né?
- Ele diz que também está fazendo um blog. Acho que é esse o nome: blog. Não ganha nada. Diz que vai ganhar, mas até agora nada. Diz que é um blog sobre transparência política. Não entendo direito. Ah, esse moleque. E o Artur?
- Arturzinho tá ótimo. Já tá voltando pro Brasil. Mês que vem. Com a pós que ele fez lá nos Estados Unidos, já garantiu um superemprego aqui, num banco grande. Tão jovem e já vai ter um cargo importante, sabe? Salário excelente.
- Que bom. O Arturzinho sempre foi muito estudioso. Eu falava pro Paulo: segue o exemplo do seu amigo. Mas fazer o quê? Quis porque quis fazer essa bobagem de jornalismo...
Pelas mais diversas circunstâncias, o encontro seguinte só ocorreu depois de oito anos.
- Maria Helena, tudo bem? Lembrei de você esses dias!
- Sério?
- Me fala uma coisa: o Paulo Henrique Dias, o jornalista que denunciou o esquema de corrupção lá no Senado, é o seu filho?
- É o meu filho, sim.
- Jura?
- Paulinho tá trabalhando em Brasília há uns cinco anos ou mais. Gostou mesmo dessa coisa de política, investigação, transparência. Lembra que eu falei do blog? Arrumou até emprego por causa do blog.
- Lembro do blog, sim. Que coisa, né?
- Não ganha o salário do Arturzinho, mas tá muito feliz.
- Então, deixa eu te contar. O Artur não está mais no banco. Fez uma besteira lá num investimento alto, o banco perdeu muito dinheiro e mandou ele embora. O pai ficou uma fera. Vai estudar nos Estados Unidos pra fazer uma besteira dessas?
- Sério? Coitado...
- E quando é pra dar errado dá tudo junto. Ele tinha casado, mas depois da confusão com o banco até a mulher abandonou o Artur. Tá em depressão. Não vai nem mais às aulas de esgrima.
- O pai do Paulinho tá todo orgulhoso do filho. Eu também, sabe? Tenho uma pasta aqui com os recortes das matérias dele. Quer ver? Só matéria de capa.
- Nossa, que coisa, né?
- E não é que o Paulinho se encontrou mesmo no jornalismo?
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Saudade (poema do jornalista desempregado)
Saudade dos tempos de redação
Do café salvador das madrugadas
Das vozes ao telefone misturadas
Das tantas matérias apuradas.
Saudade dos tempos de redação
Do sofrer, tensão, xingamento
Do suspiro após fechamento
Do pedido em vão de aumento.
Saudade dos tempos de redação
Da chegada apressada da rua
Da piada mais tosca e chula
Do sonho com a foca nua.
Saudade dos tempos de redação
Da falta total de rotina
Dos planos pro boteco da esquina
Do rir da própria sina.
Da sina.
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Do café salvador das madrugadas
Das vozes ao telefone misturadas
Das tantas matérias apuradas.
Saudade dos tempos de redação
Do sofrer, tensão, xingamento
Do suspiro após fechamento
Do pedido em vão de aumento.
Saudade dos tempos de redação
Da chegada apressada da rua
Da piada mais tosca e chula
Do sonho com a foca nua.
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Da falta total de rotina
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segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Crônica sobre a rapidez do mundo
Quem não tem um emprego tem, ao menos, tardes livres. Desempregado, consigo resolver certos problemas ideais para serem resolvidos em tardes comuns da semana, como ir ao banco renegociar os juros do cheque especial ou levar o meu Corsa Wind 97 modelo 98 a uma oficina mecânica para um sujeito cheio de graxa consertar o radiador furado.
Para fugir da loucura do fim de semana, decidi visitar a Bienal do Livro de São Paulo na tarde da última quinta-feira. Eu queria paz e tranqüilidade, mas embarquei numa aventura. O pavilhão do Anhembi tinha sido invadido por hordas de crianças com uniforme escolar que não respeitavam este jornalista velho. Aquilo parecia mais um parque de diversões do que uma feira de livros. Um dos estandes chegava a lembrar um brinquedo do Playcenter, do tipo visita à casa do terror, com direito a uma fila enorme e barulhenta.
Estava tão incomodado com aquela bagunça infanto-juvenil que, por um instante, eu, grande defensor da idéia de que os jovens precisam ler cada vez mais, mudei radicalmente a minha opinião. “Porra, por que essa molecada não está na Internet agora? Vão para os seus PCs, notes, celulares, MSNs, joguinhos on-line e me deixem em paz! Livro não dá futuro pra ninguém!”, pensei em gritar. Mas não gritei. O máximo que fiz foi me esquivar dos grupos que vinham em direção oposta, com medo de ser atropelado. E talvez pisoteado.
Aquela molecada tem uma velocidade assustadora e, no fundo, está perfeitamente conectada ao mundo, que é igualmente veloz. Eu é que fiquei velho e lento. Esta é a verdade. Os jovens fazem tudo muito freneticamente. À noite, em suas camas, devem até sonhar em apenas 140 caracteres. Mas a Bienal também me ensinou que, mesmo um pouco fora da realidade, o velho pode sobreviver e conviver com o novo, pois lá, em meio a tantas tecnologias, como audiolivros, e-books e Kindles, resistia, com bravura e dignidade, o estande da enciclopédia Barsa.
Para fugir da loucura do fim de semana, decidi visitar a Bienal do Livro de São Paulo na tarde da última quinta-feira. Eu queria paz e tranqüilidade, mas embarquei numa aventura. O pavilhão do Anhembi tinha sido invadido por hordas de crianças com uniforme escolar que não respeitavam este jornalista velho. Aquilo parecia mais um parque de diversões do que uma feira de livros. Um dos estandes chegava a lembrar um brinquedo do Playcenter, do tipo visita à casa do terror, com direito a uma fila enorme e barulhenta.
Estava tão incomodado com aquela bagunça infanto-juvenil que, por um instante, eu, grande defensor da idéia de que os jovens precisam ler cada vez mais, mudei radicalmente a minha opinião. “Porra, por que essa molecada não está na Internet agora? Vão para os seus PCs, notes, celulares, MSNs, joguinhos on-line e me deixem em paz! Livro não dá futuro pra ninguém!”, pensei em gritar. Mas não gritei. O máximo que fiz foi me esquivar dos grupos que vinham em direção oposta, com medo de ser atropelado. E talvez pisoteado.
Aquela molecada tem uma velocidade assustadora e, no fundo, está perfeitamente conectada ao mundo, que é igualmente veloz. Eu é que fiquei velho e lento. Esta é a verdade. Os jovens fazem tudo muito freneticamente. À noite, em suas camas, devem até sonhar em apenas 140 caracteres. Mas a Bienal também me ensinou que, mesmo um pouco fora da realidade, o velho pode sobreviver e conviver com o novo, pois lá, em meio a tantas tecnologias, como audiolivros, e-books e Kindles, resistia, com bravura e dignidade, o estande da enciclopédia Barsa.
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segunda-feira, 31 de maio de 2010
Como estragar um caso amor
Logo depois de formado, ainda sem emprego, me vi diante de uma escolha: aceitar o convite de uma garota interessante que me chamara para sair ou aceitar um frila? Compromissos de um mesmo sábado à noite. Difícil decisão para um libriano indeciso, excitado com a proposta da moça e com míseros trocados no bolso. A menina não era jornalista. Será que entenderia a minha situação? Pensei em alternativas.
Se eu inventasse uma desculpa qualquer para não sair, tipo encontro familiar de última hora, ela não aceitaria. “Festa de família? Você vai encher a cara com os amigos e depois pegar alguma vagabunda por aí”, diria. Se eu falasse a verdade para não sair, ela também não aceitaria. “Trabalho no sábado à noite? Você vai encher a cara com os amigos e depois pegar alguma vagabunda por aí”, diria. Então, decidi conciliar as duas coisas e a convenci a ir para a pauta comigo. Um puta programa de índio.
Minha missão era conhecer um novo reduto de bares gays em São Paulo. Ela ficou ao meu lado o tempo todo, silenciosa. Não reclamou de nada. Admirei sua compreensão e seu respeito à diversidade. Naquela noite, como retribuição, a levei a um restaurante bacaninha que ela tanto queria conhecer e paguei a conta sozinho, com a última folha de cheque do talão. Uma facada. Metade do frila que eu acabara de apurar (e nem tinha recebido ainda) ficou naquele pedaço de papel.
Dois sábados depois, também à noite, a arrastei para outro trabalho: um bailão da terceira idade. Não podia recusar frilas. A vida de jornalista apaixonado me dava muita despesa. Nesta pauta, ela até me ajudou. Escolheu personagens, fez fotos e auxiliou um senhor com uma doença crônica a tomar seu remédio enquanto eu o entrevistava. Admirei seu companheirismo. Naquela noite, como retribuição, tomei coragem e disse a ela um “eu te amo”.
No dia seguinte, ela me acompanhou a uma reunião de trekkers, aqueles fãs da série Jornada nas Estrelas que se fantasiam com roupas ridículas. Admirei sua paciência e seu nível de tolerância a nerds. Na noite daquele domingo, como retribuição, deixei de ver os gols da rodada para levá-la a um filme da Meg Ryan no cinema. Era o que eu podia lhe oferecer.
No outro sábado, mais um frila. Desta vez, porém, fui sozinho. Já não tinha namorada. Antes de dar uma bicuda em minha bunda, um dia antes, ela me disse que não suportava mais sair com jornalista, raça complicada. Admirei sua sinceridade. Naquela noite, ao menos, não precisei me esforçar para ser romântico.
Se eu inventasse uma desculpa qualquer para não sair, tipo encontro familiar de última hora, ela não aceitaria. “Festa de família? Você vai encher a cara com os amigos e depois pegar alguma vagabunda por aí”, diria. Se eu falasse a verdade para não sair, ela também não aceitaria. “Trabalho no sábado à noite? Você vai encher a cara com os amigos e depois pegar alguma vagabunda por aí”, diria. Então, decidi conciliar as duas coisas e a convenci a ir para a pauta comigo. Um puta programa de índio.
Minha missão era conhecer um novo reduto de bares gays em São Paulo. Ela ficou ao meu lado o tempo todo, silenciosa. Não reclamou de nada. Admirei sua compreensão e seu respeito à diversidade. Naquela noite, como retribuição, a levei a um restaurante bacaninha que ela tanto queria conhecer e paguei a conta sozinho, com a última folha de cheque do talão. Uma facada. Metade do frila que eu acabara de apurar (e nem tinha recebido ainda) ficou naquele pedaço de papel.
Dois sábados depois, também à noite, a arrastei para outro trabalho: um bailão da terceira idade. Não podia recusar frilas. A vida de jornalista apaixonado me dava muita despesa. Nesta pauta, ela até me ajudou. Escolheu personagens, fez fotos e auxiliou um senhor com uma doença crônica a tomar seu remédio enquanto eu o entrevistava. Admirei seu companheirismo. Naquela noite, como retribuição, tomei coragem e disse a ela um “eu te amo”.
No dia seguinte, ela me acompanhou a uma reunião de trekkers, aqueles fãs da série Jornada nas Estrelas que se fantasiam com roupas ridículas. Admirei sua paciência e seu nível de tolerância a nerds. Na noite daquele domingo, como retribuição, deixei de ver os gols da rodada para levá-la a um filme da Meg Ryan no cinema. Era o que eu podia lhe oferecer.
No outro sábado, mais um frila. Desta vez, porém, fui sozinho. Já não tinha namorada. Antes de dar uma bicuda em minha bunda, um dia antes, ela me disse que não suportava mais sair com jornalista, raça complicada. Admirei sua sinceridade. Naquela noite, ao menos, não precisei me esforçar para ser romântico.
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sexta-feira, 16 de abril de 2010
O homem que não recusava frilas
Assim como aqueles pobres infelizes topavam tudo por dinheiro no programa do Silvio Santos – vendiam as próprias calças em praça pública –, Olavo Marques, jornalista desempregado, topava tudo por um frila. Pouca grana, prazo apertado ou assunto chato não eram problema para ele. Olavão, como era conhecido, sempre foi a salvação de pauteiros e editores de várias redações.
A grana é aquela coisa
- Olavão, tá muito ocupado, querido? Topa um frila?
- Opa, é claro que eu topo. O que manda?
- É pauta bem bacana. Você terá de ouvir uns oito advogados, ou melhor, não precisa ouvir tanta gente assim, não; uns sete advogados já são o suficiente. Mas tem de ser advogado famoso, bambambã. A pauta é sobre a redução da maioridade penal. Além de saber o que eles acham, se são a favor ou contra, quero que você busque um enfoque diferente, sem o blablablá de sempre, entende? Veja com eles também qual seria a idade ideal para uma redução. Dezesseis, quatorze, doze? Porque tem uma pivetada foda por aí hoje em dia, você sabe.
- Sim, sim.
- Você teria de me mandar o texto pronto, redondinho, até amanhã pela manhã, bem cedo. Acha que consegue?
- O prazo está ótimo.
- Agora, a grana é aquela coisa. A gente só pode pagar o valor de matéria com uma fonte, mesmo você ouvindo mais do que uma. Mas é pouca coisa a menos, bobageira, você sabe.
- Não se preocupe! Melhor isso do que nada, não?
Ah, as glândulas adrenais
- Alô, senhor Olavo, tudo bem? É Ellen, da Editora Medicina e Saúde. Precisamos de um jornalista para acompanhar as palestras de um congresso médico, todas as palestras, aliás, para depois escrever artigos técnicos para a revista de uma entidade. O senhor aceita este free lance?
- Opa, é claro que eu aceito.
- O congresso é da Sociedade Brasileira de Combate à Adrenoleucodistrofia. O assunto é gostoso. O senhor vai adorar!
- Tenho certeza disso. Só me fala uma coisa: que doença é essa?
- A adrenoleucodistrofia é uma doença que atinge as glândulas adrenais.
- Ah, claro, as glândulas adrenais!
- É também conhecida como a Doença de Lorenzo. Imagino que o senhor já tenha ouvido falar...
- Lorenzo? Mas é lógico! Grande Lorenzo!
A grana é aquela coisa
- Olavão, tá muito ocupado, querido? Topa um frila?
- Opa, é claro que eu topo. O que manda?
- É pauta bem bacana. Você terá de ouvir uns oito advogados, ou melhor, não precisa ouvir tanta gente assim, não; uns sete advogados já são o suficiente. Mas tem de ser advogado famoso, bambambã. A pauta é sobre a redução da maioridade penal. Além de saber o que eles acham, se são a favor ou contra, quero que você busque um enfoque diferente, sem o blablablá de sempre, entende? Veja com eles também qual seria a idade ideal para uma redução. Dezesseis, quatorze, doze? Porque tem uma pivetada foda por aí hoje em dia, você sabe.
- Sim, sim.
- Você teria de me mandar o texto pronto, redondinho, até amanhã pela manhã, bem cedo. Acha que consegue?
- O prazo está ótimo.
- Agora, a grana é aquela coisa. A gente só pode pagar o valor de matéria com uma fonte, mesmo você ouvindo mais do que uma. Mas é pouca coisa a menos, bobageira, você sabe.
- Não se preocupe! Melhor isso do que nada, não?
Ah, as glândulas adrenais
- Alô, senhor Olavo, tudo bem? É Ellen, da Editora Medicina e Saúde. Precisamos de um jornalista para acompanhar as palestras de um congresso médico, todas as palestras, aliás, para depois escrever artigos técnicos para a revista de uma entidade. O senhor aceita este free lance?
- Opa, é claro que eu aceito.
- O congresso é da Sociedade Brasileira de Combate à Adrenoleucodistrofia. O assunto é gostoso. O senhor vai adorar!
- Tenho certeza disso. Só me fala uma coisa: que doença é essa?
- A adrenoleucodistrofia é uma doença que atinge as glândulas adrenais.
- Ah, claro, as glândulas adrenais!
- É também conhecida como a Doença de Lorenzo. Imagino que o senhor já tenha ouvido falar...
- Lorenzo? Mas é lógico! Grande Lorenzo!
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quarta-feira, 24 de março de 2010
Diário de um jornalista desempregado em Sampa
Uma vantagem de morar em Sampa, apesar de todos os problemas da cidade, é poder ter um dia cheio de atividades esportivas, culturais e gastronômicas com um gasto baixíssimo. Ou seja, um jornalista desempregado até consegue sobreviver por aqui. Para mostrar que isso é verdade, o blog acompanhou uma intensa sexta-feira na vida de um jornalista em Sampa. Sem trabalho há alguns meses, o profissional, de meia-idade, topou o desafio, mas pediu para não ser identificado e será chamado apenas de Jota.
7h: Após tomar um café da manhã rápido em casa (um pedaço de pizza que sobrou da noite anterior), Jota decide investir em um programa que fará bem a seu corpo e a sua mente, ambos já meio condenados pelas mazelas da vida. Vai a pé até um parque próximo e participa de uma aula de tai chi chuan. Gosta do ambiente acolhedor formado por muitos velhinhos aposentados e entrega-se aos movimentos da prática oriental. Sente-se mais relaxado. O único momento de tensão ocorre quando Jota resolve acender um cigarro durante os exercícios, sendo duramente repreendido pelo mestre. Gasto: nenhum.
9h: Jota decide fazer um passeio a pé pelo centro de São Paulo. Sente-se bem por saber que, enquanto aquele povo todo se estressa em um dia de trabalho, ele pode curtir seu ócio criativo. Quase cai na tentação de entrar em uma daquelas lojinhas de crédito fácil. Chega a uma praça famosa e acompanha o show de um artista mambembe, que faz diversas imitações, de Serginho Mallandro ao presidente Lula. Acha aquilo tudo patético, mas solta algumas gargalhadas sinceras. Gasto: 10 centavos (depositados no chapéu do artista).
12h: Almoço em um restaurante bem simples do centro. Pede o PF do dia e uma latinha de Kaiser (jornalistas adoram Original ou Serramalte, mas Jota está desempregado). Enquanto come aquele bife duro, ele se lembra do filé mignon ao molho madeira que devorava nas coletivas de imprensa e, emocionado, derrama uma lágrima sobre o prato. Gasto: R$ 6,00 (o café saiu de graça após uma negociação com o garçom).
14h: Como não pode ver um dos filmes do momento nas grandes redes de cinema dos shoppings, onde até a pipoca é absurdamente cara, Jota decide ir a um cineclube de cadeiras desconfortáveis. Mas é o que pode pagar. Tem de se contentar com um ciclo de filmes sobre o novo cinema croata. Percebe que sequer conhecia o antigo cinema croata, mas tudo bem, a experiência será, com certeza, valiosa. Assiste a um filme sobre a saga de imigrantes albaneses em Zagreb e, apesar de ter dormido 30% do tempo, sai impressionado da sala. Comenta com um casal de lésbicas ao seu lado que adorou o vigor da nova geração de cineastas sérvios (ops, fez uma confusão). Gasto: R$ 1,00 (pagou meia com uma carteirinha de estudante falsa).
18h: Contagiado pelo filme de arte, decide fazer um outro programa cabeça. Jota vai a pé (uma hora e vinte minutos de caminhada) até um centro cultural mantido por um banco para acompanhar o debate “Jornalismo e Contemporaneidade, o papel das novas mídias”. Sabe que precisa ficar por dentro do que os jovens estão fazendo. Após duas horas e meia de debate, Jota deixa o auditório empolgado com as idéias expostas no evento, mesmo tendo dormido 80% do tempo. Gasto: nenhum.
21h: Jota vai até uma barraquinha de sandubas perto do centro cultural e pede o principal combo do pedaço: um cachorro-quente com vinagrete e um refri. Gasto: R$ 1,70.
22h: Antes de voltar para casa, decide acabar a noite em grande estilo e permite uma extravagância. Vai a um puteiro. Precisa sujar um pouco o seu dia, que começou muito politicamente correto com a aula de tai chi chuan. O puteiro tem como clientela básica os motoboys. Na entrada, há várias CGs estacionadas. Jota apresenta-se como jornalista, sente-se importante. Promete autógrafos do William Bonner para as meninas e, por causa disso, tem direito a um drink e duas camisinhas de graça. Gasto: R$ 20,00 (tentou pagar meia com a carteirinha de estudante falsa, mas sua tentativa fracassou).
O gasto total de Jota foi de R$ 28,80. Se não considerarmos a puta, módicos RS 8,80.
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7h: Após tomar um café da manhã rápido em casa (um pedaço de pizza que sobrou da noite anterior), Jota decide investir em um programa que fará bem a seu corpo e a sua mente, ambos já meio condenados pelas mazelas da vida. Vai a pé até um parque próximo e participa de uma aula de tai chi chuan. Gosta do ambiente acolhedor formado por muitos velhinhos aposentados e entrega-se aos movimentos da prática oriental. Sente-se mais relaxado. O único momento de tensão ocorre quando Jota resolve acender um cigarro durante os exercícios, sendo duramente repreendido pelo mestre. Gasto: nenhum.
9h: Jota decide fazer um passeio a pé pelo centro de São Paulo. Sente-se bem por saber que, enquanto aquele povo todo se estressa em um dia de trabalho, ele pode curtir seu ócio criativo. Quase cai na tentação de entrar em uma daquelas lojinhas de crédito fácil. Chega a uma praça famosa e acompanha o show de um artista mambembe, que faz diversas imitações, de Serginho Mallandro ao presidente Lula. Acha aquilo tudo patético, mas solta algumas gargalhadas sinceras. Gasto: 10 centavos (depositados no chapéu do artista).
12h: Almoço em um restaurante bem simples do centro. Pede o PF do dia e uma latinha de Kaiser (jornalistas adoram Original ou Serramalte, mas Jota está desempregado). Enquanto come aquele bife duro, ele se lembra do filé mignon ao molho madeira que devorava nas coletivas de imprensa e, emocionado, derrama uma lágrima sobre o prato. Gasto: R$ 6,00 (o café saiu de graça após uma negociação com o garçom).
14h: Como não pode ver um dos filmes do momento nas grandes redes de cinema dos shoppings, onde até a pipoca é absurdamente cara, Jota decide ir a um cineclube de cadeiras desconfortáveis. Mas é o que pode pagar. Tem de se contentar com um ciclo de filmes sobre o novo cinema croata. Percebe que sequer conhecia o antigo cinema croata, mas tudo bem, a experiência será, com certeza, valiosa. Assiste a um filme sobre a saga de imigrantes albaneses em Zagreb e, apesar de ter dormido 30% do tempo, sai impressionado da sala. Comenta com um casal de lésbicas ao seu lado que adorou o vigor da nova geração de cineastas sérvios (ops, fez uma confusão). Gasto: R$ 1,00 (pagou meia com uma carteirinha de estudante falsa).
18h: Contagiado pelo filme de arte, decide fazer um outro programa cabeça. Jota vai a pé (uma hora e vinte minutos de caminhada) até um centro cultural mantido por um banco para acompanhar o debate “Jornalismo e Contemporaneidade, o papel das novas mídias”. Sabe que precisa ficar por dentro do que os jovens estão fazendo. Após duas horas e meia de debate, Jota deixa o auditório empolgado com as idéias expostas no evento, mesmo tendo dormido 80% do tempo. Gasto: nenhum.
21h: Jota vai até uma barraquinha de sandubas perto do centro cultural e pede o principal combo do pedaço: um cachorro-quente com vinagrete e um refri. Gasto: R$ 1,70.
22h: Antes de voltar para casa, decide acabar a noite em grande estilo e permite uma extravagância. Vai a um puteiro. Precisa sujar um pouco o seu dia, que começou muito politicamente correto com a aula de tai chi chuan. O puteiro tem como clientela básica os motoboys. Na entrada, há várias CGs estacionadas. Jota apresenta-se como jornalista, sente-se importante. Promete autógrafos do William Bonner para as meninas e, por causa disso, tem direito a um drink e duas camisinhas de graça. Gasto: R$ 20,00 (tentou pagar meia com a carteirinha de estudante falsa, mas sua tentativa fracassou).
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quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Experiência única
Dias atrás, uma amiga, sabendo que tenho vivido de frilas, encaminhou à minha caixa de e-mails um anúncio de trabalho, cuja fonte é o blog http://mktcomunicacao.blogspot.com. Não sei se ela esqueceu que fiquei velho ou se quis me sacanear mesmo. Já não tenho mais a disposição dos jovens, embora conserve o bom humor para enfrentar a dureza de nossa profissão.
Reproduzo abaixo o anúncio, inclusive com os erros de Português, com os meus comentários em negrito. Em alguns trechos, o anúncio parece piada pronta e mostra que ser jornalista é viver, muitas vezes, grandes aventuras.
São Paulo/SP - Requisitos:
O lema do evento, para atletas e staff, é: "durma quando puder, coma quando puder, tome banho quando puder". (Como o lema dos jornalistas é “viva quando puder”, temos tudo a ver com este evento. Aliás, adorei a sinceridade do anúncio! Comer pra quê? Dormir pra quê?) Portanto, aceitamos CVs de profissionais que realmente queiram fazer a narração de 10 dias de competição (com bases móveis, estilo Rally dos Sertões), onde os atletas têm apenas 4 horas de sono obrigatório durante todo o evento. Experiência única. (Realmente tem de querer muito! Adorei também as “4 horas de sono obrigatório”!)
Reproduzo abaixo o anúncio, inclusive com os erros de Português, com os meus comentários em negrito. Em alguns trechos, o anúncio parece piada pronta e mostra que ser jornalista é viver, muitas vezes, grandes aventuras.
São Paulo/SP - Requisitos:
- Graduação em jornalismo
- Experiência em apuração de fatos e redação para web
- Experiência em cobertura de eventos
- Inglês fluente
- Disponibilidade para viajar do dia 16 a 29 de novembro (SP-MG-SP)
- Ter notebook é imprescindível (Todos os jornalistas, principalmente os mais jovens, têm notebook, com internet wireless.)
- Espírito aventureiro, disposição, bom humor e gostar de esportes de aventura são diferenciais (Bom humor é diferencial, sim. Só rindo!)
- Jornalista jovem e com muita disposição para auxiliar na cobertura jornalística online de um evento esportivo de grande porte no cenário internacional.
O lema do evento, para atletas e staff, é: "durma quando puder, coma quando puder, tome banho quando puder". (Como o lema dos jornalistas é “viva quando puder”, temos tudo a ver com este evento. Aliás, adorei a sinceridade do anúncio! Comer pra quê? Dormir pra quê?) Portanto, aceitamos CVs de profissionais que realmente queiram fazer a narração de 10 dias de competição (com bases móveis, estilo Rally dos Sertões), onde os atletas têm apenas 4 horas de sono obrigatório durante todo o evento. Experiência única. (Realmente tem de querer muito! Adorei também as “4 horas de sono obrigatório”!)
O trabalho é freelancer e oferece:
- Verba de alimentação (Mas conseguiremos nos alimentar?)
- Hospedagem durante a viagem para o evento (Mas conseguiremos dormir?)
- Transporte de ida e volta para o local do evento (cidades históricas de Minas Gerais) (O que não vai faltar é igrejinha para rezarmos por dias melhores.)
- Valor para 10 dias de cobertura online: R$ 750,00 (Ou R$ 75,00 por dia, o valor de uma boa faxina em São Paulo, com direito a almoço e dispensa às 17 horas para ver as novelas da Globo. Haja bom humor!)
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Eu? Na merda?
Nunca imaginei que iria encontrar Pedro Henrique, jornalista de hábitos refinados e fascinado pelo glamour, na fila da promoção do filme brasileiro do Cinemark a dois míseros Reais.
– E aí, PH, quanto tempo, hein? Pensei que você só ia a óperas...
– Que nada, Duda. Sempre fui um dos maiores apoiadores do cinema nacional.
Fiquei sabendo, por amigos em comum, que o cara tava falido. Não tinha grana nem para a pipoca.
– Como estão as coisas no jornal? Perdi contato com muita gente.
– Não estou mais lá. Decidi sair. Precisava de novos desafios profissionais.
Na verdade, ele tinha sido demitido. Por justa causa.
– E o que anda fazendo?
– Segui o caminho da comunicação corporativa, um sonho antigo.
PH fazia assessoria de imprensa, coisa que sempre detestou.
– Está em alguma agência?
– Agência? Rapaz, virei um empresário de sucesso. Sou o big boss!
PH tinha uma empresa de um cliente só e nenhum funcionário. Era chefe de si mesmo.
– E teu escritório, onde fica?
– Então, Duda, até pensei em ter um escritório num centro empresarial badalado, mas optei pelo home office, um conceito mais moderno de trabalho.
Mentiroso desgraçado. Não tinha como pagar o aluguel!
– Pô, PH, a gente precisa se ver mais, trocar umas idéias. Vamos marcar um café.
– Claro, Duda!!! Aliás, eu pago. Fiquei sabendo que você ainda tá desempregado... Bem, a gente se fala.
Até hoje aguardo este maldito café.
– E aí, PH, quanto tempo, hein? Pensei que você só ia a óperas...
– Que nada, Duda. Sempre fui um dos maiores apoiadores do cinema nacional.
Fiquei sabendo, por amigos em comum, que o cara tava falido. Não tinha grana nem para a pipoca.
– Como estão as coisas no jornal? Perdi contato com muita gente.
– Não estou mais lá. Decidi sair. Precisava de novos desafios profissionais.
Na verdade, ele tinha sido demitido. Por justa causa.
– E o que anda fazendo?
– Segui o caminho da comunicação corporativa, um sonho antigo.
PH fazia assessoria de imprensa, coisa que sempre detestou.
– Está em alguma agência?
– Agência? Rapaz, virei um empresário de sucesso. Sou o big boss!
PH tinha uma empresa de um cliente só e nenhum funcionário. Era chefe de si mesmo.
– E teu escritório, onde fica?
– Então, Duda, até pensei em ter um escritório num centro empresarial badalado, mas optei pelo home office, um conceito mais moderno de trabalho.
Mentiroso desgraçado. Não tinha como pagar o aluguel!
– Pô, PH, a gente precisa se ver mais, trocar umas idéias. Vamos marcar um café.
– Claro, Duda!!! Aliás, eu pago. Fiquei sabendo que você ainda tá desempregado... Bem, a gente se fala.
Até hoje aguardo este maldito café.
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quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Paixões proibidas
Quando eu tinha uns 15 anos, costumava passar os dias quentes de verão dentro de casa, ouvindo o meu LP dos Smiths. Meu pai, com medo de ver o filho se tornar um garoto muito introspectivo, talvez com alguma tendência suicida, resolveu dar um conselho.
- Filho, você precisa sair mais de casa. Por que não vai a um puteiro?
Aceitei o conselho. Achava que a visita ao local seria desastrosa, mas curti a experiência. A menina, só um pouco mais velha do que eu, tinha olhos e lábios lindos, era inteligente, gostava de conversar. Voltei para casa e fui falar com meu pai. Estava encantado pela moça, queria levá-la ao cinema no dia seguinte.
- Porra, meu filho, ficar apaixonado por puta não dá.
Não a levei ao cinema no dia seguinte. Nunca mais a vi.
Lembrei essa história muitos anos depois, quando fui tomar uma cerveja com um velho amigo da faculdade de jornalismo, que há tempos havia mudado de ramo e se tornado um pequeno empresário de sucesso. Contei a ele sobre meu desemprego, e ele quis me convencer a trabalhar como representante comercial (vendedor) de um purificador de água que a empresa dele fabrica. Um fixo todo mês, comissões, chance de ascensão.
Expliquei que, apesar de estar sem emprego, tenho me virado bem com meus frilas. Disse ainda que não consigo fazer outra coisa além de ser jornalista, que amo esta profissão.
- Porra, Duda, ser apaixonado pela profissão de jornalista não dá.
- Filho, você precisa sair mais de casa. Por que não vai a um puteiro?
Aceitei o conselho. Achava que a visita ao local seria desastrosa, mas curti a experiência. A menina, só um pouco mais velha do que eu, tinha olhos e lábios lindos, era inteligente, gostava de conversar. Voltei para casa e fui falar com meu pai. Estava encantado pela moça, queria levá-la ao cinema no dia seguinte.
- Porra, meu filho, ficar apaixonado por puta não dá.
Não a levei ao cinema no dia seguinte. Nunca mais a vi.
Lembrei essa história muitos anos depois, quando fui tomar uma cerveja com um velho amigo da faculdade de jornalismo, que há tempos havia mudado de ramo e se tornado um pequeno empresário de sucesso. Contei a ele sobre meu desemprego, e ele quis me convencer a trabalhar como representante comercial (vendedor) de um purificador de água que a empresa dele fabrica. Um fixo todo mês, comissões, chance de ascensão.
Expliquei que, apesar de estar sem emprego, tenho me virado bem com meus frilas. Disse ainda que não consigo fazer outra coisa além de ser jornalista, que amo esta profissão.
- Porra, Duda, ser apaixonado pela profissão de jornalista não dá.
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quarta-feira, 5 de agosto de 2009
A carteirada
Tempos atrás, numa bilheteria de cinema, encontro Pedro, antigo colega de redação. Está ansioso para assistir a Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen. Disseram a ele que, no filme, Scarlett Johansson e Penélope Cruz se beijam na boca. Pedro saca do bolso uma carteirinha de estudante para pagar meia-entrada.
- Voltou pra escola, Pedrão?
- A coisa tá feia, rapaz. Esta eu mesmo fiz. Se perguntam alguma coisa, invento que faço o curso de História da Arte Barroca na Casa do Saber.
Pedro admite que até pagaria o valor total da entrada pela cena lésbico-erótica entre as atrizes. Diz também que se excita ao ver a Penélope falando espanhol.
Mas não pode pagar.
- Tô desempregado, Duda. E neste mês cai o último cheque do meu tratamento dentário.
E ri o riso dos desgraçados.
Pedro me faz lembrar de meus tempos de repórter, quando usava o crachá do jornal ou a carteirinha da Fenaj para invadir eventos culturais, esportivos, festas de bacana. Jornalista adora uma carteirada. É o seu momento de glória, de sentir que está levando algum tipo de vantagem na vida.
- Duda, se quiser, faço uma pra você. Só me manda uma foto e cinco Reais para a plastificação. Preciso estrear o novo Photoshop que comprei na Santa Efigênia.
Me despeço de Pedro e entro na sala do cinema, para ver um outro filme. Sentado no escuro, lá no fundão, penso em sua proposta de uma carteira de estudante falsa e na Penélope beijando a Scarlett. Uma dúvida também me intriga: quem será que faz um curso de História da Arte Barroca?
- Voltou pra escola, Pedrão?
- A coisa tá feia, rapaz. Esta eu mesmo fiz. Se perguntam alguma coisa, invento que faço o curso de História da Arte Barroca na Casa do Saber.
Pedro admite que até pagaria o valor total da entrada pela cena lésbico-erótica entre as atrizes. Diz também que se excita ao ver a Penélope falando espanhol.
Mas não pode pagar.
- Tô desempregado, Duda. E neste mês cai o último cheque do meu tratamento dentário.
E ri o riso dos desgraçados.
Pedro me faz lembrar de meus tempos de repórter, quando usava o crachá do jornal ou a carteirinha da Fenaj para invadir eventos culturais, esportivos, festas de bacana. Jornalista adora uma carteirada. É o seu momento de glória, de sentir que está levando algum tipo de vantagem na vida.
- Duda, se quiser, faço uma pra você. Só me manda uma foto e cinco Reais para a plastificação. Preciso estrear o novo Photoshop que comprei na Santa Efigênia.
Me despeço de Pedro e entro na sala do cinema, para ver um outro filme. Sentado no escuro, lá no fundão, penso em sua proposta de uma carteira de estudante falsa e na Penélope beijando a Scarlett. Uma dúvida também me intriga: quem será que faz um curso de História da Arte Barroca?
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sexta-feira, 3 de julho de 2009
Homem livre
Antes de perder o emprego, eu era tido como um jornalista talentoso, pelo menos era assim que minha mãe me descrevia para as amigas do bingo. Mas a vida gosta de brincar com a gente e, quando eu menos esperava, tornei-me um problema social. E o pior: fui condenado a conhecer aqueles programas vespertinos da TV aberta, de fofocas e baixa gastronomia.
Mas agora estou mais feliz. Ao folhear um jornal encontrado por acaso numa estação do metrô dias atrás, li a notícia de que os brasileiros trabalham em média 132 dias num ano somente para pagar impostos, mais de um terço do ano apenas para engordar os cofres públicos. Perceberam o que isso significa para mim? Sou um homem livre desses tributos. Tive vontade de correr pela plataforma de embarque da estação, beijar bochechas desconhecidas e gritar: “Com o meu desemprego, não dou um mísero centavo para o governo.”
Pelos cálculos do IPEA mostrados na reportagem, em todo o mês de junho, por exemplo, o meu ócio foi destinado a não pagar os benefícios da Previdência Social e as pensões e aposentadorias dos servidores públicos federais. Dediquei outros vinte dias do mês de maio a não amortizar os juros da dívida pública. O meu dolce far niente ainda prejudicou em um dia e meio a distribuição do Bolsa Família. Será que a Dilma vai ficar brava comigo?
A minha viagem de metrô nunca foi tão empolgante. Não conseguia tirar da cabeça a matéria do jornal, os números. Via pessoas apressadas, seguindo para o trabalho. Mal desconfiavam que o árduo esforço do dia seria apenas para custear gastos do governo, talvez as mamatas secretas do Senado. Desci do metrô e caminhei lentamente até uma agência da Caixa para receber a derradeira parcela do meu seguro-desemprego.
- Sabia que você passará a semana inteira, talvez o mês inteiro, trabalhando só para me pagar este benefício?, perguntei à mocinha que me atendeu no guichê.
- Não entendi; o que disse, senhor?
Respondi apenas com um sorriso cruel.
Mas agora estou mais feliz. Ao folhear um jornal encontrado por acaso numa estação do metrô dias atrás, li a notícia de que os brasileiros trabalham em média 132 dias num ano somente para pagar impostos, mais de um terço do ano apenas para engordar os cofres públicos. Perceberam o que isso significa para mim? Sou um homem livre desses tributos. Tive vontade de correr pela plataforma de embarque da estação, beijar bochechas desconhecidas e gritar: “Com o meu desemprego, não dou um mísero centavo para o governo.”
Pelos cálculos do IPEA mostrados na reportagem, em todo o mês de junho, por exemplo, o meu ócio foi destinado a não pagar os benefícios da Previdência Social e as pensões e aposentadorias dos servidores públicos federais. Dediquei outros vinte dias do mês de maio a não amortizar os juros da dívida pública. O meu dolce far niente ainda prejudicou em um dia e meio a distribuição do Bolsa Família. Será que a Dilma vai ficar brava comigo?
A minha viagem de metrô nunca foi tão empolgante. Não conseguia tirar da cabeça a matéria do jornal, os números. Via pessoas apressadas, seguindo para o trabalho. Mal desconfiavam que o árduo esforço do dia seria apenas para custear gastos do governo, talvez as mamatas secretas do Senado. Desci do metrô e caminhei lentamente até uma agência da Caixa para receber a derradeira parcela do meu seguro-desemprego.
- Sabia que você passará a semana inteira, talvez o mês inteiro, trabalhando só para me pagar este benefício?, perguntei à mocinha que me atendeu no guichê.
- Não entendi; o que disse, senhor?
Respondi apenas com um sorriso cruel.
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segunda-feira, 29 de junho de 2009
Sombras e gargalhadas sádicas
Caminho por uma praça da Sé meio sombria.
- Uma esmola pro ceguinho, pelo amor de Deus. Pode dar dez centavos, senhor, cinco centavos, o que tiver. Deus vai lhe devolver em dobro.
Eu conheço essa voz. Sim, eu conheço. Chego mais perto e identifico o sujeito. O ceguinho é o Amaral, meu antigo colega de redação, o editor de Economia. Logo ele, um cara fino, de ações sempre nobres, elegantes.
- Amaral, desde quando você é cego, rapaz?
- Duda?! Ô, meu amigo, fala baixo, por favor.
Amaral me conta que, desde que o diploma para os jornalistas perdeu o seu valor, ele e vários outros velhos colegas perderam o emprego, perderam tudo. Ele poderia estar roubando, como me explica, mas preferia pedir ajuda pro ceguinho.
- Triste é o caso do Fonseca, o repórter de Turismo. Lembra dele, Duda? Sem diploma, caiu na marginalidade. Vivia aqui na praça assaltando aposentados até ser preso.
Fico chocado com a história do Fonseca. Depois, o Amaral me revela histórias ainda piores de outros amigos, que fazem de tudo para sobreviver num mundo sem diploma, gente vendendo DVD pirata nas ruas, vendendo o corpo, a alma.
Minha cabeça começa a girar e, de repente, não estou mais naquela praça triste. Estou agora num grande campo aberto, um gramado imenso e bonito. Vejo os ministros do STF felizes. Eles pulam, riem, viram cambalhotas, como crianças ou loucos de um sanatório. Gilmar Mendes saltita de mãos dadas com o Daniel Dantas. De repente, quem aparece? O office-boy que roubou a minha mulher! Sádico e cheio de soberba, ele gargalha e me mostra um diploma do curso de farramenteiro do Senai. “O meu vale, o seu, não; o meu vale, o seu, não.”
Acordo assustado, suado, cheio de tremedeiras.
- Filhos-da-puta!
- Uma esmola pro ceguinho, pelo amor de Deus. Pode dar dez centavos, senhor, cinco centavos, o que tiver. Deus vai lhe devolver em dobro.
Eu conheço essa voz. Sim, eu conheço. Chego mais perto e identifico o sujeito. O ceguinho é o Amaral, meu antigo colega de redação, o editor de Economia. Logo ele, um cara fino, de ações sempre nobres, elegantes.
- Amaral, desde quando você é cego, rapaz?
- Duda?! Ô, meu amigo, fala baixo, por favor.
Amaral me conta que, desde que o diploma para os jornalistas perdeu o seu valor, ele e vários outros velhos colegas perderam o emprego, perderam tudo. Ele poderia estar roubando, como me explica, mas preferia pedir ajuda pro ceguinho.
- Triste é o caso do Fonseca, o repórter de Turismo. Lembra dele, Duda? Sem diploma, caiu na marginalidade. Vivia aqui na praça assaltando aposentados até ser preso.
Fico chocado com a história do Fonseca. Depois, o Amaral me revela histórias ainda piores de outros amigos, que fazem de tudo para sobreviver num mundo sem diploma, gente vendendo DVD pirata nas ruas, vendendo o corpo, a alma.
Minha cabeça começa a girar e, de repente, não estou mais naquela praça triste. Estou agora num grande campo aberto, um gramado imenso e bonito. Vejo os ministros do STF felizes. Eles pulam, riem, viram cambalhotas, como crianças ou loucos de um sanatório. Gilmar Mendes saltita de mãos dadas com o Daniel Dantas. De repente, quem aparece? O office-boy que roubou a minha mulher! Sádico e cheio de soberba, ele gargalha e me mostra um diploma do curso de farramenteiro do Senai. “O meu vale, o seu, não; o meu vale, o seu, não.”
Acordo assustado, suado, cheio de tremedeiras.
- Filhos-da-puta!
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quarta-feira, 10 de junho de 2009
Em busca do feriado perdido
Hoje sou uma estatística. Sou, mais precisamente, um número e faço parte daquelas pesquisas mensais de desemprego do IBGE ou da Fundação Seade. Tornei-me um indicador econômico, assustadoramente feio, já que estamos em crise. É claro que ser uma estatística não é legal, ainda mais uma estatística ruim, mas tento pensar que tudo na vida tem um lado bom (com exceção do LP do Oswaldo Montenegro, segundo a velha piada). E o lado bom em questão é não ter de trabalhar nos feriadões.
Ah, quantos Natais eu já passei numa redação. Quantos plantões de carnaval. Tem quem goste, é claro, mas eu odiei cobrir certa vez o desfile no sambódromo. Era um foca, louco para estar na praia com os amigos, mas tive de ficar na avenida, entrevistando populares ensandecidos, aquele barulho desgraçado, um cheiro insuportável de mijo na dispersão. Trabalhar no carnaval é um porre. E eu que, quando criança, sonhava em cobrir, algum dia, o concurso A Mais Bela Mulher Casada, no Ilha Porchat.
Nas redações, a definição de quem trabalha e de quem folga nos feriados é uma verdadeira batalha. Escalas e mais escalas, privilégios para uns, reclamações dos outros. Cansei de ouvir e dizer frases do tipo “já fiz plantão no carnaval, meu amigo, nem fodendo que eu vou trabalhar na Páscoa” ou “o problema é teu se você não vê a tua querida mãezinha há cinco anos; eu vou folgar no Natal e ponto final”.
Hoje, todos os dias são feriados para mim, mas o feriado desta semana, de Corpus Christi, será especial, porque terei quatro dias com o Nestor. Estou com a maior saudade daquele cachorro danado. Se o frio continuar, vamos passar todos os dias debaixo do edredom, comendo pipoca e vendo uns filminhos. O Nestor adora uns filminhos.
Aos amigos jornalistas que vão trabalhar no feriadão, muita paciência e a fé de que nenhuma tragédia vai acontecer, ninguém famoso morrerá. Descansarei por vocês!
Ah, quantos Natais eu já passei numa redação. Quantos plantões de carnaval. Tem quem goste, é claro, mas eu odiei cobrir certa vez o desfile no sambódromo. Era um foca, louco para estar na praia com os amigos, mas tive de ficar na avenida, entrevistando populares ensandecidos, aquele barulho desgraçado, um cheiro insuportável de mijo na dispersão. Trabalhar no carnaval é um porre. E eu que, quando criança, sonhava em cobrir, algum dia, o concurso A Mais Bela Mulher Casada, no Ilha Porchat.
Nas redações, a definição de quem trabalha e de quem folga nos feriados é uma verdadeira batalha. Escalas e mais escalas, privilégios para uns, reclamações dos outros. Cansei de ouvir e dizer frases do tipo “já fiz plantão no carnaval, meu amigo, nem fodendo que eu vou trabalhar na Páscoa” ou “o problema é teu se você não vê a tua querida mãezinha há cinco anos; eu vou folgar no Natal e ponto final”.
Hoje, todos os dias são feriados para mim, mas o feriado desta semana, de Corpus Christi, será especial, porque terei quatro dias com o Nestor. Estou com a maior saudade daquele cachorro danado. Se o frio continuar, vamos passar todos os dias debaixo do edredom, comendo pipoca e vendo uns filminhos. O Nestor adora uns filminhos.
Aos amigos jornalistas que vão trabalhar no feriadão, muita paciência e a fé de que nenhuma tragédia vai acontecer, ninguém famoso morrerá. Descansarei por vocês!
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segunda-feira, 2 de março de 2009
Quase famosos
Por conta da vida modesta que tenho levado, a grana de minha indenização respira, ainda que por aparelhos. E, para garantir o biscrok quinzenal do Nestor, faço meus frilas, como todo bom jornalista desempregado. Semanas atrás, um amigo me ligou e ofereceu um job de assessoria de imprensa. A missão: divulgar o trabalho de seu cabeleireiro, “uma bicha vaidosa” como definiu, dono de um salão de bairro, o Pedrinhu’s Coiffeur. O nome bizarro, mistura do brega com o chique, me incomodou um pouco no início, mas superei o preconceito e aceitei a proposta.
Ao chegar, notei que o salão era bonito, organizado, com ares de alguma prosperidade.
- Meu sonho é dar uma entrevista para o Jô, disparou, logo de cara, o Pedrinho.
Conheci a história do salão, expliquei um pouco o trabalho de um assessor de imprensa e perguntei ao Pedrinho o que tornava seu salão especial, diferente dos demais.
- O nosso dia da noiva, naturalmente!
- Pedrinho, não sou especialista na área, mas acredito que dia da noiva tem em todo salão, não?
- Sim, querido, mas aqui a noiva fica muito mais bonita!
O salão não era freqüentado por celebridades, alguém de peso que ajudasse a “vender” a casa. O cabeleireiro falou apenas de uma moça de futuro promissor no mundo artístico, uma tal Gyslaynny Brasil. Mas hoje ela era apenas a sobrinha de uma dançarina gostosona de um grupo de pagode, além de rainha da bateria da Unidos de Piraporinha. Arrasaria no carnaval de Diadema este ano, segundo ele. A coisa tava difícil.
Expliquei ao Pedrinho que um bom trabalho de assessoria de imprensa tem como base o planejamento, com estratégias e um plano de ação bem definidos, tudo para fortalecer a imagem do salão e alavancar os negócios. Citei teóricos da comunicação empresarial e discorri sobre a importância de um relacionamento sustentável com a imprensa.
- Lindo, acho que você não entendeu. Me lixo para estratégias! Eu quero ficar famoso!
Mesmo desanimado com a situação, me comprometi a elaborar uma proposta de job para o Pedrinhu’s Coiffeur e, ao deixar o salão, tive uma nova surpresa.
- Duda, não sei se seu amigo lhe contou, mas não tenho dinheiro para pagar este trabalho. A crise tá pegando para todo mundo. Mas posso pagar em cortes de cabelo, por alguns meses. Aliás, você tá precisando dar uma modernizada nesse visual, né?
Pedrinho era uma bicha vaidosa. E extremamente mão-de-vaca!
Ao chegar, notei que o salão era bonito, organizado, com ares de alguma prosperidade.
- Meu sonho é dar uma entrevista para o Jô, disparou, logo de cara, o Pedrinho.
Conheci a história do salão, expliquei um pouco o trabalho de um assessor de imprensa e perguntei ao Pedrinho o que tornava seu salão especial, diferente dos demais.
- O nosso dia da noiva, naturalmente!
- Pedrinho, não sou especialista na área, mas acredito que dia da noiva tem em todo salão, não?
- Sim, querido, mas aqui a noiva fica muito mais bonita!
O salão não era freqüentado por celebridades, alguém de peso que ajudasse a “vender” a casa. O cabeleireiro falou apenas de uma moça de futuro promissor no mundo artístico, uma tal Gyslaynny Brasil. Mas hoje ela era apenas a sobrinha de uma dançarina gostosona de um grupo de pagode, além de rainha da bateria da Unidos de Piraporinha. Arrasaria no carnaval de Diadema este ano, segundo ele. A coisa tava difícil.
Expliquei ao Pedrinho que um bom trabalho de assessoria de imprensa tem como base o planejamento, com estratégias e um plano de ação bem definidos, tudo para fortalecer a imagem do salão e alavancar os negócios. Citei teóricos da comunicação empresarial e discorri sobre a importância de um relacionamento sustentável com a imprensa.
- Lindo, acho que você não entendeu. Me lixo para estratégias! Eu quero ficar famoso!
Mesmo desanimado com a situação, me comprometi a elaborar uma proposta de job para o Pedrinhu’s Coiffeur e, ao deixar o salão, tive uma nova surpresa.
- Duda, não sei se seu amigo lhe contou, mas não tenho dinheiro para pagar este trabalho. A crise tá pegando para todo mundo. Mas posso pagar em cortes de cabelo, por alguns meses. Aliás, você tá precisando dar uma modernizada nesse visual, né?
Pedrinho era uma bicha vaidosa. E extremamente mão-de-vaca!
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Esse tal networking
Com a desculpa de rever os amigos e pôr as fofocas em dia, voltei à redação do jornal em que havia trabalhado por anos. O objetivo, na verdade, era fazer o famigerado networking, de olho em alguma indicação para um novo emprego. Meu ex-chefe, aquele mesmo que me mandou embora, continuava por lá, sempre com o jeito bonachão, gente boa, mas com um olhar que não escondia sua alma de carrasco. Apesar do choque nada agradável com parte do meu passado, estava confiante.
Fomos almoçar no restaurante do jornal. Desabituado ao velho menu da firma, que antes me trazia enjôos, até achei a comida boa. Mas descobriria mais tarde que aquela suculenta feijoada não me cairia bem. Bom, pelo menos, desta vez, não descontaram a refeição do meu salário. Meus amigos cuidaram da conta. A conversa começou animada. Nada mais gostoso do que falar mal da vida alheia. Quem está pegando quem, os novos casados, os recém-separados, a nova safra de estagiárias. Os jornalistas não seriam tão bem-informados sem o almoço com os coleguinhas, o fumódromo, o cafezinho...
Mas como jornalista adora uma desgraça, fiquei sabendo também como andava o trabalho no jornal, a redação cada vez mais enxuta, o acúmulo de funções, o temor de um novo passaralho. Diziam que a preocupação era geral, em todas as redações. Desemprego. Salários atrasados. Ameaça de greve. Deixei a velha redação pensativo e um tanto angustiado. Que merda de networking eu fiz!!! Voltei para casa com apenas uma certeza: não esqueceria aquela feijoada tão cedo.
Fomos almoçar no restaurante do jornal. Desabituado ao velho menu da firma, que antes me trazia enjôos, até achei a comida boa. Mas descobriria mais tarde que aquela suculenta feijoada não me cairia bem. Bom, pelo menos, desta vez, não descontaram a refeição do meu salário. Meus amigos cuidaram da conta. A conversa começou animada. Nada mais gostoso do que falar mal da vida alheia. Quem está pegando quem, os novos casados, os recém-separados, a nova safra de estagiárias. Os jornalistas não seriam tão bem-informados sem o almoço com os coleguinhas, o fumódromo, o cafezinho...
Mas como jornalista adora uma desgraça, fiquei sabendo também como andava o trabalho no jornal, a redação cada vez mais enxuta, o acúmulo de funções, o temor de um novo passaralho. Diziam que a preocupação era geral, em todas as redações. Desemprego. Salários atrasados. Ameaça de greve. Deixei a velha redação pensativo e um tanto angustiado. Que merda de networking eu fiz!!! Voltei para casa com apenas uma certeza: não esqueceria aquela feijoada tão cedo.
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