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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Retrato do jornalista quando velho


Coloque numa mesa de bar alguns jornalistas velhos. Uns três ou quatro. Preste atenção que a conversa vai girar quase toda sobre as histórias vividas. “Los viejos nos entretenemos con los tiempos idos”, já escreveu o chileno Roberto Bolaño. A vida do jornalista fica impregnada na memória, como cheiro de cigarro na camisa. Uma vez contador de causos, sempre contador de causos. De causos pitorescos, de preferência.

– Vocês se lembram daquela moça do caderno de Geral, uma baixinha, que era casada com o gordo do arquivo?
– A Nádia?
– Não, a Nádia era casada com um fotógrafo.
– Ah, sim, a Lurdes. O gordo do arquivo era o Pedrão.
– Porra, Lurdes, essa mesmo. Vocês se lembram da merda que ela fez uma vez?
– A história do release falso?
– Essa mesmo. Alguém escreveu um release falso sobre um remédio que causava impotência, só pra sacanear o Célio, um esquisito, hipocondríaco, que tomava o tal remédio. Mas era só pra sacanear o Célio. Aí a Lurdes encontra o release e publica a porra da informação falsa. Deu a maior merda com o laboratório.
– Putz, verdade. Eu me lembro dessa história. E quem escreveu o release falso foi o Evaldo.
– Que Evaldo? O viado?
– O Evaldo era viado?
– Ah, todo mundo falava que ele tinha um caso com o carequinha de Esportes, o...
– O Ronaldo?
– Ronaldo!
– Caraca, essa eu não sabia. Eu jurava que o Ronaldo comia a Nádia, a mulher do fotógrafo.
– Não sei se era viado, mas o Ronaldo era o cara que pegava a grana do táxi e ia pra pauta de ônibus. Só para embolsar a grana.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

As minhas retrospectivas


Estou entrando em férias. Nada como poder passar uns dias na praia, disputando um pedaço de areia com gente e bichos geográficos. Sim, blogueiros também têm direito a férias! Aviso os navegantes que este é o último post de 2010. Retorno ao blog em 11 de janeiro. Um detalhe: mesmo neste período de recesso do blog, seguirei no Twitter (@duda_rangel) com a retrospectiva dos melhores (ou piores) posts do ano.

2010 foi especial para o blog Desilusões perdidas. O número de leitores aumentou muito e o meu perfil no Twitter foi até escolhido como um dos melhores (ou piores) do ano pela Revista Bula. Deixo o meu singelo “obrigado pra caralho” a todos. Vocês são a minha motivação para continuar escrevendo. Obrigado aos que manifestaram sua opinião no blog e aos que não manifestaram também. Aos que sempre me apóiam, aos que ajudam a divulgar os meus escritos por aí.

Prometo que, em 2011, o blog será, enfim, adaptado em um livro. Se até a Vera Fischer lançou o seu livro, sinto que agora é uma questão de honra. Um maravilhoso novo ano a vocês, com todas as suas coisas boas e até os inevitáveis dissabores. Que a gente continue reclamando, amando o que faz (seja o que for) e, principalmente, sabendo rir sempre.

Como despedida, republico um post que tem tudo a ver com esta época do ano. Beijos e abraços do Duda.

Boa noite

Quando eu ainda era criança, sem pêlos no saco, descobri minha paixão pelo jornalismo. Eu achava o máximo acompanhar, entre o Natal e o réveillon, o noticiário da TV com o resumão dos acontecimentos do ano. Enquanto meus colegas sonhavam ser astronautas, pilotos de Fórmula 1 ou galãs de cinema, eu queria ser apresentador de retrospectiva. Meus pais não entendiam a minha escolha. "Pô, Duda, apresentador de retrospectiva?”

Era o despertar de um jornalista. Ao longo do ano, eu guardava jornais e revistas com informações sobre o Brasil e o mundo – nessa época, não havia descoberto ainda a Playboy, a Ele&Ela e as preciosidades suecas. Definia a pauta do programa, redigia as laudas para leitura. Tudo isso muitos anos antes de aprender (ou desaprender) jornalismo na faculdade. Me preparava para o grande dia: a apresentação da minha retrospectiva, que podia ser feita em qualquer parte da casa, desde que existisse uma mesa para servir de bancada.

Eu usava um paletó de meu pai, gigante para mim. Na parte de baixo, apenas bermuda e chinelos, afinal era assim que diziam trabalhar os apresentadores de TV. Adotei óculos, para dar mais seriedade. Não havia câmeras na minha frente; apenas uma platéia, ao vivo, composta por parentes e amigos da família. Gente que fazia o maior esforço para estar ali.

– Esse menino fala que seu sonho é ser jornalista. Isso é coisa de vagabundo! Ele não quer é estudar – murmurava uma tia.

Um dos meus maiores apoiadores era meu avô, que se dizia um visionário.

– Esse moleque ainda vai ser jornalista, trabalhar na Globo e comer toda a mulherada.

Como ele vibrava com o meu “boa noite” na abertura de cada edição do resumão de notícias, ano após ano. Para mim, aquele era também um momento mágico.

Aos poucos, a platéia e o meu desejo de apresentar retrospectivas foram diminuindo. Com o crescimento dos pêlos no saco, meus interesses de fim de ano mudaram. Ah, as preciosidades suecas! O programa morreu, mas a paixão pela profissão jamais. Tanto que virei jornalista, como previu vovô.

Só não cumpri o resto de sua profecia.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Imprensa Retrô 2010


Depois de longa agonia, desligaram os aparelhos do velho JB, tadinho. O titio William Bonner humanizou-se e virou sensação no Twitter. Teve repórter, que pautada pelo microblog, divulgou notícia falsa de uma corrida de cadeiras de rodas com Hebe Camargo no hospital. A Carolina Dieckmann nos ensinou o que é ser uma jornalista fake, mas muito fake. A campanha “Cala Boca, Galvão” ficou famosa na mídia internacional. Um monte de jornalista brasileiro foi assaltado na Copa da África do Sul. Dunga chamou o repórter da Globo Alex Escobar de cagão. O Felipão chamou repórteres esportivos de palhaços. O Tiago Leifert, acreditem, conseguiu ficar mais bonito que o Evaristo Costa. O jornalista Duda Rangel conseguiu atrasar o pagamento de apenas três meses de aluguel em todo o ano. A lésbica do BBB10 chocou papai e mamãe quando revelou para todo o Brasil que era jornalista. Pimenta Neves completou uma década de liberdade desde que matou a ex-namorada pelas costas. Armando Nogueira se foi. O Glauco também. Mas a jornalista Carolina Dieckmann, que tinha que morrer, não morreu. Até a ONG Repórteres Sem Fronteiras concordou com sua execução. O senador Romeu Tuma partiu desta para uma melhor (ou pior) um mês depois de a Folha.com ter antecipado sua partida. Chico Buarque cantou seus clássicos jornalísticos no blog Desilusões perdidas. O “rei” Roberto Carlos também. O Datena continuou chato. O Lula continuou atacando a imprensa. E sendo atacado. Vários veículos de comunicação viraram partidos políticos na eleição. O Estadão, ainda sob censura da família Sarney, demitiu colunista por “delito de opinião”. A Folha de S.Paulo tratou de acabar com a Falha de S.Paulo. Teve jornalista que se envolveu em quebra de sigilo fiscal e virou notícia na campanha eleitoral. Cid Moreira lançou sua biografia no mesmo ano em que Fiuk e Geisy Arruda lançaram as suas. Nunca se discutiu tanto liberdade de imprensa e controle de mídia sem se chegar a lugar algum. O jornalista Duda Rangel, pelo vigésimo ano consecutivo, não ganhou o Prêmio Esso.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A festa da firma


Como festa de fim de ano é sempre igual, um post para relembrar.

Na minha época de redação, dezembro chegava e o povo tinha que decidir a escala especial de folga – quem trabalha no Natal e quem trabalha no ano-novo. Ou quem trabalha nos dois, caso de alguns focas. Sobravam divergências e eventual ofensa à mãe alheia. Mas dezembro também era um tempo alegre, tempo de festa da firma.

Após passar o ano inteiro explorando os pobres funcionários, principalmente os jornalistas, o dono do jornal decide promover uma festança. Para alguns, um lampejo de humanidade do patrão, mas, para mim, pura estratégia. Ele sabe que o jornalista é facilmente seduzido por uma boca-livre. Alimente um jornalista e ele se tornará seu amigo, dizia um filósofo de botequim. Ele esquecerá até das horas extras não pagas.

A festa da firma é um clássico exemplo da política “pão e circo”. Mas quem se importa com isso? Adoramos comida e bebida fartas, show com banda ao vivo, sorteio de prêmios. No meu tempo, começavam com brindes institucionais e acabavam com o prêmio máximo da noite, uma semana com a família na colônia de férias em Mongaguá. Eu, que sempre preferi o pão ao circo, até criei um grupo de amigos batizado de “a nuvem dos gafanhotos”, que perambulava pelas mesas deixando só devastação.

O evento é uma grande chance para o jornalista conhecer pessoas de outros departamentos, a turma do administrativo, a turma do comercial - ou “os vendedores de anúncio”. Até os jornalistas que nunca conseguem um alvará da patroa para as bebedeiras habituais vão à festa. Só não aparece a ala dos intelectuais, jornalistas que acreditam que a festa da firma não passa de uma forma primitiva de entretenimento, regada a axé, cerveja e suor.

Na festa da firma, muita gente perde o pudor, paga mico, arruma confusão. As taxas de sangue no álcool ficam baixíssimas. A vantagem de ficar um pouco mais sóbrio é testemunhar as aberrações da noite e ter matéria-prima para fofocar nos dias seguintes. Jamais esquecerei a festa em que o foca do caderno de Variedades, moço tímido, foi arrebatado pela música do Abba, subiu na mesa, arrancou a camisa, rebolou como uma lagartixa e gritou: “I am the queen, I am the dancing queen!”.

Depois disso, nunca mais foi visto na redação.


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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Saudade (poema do jornalista desempregado)


Saudade dos tempos de redação
Do café salvador das madrugadas
Das vozes ao telefone misturadas
Das tantas matérias apuradas.

Saudade dos tempos de redação
Do sofrer, tensão, xingamento
Do suspiro após fechamento
Do pedido em vão de aumento.

Saudade dos tempos de redação
Da chegada apressada da rua
Da piada mais tosca e chula
Do sonho com a foca nua.

Saudade dos tempos de redação
Da falta total de rotina
Dos planos pro boteco da esquina
Do rir da própria sina.

Da sina.


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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Lembranças


Cabelo raspado. Tinta escorrendo pela barba malfeita.

Ônibus quebrado. Atrasos. Sono.

Emissor, mensagem, receptor. E muitos ruídos.

McLuhan, Marcuse, Adorno.

Paqueras. As teorias da comunicação na prática.

Boteco, cerveja, dor-de-corno.

Truco, ladrão!

Por que os alunos de Administração se vestem melhor?

A primeira greve pelo direito de dormir nas aulas de Sociologia.

Os mestres que nunca pisaram numa redação.

Festinhas.

Impresso, rádio ou TV?

Pastel de gordura na barraquinha da esquina.

CX3747-208c. Capa dura.

Textos xerocados. Grampos enferrujados.

Trabalhos em grupo. Na casa de quem?

As provas. As colas.

TCC.

Comissão de formatura? Tô fora.

Beca quente pra cacete.

Suborno ao garçom no baile.

Alívio.

Canudo.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Crônica sobre o nome composto


- Carlos Eduardo, chega aqui, por favor, chamou meu editor.

Eu, foca, segundo dia de trabalho na redação, fui imediatamente.

- Me diz uma coisa: como você vai assinar a matéria? Carlos Eduardo Rangel mesmo?

- Duda Rangel. Vou assinar Duda Rangel.

- Duda?

- É, Duda, qual o problema?

- Qual o problema? Duda, Cacá, Tetê funcionam muito bem no suplemento feminino, no colunismo social, no caderno de Cultura, mas não aqui. Percebe?

- Desculpa, mas eu sou muito mais Duda do que Carlos Eduardo.

Eu sempre odiei meu nome composto. Nome composto é a ofensa guardada na manga. A qualquer momento o agressor pode usá-la contra o dono do nome, para feri-lo profundamente. “Carlos Eduardo (leia-se “seu moleque estúpido”), vai já pro banheiro se lavar, porque você tá todo lambuzado de cocô do cachorro”, dizia minha mãe na infância. Ou “Eu já falei mil vezes que é você quem coloca o lixo pra fora de casa, Carlos Eduardo (leia-se “seu imprestável”)”, dizia minha ex-mulher. Duda é diferente. Duda é conciso, objetivo, está impregnado de amor materno, de tesão feminino. “Quem é o bebê mais lindo da mamãe? O Duda!” ou “Ai, Duda, assim que eu gosto, fundo, bem fundo.”

Além de ser ofensa, nome composto é feio. Lembra cantor romântico que vai ao programa do Raul Gil: “Vaaaamos aplaudir, Caaaarlos Eduardo”. Ou nome de atração brega de rádio AM: “Carlos Eduardo Show é su-su-sucesso”. Duda pode ser meio gay, eu sei, pode ser unissex, mas é o nome que eu gosto, que eu carrego com orgulho desde a minha infância.

- Então Duda vem desde a sua infância, repetiu o editor.

- Da primeira infância, da pré-primeira infância, do ventre, sei lá.

- Tá certo, esta será sua assinatura então.

Suspirei, aliviado. O jornalista Carlos Eduardo estava enterrado!

- Para ser sincero, prosseguiu o editor, eu imaginei que Duda tinha alguma coisa a ver com numerologia. Sabe essas viadagens?


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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Bola na trave não altera o placar


Um olho no campo, o outro na tela do notebook. Era assim que eu cobria um jogo de futebol da tribuna de imprensa do estádio, principalmente nas noites de quarta-feira. O jogo acabava quase à meia-noite e o deadline era apertadíssimo. O juiz apitava o fim e eu tinha uns cinco minutos para enviar o texto para a redação. E, se por um atraso meu a matéria do jogo ficasse de fora da edição, no dia seguinte, meu editor e a torcida dos dois times me xingariam muito, mas muito mesmo. Não dava para bobear. O jeito, então, era assistir à partida e, ao mesmo tempo, escrever o seu relato.

Numa dessas noites de quarta-feira, estava eu num estádio, passando um frio do caralho – a tribuna não era uma sala fechada –, apertando os olhos para driblar minha miopia e enxergar algo naquele campo mal-iluminado e tendo de suportar um joguinho horrível. Vida de repórter esportivo não é fácil. No intervalo do jogo, já havia escrito uns 80% do texto. Vocês já repararam que nos relatos de jogos o primeiro tempo tem sempre mais espaço? Mesmo que todos os gols tenham acontecido no segundo.

A estratégia de deixar o texto quase pronto ainda no intervalo tem lá seus riscos também. O lead naquela noite fria dizia que o empate sem gols resumia bem a mediocridade da partida, sem qualquer emoção. A matéria estava fechada aos 35 minutos do segundo tempo e eu torcia para que nenhum dos times marcasse um gol no tempo que restava. Teria de reconstruir todo o texto.

Acho que, na história do futebol mundial, nunca alguém torceu tanto por um zero a zero como eu naquela noite. A tensão era tão grande que eu até esqueci o frio. Para piorar, o filho-da-puta do juiz ainda decidiu dar uns cinco minutos de acréscimo. Aos 49, a bola foi cruzada na área, o centroavante cabeceou para o chão, com força, no canto do goleiro. Tremi. A bola bateu na trave e saiu. Na tribuna, eu gritei, aliviado, como se comemorasse um gol. Quem disse que repórter esportivo não pode torcer?

segunda-feira, 22 de março de 2010

Feedback


Na poltrona do avião, numa ponte aérea, esmagado entre dois homens de terno e gravata, seguia minha viagem para uma pauta do jornal. O sujeito da direita, de cabelos grisalhos, bem barbeado e ar imponente, carregava um jornal nas mãos, o da empresa onde eu trabalhava. Tinha cara de alto executivo. “Homens de terno e gravata parecem ser mais importantes, mesmo que, no fundo, sejam uns bostas”, dizia meu avô. No meio deles, estava eu, de camiseta, calça jeans, tênis e cara de sono.

O homem da direita começou a folhear o jornal. Depois de alguns minutos, pegou o caderno para qual eu escrevia e passou a ler minha matéria, que estampava a capa daquela edição. Fiquei ansioso. Nunca tinha estado tão próximo de um leitor que não me conhecia. Iria gostar? Leria até o fim? Parecia atento, interessado. Mas logo desviou o olhar, para conferir o rebolar de uma comissária de bordo que desfilava pelo corredor. Se soubesse o quanto eu tinha ralado, não teria feito tal desfeita com meu texto.

Pensei em abordá-lo. E se eu falasse que o Duda Rangel do papel era eu? Acreditaria num cara tão mal vestido? Acharia engraçada a coincidência? Seria indiferente? Em TV, os rostos ficam famosos; em impresso, somos meras assinaturas.

– Esses vereadores fazem um monte de sacanagem e depois usam a imprensa para limpar a barra com a opinião pública, comentou o homem, girando levemente o corpo em minha direção.

– O senhor falou comigo?, perguntei.

– Foi só um desabafo. Não entendo essa imprensa que engole qualquer asneira de um entrevistado.

É certo que, às vezes, engolimos mesmo algumas idiotices, mas alguns executivos engravatados não têm a mínima idéia do que é o trabalho de um jornalista, as dificuldades da apuração, a obrigação de ouvir os dois lados da história. O homem, então, virou a página do jornal e me esqueceu. Meu consolo foi o sorriso da comissária, que voltava pelo corredor, com deliciosas Maxi Goiabinhas nas mãos.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Que porra é essa?


Na manhã daquela sexta-feira, eu, ainda um jovem Duda, cheguei à redação tranqüilo. Não estava na pauta do dia, tinha apenas uns textos para escrever para o fim de semana. Daria para almoçar com calma, fazer algumas pesquisas e paquerar a menina do arquivo. Mas como eu sempre me dou mal neste blog, a história deste post não poderia ser diferente. O pauteiro, que me via de longe, apesar de minha discrição, aproximou-se rapidamente.

- Oi, Duda, que bom que você chegou. O Roberto, que não pôde vir hoje por causa de suas cólicas renais, tem uma entrevista marcada para as 11 horas com o embaixador brasileiro nos Estados Unidos, lá no prédio da Bolsa. Você vai ter de segurar essa.

- Mas olha a minha roupa. Não vim preparado para entrevistar um embaixador.

- Você está ótimo, Duda, e agora não dá para ficar preocupado com isso. A pauta é sobre aquela polêmica da propriedade intelectual, da quebra de patentes e tal.

- Eu preciso pesquisar algo no arquivo antes de ir.

- Duda, voa para a Bolsa porque a entrevista é daqui a meia hora!

Voei. Aliás, um vôo cheio de turbulência no carro de reportagem. Estava desesperado, inseguro. Comecei a ter dor de barriga, as mãos suavam. Não tinha qualquer idéia do que seria a polêmica da propriedade intelectual com os Estados Unidos. Que porra era aquela? Naquele tempo, não havia BlackBerry, internet móvel, Google ou Wikipedia para me socorrer. Éramos apenas eu e minha ignorância no carro. Ou melhor, ao meu lado também estava o seu Péricles, motorista do jornal, cantarolando uma música sertaneja que tocava na rádio.

- Ô, seu Péricles, o senhor sabe alguma coisa sobre esse caso de propriedade intelectual, da polêmica com os Estados Unidos?

- Olha, seu Duda, a única polêmica com propriedade que eu tô sabendo é a questão da regularização das casas lá onde eu moro.

E começou a contar que morava num terreno invadido havia anos, que era área de manancial, mas que a prefeitura estava querendo dar o título de propriedade aos moradores. A minha cabeça viajava, não ouvia mais nada da história do motorista. Pensei em fazer a mesma consulta ao rapaz que vendia Suflair no farol, mas logo percebi que esta tentativa seria pior do que a primeira. E não era só o meu desconhecimento sobre o assunto que me perturbava. O que eram aquelas roupas? Calça velha, tênis velhos, camisa amarrotada. Ainda tinha a barba cerrada. O embaixador, com certeza, me olharia com cara de nojo.

Enfim cheguei ao prédio da Bolsa, com um ligeiro atraso e uma dor de barriga ainda maior. Subi, me apresentei e, minutos depois, fui recebido pelo embaixador. Com cara de nojo, é claro. Só fiquei mais aliviado quando apelei para a sinceridade. Contei das pedras no rim do meu colega de trabalho, que eu havia sido pego de surpresa pela pauta e que desconhecia o assunto. O embaixador riu e o que era para ser uma entrevista transformou-se num monólogo, ou uma aula sobre a polêmica da propriedade intelectual com os Estados Unidos. Entendi tudo e perfeitamente, e tive material abundante para, naquela tarde, escrever uma incrível notinha de sete linhas.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O nosso pasquim


Uma das experiências mais divertidas que tive na faculdade foi quando criei, ao lado de alguns amigos, um jornal sobre minha turma do curso de jornalismo. Nossa linha editorial era sacanear geral e ter a liberdade de criticar, com humor e ironia, o que a gente achava que não caminhava bem. Os deslizes dos professores, as aulas insuportáveis, os defeitos de nossos colegas e, acreditem, de nós mesmos. Minha inspiração vinha da leitura de O Planeta Diário e das antigas edições de O Pasquim. Não ganhávamos um puto por isso, mas éramos felizes.

Ganhamos, na verdade, a oportunidade de aprender, na prática e por conta própria, o que é fazer jornalismo. Com muita improvisação, cuidávamos de todo o processo de criação, da pauta até a distribuição do jornal aos leitores, nossos amigos de curso. A diagramação era precária, feita com colagens em papel sulfite. As impressões não tinham cores. Nossa redação era flutuante – a mesa do bar ou até mesmo o fundão da sala de aula. Eu gostava das reuniões de pauta, regadas a cerveja e gargalhadas, um grandioso brainstorm de merdas.

A gente escrevia o que dava vontade. Não tinha rabo preso com ninguém. Certa vez, fizemos, com foto-montagem, um provocante ensaio sensual da professora de Sociologia, uma italiana chata de mais de 60 anos. Em outra, num trabalho de jornalismo erótico-investigativo, revelamos as perversões secretas do diretor da faculdade. Os bastidores sórdidos das festinhas das repúblicas de alunos também eram pauta certa. Tudo escrito com muita irreverência e criatividade, é claro.

Conquistamos fãs, que esperavam ansiosamente a impressão da edição seguinte, sem prazo definido para sair. O compromisso com os leitores nunca foi nosso forte. A periodicidade do jornal era a “sai quando der”. Conquistamos também desafetos entre a turma e olhares atravessados de alguns professores. Tudo bem que, às vezes, nossas palavras eram assustadoramente ácidas, mas, no geral, o pessoal levava aquilo numa boa.

Por mais que a realidade de um jornal de faculdade, feito por amigos, seja bem diferente da encontrada no mercado de trabalho, esta experiência empreendedora é fascinante. Acho que todos os estudantes de jornalismo deveriam criar as suas publicações, aproveitando as facilidades das novas tecnologias e o incontrolável desejo de jogar bosta no ventilador. O humor e a ironia nunca saem de moda e são formas inteligentes de denunciar as cagadas do homem. Vale a pena tentar!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Travessura de velho


As ilusões do jovem jornalista são prejudiciais à saúde. No verso da ficha de inscrição das faculdades de jornalismo, o Ministério da Saúde deveria fazer tal advertência. Crenças num poder ilimitado de mudar o mundo ou numa vida cheia de glamour e dinheiro são perigosíssimas. Um dia a realidade vence a utopia, as ilusões viram desilusões e, para superar, só com o tempo ou terapia. No meu caso, virei blogueiro para me libertar de minhas desilusões (meu antigo drama está no post de estréia para quem quiser reler).

Há alguns deslumbramentos de jovem jornalista, que poderiam ser vistos de forma negativa também, mas são mais inofensivos e até gostosos de sentir. São mais modestos em suas pretensões. Há sensações na carreira de um jornalista bem típicas da juventude e precisam ser saboreadas na hora certa. Uma delas são as primeiras matérias assinadas num jornal.

Para um iniciante, é um prazer quase sexual, melhor, é um prazer bem maior do que o sexual. A minha primeira vez, jornalisticamente falando, foi na publicação da faculdade que funcionava como laboratório para os alunos. Matéria boba, assunto sem importância, mas eu não via a hora de ter a impressão final nas mãos. A razão: ver meu nome estampado na matéria me faria (e me fez) sentir, enfim, jornalista de verdade.

As primeiras matérias assinadas são saboreadas à exaustão. Não tem jeito: somos, desde cedo, impregnados de narcisismo e adoramos lamber a nossa cria. Somos como o pai orgulhoso que desfila com um bebê lindo no parque com cara de “fui eu que fiz”.

Minha primeira matéria assinada já levava o nome de Duda Rangel. O nome completo, de batismo, Carlos Eduardo Rangel, não caía bem. E isso nunca teve nada a ver com numerologia, juro por tudo de sagrado e profano deste mundo. Sempre acreditei que nome composto cansaria o leitor, não teria impacto, além do fato de nome composto lembrar bronca de mãe quando se é criança e apronta alguma travessura.

Às vezes, parecia até que eu corria até a pasta com as minhas matérias só para me certificar de que a assinatura ainda estava lá, que não tinha fugido. “A sua assinatura empreendeu fuga nesta manhã, mas dois investigadores já estão nas ruas para tentar encontrá-la e devolvê-la à sua matéria”, me diria um delegado qualquer se eu cobrasse providências. Mas assinaturas não empreendem fugas. Ficam lá, imóveis. Meu zelo era paranóico.

Nos últimos dias, eu me lembrei dessa história das assinaturas, fiquei resgatando as gostosas sensações passadas. Senti muita falta da juventude, dos tempos que não voltam mais. Como é estranho ter saudade de si mesmo, escreveu o dinamarquês Jacobsen. Certa nostalgia é indício de que não estamos sabendo envelhecer. “Carlos Eduardo, pare com essa coisa de nostalgia boba, meu filho. Viva seu presente!”, me diria a minha mãe, diante dessa minha última travessura.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A festa da firma


Na minha época de redação, dezembro chegava sempre agitado. Era o tempo de decidir a escala especial de folga do fim do ano – quem trabalha no Natal e quem trabalha no Ano Novo. Sobravam divergências e eventual ofensa à mãe alheia. Mas dezembro também era um tempo alegre, era tempo da festa da firma.

Após passar o ano inteiro explorando os pobres funcionários, principalmente os jornalistas, o dono do jornal decide promover uma festança. Para alguns, é um lampejo de humanidade do patrão, mas, para mim, é pura estratégia. Ele sabe que o jornalista é facilmente seduzido por uma boca-livre. Alimente um jornalista e ele se tornará seu amigo, dizia um filósofo de botequim. Ele esquecerá até que nunca lhe pagaram as horas extras trabalhadas.

A festa da firma é, portanto, um clássico exemplo da política “pão e circo”. Mas quem se importa com isso? Adoramos comida e bebida fartas, show com banda ao vivo e até sorteio de prêmios. Na minha época, começavam com brindes institucionais e acabavam com o prêmio máximo da noite, a cobiçada semana com a família numa colônia de férias em Mongaguá. Eu, que nessas ocasiões sempre preferi o pão ao circo, cheguei a criar um grupo de amigos batizado de “a nuvem dos gafanhotos”, que perambulava pelas mesas de comida deixando só devastação.

O evento de confraternização é uma excelente ocasião para os jornalistas interagirem com pessoas de outros departamentos, coisa rara, como a turma do administrativo e a turma do comercial, esta também chamada de “os vendedores de anúncio”. Quase todo jornalista vai à festa, até mesmo aqueles que nunca conseguem um alvará da patroa para as bebedeiras habituais pós-fechamento. Só não aparece a ala dos intelectuais, jornalistas que acreditam que a festa da firma não passa de uma forma primitiva de entretenimento, regada a axé music, cerveja e suor. Sociologicamente falando, é claro.

Na festa da firma, muita gente perde o pudor, se revela, paga mico ou arruma confusão, mesmo porque as taxas de sangue no álcool ficam baixíssimas. A vantagem de ficar um pouco sóbrio é poder testemunhar todas as aberrações da noite e ter matéria-prima para fofocar com os colegas no dia seguinte. Jamais esquecerei a festa em que o foca do caderno de Variedades, aquele moço tímido e de poucas palavras, foi subitamente arrebatado pela música do Abba, subiu na mesa, arrancou a camisa, rebolou como uma lagartixa e gritou: “I am the queen, I am the dancing queen!”. Depois disso, nunca mais foi visto na redação.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Bloquinho ou gravador?


Quando a gente fica velho, vez ou outra se pergunta como pôde ter sentido, na juventude, tanto medo idiota por coisas banais. Simplesmente porque, na ocasião, certas coisas não eram tão banais assim. Hoje, eu rio disso tudo. Talvez esta seja uma das vantagens de ficar velho: rir dos medos idiotas da juventude.

Era a tão esperada e temida véspera. Na manhã seguinte, eu, um pobre estudante de jornalismo, faria a minha primeira reportagem, para o modesto jornal da faculdade. As vésperas sempre me deixavam ansioso. Era assim desde os tempos de criança, quando eu assistia à missa do galo na tevê esperando o Natal chegar. Naquela noite, além de ansioso, eu estava tenso, com um medo danado de fazer merda. Minha mente viajava...

Não posso esquecer de pegar mais de uma caneta! Na hora H, a caneta sempre falha e a gente fica com cara de bobo. Então o entrevistado dá risada do foca atrapalhado. Isso não pode acontecer! E será que eu levo só um bloquinho de anotações ou um gravador também? Um jornalista experiente me disse, certa vez, que o bloquinho é melhor, porque faz a gente prestar mais atenção nas palavras do entrevistado, consegue captar a essência da matéria. É isso, vou levar só o bloquinho. E se eu não entender a minha letra no bloquinho? Minha caligrafia é péssima! Está decidido: vou levar o gravador. Mas peraí: será que não vou acabar dependente de uma máquina, de um gravador? Meu Deus, tenho de aprender a fazer uma letra mais decente. É, vou levar só o bloquinho. Mas, e se o entrevistado disser que eu escrevi várias mentiras, que ele não disse nada daquilo que está no texto e resolver me processar? Com o gravador, posso provar que ele disse tudo aquilo, sim! E agora?

Resolvi levar o bloquinho e o gravador. Só para garantir. A minha única (e grande) mancada foi esquecer de verificar se as pilhas estavam no gravador. Na hora H, o negócio não funcionou. O entrevistado caiu na gargalhada. Puta sacanagem com um foca atrapalhado. Então eu usei só o bloquinho. Minha letra ficou, naturalmente, horrível, mas aprendi que é bem melhor mesmo prestar atenção nas palavras, captar a tal essência.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A felicidade nas pequenas coisas


Quando eu era jovem, ainda não existia a profissão de participante de reality show. Eu também não tinha o menor jeito para ser jogador de futebol ou líder de banda de rock. Mas havia uma chance de ficar rico e famoso: ser jornalista. Virei um jornalista cheio de nobres ideais, ilusões e quebrei a cara várias vezes, como já relatei num dos primeiros posts, “As desilusões perdidas”. Tornei-me apenas um pobre anônimo. E corno.

Ontem, eu li um pouco mais sobre o Michael Jackson, um cara que conquistou dinheiro e fama. Mas tinha uma vida de merda. Sim, uma vida de merda, porque é assim que se define a existência de alguém que suplica todos os dias a um médico a aplicação de anestésicos fortíssimos. É muito triste ter de viver sedado para não sentir as dores do corpo e da mente. E eu aqui reclamando de ter me tornado apenas um pobre anônimo. E corno.

Comecei a perceber quanta coisa boa eu vivi na minha carreira de jornalista, mesmo sem ganhar dinheiro e fama. O tesão do jovem Duda ao ver sua primeira matéria assinada não tem preço. A primeira matéria assinada na capa do jornal então me garantiu orgasmos múltiplos. Era delicioso conquistar, após meses, uma entrevista com alguém que não queria falar com jornalistas, mas que acabava falando comigo só para eu parar de encher o saco.

Como eu ficava feliz ao ver um caderno especial feito com tanto carinho e por tanto tempo enfim impresso nas minhas mãos. Como eu ficava feliz ao ouvir a estagiária gostosa dizer que a minha matéria do domingo estava ótima, quando eu achava que estava apenas boa. Como eu ficava feliz ao ter um fim de semana de folga depois de duas semanas trabalhando sem descanso. Como eu ficava feliz ao ganhar um jabá, mesmo que fosse um vinho barato para celebrar o Natal.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Paixões proibidas


Quando eu tinha uns 15 anos, costumava passar os dias quentes de verão dentro de casa, ouvindo o meu LP dos Smiths. Meu pai, com medo de ver o filho se tornar um garoto muito introspectivo, talvez com alguma tendência suicida, resolveu dar um conselho.

- Filho, você precisa sair mais de casa. Por que não vai a um puteiro?

Aceitei o conselho. Achava que a visita ao local seria desastrosa, mas curti a experiência. A menina, só um pouco mais velha do que eu, tinha olhos e lábios lindos, era inteligente, gostava de conversar. Voltei para casa e fui falar com meu pai. Estava encantado pela moça, queria levá-la ao cinema no dia seguinte.

- Porra, meu filho, ficar apaixonado por puta não dá.

Não a levei ao cinema no dia seguinte. Nunca mais a vi.

Lembrei essa história muitos anos depois, quando fui tomar uma cerveja com um velho amigo da faculdade de jornalismo, que há tempos havia mudado de ramo e se tornado um pequeno empresário de sucesso. Contei a ele sobre meu desemprego, e ele quis me convencer a trabalhar como representante comercial (vendedor) de um purificador de água que a empresa dele fabrica. Um fixo todo mês, comissões, chance de ascensão.

Expliquei que, apesar de estar sem emprego, tenho me virado bem com meus frilas. Disse ainda que não consigo fazer outra coisa além de ser jornalista, que amo esta profissão.

- Porra, Duda, ser apaixonado pela profissão de jornalista não dá.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Nestor


Parece que foi ontem que o Nestor entrou em minha vida. Eu e minha mulher, hoje ex, queríamos cuidar de um ser vivo que não fosse tão complexo quanto um bebê humano. Descartamos também as plantas, porque sempre as achamos muito monótonas e chatas. O consenso era um cão, bicho brincalhão. E assim compramos o nosso boxer.

Minha mulher queria chamá-lo de Karenin, o cachorro de um livro que ela tinha amado ler. Eu queria Nestor, porque, para mim, nomes humanos davam a sensação de uma maior interação intelectual dono-cão. Achava que, algum dia, ele tomaria cerveja comigo e discutiria política, futebol e filosofia. Naquela época, como eu ainda mandava alguma coisa no relacionamento, o cão passou a se chamar Nestor.

Apesar de deixar o sofá todo babado e roer os móveis, Nestor foi uma coisa maravilhosa que me aconteceu. Muitas vezes, chegava em casa de madrugada, depois dos pescoções, e encontrava o bicho acordado, à minha espera. Pulava em cima, me lambia. Sua alegria era inspiração para eu escrever, correr atrás de grandes pautas. Para quem não leu, vale conferir o post Farejadores.

Mas o Nestor envelheceu, como eu. Está mais sóbrio, mais resignado com algumas coisas da vida. Dia desses, lendo o jornal, notei que ele estava sentado à minha frente, compenetrado em mim. Parecia querer conversar. Achei que a tal maior interação intelectual dono-cão finalmente havia chegado. Perguntei ao Nestor então o que ele achava da crise do Senado, da gestão do Obama até agora, do fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista. Ele deu um bocejo ruidoso, circulou algumas vezes sobre sua cama, deitou e dormiu. Deve ter pensado: “Que puta papo chato tem esse cara.”

terça-feira, 7 de julho de 2009

A coxinha de frango


Estava no parque com o Nestor no último fim de semana quando uma mulher de meia-idade se aproximou. Carregava uma caixa grande de isopor. Vendia coxinhas de frango para sobreviver. Talvez fosse uma jornalista desempregada como eu, mas resolvi não investigar. Comprei uma coxinha, versão clássica, só de frango, nada de catupiry safado. A primeira mordida foi mágica. Sim, aquela coxinha me fez viajar, de forma involuntária, ao meu passado, tal como a madeleine de Proust. O sabor, o cheiro, tudo me fez sentir tão vivo.

Sempre que tinha um dia corrido, com pautas pela manhã e logo no começo da tarde, não almoçava no restaurante do jornal. Descia até o boteco ao lado e mandava ver umas coxinhas de frango, versão clássica, é claro. Era tudo muito rápido, não podia perder tempo. Ainda assim aquela coisa breve parecia interminável. Às vezes, conversava com os garçons do balcão, velhos amigos. Lá eu era a “chefia”. Às vezes, comia quieto, observando os outros clientes e imaginando as histórias daquela gente, anônima e estranha, como eu.

A lembrança da coxinha de frango no boteco ao lado é a lembrança de bons tempos: frenéticos, difíceis, mas também saborosos. Foi nesse boteco simples, de azulejos portugueses e uma flâmula da Ilha da Madeira nas paredes, que vivi também memoráveis noites de sexta-feira ao lado de outros jornalistas. Conversas apaixonadas, debates intensos, retrospectiva da semana. Bebíamos quase todas e voltávamos para a redação para fechar o jornal de domingo. Depois, lá pelas quatro horas da manhã, estávamos de novo à mesa, para beber as que tinham faltado para completar todas.

- Seu troco, senhor, seu troco, me disse a tiazinha que vendia coxinhas no parque, com uma moedinha de 50 centavos na mão.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Do outro lado da mureta


Em meu primeiro emprego decente depois de formado, quando eu ainda era um reles repórter que cobria buracos na rua, almoçava diariamente no bandejão do jornal. Era o que o meu dinheiro podia bancar. De lá, via de longe o restaurante self service, freqüentado pelos jornalistas que eu julgava mais importantes na empresa. Apenas uma pequena mureta, com arranjos florais em cima, separava aqueles dois mundos.

Do meu lado, os pobres tinham de se contentar com a comida que depositavam sobre a bandeja. Não havia muita escolha. O pior era ter de dividir a mesa com os peões da gráfica, que viviam com as unhas sujas de tinta e adoravam falar alto enquanto comiam. Não gostava daquela gente sem classe. Eles também me olhavam com desdém. “Só porque tem um diplominha de bosta, se acha melhor do que nós”, deviam pensar de mim.

De minha mesa, ficava contemplando a vida dos abastados no self service. Às vezes, eu sentava bem perto da mureta para descobrir o que estavam comendo ou sentir algum aroma diferente. Muitos dos jornalistas mais importantes da empresa nem olhavam para nós do bandejão. Outros adoravam me sacanear. “Você já provou a bavaroise de papaia ao creme de iogurte e mel? Que delícia!”

Tempos mais tarde, após alguns dissídios e um salário um pouco melhor, decidi conhecer, enfim, o mundo dos ricos. Era uma questão de status perante os amigos, uma forma de provar a mim mesmo que estava tendo, de alguma forma, ascensão profissional. Triste dia em que descobri que a comida de lá era a mesma do bandejão, apenas com o direito de servir-se.

Para a sobremesa, tive de optar entre um potinho de plástico de gelatina, uma laranja já descascada ou uma fatia de melancia. Nunca havia existido porra nenhuma de bavaroise de papaia por lá. Olhei para o lado dos pobres e vi, ao longe, os peões da gráfica. “Come a mesma merda que nós e paga cinco vezes mais caro por isso. Trouxa”, pareciam estar pensando. Esqueci o passado e, com ar superior, voltei à minha mesa. Não via a hora de devorar aquele potinho de gelatina.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Domingo eu quero ver o domingo acabar


9:27: Acordo e noto que a mulher que dormiu comigo (como se chamava mesmo?) não está mais em meu apê. Checo se não tive os rins subtraídos de meu corpo. Tudo normal. Alívio.

9:30: Vejo a foto do Nestor no porta-retratos ao lado de minha cama. Era o meu fim de semana com ele, mas a ex viajou e levou o pobrezinho junto. O juiz saberá disso.

10:15: Café da manhã na padoca. O pedido de sempre: pão na chapa e um pingado.

10:53: Compro jornais do dia na banca e sigo de volta ao meu apê.

11:15: Deitado no sofá, descubro novos atos secretos, novas fraudes e novas picaretagens em geral no Senado: e eu fazendo mau juízo do Irã.

12:00: Um amigo me telefona, conversamos um monte de besteira. Ele me lembra que a Telefônica está proibida de vender o Speedy. Morremos de rir.

13:30: Esquento, no microondas, um resto de lasanha perdido na geladeira há uns três ou quatro dias. Rezo para que o rango não me faça mal.

14:00: Queria ir ao cinema, gastando pouco naturalmente (algo como um ciclo de filmes poloneses a R$ 2 o ingresso), mas estou indisposto. Decido ficar em casa. Procuro um sal de fruta Eno.

15:10: Corro ao banheiro desesperadamente. Lasanha maldita.

15:12: Sentado no trono, jogo sudoku em meu celular, para aliviar a tensão.

15:30: Bem, amigos da Rede Globo! Me preparo para assistir a Brasil versus Itália em todas as suas emoções, grande clássico do futebol mundial.

15:40: Zzzzzzzzzzzzzzzzz...

18:00: Acordo assustado. Perdi o jogo. O Brasil já não me empolga mais. Caraca, como a camisa do Faustão é feia!

18:12: Corro para o banheiro. Nunca mais como resto de lasanha perdido há uns três ou quatro dias na geladeira.

18:14: Sentado no trono, lembro o nome da mulher que poderia ter roubado os meus rins: Rita, dona de uma loja de roupas íntimas num shopping. Ou será que ela era vendedora?

19:00: Vejo o meu diploma de jornalista pendurado na parede do quarto: descanse em paz, meu amigo.

19:15: Tomo três comprimidos de Floratil 200 de uma única vez para tentar salvar minha noite. Reboco até a alma.

20:25: Não estou com saco de ler livros hoje. Checo os e-mails.

21:30: Vejo o reality show A Fazenda: quem é Theo Becker?

22:00: Desligo a TV e fico ouvindo música, de bobeira. Faço um monte de reflexões e decido que preciso me alimentar melhor. Vou começar a cozinhar, afinal jornalistas devem saber cozinhar. Tomo um banho.

23:56: Deitado em minha cama, tento dormir, mas não consigo. Lembrei: Rita, a que não roubou os meus rins, é a vendedora de Herba Life. Quem é a mulher do shopping mesmo?