Carnaval de jornalista tem o plantão aí, gente, tem a ala das focas, a ala das assessoras, tem o atrás da grande matéria só não vai quem já morreu, tem credencial que vale mais que abadá, tem ascensão e queda do diploma categoria luxo, tem o bota lá no lead, bota, meu amor, tem a expectativa da apuração, tem a concentração no fechamento, tem a dispersão da equipe após essa correria toda, tem a velha que guarda os textos numa pastinha, tem o empregobeleza, tem release cheio de adereços, tem pauta que é um ziriguidum só, tem entrevistado do balacobaco, tem a porta-jabá a desfilar pela redação, tem o puxador de saco-enredo, tem a rainha da boca-livre, tem jornalista mascarado, tem quem não gosta de rua bom repórter não é, tem ô abre aspas que eu quero publicar, tem a apoteose do furo, tem a folia dos bloquinhos, tem o quesito profissão maluca dez nota dez.
Veja também: as marchinhas jornalísticas de carnaval cantadas
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
G.R.E.S. Unidos da Redação
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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Ser assessor de imprensa é...
Ter uma cara de pau elevada à enésima potência.
Festejar a notinha do colunista famosão como se fosse um furo de reportagem.
Viver explicando pro povo de redação que assessor também é jornalista.
Viver explicando pro povo de relações públicas que jornalista também é assessor.
Saber vender seu peixe. Quer levar, não, freguesia? Pauta fresquinha.
Ouvir do assessorado desinteressante o pedido de uma entrevista pro Jô, e pensar “tô fodido”.
Ralar como qualquer jornalista, mas levar fama de vida boa.
Montar sua própria agência acreditando que vai, enfim, ficar rico.
Buscar o difícil equilíbrio entre o interesse do assessorado e o do repórter.
Buscar o difícil equilíbrio entre o ego do assessorado e o do repórter.
Responder 20 perguntas por e-mail pra ontem, por favor, e não esquece uma foto em alta resolução, tipo 300 dpi, pode ser?
Lidar com assessorado que não tem a menor noção de como funciona a imprensa.
Apagar incêndios quando o assessorado faz alguma merda.
Ser criativo para produzir press kits maneiros por um custo baixo.
Organizar coletiva e rezar pra tudo que é santo pra não chover.
Ir a almoços chatérrimos de “fortalecimento de relações”.
Planejar, pensar pautas originais, ter bons contatos na imprensa, texto bom. Mais alguma coisa?
Usar expressões chiques, como “ativo de imagem”.
Distribuir presentinhos e não ser o Papai Noel.
Explicar o tempo todo aos leigos o que um assessor de imprensa faz. E ter a certeza de que ninguém vai entender.
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Saber vender seu peixe. Quer levar, não, freguesia? Pauta fresquinha.
Ouvir do assessorado desinteressante o pedido de uma entrevista pro Jô, e pensar “tô fodido”.
Ralar como qualquer jornalista, mas levar fama de vida boa.
Montar sua própria agência acreditando que vai, enfim, ficar rico.
Buscar o difícil equilíbrio entre o interesse do assessorado e o do repórter.
Buscar o difícil equilíbrio entre o ego do assessorado e o do repórter.
Responder 20 perguntas por e-mail pra ontem, por favor, e não esquece uma foto em alta resolução, tipo 300 dpi, pode ser?
Lidar com assessorado que não tem a menor noção de como funciona a imprensa.
Apagar incêndios quando o assessorado faz alguma merda.
Ser criativo para produzir press kits maneiros por um custo baixo.
Organizar coletiva e rezar pra tudo que é santo pra não chover.
Ir a almoços chatérrimos de “fortalecimento de relações”.
Planejar, pensar pautas originais, ter bons contatos na imprensa, texto bom. Mais alguma coisa?
Usar expressões chiques, como “ativo de imagem”.
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terça-feira, 29 de outubro de 2013
Redação Royal
O povo começou a ser resgatado ainda era madrugada.
Tinha gente com olheiras de quem vara a noite escrevendo matéria. Gente que era só o bagaço de tanto preencher sozinha duas ou mais páginas por dia.
Os ativistas arrombaram a porta principal e logo perceberam que lá dentro havia dezenas de profissionais trabalhando em condição análoga à de um jornalista escravo.
Estavam lá havia meses. Sem salário decente, sem equipamentos decentes, sem papel higiênico. Faltava decência até para cagar.
Suspeitas de maus-tratos foram confirmadas. Um estagiário, por exemplo, era obrigado a ler e ouvir todas as colunas do Jabor.
Também eram feitos experimentos. Quanto tempo o organismo de um jornalista suporta ficar sem comer? Hein? Tudo pela ciência.
Parte da opinião pública ficou sensibilizada com o caso dos jornalistas resgatados. Tão bonitinhos, principalmente o estagiário que lia o Jabor. Outros acharam que os ativistas deveriam é se preocupar com coisas mais importantes. Tanto vira-lata abandonado por aí na rua e ninguém faz nada.
A Redação Royal foi lacrada. Provisoriamente.
Os black blocs ameaçaram quebrar geral. O patrão, temendo o próprio deadline, ligou para o secretário, que falou com o governador, que liberou a turma do Choque.
A boa notícia é que os jornalistas resgatados podem ser adotados por redações de todo o Brasil. São pessoas legais, que curtem o que fazem e só precisam de gente disposta a lhes dar um trabalho digno. Ah, se rolar também um biscoitinho com café, eles vão amar.
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Tinha gente com olheiras de quem vara a noite escrevendo matéria. Gente que era só o bagaço de tanto preencher sozinha duas ou mais páginas por dia.
Os ativistas arrombaram a porta principal e logo perceberam que lá dentro havia dezenas de profissionais trabalhando em condição análoga à de um jornalista escravo.
Estavam lá havia meses. Sem salário decente, sem equipamentos decentes, sem papel higiênico. Faltava decência até para cagar.
Suspeitas de maus-tratos foram confirmadas. Um estagiário, por exemplo, era obrigado a ler e ouvir todas as colunas do Jabor.
Também eram feitos experimentos. Quanto tempo o organismo de um jornalista suporta ficar sem comer? Hein? Tudo pela ciência.
Parte da opinião pública ficou sensibilizada com o caso dos jornalistas resgatados. Tão bonitinhos, principalmente o estagiário que lia o Jabor. Outros acharam que os ativistas deveriam é se preocupar com coisas mais importantes. Tanto vira-lata abandonado por aí na rua e ninguém faz nada.
A Redação Royal foi lacrada. Provisoriamente.
Os black blocs ameaçaram quebrar geral. O patrão, temendo o próprio deadline, ligou para o secretário, que falou com o governador, que liberou a turma do Choque.
A boa notícia é que os jornalistas resgatados podem ser adotados por redações de todo o Brasil. São pessoas legais, que curtem o que fazem e só precisam de gente disposta a lhes dar um trabalho digno. Ah, se rolar também um biscoitinho com café, eles vão amar.
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segunda-feira, 21 de outubro de 2013
O primeiro dia de uma foca na redação
Aí, mãe, meu chefe pediu pra esperar, pra ver se rolava alguma coisa. E nada. A tarde toda.
Aí ele: pintou um caso de polícia. Gosta de matéria com sangue?
Aí eu: adoro matéria com sangue.
Aí ele: liga pro delegado nesse número. Doutor Junqueira.
Aí eu: ligo, sim, ligo agora.
Aí ele: parece que foi briga de bar, um morto, esfaqueado, checa lá. 15 linhas, ok?
Aí eu peguei o telefone, aí o doutor não tava na sala, aí eu liguei de novo, aí eu falei com o bendito doutor, aí eu anotei tudo rapidinho, aí eu não entendi minha letra, aí eu comecei a suar frio, aí eu escrevi correndo.
Aí ele: solta o texto, Luísa.
Aí eu: tô soltando.
Aí ele: solta o texto, Luísa.
Aí eu: já soltei.
Aí ele ficou lendo e franziu a testa e coçou a orelha com o dedinho.
Aí eu fiquei rezando pro texto estar bom, porque eu escrevi correndo, lembra, mãe?
Aí ele não parava de ler, meu Deus!
Aí eu já pensando que tava uma droga, porque como pode demorar tanto pra ler um texto de 15 linhas? E digitou umas coisas e outras coisas.
Aí ele: Luísa, vem cá.
Aí eu: tô indo (com as pernas bambas, sabe, mãe?).
Aí ele: teu texto tá ótimo.
Aí eu: nossa, obrigada!
Aí ele: tinha um errinho só, muitas aspas, viu?, mas depois a gente conversa.
Aí eu: ah, claro, muitas aspas.
Aí ele: como você quer assinar a matéria?
Aí eu: com meu nome.
Aí ele: isso eu sei. E qual o teu nome completo?
Aí eu: Ana Luísa Fonseca de Barros Oliveira Medeiros.
Aí ele: caramba, tudo isso?
Aí eu: tudo isso.
Aí ele: muito grande. Corta pruns três nomes.
Aí eu: gosto de Luísa Medeiros.
Aí ele: Luísa com “z”?
Aí eu: com “s” e acento.
Aí ele: pode chegar cedo amanhã?
Aí eu: na hora que você quiser.
Aí ele: gosta de pauta na rua?
Aí eu: adoro pauta na rua.
Aí ele: às 7 horas aqui (e coçou a orelha de novo com o dedinho).
Aí, mãe, foi isso. Primeira matéria assinada! Página 3, meio lá embaixo, sabe? E, ó, não esquece de comprar o jornal amanhã, tá?
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Aí ele: pintou um caso de polícia. Gosta de matéria com sangue?
Aí eu: adoro matéria com sangue.
Aí ele: liga pro delegado nesse número. Doutor Junqueira.
Aí eu: ligo, sim, ligo agora.
Aí ele: parece que foi briga de bar, um morto, esfaqueado, checa lá. 15 linhas, ok?
Aí eu peguei o telefone, aí o doutor não tava na sala, aí eu liguei de novo, aí eu falei com o bendito doutor, aí eu anotei tudo rapidinho, aí eu não entendi minha letra, aí eu comecei a suar frio, aí eu escrevi correndo.
Aí ele: solta o texto, Luísa.
Aí eu: tô soltando.
Aí ele: solta o texto, Luísa.
Aí eu: já soltei.
Aí ele ficou lendo e franziu a testa e coçou a orelha com o dedinho.
Aí eu fiquei rezando pro texto estar bom, porque eu escrevi correndo, lembra, mãe?
Aí ele não parava de ler, meu Deus!
Aí eu já pensando que tava uma droga, porque como pode demorar tanto pra ler um texto de 15 linhas? E digitou umas coisas e outras coisas.
Aí ele: Luísa, vem cá.
Aí eu: tô indo (com as pernas bambas, sabe, mãe?).
Aí ele: teu texto tá ótimo.
Aí eu: nossa, obrigada!
Aí ele: tinha um errinho só, muitas aspas, viu?, mas depois a gente conversa.
Aí eu: ah, claro, muitas aspas.
Aí ele: como você quer assinar a matéria?
Aí eu: com meu nome.
Aí ele: isso eu sei. E qual o teu nome completo?
Aí eu: Ana Luísa Fonseca de Barros Oliveira Medeiros.
Aí ele: caramba, tudo isso?
Aí eu: tudo isso.
Aí ele: muito grande. Corta pruns três nomes.
Aí eu: gosto de Luísa Medeiros.
Aí ele: Luísa com “z”?
Aí eu: com “s” e acento.
Aí ele: pode chegar cedo amanhã?
Aí eu: na hora que você quiser.
Aí ele: gosta de pauta na rua?
Aí eu: adoro pauta na rua.
Aí ele: às 7 horas aqui (e coçou a orelha de novo com o dedinho).
Aí, mãe, foi isso. Primeira matéria assinada! Página 3, meio lá embaixo, sabe? E, ó, não esquece de comprar o jornal amanhã, tá?
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quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Jornalistas, atenção aos procedimentos de segurança antes de viajar nesta redação
Olá, senhoras e senhores jornalistas. Sou Duda Rangel. Em nome do editor-chefe, apresento as boas-vindas a bordo desta redação, com destino ao inferno do fechamento.
Durante o trabalho de apuração e checagem de informações, por telefone, e-mail ou pelo Google, o encosto de sua cadeira deverá ser mantido na posição vertical, para você não ficar reclamando depois de dores nas costas.
Para evitar frustrações, observe os avisos de atar os pés no chão, pois esta viagem está sujeita a muitas turbulências.
Em caso de bloqueio criativo na hora de escrever a matéria, uma luz divina não cairá automaticamente sobre a sua cabeça. É bom você queimar seus neurônios. Se pintarem ideias originais, ajuste-as ao seu texto e só depois empreste alguma para o companheiro ao lado – aquele com cara de bunda à espera da luz divina.
Informamos que poderão ser utilizados laptops e celulares apenas em modo “redação”, ou seja, para fins profissionais. Joguinhos no Facebook deverão permanecer desligados.
A redação tem uma máquina de café na parte do fundo, onde é proibido falar mal do chefe. O ambiente do café está equipado com detector de fofocas.
Esta redação possui três saídas de emergência: uma para fazer frilas por aí, outra para um concurso público na Petrobras e outra para vender artesanato numa praia de Floripa.
Manuais chatos de jornalismo e guias de sobrevivência em redação encontram-se na gaveta à sua frente.
Em caso de pouso de um passaralho, lembramos que o seu emprego é flutuante.
Obrigado por terem escolhido trabalhar nesta redação. Tenham todos uma ótima viagem.
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Em caso de bloqueio criativo na hora de escrever a matéria, uma luz divina não cairá automaticamente sobre a sua cabeça. É bom você queimar seus neurônios. Se pintarem ideias originais, ajuste-as ao seu texto e só depois empreste alguma para o companheiro ao lado – aquele com cara de bunda à espera da luz divina.
Informamos que poderão ser utilizados laptops e celulares apenas em modo “redação”, ou seja, para fins profissionais. Joguinhos no Facebook deverão permanecer desligados.
A redação tem uma máquina de café na parte do fundo, onde é proibido falar mal do chefe. O ambiente do café está equipado com detector de fofocas.
Esta redação possui três saídas de emergência: uma para fazer frilas por aí, outra para um concurso público na Petrobras e outra para vender artesanato numa praia de Floripa.
Manuais chatos de jornalismo e guias de sobrevivência em redação encontram-se na gaveta à sua frente.
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segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Os Outros ou A história das Almas Jornalísticas na redação dos Vivos
Eram quatro as Almas Jornalísticas que perambulavam pela redação habitada pelos Outros, os jornalistas vivos.
A Alma Boêmia era a única que não aceitava a morte. Ficava lá, de um lado pro outro da redação com um cigarro apagado na mão, a pedir fogo aos Outros. Ninguém a via e, mesmo que um repórter com dons mediúnicos a visse, não teria fogo. Não se fumava por ali havia tempos. A Alma Boêmia também se atormentava com a ideia de que poucos bebiam uísque ou cerveja. Vivia-se a ditadura do suco de frutas vermelhas. Sem adição de açúcar.
Havia duas Almas Revisoras, que passavam horas e horas esparramadas em suas poltronas fazendo deboche dos erros de Português dos Outros. Era só alguém deslizar numa concordância ou botar uma vírgula onde não se devia botar uma vírgula para começarem as gargalhadas. Chegavam a engasgar de tanto rir. Ou cair das poltronas.
A quarta alma era a Alma Investigativa, que sonhava encontrar entre os Outros sua alma gêmea. A busca não era fácil, levando-se em consideração que os Outros gostavam muito do tal jornalismo declaratório e dos dossiês customizados. A Alma Investigativa, contudo, não desistia de acreditar na perpetuação da espécie.
Alguns dos Outros ralavam tanto naquela redação que não era incomum ouvi-los dizer, ao fim do dia de trabalho, que estavam mortos. Mas era só uma sensação passageira.
E assim iam-se passando os dias. A Alma Boêmia irritada toda vez que alguém saboreava um sanduíche de peito de peru; as Almas Revisoras zombando dos que, por sua vez, zombavam da língua portuguesa; e a Alma Investigativa apurando um sinal de sua alma gêmea, qualquer sinal, um pontinho luminoso sobre o ombro ou um puta texto investigativo escrito por alguém dos Outros.
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A Alma Boêmia era a única que não aceitava a morte. Ficava lá, de um lado pro outro da redação com um cigarro apagado na mão, a pedir fogo aos Outros. Ninguém a via e, mesmo que um repórter com dons mediúnicos a visse, não teria fogo. Não se fumava por ali havia tempos. A Alma Boêmia também se atormentava com a ideia de que poucos bebiam uísque ou cerveja. Vivia-se a ditadura do suco de frutas vermelhas. Sem adição de açúcar.
Havia duas Almas Revisoras, que passavam horas e horas esparramadas em suas poltronas fazendo deboche dos erros de Português dos Outros. Era só alguém deslizar numa concordância ou botar uma vírgula onde não se devia botar uma vírgula para começarem as gargalhadas. Chegavam a engasgar de tanto rir. Ou cair das poltronas.
A quarta alma era a Alma Investigativa, que sonhava encontrar entre os Outros sua alma gêmea. A busca não era fácil, levando-se em consideração que os Outros gostavam muito do tal jornalismo declaratório e dos dossiês customizados. A Alma Investigativa, contudo, não desistia de acreditar na perpetuação da espécie.
Alguns dos Outros ralavam tanto naquela redação que não era incomum ouvi-los dizer, ao fim do dia de trabalho, que estavam mortos. Mas era só uma sensação passageira.
E assim iam-se passando os dias. A Alma Boêmia irritada toda vez que alguém saboreava um sanduíche de peito de peru; as Almas Revisoras zombando dos que, por sua vez, zombavam da língua portuguesa; e a Alma Investigativa apurando um sinal de sua alma gêmea, qualquer sinal, um pontinho luminoso sobre o ombro ou um puta texto investigativo escrito por alguém dos Outros.
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segunda-feira, 16 de abril de 2012
Redação da novela das 6 versus redação de verdade – o jogo dos 7 erros
O blog Desilusões perdidas encontrou sete diferenças básicas entre a redação da fictícia Cena Contemporânea, da novela global “Amor Eterno Amor”, e uma redação de verdade.1. A redação da novela tem um ambiente de harmonia e pessoas felizes. Há elegância na decoração e móveis que privilegiam o conforto e o bem-estar dos repórteres. Uma redação de verdade não sabe bem o que é isso.
2. Ninguém fala palavrões na redação da novela. Numa redação de verdade, puta que pariu, como tem gente que fala merda.
3. Não se vê ninguém reclamando do salário na redação da novela. Nem vendendo rifa para levantar uma grana. Na redação de verdade, 80% dos jornalistas resmungam que ganham mal. Outros 20% reclamam que não ganham bem.
4. O editor de Moda da redação da novela não é gay. Ou, pelo menos, não dá pinta.
5. A redação da novela não recebe ligações de assessores de imprensa na hora do fechamento.
6. A redação da novela não pertence ao núcleo pobre. Uma redação de verdade é muito núcleo pobre.
7. A redação da Cena Contemporânea tem o André Gonçalves. A redação de verdade, graças a Deus, não tem.
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sexta-feira, 18 de novembro de 2011
A hora do fechamento
Quinze minutos, gente, quinze minutos.
Hein? Querida, não tô precisando de torpedo ilimitado. (tu-tu-tu)
Cadê a foto da 3?
Ó o calhau!
Não esquece o nome da gorda da foto-legenda da 4.
Meu Deus, por que não salvei esta merda?
Depois a gente corrige na segunda edição.
Dez minutos, gente, dez minutos.
Vem cá, o que você quis dizer com esta frase?
Pede pro Jurandir fritar a calabresa. Já tô descendo.
O título do abre da 2 tá estourando. Vê lá!
Vinte linhas são vinte linhas, não quarenta. Ainda não aprendeu?
Cacete, e esse correspondente que não manda a matéria?
Cinco minutos, gente, cinco minutos.
Já era. Corta pelo pé mesmo. O tempo já está esgot
Release? Ah, não! Liga mais tarde. Por favor. (tu-tu-tu)
Solta este texto, porra!
Hein? Querida, não tô precisando de torpedo ilimitado. (tu-tu-tu)
Cadê a foto da 3?
Ó o calhau!
Não esquece o nome da gorda da foto-legenda da 4.
Meu Deus, por que não salvei esta merda?
Depois a gente corrige na segunda edição.
Dez minutos, gente, dez minutos.
Vem cá, o que você quis dizer com esta frase?
Pede pro Jurandir fritar a calabresa. Já tô descendo.
O título do abre da 2 tá estourando. Vê lá!
Vinte linhas são vinte linhas, não quarenta. Ainda não aprendeu?
Cacete, e esse correspondente que não manda a matéria?
Cinco minutos, gente, cinco minutos.
Já era. Corta pelo pé mesmo. O tempo já está esgot
Release? Ah, não! Liga mais tarde. Por favor. (tu-tu-tu)
Solta este texto, porra!
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quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Repentistas: o dia em que o jornalista de redação desafiou o assessor e vice-versa
Quero só que tu me diga
Com clareza, por favor
Qual a diferença entre
O jornalista e o assessor.
Quero só que tu me diga
Com clareza, por favor
Qual a diferença entre
O jornalista e o assessor.
(Jornalista de redação)
Meu amigo assessor
Preste muita atenção
Você trai toda verdade
Doutro lado do balcão
Porta-voz de empresário
Jornalista não é, não.
(Assessor de imprensa)
Preste atenção você
Que se julga sempre o rei
O jornal que te emprega
E onde um dia eu trabalhei
Faz conchavo e tem muito
Rabo preso que eu sei.
(Jornalista de redação)
Lave a boca, assesssor
Pra falar do meu jornal
Rabo preso ou rabo solto
Nunca foi o principal
O interesse que domina
É a justiça social.
(Assessor de imprensa)
A justiça social
O Boitatá e o Pererê
São folclore, são histórias
Que contaram pra você
Teu jornal é um negócio
Faz de tudo pra vender.
Quero só que tu me diga
Com clareza, por favor
Qual a diferença entre
O jornalista e o assessor.
Quero só que tu me diga
Com clareza, por favor
Qual a diferença entre
O jornalista e o assessor.
(Jornalista de redação)
Minha vida em redação
É pauleira, é corrida
Tem plantão, tem pescoção
Tem pauta bem encardida
Já tu é um bicho bundão
Que fugiu pra boa vida.
(Assessor de imprensa)
Boa vida eu não tenho
Também tenho que ralar
Só recebo mais dinheiro
O aluguel posso pagar
Tua merda de salário
Não queria mais ganhar.
(Jornalista de redação)
Meu salário é uma merda
Tu falou uma verdade
Bebo Kaiser no boteco
Mas tenho dignidade
Não vivo só por dinheiro
Quero ter felicidade.
(Assessor de imprensa)
Desapego ao dinheiro
Não consigo acreditar
Tu vive em coletiva
Só de olho no jabá
Come e bebe pra caralho
Até o evento terminar.
Quero só que tu me diga
Com clareza, por favor
Qual a diferença entre
O jornalista e o assessor.
Quero só que tu me diga
Com clareza, por favor
Qual a diferença entre
O jornalista e o assessor.
(Jornalista de redação)
Assessor é um cabra chato
Cheio de atrevimento
Liga sempre em hora errada
Na hora do fechamento
Insiste no follow-up
Coisa mais sem cabimento.
(Assessor de imprensa)
Vem falar em atrevimento
Tu é um baita de um folgado
Manda e-mail com pergunta
Quer retorno apressado
Dá piti se não envio
Tudinho bem mastigado.
(Jornalista de redação)
Assessor é um sem-noção
Agora vou lhe dizer
Release bem do safado
Tô cheio de receber
Jogo tudo na lixeira
Claro que nunca vou ler.
(Assessor de imprensa)
Falar mal do meu release
É muita ingratidão
Jornalista hoje em dia
Não apura informação
Reproduz tudo que escrevo
Sem prestar nem atenção.
Quero só que tu me diga
Com clareza, por favor
Qual a diferença entre
O jornalista e o assessor.
Quero só que tu me diga
Com clareza, por favor
Qual a diferença entre
O jornalista e o assessor.
Com clareza, por favor
Qual a diferença entre
O jornalista e o assessor.
Quero só que tu me diga
Com clareza, por favor
Qual a diferença entre
O jornalista e o assessor.
(Jornalista de redação)
Meu amigo assessor
Preste muita atenção
Você trai toda verdade
Doutro lado do balcão
Porta-voz de empresário
Jornalista não é, não.
(Assessor de imprensa)
Preste atenção você
Que se julga sempre o rei
O jornal que te emprega
E onde um dia eu trabalhei
Faz conchavo e tem muito
Rabo preso que eu sei.
(Jornalista de redação)
Lave a boca, assesssor
Pra falar do meu jornal
Rabo preso ou rabo solto
Nunca foi o principal
O interesse que domina
É a justiça social.
(Assessor de imprensa)
A justiça social
O Boitatá e o Pererê
São folclore, são histórias
Que contaram pra você
Teu jornal é um negócio
Faz de tudo pra vender.
Quero só que tu me diga
Com clareza, por favor
Qual a diferença entre
O jornalista e o assessor.
Quero só que tu me diga
Com clareza, por favor
Qual a diferença entre
O jornalista e o assessor.
(Jornalista de redação)
Minha vida em redação
É pauleira, é corrida
Tem plantão, tem pescoção
Tem pauta bem encardida
Já tu é um bicho bundão
Que fugiu pra boa vida.
(Assessor de imprensa)
Boa vida eu não tenho
Também tenho que ralar
Só recebo mais dinheiro
O aluguel posso pagar
Tua merda de salário
Não queria mais ganhar.
(Jornalista de redação)
Meu salário é uma merda
Tu falou uma verdade
Bebo Kaiser no boteco
Mas tenho dignidade
Não vivo só por dinheiro
Quero ter felicidade.
(Assessor de imprensa)
Desapego ao dinheiro
Não consigo acreditar
Tu vive em coletiva
Só de olho no jabá
Come e bebe pra caralho
Até o evento terminar.
Quero só que tu me diga
Com clareza, por favor
Qual a diferença entre
O jornalista e o assessor.
Quero só que tu me diga
Com clareza, por favor
Qual a diferença entre
O jornalista e o assessor.
(Jornalista de redação)
Assessor é um cabra chato
Cheio de atrevimento
Liga sempre em hora errada
Na hora do fechamento
Insiste no follow-up
Coisa mais sem cabimento.
(Assessor de imprensa)
Vem falar em atrevimento
Tu é um baita de um folgado
Manda e-mail com pergunta
Quer retorno apressado
Dá piti se não envio
Tudinho bem mastigado.
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Assessor é um sem-noção
Agora vou lhe dizer
Release bem do safado
Tô cheio de receber
Jogo tudo na lixeira
Claro que nunca vou ler.
(Assessor de imprensa)
Falar mal do meu release
É muita ingratidão
Jornalista hoje em dia
Não apura informação
Reproduz tudo que escrevo
Sem prestar nem atenção.
Quero só que tu me diga
Com clareza, por favor
Qual a diferença entre
O jornalista e o assessor.
Quero só que tu me diga
Com clareza, por favor
Qual a diferença entre
O jornalista e o assessor.
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sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Bonde da redação
O jornal todo
(versão de O baile todo – Bonde do Tigrão)
Só redatoras (hu-hu-hu-hu-hu)
As diplomadas (hu-hu-hu-hu-hu)
Reportezudas (hu-hu-hu-hu-hu)
As focas todas. (hu-hu-hu-hu-hu)
Todas na pressão
É o bonde da redação
Esquece a TPM
Tem trabalho de montão.
Uma pautinha não dói
(versão de Um tapinha não dói – Mc Naldinho)
Mais uma pauta não dói
Uma pautinha não dói
Uma pautinha não dói
A quarta do dia.
Mais uma pauta não dói
Uma pautinha não dói
Uma pautinha não dói
A quinta do dia.
Salário de dar dó
(versão de Egüinha Pocotó – Mc Serginho)
Vou pedindo um dinheirinho
Pra mãezinha e pra vovó
Meu salário de repórter
É pequeno de dar dó.
De dar dó, de dar dó, de dar dó
Meu salário é de dar dó
De dar dó, de dar dó, de dar dó
Meu salário é de dar dó.
Já pensei em vender coco
E até dar meu rabicó
Eu preciso inteirar
O meu salário de dar dó.
De dar dó, de dar dó, de dar dó
Meu salário é de dar dó
De dar dó, de dar dó, de dar dó
Meu salário é de dar dó.
Vaidosa
(versão de Glamurosa – Mc Marcinho)
Vaidosa
Rica e importante
Bem famosa
Com Esso na estante
Quer ser top, muito foda
Dona da redação
Mas é só a foca
Pobre e cheia de ilusão.
Vem, migalha ou Funk do Dissídio
(versão de Vai, Lacraia – Mc Serginho)
Vem, migalha
Vem, migalha
Vem, migalha
Vem, migalha.
Corte na redação
(versão de Cerol na mão – Bonde do Tigrão)
Quer ficar? Quer ficar?
O patrão não vai deixar
Quer ficar? Quer ficar?
O patrão não vai deixar
Passaralho é cruelzão
É, sim, é, sim
Vai cortar teu cabeção
Vai, sim, vai, sim
Vai mostrar quem é o patrão
Dar um pé no popozão
Então congela, congela
Congela o empregão
Limpa a gavetinha
Tem mais vaga, não
É o corte na redação.
Diploma é coisa do passado
(versão de Beijo na boca – Furacão 2000)
Nosso diploma é coisa do passado
A moda agora é
Registro liberado.
Estressadinha
(versão de Atoladinha – Tati Quebra-Barraco)
Piririn, piririn, piririn
Alguém ligou pra mim
Piririn, piririn, piririn
Alguém ligou pra mim
Quem é?
Sou eu, o assessor
E uma pauta vou te dar
Exclusiva e diferente
O release vou mandar
Vai me deixar em paz?
Não, não, vou perturbar
Vai me deixar em paz?
Não, não, vou perturbar
Tô ficando estressadinha
Tô ficando estressadinha
Tô ficando estressadinha
Calma, calma, pauteirinha.
Conquista
(versão de Conquista – Claudinho e Buchecha)
Sabe (thu-ru-ru-ru)
Estou louco pra escrever (oh, yes)
Sabe (thu-ru-ru-ru)
Jornalista eu quero ser (iê-iê-iê-iê)
Sabe (thu-ru-ru-ru)
Estou louco pra escrever (oh, yes)
Sabe (thu-ru-ru-ru)
Jornalista eu quero ser (iê-iê-iê-iê)
E a porra do tempo não passa
E eu quero ter
Um emprego, enfim
Nada se compara
Ao tal do fazer
Tô muito a fim
De gravar, apurar
E depois publicar
No jornal, meu amor
Facul tem que acabar!
Oh, yes, oh, yes!
Já faz mais de ano
Que eu tô estudando
Vidinha pau no cu
Quero adrenalina
Sentir alegria e dor
Na real tudo fica blue.
(versão de O baile todo – Bonde do Tigrão)
Só redatoras (hu-hu-hu-hu-hu)
As diplomadas (hu-hu-hu-hu-hu)
Reportezudas (hu-hu-hu-hu-hu)
As focas todas. (hu-hu-hu-hu-hu)
Todas na pressão
É o bonde da redação
Esquece a TPM
Tem trabalho de montão.
Uma pautinha não dói
(versão de Um tapinha não dói – Mc Naldinho)
Mais uma pauta não dói
Uma pautinha não dói
Uma pautinha não dói
A quarta do dia.
Mais uma pauta não dói
Uma pautinha não dói
Uma pautinha não dói
A quinta do dia.
Salário de dar dó
(versão de Egüinha Pocotó – Mc Serginho)
Vou pedindo um dinheirinho
Pra mãezinha e pra vovó
Meu salário de repórter
É pequeno de dar dó.
De dar dó, de dar dó, de dar dó
Meu salário é de dar dó
De dar dó, de dar dó, de dar dó
Meu salário é de dar dó.
Já pensei em vender coco
E até dar meu rabicó
Eu preciso inteirar
O meu salário de dar dó.
De dar dó, de dar dó, de dar dó
Meu salário é de dar dó
De dar dó, de dar dó, de dar dó
Meu salário é de dar dó.
Vaidosa
(versão de Glamurosa – Mc Marcinho)
Vaidosa
Rica e importante
Bem famosa
Com Esso na estante
Quer ser top, muito foda
Dona da redação
Mas é só a foca
Pobre e cheia de ilusão.
Vem, migalha ou Funk do Dissídio
(versão de Vai, Lacraia – Mc Serginho)
Vem, migalha
Vem, migalha
Vem, migalha
Vem, migalha.
Corte na redação
(versão de Cerol na mão – Bonde do Tigrão)
Quer ficar? Quer ficar?
O patrão não vai deixar
Quer ficar? Quer ficar?
O patrão não vai deixar
Passaralho é cruelzão
É, sim, é, sim
Vai cortar teu cabeção
Vai, sim, vai, sim
Vai mostrar quem é o patrão
Dar um pé no popozão
Então congela, congela
Congela o empregão
Limpa a gavetinha
Tem mais vaga, não
É o corte na redação.
Diploma é coisa do passado
(versão de Beijo na boca – Furacão 2000)
Nosso diploma é coisa do passado
A moda agora é
Registro liberado.
Estressadinha
(versão de Atoladinha – Tati Quebra-Barraco)
Piririn, piririn, piririn
Alguém ligou pra mim
Piririn, piririn, piririn
Alguém ligou pra mim
Quem é?
Sou eu, o assessor
E uma pauta vou te dar
Exclusiva e diferente
O release vou mandar
Vai me deixar em paz?
Não, não, vou perturbar
Vai me deixar em paz?
Não, não, vou perturbar
Tô ficando estressadinha
Tô ficando estressadinha
Tô ficando estressadinha
Calma, calma, pauteirinha.
Conquista
(versão de Conquista – Claudinho e Buchecha)
Sabe (thu-ru-ru-ru)
Estou louco pra escrever (oh, yes)
Sabe (thu-ru-ru-ru)
Jornalista eu quero ser (iê-iê-iê-iê)
Sabe (thu-ru-ru-ru)
Estou louco pra escrever (oh, yes)
Sabe (thu-ru-ru-ru)
Jornalista eu quero ser (iê-iê-iê-iê)
E a porra do tempo não passa
E eu quero ter
Um emprego, enfim
Nada se compara
Ao tal do fazer
Tô muito a fim
De gravar, apurar
E depois publicar
No jornal, meu amor
Facul tem que acabar!
Oh, yes, oh, yes!
Já faz mais de ano
Que eu tô estudando
Vidinha pau no cu
Quero adrenalina
Sentir alegria e dor
Na real tudo fica blue.
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Redação
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
As telenovelas e o jornalismo
Pauta Nostra
Insensato Pescoção
Redazione
Roque Pauteiro
Pecado Editorial
Estressadíssima
Rainha da Cascata
Sem Hora pro Destino
Estúpido Artigo
Workin’ Days
Que Repórter Sou Eu?
Os Editores Também Choram
Direito de Folgar
Éramos Seis Redatores (antes do passaralho)
A Traça Comeu (meu velho portfólio)
Sem Laços com a Família
A História de Ana Rádio e Zé Televisão
Um Frila Caiu do Céu
A Foca Isaura
Leia mais: Redação em chamas
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Rainha da Cascata
Sem Hora pro Destino
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Workin’ Days
Que Repórter Sou Eu?
Os Editores Também Choram
Direito de Folgar
Éramos Seis Redatores (antes do passaralho)
A Traça Comeu (meu velho portfólio)
Sem Laços com a Família
A História de Ana Rádio e Zé Televisão
Um Frila Caiu do Céu
A Foca Isaura
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sexta-feira, 8 de julho de 2011
Redação
Toques de telefone que se misturam ao barulho de gavetas que se abrem e fecham em descompasso com o som das teclas dos computadores e vozes finas e grossas e estridentes que contam piadas e fofocam e brigam com o chefe e fazem entrevistas e gritam com assessores num coral desafinado.
TVs penduradas aqui ali acolá com telas que vomitam berros do Datena em dessintonia com o inglês da CNN e os boletins da Globo News até o esperado boa noite do Jornal Nacional e o futebol do pay-per-view que atrai uma horda de curiosos e palpiteiros que cercam o repórter que faz a crítica de Flamengo e Corinthians e xingam o juiz e gritam gol como se estivessem num boteco.
Mesas com bloquinhos com canetas com gravadores com mouse pads imundos cercados de porta-retratos da mãe e do filho e do marido que disputam espaço com fios de computador que descem ao chão pelas pernas do repórter e se enroscam numa cadeira de rodinhas boa de atacar cifose lordose escoliose.
Assessores que desfilam com sacolinhas de jabás e esbarram nos repórteres e fotógrafos que estão de saída pra rua e nos repórteres e fotógrafos que estão de volta da rua e numa correria danada tropeçam em crianças da excursão escolar àquele zoológico com focas e antas e macacos velhos cada qual na sua jaula de trabalho.
Um cheiro de café em desarmonia com o cecê de sovacos de dedicados jornalistas que passaram o dia todo em pauta com seu Rexona vencido e agora esticam seus braços sobre teclados até altas horas para que a porra do jornal enfim feche e no dia seguinte todo esse caos comece de novo e de novo e de novo.
Já comprou o livro do Duda Rangel? Conheça a loja aqui, curta, compartilhe. Frete grátis para todo o Brasil.
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TVs penduradas aqui ali acolá com telas que vomitam berros do Datena em dessintonia com o inglês da CNN e os boletins da Globo News até o esperado boa noite do Jornal Nacional e o futebol do pay-per-view que atrai uma horda de curiosos e palpiteiros que cercam o repórter que faz a crítica de Flamengo e Corinthians e xingam o juiz e gritam gol como se estivessem num boteco.
Mesas com bloquinhos com canetas com gravadores com mouse pads imundos cercados de porta-retratos da mãe e do filho e do marido que disputam espaço com fios de computador que descem ao chão pelas pernas do repórter e se enroscam numa cadeira de rodinhas boa de atacar cifose lordose escoliose.
Assessores que desfilam com sacolinhas de jabás e esbarram nos repórteres e fotógrafos que estão de saída pra rua e nos repórteres e fotógrafos que estão de volta da rua e numa correria danada tropeçam em crianças da excursão escolar àquele zoológico com focas e antas e macacos velhos cada qual na sua jaula de trabalho.
Um cheiro de café em desarmonia com o cecê de sovacos de dedicados jornalistas que passaram o dia todo em pauta com seu Rexona vencido e agora esticam seus braços sobre teclados até altas horas para que a porra do jornal enfim feche e no dia seguinte todo esse caos comece de novo e de novo e de novo.
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segunda-feira, 25 de abril de 2011
Manual do guerrilheiro da redação
A liberdade de imprensa avançou muito com a democracia, mas a liberdade do jornalista numa empresa de comunicação ainda é desrespeitada. Abaixo, companheiros, um guia de sobrevivência e de como enfrentar o inimigo, também chamado de patrão.
Se publicar algum comentário crítico ao seu próprio jornal no Twitter ou em outras redes, jamais revele sua identidade. Utilize disfarces. Mostrar a cara significa ser demitido.
Se for agitar uma greve por mais liberdade ou melhores salários, evite reuniões pelos corredores da redação ou na máquina de café. Opte pela clandestinidade dos bares.
Para ninguém desconfiar de seu envolvimento com o movimento, diga “sim” aos mimos do patrão, como festinhas de fim de ano. Recusar jabás do sistema é cair na armadilha.
Para ninguém desconfiar que você está verdadeiramente lutando pelos jornalistas, torne-se líder do sindicato da categoria. No sindicato, o patrão não irá vê-lo como uma ameaça.
Nos plantões intermináveis em hospitais e delegacias, dissemine as idéias subversivas a outros jornalistas, mas com cautela. Cuidado com os motoristas fofoqueiros e traíras.
Suporte com dignidade a tortura, como ser obrigado a fazer matérias institucionais só falando bem do jornal, e jamais seja um delator dos demais companheiros do movimento.
Num interrogatório, se o patrão disser que está pegando sua mulher, releve. É terrorismo psicológico. Pense que, mesmo se for verdade, ele é apenas mais um pegando a sua mulher.
Não descarte a ação violenta. Seqüestrar o patrão pode ser uma boa estratégia. Só liberte o desgraçado se ele se comprometer a não mais publicar matéria chapa-branca em favor deste ou daquele governo, a pagar as horas extras, e a trocar a máquina de café da redação por uma mais moderna, com pelo menos dois tipos de capuccino mais chocolate quente.
Se publicar algum comentário crítico ao seu próprio jornal no Twitter ou em outras redes, jamais revele sua identidade. Utilize disfarces. Mostrar a cara significa ser demitido.
Se for agitar uma greve por mais liberdade ou melhores salários, evite reuniões pelos corredores da redação ou na máquina de café. Opte pela clandestinidade dos bares.
Para ninguém desconfiar de seu envolvimento com o movimento, diga “sim” aos mimos do patrão, como festinhas de fim de ano. Recusar jabás do sistema é cair na armadilha.
Para ninguém desconfiar que você está verdadeiramente lutando pelos jornalistas, torne-se líder do sindicato da categoria. No sindicato, o patrão não irá vê-lo como uma ameaça.
Nos plantões intermináveis em hospitais e delegacias, dissemine as idéias subversivas a outros jornalistas, mas com cautela. Cuidado com os motoristas fofoqueiros e traíras.
Suporte com dignidade a tortura, como ser obrigado a fazer matérias institucionais só falando bem do jornal, e jamais seja um delator dos demais companheiros do movimento.
Num interrogatório, se o patrão disser que está pegando sua mulher, releve. É terrorismo psicológico. Pense que, mesmo se for verdade, ele é apenas mais um pegando a sua mulher.
Não descarte a ação violenta. Seqüestrar o patrão pode ser uma boa estratégia. Só liberte o desgraçado se ele se comprometer a não mais publicar matéria chapa-branca em favor deste ou daquele governo, a pagar as horas extras, e a trocar a máquina de café da redação por uma mais moderna, com pelo menos dois tipos de capuccino mais chocolate quente.
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segunda-feira, 11 de abril de 2011
Assessores de imprensa X galera da redação
- Alô, Caderno de Cultura.
- Boa tarde, com quem eu falo?
- Pedro.
- Pedro, aqui é o Edson, da Pauta Criativa Comunicação, tudo bom?
- Edson, estamos no fechamento. Liga depois, por favor.
- Vocês receberam o release do show do Bee Gees Cover?
- Não sei, mas agora não vai dar pra ver isso.
- Pedro, é só uma checadinha.
- Cara, não deu pra entender que estamos no fechamento?
- Mas é rapidi...
(tu-tu-tu)
- Vou mandar as perguntas por e-mail, ok?
- Fátima, nosso diretor comercial é muito ocupado e prefere atender a imprensa por telefone. É mais ágil.
- Querido, eu também sou muitíssimo ocupada aqui na redação. Vou mandar por e-mail mesmo.
- Quantas perguntas são, Fátima?
- Umas 20?
- Vinte?
- Vinte. Algum problema?
- Bom, vou ver se ele consegue responder tudo até sexta.
- Querido, tá louco? Aqui é jornal diário. Preciso das respostas em, no máximo, no máximo, uma hora. E presta atenção: quero também foto em alta resolução. E boa, hein?
- Bom dia, eu queria falar com o chefe de Reportagem. É o Marcos Araújo, né?
- Olha, o Marcos não trabalha aqui no jornal há mais de um ano.
- Mas tenho certeza que ele abraçou um novo desafio profissional.
- O Marcos morreu.
- Putz, morreu? Eu sinto muito mesmo. Não sabia.
- Tudo bem.
- Me desculpe. Estes mailings de imprensa vivem desatualizados.
- Tudo bem.
- Deixa então eu aproveitar pra falar da minha pauta com você mesma.
- Manda pro meu e-mail, por favor, que depois eu leio com calma. Pode ser?
- Vou mandar, sim, mas antes quero falar do novo tratamento para remoção de manchas na pele que é bár-ba-ro. Sabe bárbaro?
- Olha, você ligou no Caderno de Política. Ciência & Saúde é no ramal 3526.
- Tuuuudo bem. Vou ligar pra lá agora.
- Só um detalhe: o pessoal lá só chega à tarde.
- Alô.
- Alô. Edson? É Pedro, do Caderno de Cultura, tudo jóia?
- Sim, Pedro, do Caderno de Cultura, tudo jóia.
- Deixa eu te perguntar uma coisa, amigão: você tem ingresso sobrando pro show do Bee Gees Cover? Minha namorada adora Bee Gees, tá louca pra ir.
- Vocês não deram nem uma notinha, né? Viu pelo menos o release?
- Pois é, não teve espaço. Fica pra próxima. O show promete, hein?
- O show promete.
- E o ingresso rola?
- Pode ser, pode ser. Aguarda só um minutinho na linha que eu vou falar com a minha gerente.
- Tudo bem.
(tu-tu-tu)
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- Boa tarde, com quem eu falo?
- Pedro.
- Pedro, aqui é o Edson, da Pauta Criativa Comunicação, tudo bom?
- Edson, estamos no fechamento. Liga depois, por favor.
- Vocês receberam o release do show do Bee Gees Cover?
- Não sei, mas agora não vai dar pra ver isso.
- Pedro, é só uma checadinha.
- Cara, não deu pra entender que estamos no fechamento?
- Mas é rapidi...
(tu-tu-tu)
- Vou mandar as perguntas por e-mail, ok?
- Fátima, nosso diretor comercial é muito ocupado e prefere atender a imprensa por telefone. É mais ágil.
- Querido, eu também sou muitíssimo ocupada aqui na redação. Vou mandar por e-mail mesmo.
- Quantas perguntas são, Fátima?
- Umas 20?
- Vinte?
- Vinte. Algum problema?
- Bom, vou ver se ele consegue responder tudo até sexta.
- Querido, tá louco? Aqui é jornal diário. Preciso das respostas em, no máximo, no máximo, uma hora. E presta atenção: quero também foto em alta resolução. E boa, hein?
- Bom dia, eu queria falar com o chefe de Reportagem. É o Marcos Araújo, né?
- Olha, o Marcos não trabalha aqui no jornal há mais de um ano.
- Mas tenho certeza que ele abraçou um novo desafio profissional.
- O Marcos morreu.
- Putz, morreu? Eu sinto muito mesmo. Não sabia.
- Tudo bem.
- Me desculpe. Estes mailings de imprensa vivem desatualizados.
- Tudo bem.
- Deixa então eu aproveitar pra falar da minha pauta com você mesma.
- Manda pro meu e-mail, por favor, que depois eu leio com calma. Pode ser?
- Vou mandar, sim, mas antes quero falar do novo tratamento para remoção de manchas na pele que é bár-ba-ro. Sabe bárbaro?
- Olha, você ligou no Caderno de Política. Ciência & Saúde é no ramal 3526.
- Tuuuudo bem. Vou ligar pra lá agora.
- Só um detalhe: o pessoal lá só chega à tarde.
- Alô.
- Alô. Edson? É Pedro, do Caderno de Cultura, tudo jóia?
- Sim, Pedro, do Caderno de Cultura, tudo jóia.
- Deixa eu te perguntar uma coisa, amigão: você tem ingresso sobrando pro show do Bee Gees Cover? Minha namorada adora Bee Gees, tá louca pra ir.
- Vocês não deram nem uma notinha, né? Viu pelo menos o release?
- Pois é, não teve espaço. Fica pra próxima. O show promete, hein?
- O show promete.
- E o ingresso rola?
- Pode ser, pode ser. Aguarda só um minutinho na linha que eu vou falar com a minha gerente.
- Tudo bem.
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sexta-feira, 18 de março de 2011
Guinness Book das redações brasileiras
O carioca Robério Madureira é o jornalista que fez o maior número de perguntas em uma única coletiva de imprensa lotada de repórteres: 12. Robério só não foi além em sua façanha, porque foi contido por repórteres enfurecidos, que imobilizaram o falastrão e enfiaram um pano com éter em seu nariz. Robério perdeu o resto da coletiva, desmaiado entre os cabos dos microfones, mas entrou para o Guinness.
O paranaense Teobaldo Chaves é o jornalista que mais tempo trabalhou sem folgas. Em 2002, emendou importantes coberturas, como a Copa do Mundo, a eleição presidencial e a posse de Paulo Coelho na ABL. Foram 120 dias seguidos. Além de ter o nome registrado no livro dos recordes, Teobaldo recebeu do chefe uma quarta-feira livre para descansar e um tapinha nas costas. Ele ainda aguarda o pagamento das horas extras.
O paulista Laércio Maia é o repórter que conseguiu almoçar em menos tempo durante uma pauta. Em 2009, levou 19 segundos para devorar duas coxinhas de frango com molho de pimenta. O recorde anterior era de outro paulista, que, em 2004, demorou 21 segundos para comer três bolachas cream craker com um copo de água. Laércio busca agora uma nova marca: comer um prato de escondidinho de salsicha em apenas 15 segundos.
O mineiro Juvenal de Oliveira é considerado o maior “Zé Mané” da imprensa brasileira. São registrados 30 anos de sapos engolidos ao longo da carreira. Juvenal já aceitou, por exemplo, ser mandado embora e recontratado como PJ, receber salário com atraso, fazer matéria política chapa-branca a pedido do diretor de Redação, enviar texto para entrevistado aprovar, cobrir show do Latino, do KLB, da Vanusa.
A reunião de pauta mais longa que se tem notícia aconteceu num jornal da Bahia, em 1982: foram 16 horas de muita reflexão acerca do “posicionamento da imprensa enquanto veículo de comunicação social em relação à problemática da divulgação de fatos noticiosos sensacionalistas à sociedade”. A reunião só acabou porque era preciso fechar o jornal. O problema foi que não havia matérias para a edição do dia seguinte. Depois disso, a direção do jornal decidiu que trocaria as redes de balanço por mesa e cadeiras na sala de reunião. Ou não.
A gaúcha Bia Spidermann é a dona do maior lead. Em 1994, precisou de 25 linhas para dar conta daquele negócio de “o que, quem, quando, onde, como e por quê”. Nunca foi batida por outro jornalista, embora existam muitos tentando por aí. A Associação Brasileira dos Jornalistas que Fazem Manuais de Redação a tachou de doente. Há dois anos está internada em uma clínica de reabilitação para repórteres viciados em nariz-de-cera.
O paranaense Teobaldo Chaves é o jornalista que mais tempo trabalhou sem folgas. Em 2002, emendou importantes coberturas, como a Copa do Mundo, a eleição presidencial e a posse de Paulo Coelho na ABL. Foram 120 dias seguidos. Além de ter o nome registrado no livro dos recordes, Teobaldo recebeu do chefe uma quarta-feira livre para descansar e um tapinha nas costas. Ele ainda aguarda o pagamento das horas extras.
O paulista Laércio Maia é o repórter que conseguiu almoçar em menos tempo durante uma pauta. Em 2009, levou 19 segundos para devorar duas coxinhas de frango com molho de pimenta. O recorde anterior era de outro paulista, que, em 2004, demorou 21 segundos para comer três bolachas cream craker com um copo de água. Laércio busca agora uma nova marca: comer um prato de escondidinho de salsicha em apenas 15 segundos.
O mineiro Juvenal de Oliveira é considerado o maior “Zé Mané” da imprensa brasileira. São registrados 30 anos de sapos engolidos ao longo da carreira. Juvenal já aceitou, por exemplo, ser mandado embora e recontratado como PJ, receber salário com atraso, fazer matéria política chapa-branca a pedido do diretor de Redação, enviar texto para entrevistado aprovar, cobrir show do Latino, do KLB, da Vanusa.
A reunião de pauta mais longa que se tem notícia aconteceu num jornal da Bahia, em 1982: foram 16 horas de muita reflexão acerca do “posicionamento da imprensa enquanto veículo de comunicação social em relação à problemática da divulgação de fatos noticiosos sensacionalistas à sociedade”. A reunião só acabou porque era preciso fechar o jornal. O problema foi que não havia matérias para a edição do dia seguinte. Depois disso, a direção do jornal decidiu que trocaria as redes de balanço por mesa e cadeiras na sala de reunião. Ou não.
A gaúcha Bia Spidermann é a dona do maior lead. Em 1994, precisou de 25 linhas para dar conta daquele negócio de “o que, quem, quando, onde, como e por quê”. Nunca foi batida por outro jornalista, embora existam muitos tentando por aí. A Associação Brasileira dos Jornalistas que Fazem Manuais de Redação a tachou de doente. Há dois anos está internada em uma clínica de reabilitação para repórteres viciados em nariz-de-cera.
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sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Saudade (poema do jornalista desempregado)
Saudade dos tempos de redação
Do café salvador das madrugadas
Das vozes ao telefone misturadas
Das tantas matérias apuradas.
Saudade dos tempos de redação
Do sofrer, tensão, xingamento
Do suspiro após fechamento
Do pedido em vão de aumento.
Saudade dos tempos de redação
Da chegada apressada da rua
Da piada mais tosca e chula
Do sonho com a foca nua.
Saudade dos tempos de redação
Da falta total de rotina
Dos planos pro boteco da esquina
Do rir da própria sina.
Da sina.
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Do café salvador das madrugadas
Das vozes ao telefone misturadas
Das tantas matérias apuradas.
Saudade dos tempos de redação
Do sofrer, tensão, xingamento
Do suspiro após fechamento
Do pedido em vão de aumento.
Saudade dos tempos de redação
Da chegada apressada da rua
Da piada mais tosca e chula
Do sonho com a foca nua.
Saudade dos tempos de redação
Da falta total de rotina
Dos planos pro boteco da esquina
Do rir da própria sina.
Da sina.
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segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Crônica sobre o frila fixo
Ela não é a mulher oficial, não está presente no almoço da Páscoa, nem na ceia de Natal. Mas também não é uma avulsa qualquer. Mora no flat modesto do centro que ele paga, local em que se consome o sexo clandestino. E frenético. Ser a amante fixa não é o que ela esperava para sua vida, mas é melhor do que ser uma solteirona amarga, como as amigas.
No jornalismo, o frila fixo tem o papel da amante fixa. Ele não tem vínculo empregatício com a empresa de comunicação. Mas também não é um avulso qualquer. Está diariamente na redação, explorado como qualquer outro, apenas sem direitos trabalhistas. Não é o que ele esperava para sua vida, mas é melhor do que estar desempregado, como os amigos.
Assim como a amante fixa sonha um dia ser a patroa, com direito aos eventos familiares e a uma vida estável, o frila fixo também deseja o vínculo oficial, com direito aos benefícios da carteira assinada. E a uma vida estável.
Comecei no jornalismo como frila fixo. Cobertura de férias da Cidinha, repórter de Turismo, que naquele ano foi com o marido descansar em Ubatuba. Ou foi Peruíbe? Faltava pouco tempo para a Cidinha voltar, naturalmente toda picada por borrachudos, e eu já me imaginava de novo na sarjeta. Foi quando descobri que a Norma, repórter de Economia, sairia de licença-maternidade. Graças ao milagre da vida, no caso da vida do filho da Norma, eu alcancei o milagre de ficar mais quatro meses como frila fixo.
Tão logo o jornalista se torna um frila fixo, conhece algumas artimanhas, como o esquema da nota fiscal. O frila fixo só recebe a miséria de seu “salário” se apresentar uma nota. O Reinaldo era o rei da nota fiscal na redação. “Duda, o esquema é muito bom, firma em Carapicuíba. Conhece Carapicuíba? Lá se paga uma merreca de imposto”, explicava. Por muito tempo, o Reinaldo foi o meu fornecedor de notas fiscais de Carapicuíba.
Como ocorre com muita gente, fui pulando de cobertura de férias em cobertura de férias, de licença-maternidade em licença-maternidade, até um dia ser oficialmente contratado. A amante virou esposa. FGTS, 13º salário e a esperança de uma vida melhor.
No início, você até se empolga, mas logo se dá conta de que a tal estabilidade não é grande coisa. No caso das amantes, muitas percebem que ser a oficial é até pior. E ficam cheias de saudade do sexo clandestino e frenético no flat modesto do centro.
No jornalismo, o frila fixo tem o papel da amante fixa. Ele não tem vínculo empregatício com a empresa de comunicação. Mas também não é um avulso qualquer. Está diariamente na redação, explorado como qualquer outro, apenas sem direitos trabalhistas. Não é o que ele esperava para sua vida, mas é melhor do que estar desempregado, como os amigos.
Assim como a amante fixa sonha um dia ser a patroa, com direito aos eventos familiares e a uma vida estável, o frila fixo também deseja o vínculo oficial, com direito aos benefícios da carteira assinada. E a uma vida estável.
Comecei no jornalismo como frila fixo. Cobertura de férias da Cidinha, repórter de Turismo, que naquele ano foi com o marido descansar em Ubatuba. Ou foi Peruíbe? Faltava pouco tempo para a Cidinha voltar, naturalmente toda picada por borrachudos, e eu já me imaginava de novo na sarjeta. Foi quando descobri que a Norma, repórter de Economia, sairia de licença-maternidade. Graças ao milagre da vida, no caso da vida do filho da Norma, eu alcancei o milagre de ficar mais quatro meses como frila fixo.
Tão logo o jornalista se torna um frila fixo, conhece algumas artimanhas, como o esquema da nota fiscal. O frila fixo só recebe a miséria de seu “salário” se apresentar uma nota. O Reinaldo era o rei da nota fiscal na redação. “Duda, o esquema é muito bom, firma em Carapicuíba. Conhece Carapicuíba? Lá se paga uma merreca de imposto”, explicava. Por muito tempo, o Reinaldo foi o meu fornecedor de notas fiscais de Carapicuíba.
Como ocorre com muita gente, fui pulando de cobertura de férias em cobertura de férias, de licença-maternidade em licença-maternidade, até um dia ser oficialmente contratado. A amante virou esposa. FGTS, 13º salário e a esperança de uma vida melhor.
No início, você até se empolga, mas logo se dá conta de que a tal estabilidade não é grande coisa. No caso das amantes, muitas percebem que ser a oficial é até pior. E ficam cheias de saudade do sexo clandestino e frenético no flat modesto do centro.
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sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Redação em chamas
Paixão, intriga, mistério, plantões intermináveis, medo de perder o emprego e muito mais. “Redação em chamas” é o primeiro dramalhão mexicano produzido na Colômbia e exibido na televisão brasileira que trata exclusivamente do universo jornalístico. É também a primeira telenovela da história que não tem núcleo rico. Conheça a seguir os atores e os papéis mais importantes do folhetim que vai mexer com as suas emoções:
María José Villegas, a Francisca do caderno de Política, é a mocinha da trama, uma jovem pura que acredita no amor verdadeiro e na independência da imprensa. Ela deixa o interior para trabalhar, como foca, no principal jornal da capital. Em pouco tempo na redação, começa a conhecer os perigos da profissão, como falar mal do político apoiado pela casa. A vida de Francisca muda quando ela troca olhares furtivos com Ramón, o editor-executivo, ao lado da máquina de café. Tem início uma tórrida paixão, ameaçada pelo ciúme e pela ira de María Clara, repórter especial e namorada de Ramón.
Christian Caballos, o Ramón da edição-executiva, é um homem ambicioso que luta, há anos, para chegar ao cargo de diretor de redação, ocupado por seu pai, o senhor Alfredo. Octogenário excêntrico, o pai passa o dia caminhando pela redação com suas pernas mecânicas, fumando um cachimbo fedorento e bulinando estagiárias. O senhor Alfredo não confia na competência do filho e pensa em deixar o cargo a outro sucessor. Ramón, obcecado em conseguir a promoção e a confiança do pai, sofre uma grande transformação quando conhece a ingênua Francisca. Tem início uma tórrida paixão, ameaçada pelo ciúme e pela ira de María Clara, repórter especial e sua namorada.
Erika Mendoza, a María Clara da reportagem especial, é a vilã da trama. Sem talento e ética, conseguiu um cargo importante no jornal apenas por ser a namorada de Ramón. Quase não trabalha e passa o tempo todo na máquina de café, arquitetando planos diabólicos contra o pessoal do núcleo bonzinho, principalmente a doce Francisca. Tem também um relacionamento difícil com o senhor Alfredo por não suportar o fedor de seu cachimbo e a rejeição do velho a seu amado Ramón.
Pepe Morales, o Juan da diagramação, é o filho bastardo do senhor Alfredo com uma prostituta, concebido há mais de 20 anos, quando Alfredo ainda não havia perdido as duas pernas num trágico acidente automobilístico. Juan arruma um emprego no jornal para aproximar-se do pai, mas não tem coragem de fazer tão grande revelação ao velho, que desconhece a paternidade. O senhor Alfredo nutre grande carinho por Juan, a quem sonha um dia transformar em seu sucessor, aumentando o ódio de Ramón.
Pablo Montalba, o Ricardo do caderno de Esportes, integra o núcleo gay da novela. Repórter de futebol, vive em um ambiente machista e atormenta-se pelo fato de não assumir sua homossexualidade. Ao conhecer Carlos, o jovem delicado que passa a ser responsável pelo roteiro cultural do jornal, toma coragem para sair do armário. Ricardo sofrerá grande preconceito, mas seu amor por Carlos triunfará. No fim do folhetim, ele deve protagonizar o primeiro beijo gay jornalístico da televisão brasileira. E colombiana.
Luis Miguel Cárdenas, o Panchito da Fotografia, promete trazer para as redações o debate sobre o mal da dependência química. Mesmo na era da fotografia digital, Panchito, um homem de meia-idade, não consegue largar o vício por agentes químicos usados na revelação dos antigos filmes. Com os olhos vermelhos, o fotógrafo sempre chega atrasado à redação. Vive preso às suas viagens em um quarto de sua casa, onde segue revelando filmes em uma banheirinha de bebê.
Isabel Moreno, a Esmeralda do caderno de Geral, em um dos papéis mais difíceis e emocionantes de sua carreira, descobre, logo nos primeiros capítulos, que tem uma doença incurável e apenas dois meses de vida. Passa a aproveitar cada segundo com muita intensidade. Além de lutar pelo amor de Ricardo – sem saber que o repórter de Esportes é gay – Esmeralda assume o desafio de, enfim, escrever a grande matéria de sua vida. O que não conseguiu em 18 anos de carreira, terá de cumprir agora em 60 dias. Conseguirá?
Justiniano Escobar, o Rodolfo do caderno de Economia, é o destaque do núcleo engraçadinho. Além de contar velhas histórias de jornalistas com humor e sarcasmo, como a do repórter com surdez no ouvido direito que escutava as respostas dos entrevistados sempre pela metade, Rodolfo tem como ponto forte de seu repertório a imitação clandestina que faz do senhor Alfredo, caminhando, todo torto e desajeitado, pela redação.
María José Villegas, a Francisca do caderno de Política, é a mocinha da trama, uma jovem pura que acredita no amor verdadeiro e na independência da imprensa. Ela deixa o interior para trabalhar, como foca, no principal jornal da capital. Em pouco tempo na redação, começa a conhecer os perigos da profissão, como falar mal do político apoiado pela casa. A vida de Francisca muda quando ela troca olhares furtivos com Ramón, o editor-executivo, ao lado da máquina de café. Tem início uma tórrida paixão, ameaçada pelo ciúme e pela ira de María Clara, repórter especial e namorada de Ramón.
Christian Caballos, o Ramón da edição-executiva, é um homem ambicioso que luta, há anos, para chegar ao cargo de diretor de redação, ocupado por seu pai, o senhor Alfredo. Octogenário excêntrico, o pai passa o dia caminhando pela redação com suas pernas mecânicas, fumando um cachimbo fedorento e bulinando estagiárias. O senhor Alfredo não confia na competência do filho e pensa em deixar o cargo a outro sucessor. Ramón, obcecado em conseguir a promoção e a confiança do pai, sofre uma grande transformação quando conhece a ingênua Francisca. Tem início uma tórrida paixão, ameaçada pelo ciúme e pela ira de María Clara, repórter especial e sua namorada.
Erika Mendoza, a María Clara da reportagem especial, é a vilã da trama. Sem talento e ética, conseguiu um cargo importante no jornal apenas por ser a namorada de Ramón. Quase não trabalha e passa o tempo todo na máquina de café, arquitetando planos diabólicos contra o pessoal do núcleo bonzinho, principalmente a doce Francisca. Tem também um relacionamento difícil com o senhor Alfredo por não suportar o fedor de seu cachimbo e a rejeição do velho a seu amado Ramón.
Pepe Morales, o Juan da diagramação, é o filho bastardo do senhor Alfredo com uma prostituta, concebido há mais de 20 anos, quando Alfredo ainda não havia perdido as duas pernas num trágico acidente automobilístico. Juan arruma um emprego no jornal para aproximar-se do pai, mas não tem coragem de fazer tão grande revelação ao velho, que desconhece a paternidade. O senhor Alfredo nutre grande carinho por Juan, a quem sonha um dia transformar em seu sucessor, aumentando o ódio de Ramón.
Pablo Montalba, o Ricardo do caderno de Esportes, integra o núcleo gay da novela. Repórter de futebol, vive em um ambiente machista e atormenta-se pelo fato de não assumir sua homossexualidade. Ao conhecer Carlos, o jovem delicado que passa a ser responsável pelo roteiro cultural do jornal, toma coragem para sair do armário. Ricardo sofrerá grande preconceito, mas seu amor por Carlos triunfará. No fim do folhetim, ele deve protagonizar o primeiro beijo gay jornalístico da televisão brasileira. E colombiana.
Luis Miguel Cárdenas, o Panchito da Fotografia, promete trazer para as redações o debate sobre o mal da dependência química. Mesmo na era da fotografia digital, Panchito, um homem de meia-idade, não consegue largar o vício por agentes químicos usados na revelação dos antigos filmes. Com os olhos vermelhos, o fotógrafo sempre chega atrasado à redação. Vive preso às suas viagens em um quarto de sua casa, onde segue revelando filmes em uma banheirinha de bebê.
Isabel Moreno, a Esmeralda do caderno de Geral, em um dos papéis mais difíceis e emocionantes de sua carreira, descobre, logo nos primeiros capítulos, que tem uma doença incurável e apenas dois meses de vida. Passa a aproveitar cada segundo com muita intensidade. Além de lutar pelo amor de Ricardo – sem saber que o repórter de Esportes é gay – Esmeralda assume o desafio de, enfim, escrever a grande matéria de sua vida. O que não conseguiu em 18 anos de carreira, terá de cumprir agora em 60 dias. Conseguirá?
Justiniano Escobar, o Rodolfo do caderno de Economia, é o destaque do núcleo engraçadinho. Além de contar velhas histórias de jornalistas com humor e sarcasmo, como a do repórter com surdez no ouvido direito que escutava as respostas dos entrevistados sempre pela metade, Rodolfo tem como ponto forte de seu repertório a imitação clandestina que faz do senhor Alfredo, caminhando, todo torto e desajeitado, pela redação.
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segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Unha encravada
Toda redação tem jornalista chato. É só olhar pro lado.
Tem o que chega atrasado à reunião de pauta e tenta saber tudo o que já rolou. O que lamenta que a pauta dos outros é sempre melhor. O que tem síndrome de perseguição. O desocupado que fica perguntando aos colegas, bem na hora do fechamento, se a Carolina Dieckmann vai ou não vai morrer na novela. O que faz a mesma piadinha sem graça em todo pescoção. O que vive pedindo a agenda de telefones dos outros emprestada. O que acha que sabe tudo. O que não pára de contar vantagem só porque deu um furinho de merda dia desses. O que adora dar palpite no texto alheio. O que tem piti quando dão palpite no seu texto. O que exige silêncio geral quando precisa fazer uma entrevista importante por telefone. O que corrige os erros de Português dos colegas até no café. O que trabalha em Esportes e só sabe falar de futebol. O que vende rifa com nome de mulher para aumentar a renda mensal. O que fica implorando voto para si próprio no concurso dos melhores jornalistas do ano. O que sacaneia quem vai ficar de plantão. O que inventa um novo passaralho a cada semana só para perturbar as almas mais aflitas. O que nunca vai ao bar porque a patroa não deixa. O que não pára de reclamar do trabalho, do salário, do chefe, do casamento, da unha encravada.
Toda redação tem jornalista chato. É impressão minha ou tem um monte de gente olhando pra você?
Tem o que chega atrasado à reunião de pauta e tenta saber tudo o que já rolou. O que lamenta que a pauta dos outros é sempre melhor. O que tem síndrome de perseguição. O desocupado que fica perguntando aos colegas, bem na hora do fechamento, se a Carolina Dieckmann vai ou não vai morrer na novela. O que faz a mesma piadinha sem graça em todo pescoção. O que vive pedindo a agenda de telefones dos outros emprestada. O que acha que sabe tudo. O que não pára de contar vantagem só porque deu um furinho de merda dia desses. O que adora dar palpite no texto alheio. O que tem piti quando dão palpite no seu texto. O que exige silêncio geral quando precisa fazer uma entrevista importante por telefone. O que corrige os erros de Português dos colegas até no café. O que trabalha em Esportes e só sabe falar de futebol. O que vende rifa com nome de mulher para aumentar a renda mensal. O que fica implorando voto para si próprio no concurso dos melhores jornalistas do ano. O que sacaneia quem vai ficar de plantão. O que inventa um novo passaralho a cada semana só para perturbar as almas mais aflitas. O que nunca vai ao bar porque a patroa não deixa. O que não pára de reclamar do trabalho, do salário, do chefe, do casamento, da unha encravada.
Toda redação tem jornalista chato. É impressão minha ou tem um monte de gente olhando pra você?
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010
A fantástica fábrica de notícias
Estava escrevendo a minha matéria. Compenetradíssimo. Queria loucamente comer alguma coisa, não tinha sequer almoçado, mas não podia parar para não perder a minha linha de raciocínio, que era uma merda, mas eu julgava sensacional. Uma mão pequena e delicada tocou o meu ombro. Quando me virei, vi uma menina de uns 10 anos, imóvel, olhar fixo. Que susto! Porra, ela parecia uma daquelas menininhas mortas de O Iluminado.
- Quer me matar do coração? É esse o seu plano macabro?, perguntei.
- O senhor é jornalista?
- Eu estou tentando escrever uma matéria importante, morto de fome, e você me surge do nada, me dá um susto enorme e agora quer saber se sou jornalista! Sim, eu sou. Tá feliz?
A menina ficou quieta.
Toda semana eram organizadas excursões escolares para a “fantástica fábrica de notícias”. Às vezes eram adolescentes, mas na maioria das ocasiões eram criancinhas como aquela menininha que queria me matar. Andavam sempre organizadamente, uma atrás da outra, como pediam as tias aos gritos. Mas sempre havia alguma criança que se perdia do grupo e começava a vagar sozinha entre jornalistas e suas sensacionais linhas de raciocínio.
O guia da garotada era um velho jornalista que, depois de se aposentar, decidiu apostar em uma nova carreira. Era um gozador. Sempre foi, desde os tempos de repórter. Ele levava as crianças à gráfica, ao setor comercial e à redação. Entre uma piada e outra, explicava como tudo funcionava, como nascia a notícia e como ela chegava à casa de todos. Na redação, gostava de falar, em voz bem alta, as principais regras a serem seguidas.
- Tomem muito cuidado com os jornalistas, crianças! A primeira regra é: jamais dêem comida aos jornalistas, mesmo que eles peçam. Regra dois: mantenham uma certa distância dos jornalistas. Alguns podem ser perigosos. E, por fim, regra 3: respeitem a tia de vocês e andem em grupos. Quem se perder corre o risco de ficar aqui para sempre.
E ria, sozinho.
- Você não tem medo de ficar perdida pra sempre na redação?, disse à menininha, que já não parecia mais querer me matar.
- Acho que eu gostaria de ficar aqui pra sempre. Eu quero ser jornalista.
- Ser jornalista? Você ficou maluca? Tanta coisa legal pra fazer nessa vida e você quer ser jornalista?
- Eu gosto, tio. Sabia que, na minha casa, eu fico lendo os jornais e as revistas do meu pai, imaginando um dia escrever as reportagens, ver meu nome lá nos textos?
Então surgiu a tia que, de longe e aos berros, chamava a menina de volta ao grupo.
- É, não vai ser desta vez que a senhorita ficará aqui pra sempre.
- É, mas um dia eu volto como jornalista formada. Se o senhor ainda estiver vivo, me verá.
- É bem provável que eu não esteja mais vivo.
A menina, sempre séria, agora sorriu e, antes de partir, abriu sua bolsinha, pegou um pacote com umas três bolachas recheadas que ainda restavam e me entregou.
- É pro senhor não morrer de fome, tio. Mas não conta pro guia que eu te dei comida, tá?
Já comprou o livro do Duda Rangel? Conheça a loja aqui, curta, compartilhe. Frete grátis para todo o Brasil.
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- Quer me matar do coração? É esse o seu plano macabro?, perguntei.
- O senhor é jornalista?
- Eu estou tentando escrever uma matéria importante, morto de fome, e você me surge do nada, me dá um susto enorme e agora quer saber se sou jornalista! Sim, eu sou. Tá feliz?
A menina ficou quieta.
Toda semana eram organizadas excursões escolares para a “fantástica fábrica de notícias”. Às vezes eram adolescentes, mas na maioria das ocasiões eram criancinhas como aquela menininha que queria me matar. Andavam sempre organizadamente, uma atrás da outra, como pediam as tias aos gritos. Mas sempre havia alguma criança que se perdia do grupo e começava a vagar sozinha entre jornalistas e suas sensacionais linhas de raciocínio.
O guia da garotada era um velho jornalista que, depois de se aposentar, decidiu apostar em uma nova carreira. Era um gozador. Sempre foi, desde os tempos de repórter. Ele levava as crianças à gráfica, ao setor comercial e à redação. Entre uma piada e outra, explicava como tudo funcionava, como nascia a notícia e como ela chegava à casa de todos. Na redação, gostava de falar, em voz bem alta, as principais regras a serem seguidas.
- Tomem muito cuidado com os jornalistas, crianças! A primeira regra é: jamais dêem comida aos jornalistas, mesmo que eles peçam. Regra dois: mantenham uma certa distância dos jornalistas. Alguns podem ser perigosos. E, por fim, regra 3: respeitem a tia de vocês e andem em grupos. Quem se perder corre o risco de ficar aqui para sempre.
E ria, sozinho.
- Você não tem medo de ficar perdida pra sempre na redação?, disse à menininha, que já não parecia mais querer me matar.
- Acho que eu gostaria de ficar aqui pra sempre. Eu quero ser jornalista.
- Ser jornalista? Você ficou maluca? Tanta coisa legal pra fazer nessa vida e você quer ser jornalista?
- Eu gosto, tio. Sabia que, na minha casa, eu fico lendo os jornais e as revistas do meu pai, imaginando um dia escrever as reportagens, ver meu nome lá nos textos?
Então surgiu a tia que, de longe e aos berros, chamava a menina de volta ao grupo.
- É, não vai ser desta vez que a senhorita ficará aqui pra sempre.
- É, mas um dia eu volto como jornalista formada. Se o senhor ainda estiver vivo, me verá.
- É bem provável que eu não esteja mais vivo.
A menina, sempre séria, agora sorriu e, antes de partir, abriu sua bolsinha, pegou um pacote com umas três bolachas recheadas que ainda restavam e me entregou.
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