Sabe aquele cara que tem umas três mulheres ao mesmo tempo, três famílias diferentes, uma em cada canto? Então, muito jornalista é adepto desta relação múltipla, mas no que diz respeito a emprego. Jornalista vive uma espécie de poligamia trabalhista.
Porque se a gente somar uma miséria aqui, uma miséria ali e uma miséria acolá, no fim do mês a gente pode ganhar uma miséria com mais sustância.
Ok, não são necessariamente três empregos. Pode ser um emprego fixo e, para complementar a renda, uns frilas ou bicos, que equivalem às puladas de cerca. Fidelidade e exclusividade são coisas bacanas, mas, no mundo jornalístico, não enchem barriga.
Os combos são variados. Peça pelo número: 1) assessor de imprensa na prefeitura pela manhã, redator no jornal diário à tarde, frilas de texto à noite; 2) repórter de rádio pela manhã, produtor de TV à tarde, voz e violão no barzinho à noite; 3) fotógrafa de revista pela manhã, de eventos corporativos à tarde, vendedora de Avon 24 horas por dia. E por aí vai.
Se com um único emprego já não é fácil descolar um tempo livre, imagine com três. É correria para comer, para escapar do trânsito entre um trabalho e outro. Time is money do inferno.
Agora, a gente aqui falando de poligamia trabalhista, mas há muito repórter que não tem sequer um emprego. Para este, meio-emprego já seria bom demais. Um quarto de emprego que fosse. Um blog?
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sexta-feira, 24 de agosto de 2012
A arte de conciliar empregos
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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
O dia seguinte
Oi. Eu pensei que você fosse ligar.
Fiquei de ligar?
Não, mas eu esperei, sei lá. Imaginei que pudesse rolar algo mais.
Não devia esperar, sabe disso.
É que eu sou boba mesmo.
Eu avisei que era coisa momentânea.
Avisou, sim. Só me diz uma coisa.
O quê?
Sobre ontem.
O quê?
Não foi legal?
Foi ótimo.
Sério?
Claro, você é excelente.
Eu fico mais feliz assim.
O problema não é você. É que a gente não tem vaga mesmo.
Eu sempre me iludo com algo mais sério, tipo emprego, sabe?
Foi ótimo, mas foi só um frila.
Ok, ok, foi só um frila (risos). Se pintar outro, me avisa, tá? A grana é boa. E obrigada pelo “você é excelente”!
Sabe que eu gosto de você, né?
Então, tchau.
Peraí, moça.
O quê?
Quer sair comigo hoje à noite?
Hoje?
É. Hoje.
...
Vamos?
Tá bom, mas, ó, já vou avisando: é só sexo, tá? Sem compromisso.

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Fiquei de ligar?
Não, mas eu esperei, sei lá. Imaginei que pudesse rolar algo mais.
Não devia esperar, sabe disso.
É que eu sou boba mesmo.
Eu avisei que era coisa momentânea.
Avisou, sim. Só me diz uma coisa.
O quê?
Sobre ontem.
O quê?
Não foi legal?
Foi ótimo.
Sério?
Claro, você é excelente.
Eu fico mais feliz assim.
O problema não é você. É que a gente não tem vaga mesmo.
Eu sempre me iludo com algo mais sério, tipo emprego, sabe?
Foi ótimo, mas foi só um frila.
Ok, ok, foi só um frila (risos). Se pintar outro, me avisa, tá? A grana é boa. E obrigada pelo “você é excelente”!
Sabe que eu gosto de você, né?
Então, tchau.
Peraí, moça.
O quê?
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quarta-feira, 14 de setembro de 2011
10 dicas para um jornalista pedir emprego por e-mail sem queimar o filme
1. Jamais comece o e-mail com “venho por meio deste”. Porra, isso é mais clichê do que epitáfio iniciado com “aqui jaz fulano de tal”. A frase pronta mostra falta de criatividade ou que você se baseou numa antiga carta de apresentação do seu avô para redigir a mensagem.
2. Formalismo é um saco, mas gírias e linguagem de internet também não combinam com este tipo de e-mail. Nada de “vc”, “aki” ou “naum”. Nem “trampo”, pelo amor de Deus.
3. Erro de português rende eliminação imediata. Tome muito cuidado para não escrever certas aberrações, como “esperiência proficional”. É legal também seguir o novo acordo ortográfico, mesmo que você ainda seja apaixonado pelo acento em “ideia”.
4. Gerúndio: é bom estar evitando. A vaga não é para operador de telemarketing.
5. E-mail-padrão para enviar a um monte de gente individualmente sempre traz o risco de você escrever “prezado senhor Maria Clara”. Por mais que hoje a questão do gênero esteja muito diversificada, isso ainda será visto como erro de concordância. Ou desleixo.
6. Mandar um e-mail a um grupo de jornalistas, com todos os endereços eletrônicos abertos, é queimar ainda mais o filme. Pedido por atacado é bem desagradável. Você pode receber uma resposta ainda mais desagradável, com todo mundo copiado.
7. Seja sincero com seus sentimentos. Sempre. Se você não gosta de assessoria de imprensa, não escreva que “ama ser assessor de imprensa” só para conseguir a vaga. Esqueça compromissos de fachada. Ou terá um divórcio traumático em bem pouco tempo.
8. Seja conciso. Textos longos e cheios de detalhe são ótimos para cartas de suicídio, mas não para prospecção de trabalho. Foco no seu objetivo atual. Deixe para ser prolixo quando decidir cortar os pulsos. Provavelmente por não conseguir um emprego.
9. Anexo é uma espécie de doença venérea. As pessoas morrem de medo de contaminação. Mande o currículo sempre no corpo da mensagem. E, claro, mande um currículo breve. Não interessa ao editor saber que você foi líder dos escoteiros na infância.
10. Nunca se refira à empresa a qual você está pedindo emprego com elogios ou adjetivos exagerados, como “adoraria trabalhar neste prestigiado e renomado jornal”. Isso soa falso, mais falso do que a Claudia Leitte cantando em inglês.
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2. Formalismo é um saco, mas gírias e linguagem de internet também não combinam com este tipo de e-mail. Nada de “vc”, “aki” ou “naum”. Nem “trampo”, pelo amor de Deus.
3. Erro de português rende eliminação imediata. Tome muito cuidado para não escrever certas aberrações, como “esperiência proficional”. É legal também seguir o novo acordo ortográfico, mesmo que você ainda seja apaixonado pelo acento em “ideia”.
4. Gerúndio: é bom estar evitando. A vaga não é para operador de telemarketing.
5. E-mail-padrão para enviar a um monte de gente individualmente sempre traz o risco de você escrever “prezado senhor Maria Clara”. Por mais que hoje a questão do gênero esteja muito diversificada, isso ainda será visto como erro de concordância. Ou desleixo.
6. Mandar um e-mail a um grupo de jornalistas, com todos os endereços eletrônicos abertos, é queimar ainda mais o filme. Pedido por atacado é bem desagradável. Você pode receber uma resposta ainda mais desagradável, com todo mundo copiado.
7. Seja sincero com seus sentimentos. Sempre. Se você não gosta de assessoria de imprensa, não escreva que “ama ser assessor de imprensa” só para conseguir a vaga. Esqueça compromissos de fachada. Ou terá um divórcio traumático em bem pouco tempo.
8. Seja conciso. Textos longos e cheios de detalhe são ótimos para cartas de suicídio, mas não para prospecção de trabalho. Foco no seu objetivo atual. Deixe para ser prolixo quando decidir cortar os pulsos. Provavelmente por não conseguir um emprego.
9. Anexo é uma espécie de doença venérea. As pessoas morrem de medo de contaminação. Mande o currículo sempre no corpo da mensagem. E, claro, mande um currículo breve. Não interessa ao editor saber que você foi líder dos escoteiros na infância.
10. Nunca se refira à empresa a qual você está pedindo emprego com elogios ou adjetivos exagerados, como “adoraria trabalhar neste prestigiado e renomado jornal”. Isso soa falso, mais falso do que a Claudia Leitte cantando em inglês.
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quarta-feira, 18 de maio de 2011
Simpatias para jornalistas
Para o diploma voltar a valer:
Pegue o diploma que você tinha plastificado para usar como toalha em refeições rápidas. Junte a ele um baralho de truco virgem, um livro de Marshall McLuhan e pétalas de duas rosas amarelas. Guarde tudo em uma gaveta e feche com chave. Costure uma foto do doutor Gilmar Mendes na boca de um sapo e enterre o sapo no lixão mais nojento que conhecer. Se milhares de jornalistas fizerem a simpatia, há grande chance de a PEC do diploma ser votada no Senado.
Para fazer a puta matéria e ganhar um Prêmio Esso:
Está amarrado? Sua carreira não progride? Livre-se da preguiça que te impede de sair às ruas para fazer grandes reportagens. Em uma bacia, coloque três copos de água, pedaços limpos de papel do seu bloquinho de anotações e pétalas de quatro rosas brancas. Molhe uma toalha amarela na água e a passe por todo o corpo. O ritual de purificação liberta o repórter de energias negativas, como o Google e o ar-condicionado da redação.
Para filar um rango mais decente em coletivas:
Se você não suporta mais comer canapezinho ou filé ao molho madeira com arroz e batatas, prepare um carré de cordeiro com cuscuz marroquino, harmonize com um Bordeaux tinto e leve tudo a uma encruzilhada. Velas especiais dão um charme à oferenda. Infalível. Em poucos dias, vai chover boca-livre chique. E, para não pagar mico à mesa, faça um curso de etiqueta, mesmo porque ainda não inventaram simpatia com este objetivo.
Para casar com alguém de outra profissão:
É uma simpatia três em uma. Ao casar com um(a) não-jornalista, você também atrai mais dinheiro e um parceiro mais estável (emocionalmente, profissionalmente, sexualmente e outros advérbios de modo). Mas não se trata de uma simpatia fácil. Depende de muita reza, muita vela, muito mel e muito sacrifício para trocar os deliciosos bares de jornalista por baladas cheias de gente careta e com um papo chato do caralho.
Para arrumar um emprego:
Descole uma imagem pequena de Santo Antônio do Bom Emprego, aquela em que ele segura uma pastinha com seu portfólio de matérias publicadas. Coloque o santo de cabeça para baixo em um copo de água e retire a pastinha de suas mãos. Só livre o danado do afogamento e lhe devolva o portfólio quando conseguir o emprego. Se em uma semana você não for chamado nem para uma entrevista, esqueça simpatias e melhore sua rede de contatos.
Pegue o diploma que você tinha plastificado para usar como toalha em refeições rápidas. Junte a ele um baralho de truco virgem, um livro de Marshall McLuhan e pétalas de duas rosas amarelas. Guarde tudo em uma gaveta e feche com chave. Costure uma foto do doutor Gilmar Mendes na boca de um sapo e enterre o sapo no lixão mais nojento que conhecer. Se milhares de jornalistas fizerem a simpatia, há grande chance de a PEC do diploma ser votada no Senado.
Para fazer a puta matéria e ganhar um Prêmio Esso:
Está amarrado? Sua carreira não progride? Livre-se da preguiça que te impede de sair às ruas para fazer grandes reportagens. Em uma bacia, coloque três copos de água, pedaços limpos de papel do seu bloquinho de anotações e pétalas de quatro rosas brancas. Molhe uma toalha amarela na água e a passe por todo o corpo. O ritual de purificação liberta o repórter de energias negativas, como o Google e o ar-condicionado da redação.
Para filar um rango mais decente em coletivas:
Se você não suporta mais comer canapezinho ou filé ao molho madeira com arroz e batatas, prepare um carré de cordeiro com cuscuz marroquino, harmonize com um Bordeaux tinto e leve tudo a uma encruzilhada. Velas especiais dão um charme à oferenda. Infalível. Em poucos dias, vai chover boca-livre chique. E, para não pagar mico à mesa, faça um curso de etiqueta, mesmo porque ainda não inventaram simpatia com este objetivo.
Para casar com alguém de outra profissão:
É uma simpatia três em uma. Ao casar com um(a) não-jornalista, você também atrai mais dinheiro e um parceiro mais estável (emocionalmente, profissionalmente, sexualmente e outros advérbios de modo). Mas não se trata de uma simpatia fácil. Depende de muita reza, muita vela, muito mel e muito sacrifício para trocar os deliciosos bares de jornalista por baladas cheias de gente careta e com um papo chato do caralho.
Para arrumar um emprego:
Descole uma imagem pequena de Santo Antônio do Bom Emprego, aquela em que ele segura uma pastinha com seu portfólio de matérias publicadas. Coloque o santo de cabeça para baixo em um copo de água e retire a pastinha de suas mãos. Só livre o danado do afogamento e lhe devolva o portfólio quando conseguir o emprego. Se em uma semana você não for chamado nem para uma entrevista, esqueça simpatias e melhore sua rede de contatos.
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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Ah, essa nossa versatilidade
Como diz aquela famosa frase daquele famoso livro: “No princípio, Deus criou os céus, a terra e a jornada dupla (ou tripla) de trabalho para os jornalistas”.
Amanda passa o dia inteiro na redação, apurando, escrevendo, ajudando no fechamento. À noite, quando deveria descansar, dedica-se à carreira de escritora amadora. Sonha levar a coisa mais a sério um dia, perder a timidez, publicar seu livro de poemas, sobreviver de literatura, mandar o jornal à merda. Quando sobra um tempo, ainda ajuda a mãe a fazer artesanato em mosaico para vender na feirinha da Benedito Calixto.
Alex adoraria que seu dia tivesse 36 horas, única forma de poder conciliar o emprego de subeditor de um site sobre cinema com os vários frilas. Nos raros momentos de ócio na redação, aproveita para usar o telefone do patrão e escrever as matérias que faz por fora. Assina seus frilas com pseudônimos. Aliás, adora escolher pseudônimos. O último foi Raimundo Coppola, uma homenagem simultânea ao avô cearense e ao cineasta americano.
Repórter de uma revista mensal sobre variedades, Érica assumiu, recentemente, o cargo de “diretora de Comunicação” do grupo de empresas de sua família, que inclui duas lojas de 1,99 no centro da cidade e um açougue decadente. Vive dizendo ao pai que, sem estratégias de comunicação modernas e eficientes, o grupo irá à falência. Ganha uma remuneração bem baixa pelo nobre cargo de diretora, mas família é aquela coisa, né?
Desde que Boninho passou a reservar uma cota para jornalistas no Big Brother, o assessor de imprensa Jonas dedica as noites a criar artimanhas para conseguir vaga no programa. Sabe que o futuro dos jornalistas está nos reality shows. Planeja vídeos de inscrição. A imitação de William Bonner apresentando o JN de cueca tinha tudo para encantar, mas não deu certo. A de moça do tempo gostosa também naufragou, apesar do strip-tease no fim.
Heitor, cujo trabalho oficial é o de editor de imagens num programa esportivo de TV, descobriu que consegue ter um bom complemento de renda como professor de jornalismo. Começou com aulas de telejornalismo, sua área, empolgou-se e hoje também é responsável pelas disciplinas Teorias da Comunicação, Filosofia e Rádio. Não é um profundo conhecedor das disciplinas, mas a faculdade também não é lá essas coisas.
César Luís chega à emissora de rádio apenas à tarde para comandar o programa “A Notícia em Sua Casa” e aproveita as manhãs para fazer um bico no Supermercado Princesa. De óculos escuros e microfone na mão, é o locutor responsável por anunciar as promoções. “Vamos aproveitar, dona de casa, que hoje é o dia do peixe barato aqui no Princesa. O filé de merluza tá com preço especial. Tá esperando o quê, minha senhora?”
Amanda passa o dia inteiro na redação, apurando, escrevendo, ajudando no fechamento. À noite, quando deveria descansar, dedica-se à carreira de escritora amadora. Sonha levar a coisa mais a sério um dia, perder a timidez, publicar seu livro de poemas, sobreviver de literatura, mandar o jornal à merda. Quando sobra um tempo, ainda ajuda a mãe a fazer artesanato em mosaico para vender na feirinha da Benedito Calixto.
Alex adoraria que seu dia tivesse 36 horas, única forma de poder conciliar o emprego de subeditor de um site sobre cinema com os vários frilas. Nos raros momentos de ócio na redação, aproveita para usar o telefone do patrão e escrever as matérias que faz por fora. Assina seus frilas com pseudônimos. Aliás, adora escolher pseudônimos. O último foi Raimundo Coppola, uma homenagem simultânea ao avô cearense e ao cineasta americano.
Repórter de uma revista mensal sobre variedades, Érica assumiu, recentemente, o cargo de “diretora de Comunicação” do grupo de empresas de sua família, que inclui duas lojas de 1,99 no centro da cidade e um açougue decadente. Vive dizendo ao pai que, sem estratégias de comunicação modernas e eficientes, o grupo irá à falência. Ganha uma remuneração bem baixa pelo nobre cargo de diretora, mas família é aquela coisa, né?
Desde que Boninho passou a reservar uma cota para jornalistas no Big Brother, o assessor de imprensa Jonas dedica as noites a criar artimanhas para conseguir vaga no programa. Sabe que o futuro dos jornalistas está nos reality shows. Planeja vídeos de inscrição. A imitação de William Bonner apresentando o JN de cueca tinha tudo para encantar, mas não deu certo. A de moça do tempo gostosa também naufragou, apesar do strip-tease no fim.
Heitor, cujo trabalho oficial é o de editor de imagens num programa esportivo de TV, descobriu que consegue ter um bom complemento de renda como professor de jornalismo. Começou com aulas de telejornalismo, sua área, empolgou-se e hoje também é responsável pelas disciplinas Teorias da Comunicação, Filosofia e Rádio. Não é um profundo conhecedor das disciplinas, mas a faculdade também não é lá essas coisas.
César Luís chega à emissora de rádio apenas à tarde para comandar o programa “A Notícia em Sua Casa” e aproveita as manhãs para fazer um bico no Supermercado Princesa. De óculos escuros e microfone na mão, é o locutor responsável por anunciar as promoções. “Vamos aproveitar, dona de casa, que hoje é o dia do peixe barato aqui no Princesa. O filé de merluza tá com preço especial. Tá esperando o quê, minha senhora?”
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terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Carta de um jovem jornalista ao Papai Noel
"Olá, Papai Noel. Eu me chamo João e sou um jornalista recém-formado. Ainda estou chateado com essa história do diploma não ser mais obrigatório, mas não vou desistir da profissão que eu amo! Com ou sem diploma, o problema maior é que está muito difícil arrumar um emprego. Estou escrevendo para pedir uma oportunidade de trabalho neste Natal. Deixei uma meia pendurada na janela com meu currículo atualizado.
Nem precisa ser um emprego muito bom. Para começar, faço até plantão no carnaval. Sei que vou ganhar um salário pequeno. Estou ansioso para aprender jornalismo na prática e confiante que o próximo ano será bem melhor. Meus amigos dizem que sou muito otimista, que acredito em tudo, até em Papai Noel. Mas a gente precisa ser assim.
Cometi alguns erros este ano, mas nada tão grave que não me faça merecer este emprego. O senhor vai compreender. Fiquei de bobeira na internet, escrevendo bobagem no Facebook e lendo o blog do Duda Rangel. O único vício que eu tenho é beber demais, embora falam que todo jornalista bebe. Também dou um tapa num baseado de vez em quando, mas só quando estou estressado e com dor de cabeça. E se é para uso medicinal não há problema, o senhor bem sabe.
Na faculdade, eu sempre fui um aluno dedicado. Fazia os trabalhos direitinho. Li até livro do Diogo Mainardi que eles me obrigaram. Eu também sou bem-informado. Não gosto de ler jornal, mas sigo todas as notícias na internet. O meu Português é bem correto também. O senhor pode notar que não tem vírgula separando o sujeito do verbo nesta carta.
Estou louco para ver se todas aquelas coisas que o Duda Rangel escreve no blog dele acontecem mesmo. Estou com um puta tesão (ops, desculpa!) de ir para a rua, fazer reportagens, buscar sempre a história mais bacana, comer coxinha de frango na padoca, ganhar um monte de jabá e almoçar de graça nos eventos. Também quero conhecer o tal pescoção. Só não quero ser corno como o Duda, mas este pedido fica para o outro Natal, está bom? Não vou abusar mais do senhor! Obrigado, Papai Noel. João."
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Nem precisa ser um emprego muito bom. Para começar, faço até plantão no carnaval. Sei que vou ganhar um salário pequeno. Estou ansioso para aprender jornalismo na prática e confiante que o próximo ano será bem melhor. Meus amigos dizem que sou muito otimista, que acredito em tudo, até em Papai Noel. Mas a gente precisa ser assim.
Cometi alguns erros este ano, mas nada tão grave que não me faça merecer este emprego. O senhor vai compreender. Fiquei de bobeira na internet, escrevendo bobagem no Facebook e lendo o blog do Duda Rangel. O único vício que eu tenho é beber demais, embora falam que todo jornalista bebe. Também dou um tapa num baseado de vez em quando, mas só quando estou estressado e com dor de cabeça. E se é para uso medicinal não há problema, o senhor bem sabe.
Na faculdade, eu sempre fui um aluno dedicado. Fazia os trabalhos direitinho. Li até livro do Diogo Mainardi que eles me obrigaram. Eu também sou bem-informado. Não gosto de ler jornal, mas sigo todas as notícias na internet. O meu Português é bem correto também. O senhor pode notar que não tem vírgula separando o sujeito do verbo nesta carta.
Estou louco para ver se todas aquelas coisas que o Duda Rangel escreve no blog dele acontecem mesmo. Estou com um puta tesão (ops, desculpa!) de ir para a rua, fazer reportagens, buscar sempre a história mais bacana, comer coxinha de frango na padoca, ganhar um monte de jabá e almoçar de graça nos eventos. Também quero conhecer o tal pescoção. Só não quero ser corno como o Duda, mas este pedido fica para o outro Natal, está bom? Não vou abusar mais do senhor! Obrigado, Papai Noel. João."
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Quis porque quis fazer jornalismo
Depois de muitos anos, duas mães se reencontram num colégio, no dia de votação de uma eleição qualquer.
- Maria Helena? Você não é a mãe do Paulo Henrique, o amigo do Arturzinho, meu filho, nos tempos aqui do colégio?
- Claro! Sou a mãe do Paulo Henrique, sim. Quanto tempo, Célia! E como vai o Arturzinho?
- Arturzinho tá ótimo. Tá nos Estados Unidos. Acabou a faculdade de Economia na USP e está fazendo uma pós-graduação em Nova York. Tá todo empolgado! A família também. E o Paulo Henrique?
- Paulo é aquela coisa: nunca gostou de estudar. Quis porque quis fazer jornalismo. O pai não queria. Agora tá aí, desempregado. Diz que manda currículo todo dia, pra tudo que é lugar, mas a situação tá difícil.
- Mas isso é fase, Maria Helena.
- Deus te ouça, Célia. O Paulo Henrique passa o dia inteiro tocando guitarra no quarto. Diz que vai ser músico também. O pai não tá gostando nada. Eu queria tanto que ele fosse igual ao Arturzinho.
- Bem, Maria Helena, deixa eu ir. Sucesso pro Paulo Henrique.
Dois anos depois, numa outra eleição, novo reencontro.
- Oi, tudo bem? E o Paulo Henrique? Ainda sem emprego?
- Oi, Célia, tudo bem. O Paulo arrumou umas coisas, sim, mas tudo bico. Pelo menos tá pagando as contas dele.
- Que bom, já é alguma coisa, né?
- Ele diz que também está fazendo um blog. Acho que é esse o nome: blog. Não ganha nada. Diz que vai ganhar, mas até agora nada. Diz que é um blog sobre transparência política. Não entendo direito. Ah, esse moleque. E o Artur?
- Arturzinho tá ótimo. Já tá voltando pro Brasil. Mês que vem. Com a pós que ele fez lá nos Estados Unidos, já garantiu um superemprego aqui, num banco grande. Tão jovem e já vai ter um cargo importante, sabe? Salário excelente.
- Que bom. O Arturzinho sempre foi muito estudioso. Eu falava pro Paulo: segue o exemplo do seu amigo. Mas fazer o quê? Quis porque quis fazer essa bobagem de jornalismo...
Pelas mais diversas circunstâncias, o encontro seguinte só ocorreu depois de oito anos.
- Maria Helena, tudo bem? Lembrei de você esses dias!
- Sério?
- Me fala uma coisa: o Paulo Henrique Dias, o jornalista que denunciou o esquema de corrupção lá no Senado, é o seu filho?
- É o meu filho, sim.
- Jura?
- Paulinho tá trabalhando em Brasília há uns cinco anos ou mais. Gostou mesmo dessa coisa de política, investigação, transparência. Lembra que eu falei do blog? Arrumou até emprego por causa do blog.
- Lembro do blog, sim. Que coisa, né?
- Não ganha o salário do Arturzinho, mas tá muito feliz.
- Então, deixa eu te contar. O Artur não está mais no banco. Fez uma besteira lá num investimento alto, o banco perdeu muito dinheiro e mandou ele embora. O pai ficou uma fera. Vai estudar nos Estados Unidos pra fazer uma besteira dessas?
- Sério? Coitado...
- E quando é pra dar errado dá tudo junto. Ele tinha casado, mas depois da confusão com o banco até a mulher abandonou o Artur. Tá em depressão. Não vai nem mais às aulas de esgrima.
- O pai do Paulinho tá todo orgulhoso do filho. Eu também, sabe? Tenho uma pasta aqui com os recortes das matérias dele. Quer ver? Só matéria de capa.
- Nossa, que coisa, né?
- E não é que o Paulinho se encontrou mesmo no jornalismo?
- Maria Helena? Você não é a mãe do Paulo Henrique, o amigo do Arturzinho, meu filho, nos tempos aqui do colégio?
- Claro! Sou a mãe do Paulo Henrique, sim. Quanto tempo, Célia! E como vai o Arturzinho?
- Arturzinho tá ótimo. Tá nos Estados Unidos. Acabou a faculdade de Economia na USP e está fazendo uma pós-graduação em Nova York. Tá todo empolgado! A família também. E o Paulo Henrique?
- Paulo é aquela coisa: nunca gostou de estudar. Quis porque quis fazer jornalismo. O pai não queria. Agora tá aí, desempregado. Diz que manda currículo todo dia, pra tudo que é lugar, mas a situação tá difícil.
- Mas isso é fase, Maria Helena.
- Deus te ouça, Célia. O Paulo Henrique passa o dia inteiro tocando guitarra no quarto. Diz que vai ser músico também. O pai não tá gostando nada. Eu queria tanto que ele fosse igual ao Arturzinho.
- Bem, Maria Helena, deixa eu ir. Sucesso pro Paulo Henrique.
Dois anos depois, numa outra eleição, novo reencontro.
- Oi, tudo bem? E o Paulo Henrique? Ainda sem emprego?
- Oi, Célia, tudo bem. O Paulo arrumou umas coisas, sim, mas tudo bico. Pelo menos tá pagando as contas dele.
- Que bom, já é alguma coisa, né?
- Ele diz que também está fazendo um blog. Acho que é esse o nome: blog. Não ganha nada. Diz que vai ganhar, mas até agora nada. Diz que é um blog sobre transparência política. Não entendo direito. Ah, esse moleque. E o Artur?
- Arturzinho tá ótimo. Já tá voltando pro Brasil. Mês que vem. Com a pós que ele fez lá nos Estados Unidos, já garantiu um superemprego aqui, num banco grande. Tão jovem e já vai ter um cargo importante, sabe? Salário excelente.
- Que bom. O Arturzinho sempre foi muito estudioso. Eu falava pro Paulo: segue o exemplo do seu amigo. Mas fazer o quê? Quis porque quis fazer essa bobagem de jornalismo...
Pelas mais diversas circunstâncias, o encontro seguinte só ocorreu depois de oito anos.
- Maria Helena, tudo bem? Lembrei de você esses dias!
- Sério?
- Me fala uma coisa: o Paulo Henrique Dias, o jornalista que denunciou o esquema de corrupção lá no Senado, é o seu filho?
- É o meu filho, sim.
- Jura?
- Paulinho tá trabalhando em Brasília há uns cinco anos ou mais. Gostou mesmo dessa coisa de política, investigação, transparência. Lembra que eu falei do blog? Arrumou até emprego por causa do blog.
- Lembro do blog, sim. Que coisa, né?
- Não ganha o salário do Arturzinho, mas tá muito feliz.
- Então, deixa eu te contar. O Artur não está mais no banco. Fez uma besteira lá num investimento alto, o banco perdeu muito dinheiro e mandou ele embora. O pai ficou uma fera. Vai estudar nos Estados Unidos pra fazer uma besteira dessas?
- Sério? Coitado...
- E quando é pra dar errado dá tudo junto. Ele tinha casado, mas depois da confusão com o banco até a mulher abandonou o Artur. Tá em depressão. Não vai nem mais às aulas de esgrima.
- O pai do Paulinho tá todo orgulhoso do filho. Eu também, sabe? Tenho uma pasta aqui com os recortes das matérias dele. Quer ver? Só matéria de capa.
- Nossa, que coisa, né?
- E não é que o Paulinho se encontrou mesmo no jornalismo?
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Um anúncio de emprego supersincero
Cargo: Jornalista faz-tudo.
Exigências:
Agilidade para trabalhar por três jornalistas com o salário de um.
Importante não ter vida social.
Experiência em apuração jornalística pelo Google.
Facilidade de relacionamento com assessor de imprensa chato.
Suportar a dureza diária sem reclamar o tempo todo é diferencial.
Imprescindível ter estômago resistente às porcarias da padoca.
Equilíbrio para lidar com frustrações.
Bons conhecimentos de sobrevivência em redação.
Diploma de jornalista é interessante. Se não tiver, foda-se.
Benefícios:
Crachá para dar carteirada em eventos esportivos e culturais.
Oportunidade de ir a pautas com boca-livre e jabás.
Tapinha nas costas (se exceder as metas).
Salário: Incompatível com o mercado e seus gastos pessoais.
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segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Crônica sobre o frila fixo
Ela não é a mulher oficial, não está presente no almoço da Páscoa, nem na ceia de Natal. Mas também não é uma avulsa qualquer. Mora no flat modesto do centro que ele paga, local em que se consome o sexo clandestino. E frenético. Ser a amante fixa não é o que ela esperava para sua vida, mas é melhor do que ser uma solteirona amarga, como as amigas.
No jornalismo, o frila fixo tem o papel da amante fixa. Ele não tem vínculo empregatício com a empresa de comunicação. Mas também não é um avulso qualquer. Está diariamente na redação, explorado como qualquer outro, apenas sem direitos trabalhistas. Não é o que ele esperava para sua vida, mas é melhor do que estar desempregado, como os amigos.
Assim como a amante fixa sonha um dia ser a patroa, com direito aos eventos familiares e a uma vida estável, o frila fixo também deseja o vínculo oficial, com direito aos benefícios da carteira assinada. E a uma vida estável.
Comecei no jornalismo como frila fixo. Cobertura de férias da Cidinha, repórter de Turismo, que naquele ano foi com o marido descansar em Ubatuba. Ou foi Peruíbe? Faltava pouco tempo para a Cidinha voltar, naturalmente toda picada por borrachudos, e eu já me imaginava de novo na sarjeta. Foi quando descobri que a Norma, repórter de Economia, sairia de licença-maternidade. Graças ao milagre da vida, no caso da vida do filho da Norma, eu alcancei o milagre de ficar mais quatro meses como frila fixo.
Tão logo o jornalista se torna um frila fixo, conhece algumas artimanhas, como o esquema da nota fiscal. O frila fixo só recebe a miséria de seu “salário” se apresentar uma nota. O Reinaldo era o rei da nota fiscal na redação. “Duda, o esquema é muito bom, firma em Carapicuíba. Conhece Carapicuíba? Lá se paga uma merreca de imposto”, explicava. Por muito tempo, o Reinaldo foi o meu fornecedor de notas fiscais de Carapicuíba.
Como ocorre com muita gente, fui pulando de cobertura de férias em cobertura de férias, de licença-maternidade em licença-maternidade, até um dia ser oficialmente contratado. A amante virou esposa. FGTS, 13º salário e a esperança de uma vida melhor.
No início, você até se empolga, mas logo se dá conta de que a tal estabilidade não é grande coisa. No caso das amantes, muitas percebem que ser a oficial é até pior. E ficam cheias de saudade do sexo clandestino e frenético no flat modesto do centro.
No jornalismo, o frila fixo tem o papel da amante fixa. Ele não tem vínculo empregatício com a empresa de comunicação. Mas também não é um avulso qualquer. Está diariamente na redação, explorado como qualquer outro, apenas sem direitos trabalhistas. Não é o que ele esperava para sua vida, mas é melhor do que estar desempregado, como os amigos.
Assim como a amante fixa sonha um dia ser a patroa, com direito aos eventos familiares e a uma vida estável, o frila fixo também deseja o vínculo oficial, com direito aos benefícios da carteira assinada. E a uma vida estável.
Comecei no jornalismo como frila fixo. Cobertura de férias da Cidinha, repórter de Turismo, que naquele ano foi com o marido descansar em Ubatuba. Ou foi Peruíbe? Faltava pouco tempo para a Cidinha voltar, naturalmente toda picada por borrachudos, e eu já me imaginava de novo na sarjeta. Foi quando descobri que a Norma, repórter de Economia, sairia de licença-maternidade. Graças ao milagre da vida, no caso da vida do filho da Norma, eu alcancei o milagre de ficar mais quatro meses como frila fixo.
Tão logo o jornalista se torna um frila fixo, conhece algumas artimanhas, como o esquema da nota fiscal. O frila fixo só recebe a miséria de seu “salário” se apresentar uma nota. O Reinaldo era o rei da nota fiscal na redação. “Duda, o esquema é muito bom, firma em Carapicuíba. Conhece Carapicuíba? Lá se paga uma merreca de imposto”, explicava. Por muito tempo, o Reinaldo foi o meu fornecedor de notas fiscais de Carapicuíba.
Como ocorre com muita gente, fui pulando de cobertura de férias em cobertura de férias, de licença-maternidade em licença-maternidade, até um dia ser oficialmente contratado. A amante virou esposa. FGTS, 13º salário e a esperança de uma vida melhor.
No início, você até se empolga, mas logo se dá conta de que a tal estabilidade não é grande coisa. No caso das amantes, muitas percebem que ser a oficial é até pior. E ficam cheias de saudade do sexo clandestino e frenético no flat modesto do centro.
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sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Dia do professor (de jornalismo)
Em homenagem ao dia do professor, em especial ao de jornalismo, republico trechos de um antigo post sobre a arte (ou não, como diria Caetano) de ensinar a profissão.
Desempregado, já pensei em fazer cada coisa pra sobreviver que fico até constrangido em revelar aqui, neste blog quase decente, quase de família. Entre as idéias publicáveis, dar aulas de jornalismo foi uma delas. Seria um bom professor? Ou prestaria um grande desserviço ao ensino superior brasileiro? Em minhas divagações, rolou até um embate entre um Duda que quer muito ser professor e um Duda que deseja passar longe das salas de aula.
Duda que quer ser professor: O lance é dar aula, cara! Imagine a grande oportunidade que a gente teria de transmitir conhecimento aos jovens. Isso é o que vale a pena na vida!
Duda que não quer: Mas como? Numa sala de 80 alunos? Não vão nem ouvir a gente!
Duda que quer: Se metade ouvir já está ótimo. Você não percebe a nobreza da missão?
Duda que não quer: Metade vai ficar ouvindo música num iPod durante a nossa aula! E a outra metade, sei lá...
Duda que quer: Tá bom. Então esquece o lance nobre da coisa e sejamos práticos. Há quanto tempo as contas da luz e da água estão atrasadas? E o aluguel?
Duda que não quer: Você acha que a gente vai ganhar muito dinheiro como professor? Pagam uma miséria! Pior que redação. E a gente também nem tem mestrado.
Duda que quer: Tem um monte de faculdade que não exige mestrado. Até preferem, sabia?
Duda que não quer: A gente não vai dar aula e ponto final. A verdade é que a gente não gosta disso.
Duda que quer: Você não gosta. Fale por você!
Duda que não quer: Tá bom, tá bom. EU NÃO GOSTO.
Instantes de silêncio...
Duda que quer: E as menininhas? Nem por elas? Já imaginou quantas, daquelas bem gostosas, assistiriam às nossas aulas, loucas por aprender jornalismo, loucas por sei lá mais o quê?
Duda que não quer: (riso) Meu Deus, estamos velhos!
Duda que quer: Velho é você! Velho e viado!
Desempregado, já pensei em fazer cada coisa pra sobreviver que fico até constrangido em revelar aqui, neste blog quase decente, quase de família. Entre as idéias publicáveis, dar aulas de jornalismo foi uma delas. Seria um bom professor? Ou prestaria um grande desserviço ao ensino superior brasileiro? Em minhas divagações, rolou até um embate entre um Duda que quer muito ser professor e um Duda que deseja passar longe das salas de aula.
Duda que quer ser professor: O lance é dar aula, cara! Imagine a grande oportunidade que a gente teria de transmitir conhecimento aos jovens. Isso é o que vale a pena na vida!
Duda que não quer: Mas como? Numa sala de 80 alunos? Não vão nem ouvir a gente!
Duda que quer: Se metade ouvir já está ótimo. Você não percebe a nobreza da missão?
Duda que não quer: Metade vai ficar ouvindo música num iPod durante a nossa aula! E a outra metade, sei lá...
Duda que quer: Tá bom. Então esquece o lance nobre da coisa e sejamos práticos. Há quanto tempo as contas da luz e da água estão atrasadas? E o aluguel?
Duda que não quer: Você acha que a gente vai ganhar muito dinheiro como professor? Pagam uma miséria! Pior que redação. E a gente também nem tem mestrado.
Duda que quer: Tem um monte de faculdade que não exige mestrado. Até preferem, sabia?
Duda que não quer: A gente não vai dar aula e ponto final. A verdade é que a gente não gosta disso.
Duda que quer: Você não gosta. Fale por você!
Duda que não quer: Tá bom, tá bom. EU NÃO GOSTO.
Instantes de silêncio...
Duda que quer: E as menininhas? Nem por elas? Já imaginou quantas, daquelas bem gostosas, assistiriam às nossas aulas, loucas por aprender jornalismo, loucas por sei lá mais o quê?
Duda que não quer: (riso) Meu Deus, estamos velhos!
Duda que quer: Velho é você! Velho e viado!
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Cinco dicas para uma entrevista de emprego
São tão raras as entrevistas de emprego que, quando o jornalista tem a oportunidade de ir a uma, deve se esforçar para não fazer feio. O blog preparou cinco dicas para você:
A questão da roupa e da aparência é sempre importante e depende muito de quem será o entrevistador. Se for um daqueles editores mauricinhos, de gravata amarela e gel nos cabelos, não se esqueça de fazer a barba e evite calças rasgadas e camisetas com a cara do Mussum. Se o entrevistador for do tipo galinha, apostar num decote até o umbigo é uma boa idéia para as mulheres. E nada de usar a camisa pólo que ganhou de jabá numa coletiva, com nome e logo de empresa de fios e cabos elétricos.
Atenção com o portfólio é fundamental. Se você é um jornalista jurássico que luta para voltar ao mercado, nem pense em levar a pasta mofada com recortes de suas matérias no Jornal de Carapicuíba de 1983. Se você é jovem e seu portfólio é tão pequeno que te mata de vergonha, destaque outras atividades, como trabalhos voluntários. Que tal dizer que você entrega sopão a repórteres desempregados que moram debaixo do viaduto ou participa do projeto de inclusão sexual do Retiro dos Jornalistas?
Não fale mal do ex-chefe e da empresa em que trabalhou. Evite desabafos do tipo “Deixei o meu último emprego, porque o meu editor sempre me dava as piores pautas” ou “Depois que coloquei o jornal no pau, aqueles exploradores vão ter que me pagar as horas extras”. Faça um esforço e tente mostrar o lado positivo da experiência anterior, como “Eu era um repórter tão dedicado que cheguei a trabalhar dois meses sem folga, em pautas desafiadoras. Um grande aprendizado!”.
O que é diferencial competitivo para um jornalista hoje? Dizer que você está com o aluguel atrasado, com o nome sujo no Serasa e dificuldade de comprar o leitinho dos meninos não comove mais o entrevistador. Seus concorrentes também farão voto de pobreza. O diferencial é a capacidade de lidar com a miséria. Diga, por exemplo, que, desde que cortaram a energia elétrica em sua casa, você trocou a TV alienante pela leitura dos clássicos à luz de velas. E tem ainda o lance de salvar o planeta, que pega superbem.
Sentir-se seguro é essencial. Aprenda a adequar seu perfil e defeitos às vagas para não perder tempo. Se você é fanho, nem vá à entrevista para a vaga de locutor de rádio; se você é feia, desista de ser apresentadora de telejornal; se você aprendeu Inglês dormindo, a vaga de repórter de Internacional não é para você; se você é comunista, esqueça a oportunidade na Veja; e se você tem um texto sem graça e todo clichê, desista do jornalismo. A menos que a vaga seja de redator da revista Caras.
A questão da roupa e da aparência é sempre importante e depende muito de quem será o entrevistador. Se for um daqueles editores mauricinhos, de gravata amarela e gel nos cabelos, não se esqueça de fazer a barba e evite calças rasgadas e camisetas com a cara do Mussum. Se o entrevistador for do tipo galinha, apostar num decote até o umbigo é uma boa idéia para as mulheres. E nada de usar a camisa pólo que ganhou de jabá numa coletiva, com nome e logo de empresa de fios e cabos elétricos.
Atenção com o portfólio é fundamental. Se você é um jornalista jurássico que luta para voltar ao mercado, nem pense em levar a pasta mofada com recortes de suas matérias no Jornal de Carapicuíba de 1983. Se você é jovem e seu portfólio é tão pequeno que te mata de vergonha, destaque outras atividades, como trabalhos voluntários. Que tal dizer que você entrega sopão a repórteres desempregados que moram debaixo do viaduto ou participa do projeto de inclusão sexual do Retiro dos Jornalistas?
Não fale mal do ex-chefe e da empresa em que trabalhou. Evite desabafos do tipo “Deixei o meu último emprego, porque o meu editor sempre me dava as piores pautas” ou “Depois que coloquei o jornal no pau, aqueles exploradores vão ter que me pagar as horas extras”. Faça um esforço e tente mostrar o lado positivo da experiência anterior, como “Eu era um repórter tão dedicado que cheguei a trabalhar dois meses sem folga, em pautas desafiadoras. Um grande aprendizado!”.
O que é diferencial competitivo para um jornalista hoje? Dizer que você está com o aluguel atrasado, com o nome sujo no Serasa e dificuldade de comprar o leitinho dos meninos não comove mais o entrevistador. Seus concorrentes também farão voto de pobreza. O diferencial é a capacidade de lidar com a miséria. Diga, por exemplo, que, desde que cortaram a energia elétrica em sua casa, você trocou a TV alienante pela leitura dos clássicos à luz de velas. E tem ainda o lance de salvar o planeta, que pega superbem.
Sentir-se seguro é essencial. Aprenda a adequar seu perfil e defeitos às vagas para não perder tempo. Se você é fanho, nem vá à entrevista para a vaga de locutor de rádio; se você é feia, desista de ser apresentadora de telejornal; se você aprendeu Inglês dormindo, a vaga de repórter de Internacional não é para você; se você é comunista, esqueça a oportunidade na Veja; e se você tem um texto sem graça e todo clichê, desista do jornalismo. A menos que a vaga seja de redator da revista Caras.
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segunda-feira, 26 de julho de 2010
O deputado, a sogra e a cabeça do repórter
Deputado influente fala com seu assessor
Entendeu o que eu te pedi? Quero que você ligue agora para o editor do jornal e peça para ele demitir aquele repórter irresponsável. Onde se viu escrever que minha sogra tá empregada lá no gabinete, recebe salário e não aparece para trabalhar? Tudo bem que é verdade, mas que direito esse reporterzinho de merda tem de publicar isso? Deixa a velha sossegada, porra! Cadê o respeito com a terceira idade? Mas esse repórter, que é um moleque, vai se dar mal. Vai aprender a não se meter mais comigo! E, outra coisa: não esquece de lembrar o editor que o dono da bosta daquele jornal é meu amigo há muitos anos, que tomamos uísque juntos. E fala grosso, viu? Diz assim: “O deputado tá muito puto com a safadeza desse repórter”.
Assessor fala com o editor do jornal
Tudo bem? Então, é sobre a matéria que saiu sobre a sogra do deputado. Na verdade, o deputado ficou um pouco magoado com o que o seu repórter escreveu. Todos sabem que o deputado sempre foi preocupado com a ética, sempre combateu o nepotismo e agora esse rapaz escreve isso, você entende? E, além de tudo, envolveu a sogra do deputado, que é uma senhora. Eu sei que pode ter sido uma infelicidade do repórter, que ainda é muito jovem, mas o deputado gostaria muito que você desligasse esse jornalista da empresa. Parece que o deputado é amigo do dono do seu jornal, acho que até tomam uísque juntos. É mais para não ferir a amizade que eles têm. Acho que você me entende, não?
FINAL FELIZ
Editor do jornal fala com o repórter
Sabe quem me ligou agora há pouco? O assessor do deputado da sogra. Acredita que o desgraçado do deputado pediu a tua cabeça? Filho-da-puta! Ele acha que é só ligar, dizer que não gostou da matéria e a gente vai mandando pra rua. Queria que você soubesse desta história. Pode ficar tranqüilo que você continua em nossa equipe. Confio no seu trabalho e no seu potencial. Ah, e o assessor veio até com um papinho furado de que o deputado e o dono do jornal são amigos, que tomam uísque juntos. Babacas.
FINAL INFELIZ
Editor do jornal fala com o repórter
Opa, tudo bom? Sabe aquela matéria que você escreveu sobre o deputado que emprega a sogra no gabinete e que a sogra não aparece para trabalhar? Então, parece que você cometeu um equívoco na apuração e desagradou a muita gente. O deputado não gostou, o dono do jornal também. A sogra, que é velha, passou mal. Meu caro, jornalismo é coisa séria. Tem de ter muito cuidado com o que se escreve para não prejudicar ninguém. Mas você é muito jovem ainda, tem muito tempo para aprender... Bom, o departamento pessoal fica no segundo andar, ok? Passa lá. Ah, e não se esqueça de esvaziar a sua gaveta.
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sexta-feira, 2 de julho de 2010
Classificados
Como os profissionais da imprensa, loucos por um emprego ou por um frila, anunciariam seus préstimos jornalísticos em classificados iguais àqueles de sacanagem dos jornais.
Bianca, Dezinha e Lolita, universitárias, iniciantes
Amigas e loucas por um estágio. Servem até cafezinho na redação.
Cirilo, 28A, ativo e passivo
Atuo dos dois lados, como jornalista ou assessor de imprensa.
Disk Frila Privê 24 horas
20 jornalistas esperando por você. Sua matéria em ótimas mãos.
Emanuelle, coroa, faço de tudo
Repórter experiente. Apuro, checo, redijo, edito e reviso. Texto final garantido.
Escort homens e mulheres para viagens
Repórteres para acompanhar eventos. Bilíngües. Educados.
Fabinho, ético e sigiloso
Não revelo minhas fontes; guardo off sempre.
Michiko, 22A, oriental
R$ 150,00 a lauda. Atendimento em redação ou em minha casa.
Nando, fotógrafo, aventureiro
Para pautas radicais. Faço também festas de casamento e bailes de debutantes.
Pedrão, mulato bom de pauta, lauda de 30 linhas
Faço as leitoras enlouquecerem com os meus textos. A maior lauda do mercado.
Bianca, Dezinha e Lolita, universitárias, iniciantes
Amigas e loucas por um estágio. Servem até cafezinho na redação.
Cirilo, 28A, ativo e passivo
Atuo dos dois lados, como jornalista ou assessor de imprensa.
Disk Frila Privê 24 horas
20 jornalistas esperando por você. Sua matéria em ótimas mãos.
Emanuelle, coroa, faço de tudo
Repórter experiente. Apuro, checo, redijo, edito e reviso. Texto final garantido.
Escort homens e mulheres para viagens
Repórteres para acompanhar eventos. Bilíngües. Educados.
Fabinho, ético e sigiloso
Não revelo minhas fontes; guardo off sempre.
Michiko, 22A, oriental
R$ 150,00 a lauda. Atendimento em redação ou em minha casa.
Nando, fotógrafo, aventureiro
Para pautas radicais. Faço também festas de casamento e bailes de debutantes.
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sexta-feira, 9 de abril de 2010
O jornalista e o gênio
O jornalista recém-formado caminha pela rua quando reconhece um gênio da lâmpada mágica, sentado num banco de praça, fumando um cigarrinho. Aproxima-se dele e pergunta se teria direito a três pedidos. De mau humor, o gênio, em seus poucos minutos de folga, responde que o esquema agora é realizar um só desejo. Está tão atolado de trabalho que nem tem tido mais tempo de voltar para a lâmpada.
– Sabe, seu gênio, meu sonho é trabalhar na grande imprensa. Não vejo a hora de desfilar num carro de reportagem no meio de uma multidão de curiosos. Acho que vou me sentir o cara mais importante do planeta.
– Olha, chefia, o que mais tem por aí é jornalista pedindo uma boquinha dessas. E, para piorar, as redações estão enxutas. Não vai rolar.
– Bom, se não for em grande imprensa, que seja, pelo menos, um emprego com carteira assinada.
– Carteira assinada? (o gênio dá um sorriso maroto). O que tem saído nesses dias é o sistema PJ e olhe lá.
– Tudo bem. Pode ser PJ desde que o salário seja bom.
– Salário bom? (o gênio quase engasga com o cigarro ao ter uma crise de risos). Você não precisa ser gênio para saber que o mercado tá uma merda!
– Mas você não é o gênio da lâmpada mágica? Não consegue qualquer coisa?
O gênio percebe o clima tenso, controla o riso e pede para o jornalista recém-formado sentar-se ao seu lado no banco.
– Tem um monte de gênio picareta por aí que promete o melhor emprego do mundo para os jornalistas. A fama do William Bonner, o salário do Datena, o assédio de mulheres lindas, prêmios Esso e o cacete. São esses caras que mancham a imagem da minha categoria. O que consigo pra você agora é uma vaga em agência de assessoria de imprensa, com piso salarial e vale-refeição. Você começa amanhã, às 8. Se bobear, tem outro que pega a vaga.
O jornalista recém-formado, feliz, aceita a proposta, levanta-se do banco, agradece o gênio e segue sua caminhada.
– Ah, chefia, não atrasa, não, viu? Você terá cinco contas para atender...
– Sabe, seu gênio, meu sonho é trabalhar na grande imprensa. Não vejo a hora de desfilar num carro de reportagem no meio de uma multidão de curiosos. Acho que vou me sentir o cara mais importante do planeta.
– Olha, chefia, o que mais tem por aí é jornalista pedindo uma boquinha dessas. E, para piorar, as redações estão enxutas. Não vai rolar.
– Bom, se não for em grande imprensa, que seja, pelo menos, um emprego com carteira assinada.
– Carteira assinada? (o gênio dá um sorriso maroto). O que tem saído nesses dias é o sistema PJ e olhe lá.
– Tudo bem. Pode ser PJ desde que o salário seja bom.
– Salário bom? (o gênio quase engasga com o cigarro ao ter uma crise de risos). Você não precisa ser gênio para saber que o mercado tá uma merda!
– Mas você não é o gênio da lâmpada mágica? Não consegue qualquer coisa?
O gênio percebe o clima tenso, controla o riso e pede para o jornalista recém-formado sentar-se ao seu lado no banco.
– Tem um monte de gênio picareta por aí que promete o melhor emprego do mundo para os jornalistas. A fama do William Bonner, o salário do Datena, o assédio de mulheres lindas, prêmios Esso e o cacete. São esses caras que mancham a imagem da minha categoria. O que consigo pra você agora é uma vaga em agência de assessoria de imprensa, com piso salarial e vale-refeição. Você começa amanhã, às 8. Se bobear, tem outro que pega a vaga.
O jornalista recém-formado, feliz, aceita a proposta, levanta-se do banco, agradece o gênio e segue sua caminhada.
– Ah, chefia, não atrasa, não, viu? Você terá cinco contas para atender...
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quarta-feira, 3 de março de 2010
Jamais trabalharam como jornalista
A presença de jornalistas sem diploma no mercado de trabalho deve ser cada vez maior a partir de agora. É a nova realidade. Por outro lado, existe um grupo de jornalistas – bem grande, por sinal –, que cursou a faculdade, pegou o canudo, mas jamais viveu a profissão na prática. A mudança de rumo deve-se às mais variadas razões e circunstâncias. A seguir, conheça breves histórias de quem estudou para ser, mas nunca foi um jornalista.
No segundo ano da faculdade de jornalismo – sua grande paixão –, Janaína convenceu-se de que faltava algo à sua futura carreira. Desejava uma formação humana mais completa. Foi quando decidiu fazer, simultaneamente, o curso de História. Passaram-se dois anos, graduou-se em jornalismo, mas a sensação de lacuna em sua carreira permanecia. Prestou, então, vestibular para Ciências Sociais. Acumulou três diplomas e seguia insatisfeita. Partiu para um mestrado e, depois, para um doutorado. Jamais trabalhou como jornalista. Não sabe sequer como é o ar que se respira em uma redação. Semana que vem parte para os Estados Unidos para uma temporada de pesquisa numa universidade. Sua mala já está pronta, com roupas, livros e os vazios de sempre.
O pai insistiu para que Regina prestasse o vestibular. É importante ter um curso superior, dizia. Poderia ser qualquer um. Será que é apenas para ter uma cela especial quando cometesse um crime?, pensava ela. Optou por jornalismo, profissão chique. Não suportava as aulas de Filosofia e as teorias de comunicação, mas cumpriu sua missão. Após quatro anos, já tinha o diploma nas mãos, para orgulho de seu pai. Na semana seguinte, também com o apoio do pai, abriu uma loja de lingeries em um shopping e hoje é a rainha das calcinhas e dos sutiãs do pedaço. Jamais trabalhou como jornalista. Não sabe sequer como é a neurose do fechamento em uma redação. O principal aprendizado da faculdade foi descobrir que a carta mais importante do truco atende pelo nome de “zap”.
Fernando sempre conciliou a faculdade de jornalismo com a atividade de professor de Inglês. Trabalhava em escolas, dava aulas em sua casa. Com o dinheiro do árduo trabalho, conseguia pagar a faculdade e financiar os deleites sexuais de sua juventude. Ao se formar, não conseguia arrumar um emprego como jornalista. Mas, tudo bem, ele tinha as aulas de Inglês, que sempre o ajudaram. O tempo foi passando, o volume de aulas aumentando e a motivação de ser jornalista diminuindo. Hoje, tem sua própria escola de idiomas. Jamais trabalhou como jornalista. Não sabe sequer o que é uma reunião de pauta na prática.
Célia sempre foi uma menina ansiosa e um pouco medrosa. Desde a adolescência, freqüentava consultórios de psicólogos. Mas a faculdade de jornalismo lhe fazia bem, foi seu melhor remédio. Adorava aquilo tudo e tinha a certeza de que sua carreira seria um sucesso. No último ano do curso, contudo, durante uma atividade prática em sala de aula, seu texto recebeu uma crítica pesada do professor. Entrou em pânico, ficou paralisada. Se não conseguia suportar um revés na faculdade, não teria condições de enfrentar a pressão do dia-a-dia da profissão, refletia. Jamais trabalhou como jornalista. Não sabe sequer o que são os momentos de descontração numa redação, as piadinhas, o riso coletivo. Hoje, trabalha como vendedora de calcinhas e sutiãs na loja de lingeries de uma antiga amiga da faculdade.
No segundo ano da faculdade de jornalismo – sua grande paixão –, Janaína convenceu-se de que faltava algo à sua futura carreira. Desejava uma formação humana mais completa. Foi quando decidiu fazer, simultaneamente, o curso de História. Passaram-se dois anos, graduou-se em jornalismo, mas a sensação de lacuna em sua carreira permanecia. Prestou, então, vestibular para Ciências Sociais. Acumulou três diplomas e seguia insatisfeita. Partiu para um mestrado e, depois, para um doutorado. Jamais trabalhou como jornalista. Não sabe sequer como é o ar que se respira em uma redação. Semana que vem parte para os Estados Unidos para uma temporada de pesquisa numa universidade. Sua mala já está pronta, com roupas, livros e os vazios de sempre.
O pai insistiu para que Regina prestasse o vestibular. É importante ter um curso superior, dizia. Poderia ser qualquer um. Será que é apenas para ter uma cela especial quando cometesse um crime?, pensava ela. Optou por jornalismo, profissão chique. Não suportava as aulas de Filosofia e as teorias de comunicação, mas cumpriu sua missão. Após quatro anos, já tinha o diploma nas mãos, para orgulho de seu pai. Na semana seguinte, também com o apoio do pai, abriu uma loja de lingeries em um shopping e hoje é a rainha das calcinhas e dos sutiãs do pedaço. Jamais trabalhou como jornalista. Não sabe sequer como é a neurose do fechamento em uma redação. O principal aprendizado da faculdade foi descobrir que a carta mais importante do truco atende pelo nome de “zap”.
Fernando sempre conciliou a faculdade de jornalismo com a atividade de professor de Inglês. Trabalhava em escolas, dava aulas em sua casa. Com o dinheiro do árduo trabalho, conseguia pagar a faculdade e financiar os deleites sexuais de sua juventude. Ao se formar, não conseguia arrumar um emprego como jornalista. Mas, tudo bem, ele tinha as aulas de Inglês, que sempre o ajudaram. O tempo foi passando, o volume de aulas aumentando e a motivação de ser jornalista diminuindo. Hoje, tem sua própria escola de idiomas. Jamais trabalhou como jornalista. Não sabe sequer o que é uma reunião de pauta na prática.
Célia sempre foi uma menina ansiosa e um pouco medrosa. Desde a adolescência, freqüentava consultórios de psicólogos. Mas a faculdade de jornalismo lhe fazia bem, foi seu melhor remédio. Adorava aquilo tudo e tinha a certeza de que sua carreira seria um sucesso. No último ano do curso, contudo, durante uma atividade prática em sala de aula, seu texto recebeu uma crítica pesada do professor. Entrou em pânico, ficou paralisada. Se não conseguia suportar um revés na faculdade, não teria condições de enfrentar a pressão do dia-a-dia da profissão, refletia. Jamais trabalhou como jornalista. Não sabe sequer o que são os momentos de descontração numa redação, as piadinhas, o riso coletivo. Hoje, trabalha como vendedora de calcinhas e sutiãs na loja de lingeries de uma antiga amiga da faculdade.
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Moça com botas de borracha
A jovem jornalista já havia traçado um plano para sua carreira antes mesmo de se formar: queria trabalhar com moda, sua grande paixão. Gostava daquela vida de desfiles, badalação, coquetéis, gente famosa, além de entender bem de roupas, tecidos, tendências. Era também elegante, bonita, magra. Estava decidida a ser uma nova Erika Palomino.
Mas a vida é quase sempre ingrata com os jovens jornalistas, e seu primeiro emprego foi o de repórter no caderno geral de um jornal impresso. Pensou em desistir logo no dia de estréia, mas logo lembrou que a coisa poderia ser pior, poderia nem ter emprego, como vários de seus colegas da faculdade. Melhor isso do que nada. Fazia de tudo um pouco: ronda policial em delegacias, matérias sobre buracos nas ruas, a tubulação de gás natural que explodiu, uma passeata de garis no centro da cidade em protesto ao Boris Casoy. Brincadeira, eles só queriam melhores salários.
Um dia, estava de bobeira na redação, quando foi chamada à mesa do pauteiro. Recebeu uma inglória missão: visitar a região da cidade mais afetada pelas chuvas daqueles dias, entrar na favela, ver o que sobrou, conhecer as histórias de quem perdeu tudo.
- Bonitinha como você é, vai fazer o maior sucesso no pedaço, brincou o pauteiro.
- Mas eu não tenho nem sapato adequado para entrar numa favela submersa, retrucou.
O pauteiro lhe indicou uma caixa no chão, com um par bem velho de botas de borracha, uns dois ou três números maiores do que o pé da moça. Melhor isso do que nada. Já estava se acostumando a este tipo de resignação. Deixou a redação já com as botas enormes nos pés e ainda ouviu alguém cantarolar: “É isso aí”.
A água já havia baixado quando ela chegou à favela. Muito lixo, lama, cheiro forte. Meio desajeitada com tudo, caminhou pelo lugar, observou cada detalhe com atenção, a expressão no rosto de cada pessoa que trabalhava para salvar o que restou. Foi ganhando coragem. Visitou vários barracos, conversou com muita gente, conheceu dramas variados, do fogão novinho das Casas Bahia que virou sucata ao menino que desapareceu no córrego. Foi até convidada a tomar um café no barraco da dona Elza, uma velha muito simpática.
- A senhora acredita que nós, jornalistas, podemos fazer alguma coisa para mudar a situação de vocês aqui?
- Ninguém muda nada aqui, não, minha filha. Faz mais de 15 anos que a gente sofre com enchente. O bom é que, com os jornalistas aqui, a gente pode, pelo menos, falar mal das autoridades. Assim, a prefeitura vem mais rápido limpar a entulhada toda deste ano.
O café no barraco da dona Elza, feito num fogo improvisado, foi longo. A jornalista teve oportunidade de conhecer toda a família que ali morava, inclusive o caçula que, quando crescesse, queria ser jornalista. Ou bombeiro. Tudo havia sido tão intenso na favela que ela até esqueceu que as botas grandes e velhas a incomodavam. Antes de partir, ainda teve tempo de brincar com um vira-lata bem sujo, escorregar na lama e sujar a bunda.
Naquela noite, antes de dormir, estava feliz, ao contrário dos primeiros dias no jornal. Pensou até que a vida da Erika Palomino deveria ser, assim, meio sem graça, sabe?
Mas a vida é quase sempre ingrata com os jovens jornalistas, e seu primeiro emprego foi o de repórter no caderno geral de um jornal impresso. Pensou em desistir logo no dia de estréia, mas logo lembrou que a coisa poderia ser pior, poderia nem ter emprego, como vários de seus colegas da faculdade. Melhor isso do que nada. Fazia de tudo um pouco: ronda policial em delegacias, matérias sobre buracos nas ruas, a tubulação de gás natural que explodiu, uma passeata de garis no centro da cidade em protesto ao Boris Casoy. Brincadeira, eles só queriam melhores salários.
Um dia, estava de bobeira na redação, quando foi chamada à mesa do pauteiro. Recebeu uma inglória missão: visitar a região da cidade mais afetada pelas chuvas daqueles dias, entrar na favela, ver o que sobrou, conhecer as histórias de quem perdeu tudo.
- Bonitinha como você é, vai fazer o maior sucesso no pedaço, brincou o pauteiro.
- Mas eu não tenho nem sapato adequado para entrar numa favela submersa, retrucou.
O pauteiro lhe indicou uma caixa no chão, com um par bem velho de botas de borracha, uns dois ou três números maiores do que o pé da moça. Melhor isso do que nada. Já estava se acostumando a este tipo de resignação. Deixou a redação já com as botas enormes nos pés e ainda ouviu alguém cantarolar: “É isso aí”.
A água já havia baixado quando ela chegou à favela. Muito lixo, lama, cheiro forte. Meio desajeitada com tudo, caminhou pelo lugar, observou cada detalhe com atenção, a expressão no rosto de cada pessoa que trabalhava para salvar o que restou. Foi ganhando coragem. Visitou vários barracos, conversou com muita gente, conheceu dramas variados, do fogão novinho das Casas Bahia que virou sucata ao menino que desapareceu no córrego. Foi até convidada a tomar um café no barraco da dona Elza, uma velha muito simpática.
- A senhora acredita que nós, jornalistas, podemos fazer alguma coisa para mudar a situação de vocês aqui?
- Ninguém muda nada aqui, não, minha filha. Faz mais de 15 anos que a gente sofre com enchente. O bom é que, com os jornalistas aqui, a gente pode, pelo menos, falar mal das autoridades. Assim, a prefeitura vem mais rápido limpar a entulhada toda deste ano.
O café no barraco da dona Elza, feito num fogo improvisado, foi longo. A jornalista teve oportunidade de conhecer toda a família que ali morava, inclusive o caçula que, quando crescesse, queria ser jornalista. Ou bombeiro. Tudo havia sido tão intenso na favela que ela até esqueceu que as botas grandes e velhas a incomodavam. Antes de partir, ainda teve tempo de brincar com um vira-lata bem sujo, escorregar na lama e sujar a bunda.
Naquela noite, antes de dormir, estava feliz, ao contrário dos primeiros dias no jornal. Pensou até que a vida da Erika Palomino deveria ser, assim, meio sem graça, sabe?
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Esse estranho desejo de trabalhar
Passado o período do rebolation, o Brasil volta ao seu ritmo normal de trabalho (o enrolation). Contagiado por esse estranho desejo de ser produtivo e economicamente ativo, o jornalista recém-formado e desempregado decide fazer seu currículo e batalhar a entrada no mercado de trabalho. Por que as propagandas de faculdade sempre dizem que o sucesso profissional está garantido?, pensa. Por que todo mundo sempre acredita nessa mentira? Mas agora não adianta conjecturar. O carnaval acabou e o currículo precisa estar pronto. Rapidamente.
Criar um currículo atraente quando se está iniciando a carreira é como seduzir uma daquelas gostosas do carnaval de Salvador sendo feio e pobre. Quase impossível, ou melhor, impossível. Já que não dá para fazer um currículo atraente, o jovem jornalista busca, ao menos, não queimar o filme. Há quem acredite que, hoje em dia, o currículo de um jovem jornalista sem erros grosseiros de Português já é um currículo diferenciado.
O jovem jornalista fica imóvel em frente ao computador. Caraca, o que eu coloco aqui nesta parte de “experiência profissional”?, reflete, intrigado. Será que vale a pena dizer que eu animava festinhas num bufê infantil? Que eu me vestia de Palhaço Carequinha? Isso pode não ter nada a ver com jornalismo, mas mostra que eu sou um cara versátil, não? No final das contas, acabou omitindo a experiência como palhaço. Mencionou apenas o trabalho como office-boy no escritório do pai e o jornalzinho que fazia em casa quando criança.
Navegou pelo Google (ah, o Google!) e visitou páginas com dicas de como fazer um currículo legal. Gostou principalmente do conselho para evitar páginas e mais páginas. Concisão é tudo num currículo, anotou num bloquinho. Quer coisa mais concisa do que o currículo de um iniciante? Ponto para mim, disse em voz alta.
Depois de algum tempo, o currículo estava pronto. Havia descolado um mailing com uma amiga da faculdade com o contato de diversos jornalistas importantes. Agora, era só mandar um e-mail para todos eles suplicando uma oportunidade de trabalho. Vai que dá certo, não? Mas isso seria a missão do dia seguinte. Já era noite quando desligou o computador, com a sensação de dever cumprido. Desceu correndo para a sala e ligou a televisão, empolgado. O rebolation já acabou, mas o Big Brother ainda não.
Criar um currículo atraente quando se está iniciando a carreira é como seduzir uma daquelas gostosas do carnaval de Salvador sendo feio e pobre. Quase impossível, ou melhor, impossível. Já que não dá para fazer um currículo atraente, o jovem jornalista busca, ao menos, não queimar o filme. Há quem acredite que, hoje em dia, o currículo de um jovem jornalista sem erros grosseiros de Português já é um currículo diferenciado.
O jovem jornalista fica imóvel em frente ao computador. Caraca, o que eu coloco aqui nesta parte de “experiência profissional”?, reflete, intrigado. Será que vale a pena dizer que eu animava festinhas num bufê infantil? Que eu me vestia de Palhaço Carequinha? Isso pode não ter nada a ver com jornalismo, mas mostra que eu sou um cara versátil, não? No final das contas, acabou omitindo a experiência como palhaço. Mencionou apenas o trabalho como office-boy no escritório do pai e o jornalzinho que fazia em casa quando criança.
Navegou pelo Google (ah, o Google!) e visitou páginas com dicas de como fazer um currículo legal. Gostou principalmente do conselho para evitar páginas e mais páginas. Concisão é tudo num currículo, anotou num bloquinho. Quer coisa mais concisa do que o currículo de um iniciante? Ponto para mim, disse em voz alta.
Depois de algum tempo, o currículo estava pronto. Havia descolado um mailing com uma amiga da faculdade com o contato de diversos jornalistas importantes. Agora, era só mandar um e-mail para todos eles suplicando uma oportunidade de trabalho. Vai que dá certo, não? Mas isso seria a missão do dia seguinte. Já era noite quando desligou o computador, com a sensação de dever cumprido. Desceu correndo para a sala e ligou a televisão, empolgado. O rebolation já acabou, mas o Big Brother ainda não.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
A cartomante
Acordei com o telefone. Era uma amiga, também jornalista, com uma proposta indecente. Ela queria me levar a uma cartomante, mãe Alzira. Insistiu, disse que a mulher era boa, que acertava tudo e sempre. Desde que li o conto “A cartomante”, do Machado de Assis, ainda na juventude, passei a desacreditar nessa gente que adivinha o futuro. E mais: estamos velhos demais para novas ilusões, disse à minha amiga. Mas ela insistia. As cartas poderiam dar uma pista sobre meu futuro profissional, quando voltaria a arranjar um novo trabalho legal. Será que rola um “trago seu emprego de volta em 10 dias?”, pensei.
- Na semana passada, mãe Alzira me disse que o meu ex-namorado, aquele que tinha me abandonado, voltaria a me procurar. Batata, Duda! Anteontem, ele reapareceu em casa!
Não teve jeito. Foi o tempo de tomar um banho e estávamos, minha amiga e eu, no metrô, rumo à casa da mãe Alzira. Eu fazia uma imagem clássica da vidente, estilo cigana, roupa colorida, maquiagem forte. Mas mãe Alzira era clean até demais.
- É problema de amor, meu querido?
- É problema de emprego, respondeu minha amiga. Ele está procurando emprego.
Mãe Alzira puxou umas três cartas, virou uma delas na mesa.
- Estou vendo um novo emprego para você, meu querido. E é coisa boa, salário alto, cargo importante, talvez diretor.
- Acho que a senhora tá fazendo confusão. Sou jornalista. Talvez as suas cartas não saibam, mas jornalista ganha mal demais.
- Está aqui, meu querido. Sabe que arcano é esse? Ele indica sucesso profissional, grande prosperidade financeira. Você vai brilhar muito no seu novo emprego.
- Me desculpe, mãe Alzira, mas está rolando um grande mal-entendido aqui. Já falei, sou jornalista, não sou engenheiro, nem fiz MBA em Marketing ou Gestão Estratégica...
- De repente, você vai mudar de área. Novos caminhos...
- Não consigo mudar. Eu adoro a minha profissão, mesmo ganhando mal ou nem ganhando.
Poucos minutos depois, minha amiga e eu estávamos novamente no metrô, sentados lado a lado, calados.
- Você ficou bravo comigo, né, Duda? Não curtiu a mãe Alzira.
- Achei a experiência ótima. Está me dando até inspiração para escrever um post sobre isso no blog.
Ela sorriu. E novamente ficamos calados.
- E você não me contou sobre a volta de seu ex-namorado! Estão juntos novamente?
- Então, Duda, ele voltou anteontem para a nossa casa, mas foi só para pegar um joystick do videogame que ele tinha esquecido. Disse que rolaria um “supercampeonato” com os amigos. A mãe Alzira acertou que ele voltaria, só omitiu essa parte do joystick...
Olhamos um para outro e gargalhamos, gargalhadas nada discretas no metrô.
- Na semana passada, mãe Alzira me disse que o meu ex-namorado, aquele que tinha me abandonado, voltaria a me procurar. Batata, Duda! Anteontem, ele reapareceu em casa!
Não teve jeito. Foi o tempo de tomar um banho e estávamos, minha amiga e eu, no metrô, rumo à casa da mãe Alzira. Eu fazia uma imagem clássica da vidente, estilo cigana, roupa colorida, maquiagem forte. Mas mãe Alzira era clean até demais.
- É problema de amor, meu querido?
- É problema de emprego, respondeu minha amiga. Ele está procurando emprego.
Mãe Alzira puxou umas três cartas, virou uma delas na mesa.
- Estou vendo um novo emprego para você, meu querido. E é coisa boa, salário alto, cargo importante, talvez diretor.
- Acho que a senhora tá fazendo confusão. Sou jornalista. Talvez as suas cartas não saibam, mas jornalista ganha mal demais.
- Está aqui, meu querido. Sabe que arcano é esse? Ele indica sucesso profissional, grande prosperidade financeira. Você vai brilhar muito no seu novo emprego.
- Me desculpe, mãe Alzira, mas está rolando um grande mal-entendido aqui. Já falei, sou jornalista, não sou engenheiro, nem fiz MBA em Marketing ou Gestão Estratégica...
- De repente, você vai mudar de área. Novos caminhos...
- Não consigo mudar. Eu adoro a minha profissão, mesmo ganhando mal ou nem ganhando.
Poucos minutos depois, minha amiga e eu estávamos novamente no metrô, sentados lado a lado, calados.
- Você ficou bravo comigo, né, Duda? Não curtiu a mãe Alzira.
- Achei a experiência ótima. Está me dando até inspiração para escrever um post sobre isso no blog.
Ela sorriu. E novamente ficamos calados.
- E você não me contou sobre a volta de seu ex-namorado! Estão juntos novamente?
- Então, Duda, ele voltou anteontem para a nossa casa, mas foi só para pegar um joystick do videogame que ele tinha esquecido. Disse que rolaria um “supercampeonato” com os amigos. A mãe Alzira acertou que ele voltaria, só omitiu essa parte do joystick...
Olhamos um para outro e gargalhamos, gargalhadas nada discretas no metrô.
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Carta de um jovem jornalista ao Papai Noel
"Olá, Papai Noel. Eu me chamo João e acabei de me formar em jornalismo, como milhares de outros jovens do meu Brasil. Este ano, eu fiquei meio chateado com essa história de o diploma não ser mais obrigatório, mas não vou desistir da profissão que eu amo! Com ou sem diploma, porém, o problema maior é que está muito difícil arrumar um emprego. Estou justamente escrevendo para pedir uma oportunidade de trabalho neste Natal. Deixei uma meia pendurada na janela com meu currículo atualizado.
Nem precisa ser um emprego muito bom. Para começar, vale qualquer coisa. Sei que vou ganhar um salário bem pequeno, mas já estou mais conformado com isso. Na verdade, eu estou louco para aprender jornalismo na prática. Estão dizendo que em 2010 a crise vai passar, que a vida vai melhorar e estou mais confiante. Meus amigos dizem que sou muito otimista, que acredito em tudo, até em Papai Noel. Mas a gente precisa ser assim.
Eu sei que cometi alguns erros em 2009, mas nada tão grave que não me faça merecer este emprego. O senhor vai compreender. Eu matei umas aulas na faculdade, fiquei de bobeira na internet, escrevendo bobagem no Twitter, fuçando o Orkut alheio, lendo o blog do Duda Rangel. Também gastei dinheiro com a Playboy da Fernanda Young e eu sei que isso não foi legal. O único vício que eu tenho mesmo é beber demais, embora falam que todo jornalista bebe. Também dou um tapa num baseado de vez em quando, mas só quando estou estressado e com dor de cabeça. E, se é para uso medicinal, não há problema, o senhor bem sabe.
No geral, eu até fui um aluno dedicado na faculdade. Fiz os trabalhos direitinho, li um monte de livros que eles indicaram. Eu também sou bem-informado. Não gosto de ler jornal, mas sigo todas as notícias na internet, até de política internacional. E o meu Português é bem correto também. O senhor pode notar que não tem nenhuma vírgula separando o sujeito do predicado nesta carta, não tem “menas” nem exceção com “ss”.
Em 2010, como jornalista real, estou louco para ver se todas aquelas coisas que o Duda Rangel escreve no blog dele são verdadeiras mesmo. Estou com um puta tesão (ops, desculpa!) de ir para a rua, fazer reportagens, buscar sempre a história mais bacana, denunciar as coisas que estão erradas, comer coxinha de frango na padoca, ganhar um monte de jabá e almoçar de graça nos eventos. Eu também quero conhecer o tal pescoção, trabalhar até altas horas da madrugada. Só não quero ser corno, mas este pedido fica para o outro Natal, está bom? Não vou abusar mais do senhor! Obrigado, Papai Noel. João."
Nem precisa ser um emprego muito bom. Para começar, vale qualquer coisa. Sei que vou ganhar um salário bem pequeno, mas já estou mais conformado com isso. Na verdade, eu estou louco para aprender jornalismo na prática. Estão dizendo que em 2010 a crise vai passar, que a vida vai melhorar e estou mais confiante. Meus amigos dizem que sou muito otimista, que acredito em tudo, até em Papai Noel. Mas a gente precisa ser assim.
Eu sei que cometi alguns erros em 2009, mas nada tão grave que não me faça merecer este emprego. O senhor vai compreender. Eu matei umas aulas na faculdade, fiquei de bobeira na internet, escrevendo bobagem no Twitter, fuçando o Orkut alheio, lendo o blog do Duda Rangel. Também gastei dinheiro com a Playboy da Fernanda Young e eu sei que isso não foi legal. O único vício que eu tenho mesmo é beber demais, embora falam que todo jornalista bebe. Também dou um tapa num baseado de vez em quando, mas só quando estou estressado e com dor de cabeça. E, se é para uso medicinal, não há problema, o senhor bem sabe.
No geral, eu até fui um aluno dedicado na faculdade. Fiz os trabalhos direitinho, li um monte de livros que eles indicaram. Eu também sou bem-informado. Não gosto de ler jornal, mas sigo todas as notícias na internet, até de política internacional. E o meu Português é bem correto também. O senhor pode notar que não tem nenhuma vírgula separando o sujeito do predicado nesta carta, não tem “menas” nem exceção com “ss”.
Em 2010, como jornalista real, estou louco para ver se todas aquelas coisas que o Duda Rangel escreve no blog dele são verdadeiras mesmo. Estou com um puta tesão (ops, desculpa!) de ir para a rua, fazer reportagens, buscar sempre a história mais bacana, denunciar as coisas que estão erradas, comer coxinha de frango na padoca, ganhar um monte de jabá e almoçar de graça nos eventos. Eu também quero conhecer o tal pescoção, trabalhar até altas horas da madrugada. Só não quero ser corno, mas este pedido fica para o outro Natal, está bom? Não vou abusar mais do senhor! Obrigado, Papai Noel. João."
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quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Jornalismo e cinema
Existem certas obras do cinema a que todo jornalista deveria assistir, como Todos os Homens do Presidente, O Quarto Poder, entre muitas outras. Elas dispensam comentários. Há ainda filmes que, embora não tão famosos quanto os citados, estão na minha lista de preferidos. Um dos mais marcantes é, sem dúvida alguma, Corra que o Passaralho Vem Aí 3, um filme de suspense, com toques de drama.
O filme tem a assinatura de um antigo crítico de cinema que sonhava ser diretor. Após muito tentar, conseguiu. No fundo, todo crítico é um cineasta frustrado. Ele fez uma obra ousada, mas de baixo orçamento, toda ela filmada no corredor de uma redação de jornal. Os personagens interagem basicamente entre si e com uma máquina de café.
O passaralho, para quem não sabe, é o anúncio de corte de empregos. A chegada do passaralho cria um clima natural de tensão. Em meio ao desespero dos jornalistas que caminham para a lama surgem histórias pessoais belíssimas. A seguir, destaco uma das cenas que mais gosto do filme, a terceira, em que três jornalistas conversam ao lado da máquina de café. A partir deste momento toda uma história de angústia começa a se desenvolver.
CENA 3
Jornalista 1 (sujeito em pânico) encontra o jornalista 2 (mais calmo) ao lado da máquina de café. Eles conversam ao mesmo tempo em que preparam o café.
Jornalista 1: Você já está sabendo da última péssima notícia?
Jornalista 2: Cassaram nossa folga de fim de semana?
J-1: Antes fosse isso. Vão cassar os nossos empregos! Ouvi dizer que tem um passaralho novo vindo aí.
J-2: Pois é, eu também ouvi, mas parece que só vão mandar embora os jornalistas que ganham muito bem.
J-1: Pera aí: tem alguém que ganha muito bem nesta redação?
J-2: Ah, deve ter. Sabe os articulistas que ficam o dia inteiro sem fazer porra nenhuma interessante? Devem ganhar uma fortuna!
J-1: Será? Eu tô muito preocupado. Não posso perder meu emprego. Tô cheio de dívidas. Acabei de comprar um carro 1.0 em 72 vezes. (ele coloca um sachê de adoçante no café)
J-2: Café com adoçante? Você só come porcaria, tá gordo pra caralho e acha que este adoçante vai salvar a sua vida? Você já tá condenado, meu amigo. (sorriso sacana)
J-1: Acho que prefiro perder a vida ao emprego. (semblante ainda mais preocupado)
Neste momento, o jornalista 3 (sujeito alarmista) aproxima-se da máquina de café.
Jornalista 3: Caraca, fiquei sabendo que vão mandar 150 jornalistas embora aqui da redação!
J-2: Mas como vão mandar 150 se aqui só há 90 jornalistas?
J-3: Sei lá, é o que estão dizendo por aí...
J-1: Se estão dizendo, é melhor a gente ficar esperto! Ai, acho que tô com taquicardia...
É um filme realmente sensível e emocionante!
No post de sexta-feira, falarei de um outro filme da minha lista de preferidos: Lula e Mainardi na Terra Sem Sol, uma obra de inspiração glauberiana. Extremamente sutil e poético, o filme conta a história de Manuel, um retirante nordestino que chega a São Paulo após cometer um crime no sertão e, por acaso, passa a acompanhar o duelo entre um jornalista reacionário e um presidente populista. Trata-se naturalmente da velha metáfora da luta entre o Bem e o Mal, mas, neste caso, Bem e Mal se misturam, fazendo uma confusão da mulesta na cabeça do pobre sertanejo.
O filme tem a assinatura de um antigo crítico de cinema que sonhava ser diretor. Após muito tentar, conseguiu. No fundo, todo crítico é um cineasta frustrado. Ele fez uma obra ousada, mas de baixo orçamento, toda ela filmada no corredor de uma redação de jornal. Os personagens interagem basicamente entre si e com uma máquina de café.
O passaralho, para quem não sabe, é o anúncio de corte de empregos. A chegada do passaralho cria um clima natural de tensão. Em meio ao desespero dos jornalistas que caminham para a lama surgem histórias pessoais belíssimas. A seguir, destaco uma das cenas que mais gosto do filme, a terceira, em que três jornalistas conversam ao lado da máquina de café. A partir deste momento toda uma história de angústia começa a se desenvolver.
CENA 3
Jornalista 1 (sujeito em pânico) encontra o jornalista 2 (mais calmo) ao lado da máquina de café. Eles conversam ao mesmo tempo em que preparam o café.
Jornalista 1: Você já está sabendo da última péssima notícia?
Jornalista 2: Cassaram nossa folga de fim de semana?
J-1: Antes fosse isso. Vão cassar os nossos empregos! Ouvi dizer que tem um passaralho novo vindo aí.
J-2: Pois é, eu também ouvi, mas parece que só vão mandar embora os jornalistas que ganham muito bem.
J-1: Pera aí: tem alguém que ganha muito bem nesta redação?
J-2: Ah, deve ter. Sabe os articulistas que ficam o dia inteiro sem fazer porra nenhuma interessante? Devem ganhar uma fortuna!
J-1: Será? Eu tô muito preocupado. Não posso perder meu emprego. Tô cheio de dívidas. Acabei de comprar um carro 1.0 em 72 vezes. (ele coloca um sachê de adoçante no café)
J-2: Café com adoçante? Você só come porcaria, tá gordo pra caralho e acha que este adoçante vai salvar a sua vida? Você já tá condenado, meu amigo. (sorriso sacana)
J-1: Acho que prefiro perder a vida ao emprego. (semblante ainda mais preocupado)
Neste momento, o jornalista 3 (sujeito alarmista) aproxima-se da máquina de café.
Jornalista 3: Caraca, fiquei sabendo que vão mandar 150 jornalistas embora aqui da redação!
J-2: Mas como vão mandar 150 se aqui só há 90 jornalistas?
J-3: Sei lá, é o que estão dizendo por aí...
J-1: Se estão dizendo, é melhor a gente ficar esperto! Ai, acho que tô com taquicardia...
É um filme realmente sensível e emocionante!
No post de sexta-feira, falarei de um outro filme da minha lista de preferidos: Lula e Mainardi na Terra Sem Sol, uma obra de inspiração glauberiana. Extremamente sutil e poético, o filme conta a história de Manuel, um retirante nordestino que chega a São Paulo após cometer um crime no sertão e, por acaso, passa a acompanhar o duelo entre um jornalista reacionário e um presidente populista. Trata-se naturalmente da velha metáfora da luta entre o Bem e o Mal, mas, neste caso, Bem e Mal se misturam, fazendo uma confusão da mulesta na cabeça do pobre sertanejo.
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