Era um Gol simples, sem qualquer charme e com alguns amassados na lataria, mas os adesivos nas portas e no vidro traseiro conferiam ao carro um outro status. Aliás, não eram exatamente os adesivos, mas aquela palavra de dez letras que estava nos adesivos: REPORTAGEM.
A primeira vez que entrei no carro do jornal e segui para uma pauta pelas ruas da cidade, me senti subitamente importante, nobre, cheio de deliciosas ilusões. Em nada eu lembrava o foca ainda sem contrato de trabalho que chegara à redação de trem.
O carro de reportagem desperta a vaidade do jornalista. O repórter senta-se no banco ao lado do motorista, coloca os óculos escuros – mesmo nos dias chuvosos e cinzentos –, faz um esforço danado para driblar a cifose e conseguir deixar a coluna ereta, abaixa o vidro e fuma com desenvoltura. Quando o carro pára no farol, ele começa a investigar as pessoas comuns a seu redor e tem a certeza de que elas estão olhando para ele e pensando: “Nossa, o cara é jornalista, deve ser importante. Será que é da Globo? Queria levar a vida que ele leva”.
Sempre atrasado para a pauta, o jornalista sugere ao motorista que desrespeite algumas leis de trânsito, como avançar o sinal vermelho ou os limites de velocidade, afinal está num carro de reportagem, que tudo pode. As leis valem apenas para as pessoas comuns, as mesmas que olham para o jornalista com inveja e encantamento. O motorista, que também se sente importante com seus óculos escuros – mesmo nos dias chuvosos e cinzentos –, concorda com o jornalista e pisa fundo no acelerador.
O carro de reportagem é amigo dos carros da polícia, que também são diferenciados. A rua está interditada por causa de um protesto de moradores um pouco mais à frente, mas o policial dá sinal verde para o carro de reportagem furar o bloqueio. Para chegar com mais facilidade à sua pauta, o carro do jornalista tem o privilégio de subir na calçada e ir além dos limites estabelecidos às pessoas comuns. O carro estaciona e o repórter desce com a empáfia escrota de um anônimo que se sente uma estrela pop.
Naquela minha primeira viagem no carro de reportagem do jornal, voltei à redação com a sensação de ser “o cara” e, mesmo após algum tempo em terra firme, continuei extasiado pelo poder mentiroso dos adesivos. Só me dei conta do quão ordinário eu era quando, voltando para casa naquele mesmo dia, olhei fixamente para um outro adesivo na porta de um outro carro: “Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma”.
Mostrando postagens com marcador ilusões. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ilusões. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 26 de maio de 2010
A mentira que a vaidade do jornalista quer
Marcadores:
ilusões,
jornalista,
mentiras,
reportagem,
vaidade
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
O encantado mundo dos jornalistas
Existe, sim, uma maneira de um jornalista ou aspirante a jornalista ficar rico e famoso. E nem será preciso ganhar na loteria ou fazer o teste do sofá com o editor-executivo. Basta desembolsar 17,99 libras, um pouco mais de 50 reais, pelo jogo “Imagine: Journalist”, criado pela Nintendo para o console portátil DS. O game permite ao jogador “começar como colunista em um jornal local e terminar como um repórter internacional, com seu próprio programa de TV". Isso que é ascensão profissional.O jogo exige que os participantes realizem tarefas cotidianas de um jornalista (fazer uma entrevista, escrever um texto, apresentar uma notícia na TV). A simulação é tão simples e inocente que qualquer pessoa pode brincar, inclusive os sem-diploma. Apresenta um universo de glamour, em que o jornalista vive cercado de celebridades e encerra a carreira pilotando o seu próprio helicóptero. É um mundo de faz-de-conta, ideal para as crianças criarem as suas primeiras fantasias sobre a profissão. Pobrezinhas!
Se eu fosse o desenvolvedor deste jogo, acrescentaria alguns ingredientes de ação e terror, para dar um tom mais realista à aventura. Do tipo, se o repórter-jogador tomar um furo, terá de correr atrás da concorrência como um maluco, pressionado pelo chefe, sem folgas no trabalho. Se descumprir o deadline e entregar a matéria com atraso, será esquecido na redação, condenado a pautas banais. Se for mandado embora do emprego, será obrigado a lutar por frilas, num mercado de trevas e trocados.
– Duda, você é muito pessimista, me acusou um amigo que ouvira minhas sugestões para apimentar o game. É só um joguinho.
Ele tem razão: o jornalista pode, sim, viver num mundo feliz. Pelo menos, no mundo virtual.
Marcadores:
game,
ilusões,
jornalismo,
jornalista
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Travessura de velho
As ilusões do jovem jornalista são prejudiciais à saúde. No verso da ficha de inscrição das faculdades de jornalismo, o Ministério da Saúde deveria fazer tal advertência. Crenças num poder ilimitado de mudar o mundo ou numa vida cheia de glamour e dinheiro são perigosíssimas. Um dia a realidade vence a utopia, as ilusões viram desilusões e, para superar, só com o tempo ou terapia. No meu caso, virei blogueiro para me libertar de minhas desilusões (meu antigo drama está no post de estréia para quem quiser reler).
Há alguns deslumbramentos de jovem jornalista, que poderiam ser vistos de forma negativa também, mas são mais inofensivos e até gostosos de sentir. São mais modestos em suas pretensões. Há sensações na carreira de um jornalista bem típicas da juventude e precisam ser saboreadas na hora certa. Uma delas são as primeiras matérias assinadas num jornal.
Para um iniciante, é um prazer quase sexual, melhor, é um prazer bem maior do que o sexual. A minha primeira vez, jornalisticamente falando, foi na publicação da faculdade que funcionava como laboratório para os alunos. Matéria boba, assunto sem importância, mas eu não via a hora de ter a impressão final nas mãos. A razão: ver meu nome estampado na matéria me faria (e me fez) sentir, enfim, jornalista de verdade.
As primeiras matérias assinadas são saboreadas à exaustão. Não tem jeito: somos, desde cedo, impregnados de narcisismo e adoramos lamber a nossa cria. Somos como o pai orgulhoso que desfila com um bebê lindo no parque com cara de “fui eu que fiz”.
Minha primeira matéria assinada já levava o nome de Duda Rangel. O nome completo, de batismo, Carlos Eduardo Rangel, não caía bem. E isso nunca teve nada a ver com numerologia, juro por tudo de sagrado e profano deste mundo. Sempre acreditei que nome composto cansaria o leitor, não teria impacto, além do fato de nome composto lembrar bronca de mãe quando se é criança e apronta alguma travessura.
Às vezes, parecia até que eu corria até a pasta com as minhas matérias só para me certificar de que a assinatura ainda estava lá, que não tinha fugido. “A sua assinatura empreendeu fuga nesta manhã, mas dois investigadores já estão nas ruas para tentar encontrá-la e devolvê-la à sua matéria”, me diria um delegado qualquer se eu cobrasse providências. Mas assinaturas não empreendem fugas. Ficam lá, imóveis. Meu zelo era paranóico.
Nos últimos dias, eu me lembrei dessa história das assinaturas, fiquei resgatando as gostosas sensações passadas. Senti muita falta da juventude, dos tempos que não voltam mais. Como é estranho ter saudade de si mesmo, escreveu o dinamarquês Jacobsen. Certa nostalgia é indício de que não estamos sabendo envelhecer. “Carlos Eduardo, pare com essa coisa de nostalgia boba, meu filho. Viva seu presente!”, me diria a minha mãe, diante dessa minha última travessura.
Há alguns deslumbramentos de jovem jornalista, que poderiam ser vistos de forma negativa também, mas são mais inofensivos e até gostosos de sentir. São mais modestos em suas pretensões. Há sensações na carreira de um jornalista bem típicas da juventude e precisam ser saboreadas na hora certa. Uma delas são as primeiras matérias assinadas num jornal.
Para um iniciante, é um prazer quase sexual, melhor, é um prazer bem maior do que o sexual. A minha primeira vez, jornalisticamente falando, foi na publicação da faculdade que funcionava como laboratório para os alunos. Matéria boba, assunto sem importância, mas eu não via a hora de ter a impressão final nas mãos. A razão: ver meu nome estampado na matéria me faria (e me fez) sentir, enfim, jornalista de verdade.
As primeiras matérias assinadas são saboreadas à exaustão. Não tem jeito: somos, desde cedo, impregnados de narcisismo e adoramos lamber a nossa cria. Somos como o pai orgulhoso que desfila com um bebê lindo no parque com cara de “fui eu que fiz”.
Minha primeira matéria assinada já levava o nome de Duda Rangel. O nome completo, de batismo, Carlos Eduardo Rangel, não caía bem. E isso nunca teve nada a ver com numerologia, juro por tudo de sagrado e profano deste mundo. Sempre acreditei que nome composto cansaria o leitor, não teria impacto, além do fato de nome composto lembrar bronca de mãe quando se é criança e apronta alguma travessura.
Às vezes, parecia até que eu corria até a pasta com as minhas matérias só para me certificar de que a assinatura ainda estava lá, que não tinha fugido. “A sua assinatura empreendeu fuga nesta manhã, mas dois investigadores já estão nas ruas para tentar encontrá-la e devolvê-la à sua matéria”, me diria um delegado qualquer se eu cobrasse providências. Mas assinaturas não empreendem fugas. Ficam lá, imóveis. Meu zelo era paranóico.
Nos últimos dias, eu me lembrei dessa história das assinaturas, fiquei resgatando as gostosas sensações passadas. Senti muita falta da juventude, dos tempos que não voltam mais. Como é estranho ter saudade de si mesmo, escreveu o dinamarquês Jacobsen. Certa nostalgia é indício de que não estamos sabendo envelhecer. “Carlos Eduardo, pare com essa coisa de nostalgia boba, meu filho. Viva seu presente!”, me diria a minha mãe, diante dessa minha última travessura.
Marcadores:
desilusões perdidas,
foca,
ilusões,
jornalismo,
jornalista,
Memória
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
A cartomante
Acordei com o telefone. Era uma amiga, também jornalista, com uma proposta indecente. Ela queria me levar a uma cartomante, mãe Alzira. Insistiu, disse que a mulher era boa, que acertava tudo e sempre. Desde que li o conto “A cartomante”, do Machado de Assis, ainda na juventude, passei a desacreditar nessa gente que adivinha o futuro. E mais: estamos velhos demais para novas ilusões, disse à minha amiga. Mas ela insistia. As cartas poderiam dar uma pista sobre meu futuro profissional, quando voltaria a arranjar um novo trabalho legal. Será que rola um “trago seu emprego de volta em 10 dias?”, pensei.
- Na semana passada, mãe Alzira me disse que o meu ex-namorado, aquele que tinha me abandonado, voltaria a me procurar. Batata, Duda! Anteontem, ele reapareceu em casa!
Não teve jeito. Foi o tempo de tomar um banho e estávamos, minha amiga e eu, no metrô, rumo à casa da mãe Alzira. Eu fazia uma imagem clássica da vidente, estilo cigana, roupa colorida, maquiagem forte. Mas mãe Alzira era clean até demais.
- É problema de amor, meu querido?
- É problema de emprego, respondeu minha amiga. Ele está procurando emprego.
Mãe Alzira puxou umas três cartas, virou uma delas na mesa.
- Estou vendo um novo emprego para você, meu querido. E é coisa boa, salário alto, cargo importante, talvez diretor.
- Acho que a senhora tá fazendo confusão. Sou jornalista. Talvez as suas cartas não saibam, mas jornalista ganha mal demais.
- Está aqui, meu querido. Sabe que arcano é esse? Ele indica sucesso profissional, grande prosperidade financeira. Você vai brilhar muito no seu novo emprego.
- Me desculpe, mãe Alzira, mas está rolando um grande mal-entendido aqui. Já falei, sou jornalista, não sou engenheiro, nem fiz MBA em Marketing ou Gestão Estratégica...
- De repente, você vai mudar de área. Novos caminhos...
- Não consigo mudar. Eu adoro a minha profissão, mesmo ganhando mal ou nem ganhando.
Poucos minutos depois, minha amiga e eu estávamos novamente no metrô, sentados lado a lado, calados.
- Você ficou bravo comigo, né, Duda? Não curtiu a mãe Alzira.
- Achei a experiência ótima. Está me dando até inspiração para escrever um post sobre isso no blog.
Ela sorriu. E novamente ficamos calados.
- E você não me contou sobre a volta de seu ex-namorado! Estão juntos novamente?
- Então, Duda, ele voltou anteontem para a nossa casa, mas foi só para pegar um joystick do videogame que ele tinha esquecido. Disse que rolaria um “supercampeonato” com os amigos. A mãe Alzira acertou que ele voltaria, só omitiu essa parte do joystick...
Olhamos um para outro e gargalhamos, gargalhadas nada discretas no metrô.
- Na semana passada, mãe Alzira me disse que o meu ex-namorado, aquele que tinha me abandonado, voltaria a me procurar. Batata, Duda! Anteontem, ele reapareceu em casa!
Não teve jeito. Foi o tempo de tomar um banho e estávamos, minha amiga e eu, no metrô, rumo à casa da mãe Alzira. Eu fazia uma imagem clássica da vidente, estilo cigana, roupa colorida, maquiagem forte. Mas mãe Alzira era clean até demais.
- É problema de amor, meu querido?
- É problema de emprego, respondeu minha amiga. Ele está procurando emprego.
Mãe Alzira puxou umas três cartas, virou uma delas na mesa.
- Estou vendo um novo emprego para você, meu querido. E é coisa boa, salário alto, cargo importante, talvez diretor.
- Acho que a senhora tá fazendo confusão. Sou jornalista. Talvez as suas cartas não saibam, mas jornalista ganha mal demais.
- Está aqui, meu querido. Sabe que arcano é esse? Ele indica sucesso profissional, grande prosperidade financeira. Você vai brilhar muito no seu novo emprego.
- Me desculpe, mãe Alzira, mas está rolando um grande mal-entendido aqui. Já falei, sou jornalista, não sou engenheiro, nem fiz MBA em Marketing ou Gestão Estratégica...
- De repente, você vai mudar de área. Novos caminhos...
- Não consigo mudar. Eu adoro a minha profissão, mesmo ganhando mal ou nem ganhando.
Poucos minutos depois, minha amiga e eu estávamos novamente no metrô, sentados lado a lado, calados.
- Você ficou bravo comigo, né, Duda? Não curtiu a mãe Alzira.
- Achei a experiência ótima. Está me dando até inspiração para escrever um post sobre isso no blog.
Ela sorriu. E novamente ficamos calados.
- E você não me contou sobre a volta de seu ex-namorado! Estão juntos novamente?
- Então, Duda, ele voltou anteontem para a nossa casa, mas foi só para pegar um joystick do videogame que ele tinha esquecido. Disse que rolaria um “supercampeonato” com os amigos. A mãe Alzira acertou que ele voltaria, só omitiu essa parte do joystick...
Olhamos um para outro e gargalhamos, gargalhadas nada discretas no metrô.
Marcadores:
emprego,
ilusões,
jornalista
Assinar:
Postagens (Atom)