quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O dia em que a Morte visitou o Jornal Impresso


- A Morte me visitando?

- A Morte. Nunca ouviu falar?

- Porra, claro que sim. Mas por que hoje, agora?

- Porque é a sua vez, ora. Todo dia visito alguém.

- A senhora vai me desculpar, mas hoje eu não estou pra brincadeira.

- Posso ao menos entrar? Podemos conversar com civilidade?

(Minutos depois, ambos tomam um café na sala)

- Sabia, dona Morte, que a senhora já me visitou antes?

- Ah, é? E quando foi? (colocando o adoçante)

- Quando inventaram a televisão.

- Mas isso faz muito tempo. Devia ser outra Morte. Eu estou no ramo há 15 anos apenas.

- Que seja. Mas era a Morte. A televisão vai acabar com você, me ameaçou. Hora de ir, de descansar. E cá estou eu, vivinho da silva.

- Eu não vim aqui para discutir o passado. O que me importa é o hoje. E hoje eu tenho ordens para te levar. Entendo que ninguém quer ir, mas é o meu trabalho.

- Pior que até sei a justificativa desta vez.

- A razão está aqui, no mandado de busca.

- Então, leia. Só para confirmar minha suspeita.

- Causa: pre-fe-rên-cia do pú-bli-co pela no-tí-cia na in-ter-net.

- Putz, que falta de originalidade! A velha história de que uma nova tecnologia de comunicação vai decretar o meu fim.

- Já disse, só cumpro ordens.

- Lamento, mas a senhora se deu mal. Pode acabar o seu café, levantar e ir embora.

- De mãos vazias, eu não saio.

(Silêncio)

- Bom, dona Morte, podemos negociar então?

- Podemos, mas não me venha com a merda do jogo de xadrez que isso é a coisa mais clichê que existe.

- Claro, sem jogo de xadrez. Também sou contra o clichê, embora viva cheio deles.

- Quero que você me dê três bons motivos para não ser levado. Se forem convincentes, deixo você viver por mais um tempo.

- Três?

- Isso, só três.

- Mas assim, pá-pum, sem pensar?

- Pá-pum! Estou dando a você a chance de salvar essa sua pele cheia de tinta. E não vale falar do feirante que enrola peixe, ok? Isso não é argumento.

- Bom, senhora Morte, digo que aceito sua proposta, mas peço 24 horas para responder. É justo, não? Quero fazer a coisa bem-feita.

- Amanhã à tarde, estou aqui. Sem atraso.

(E a Morte foi embora. Mal fechou a porta, ele correu para o escritório, abriu seu notebook e tratou de jogar a frase “razões para o jornal impresso não morrer” no Google)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

As telenovelas e o jornalismo


Pauta Nostra

Insensato Pescoção

Redazione

Roque Pauteiro

Pecado Editorial

Estressadíssima

Rainha da Cascata

Sem Hora pro Destino

Estúpido Artigo

Workin’ Days

Que Repórter Sou Eu?

Os Editores Também Choram

Direito de Folgar

Éramos Seis Redatores (antes do passaralho)

A Traça Comeu (meu velho portfólio)

Sem Laços com a Família

A História de Ana Rádio e Zé Televisão

Um Frila Caiu do Céu

A Foca Isaura

Leia mais: Redação em chamas

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Como desabrocha um jornalista


Felipe, da 4ª série B, ganhou o concurso de redação e ouviu da tia Jane que tinha jeito para a coisa. Passou a escrever de tudo, de contos de aventura a cartinhas de amor, até chegar às grandes reportagens e aos torpedos à mulher (avisando que deixaria a redação bem tarde).

Luis Fernando criou, ainda garoto, um jornal com notícias da família. Tinha a irmã como parceira. Penduravam o periódico, O Patentino, numa parede do banheiro de casa.

Roberta tinha 13 anos quando o descaso da rede pública de saúde roubou a vida de sua mãe. Decidiu que lutaria por um mundo mais digno. Sem grana e apoio, estudou, virou jornalista. Sabe que não mudará o mundo, mas fica feliz com as pequenas transformações.

Daniela leu (com dificuldade) a embalagem do Toddynho que falava sobre a profissão, refletiu (também com dificuldade) e decidiu: seria jornalista. “Se nada der certo, eu viro hippie ou, sei lá, caso com um homem rico, tipo dono de emissora de TV.”

Luiza cresceu ouvindo o Jornal da Manhã com o pai, todos os dias, tomando café com leite. “Vambora pra escola, minha filha, olha a hora”, ele brincava. Num desses dias, ela profetizou: “O senhor ainda vai acordar com a minha voz”.

Bill, motorista de carro de reportagem, começou a levar uma máquina fotográfica amadora nas saídas para as pautas. Registrava o trabalho dos amigos jornalistas. Suas fotos ganharam a primeira página do jornal. Ele ganhou elogios, exposições, um novo horizonte.

Carlos Eduardo, todo mês de dezembro de sua infância, vestia o paletó gigante do pai e apresentava a retrospectiva do ano à família, numa bancada de telejornal improvisada na sala de casa. Os primos desdenhavam, a tia gorda roncava, mas nada desmotivou o menino.

João Paulo nasceu jornalista. E sob orientação divina. “Meu filho, terás uma missão importante neste mundo, lutarás por justiça, falarás apenas a verdade. Mas, atenção, não descansarás muito no sétimo dia, como Eu descansei, porque terás o maldito plantão”.


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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Pressão alta


Jornalista sofre pressão na faculdade.

– Quero que leiam a Teoria da Ação Comunicativa de Habermas até amanhã. São só 250 páginas. Entenderam?

Jornalista sofre pressão do editor.

– Volta logo pra redação que você ainda tem outras duas pautas hoje.

Jornalista sofre pressão da tela em branco do computador.

– E esse lead que não sai, mané? Vai ficar aí parado com cara de bunda?

Jornalista sofre pressão do relógio.

– 15 minutos para o fechamento. 10 minutos para o fechamento. 5 minutos para o fechamento.

Jornalista sofre pressão da mulher.

– Você prometeu me dar um filho depois da Olimpíada de Pequim. Esqueceu?

Jornalista sofre pressão do filho.

– Plantão de novo, pai? Já sou quase faixa preta e nada de você me ver lutar.

Jornalista sofre pressão do exame de sangue.

– Teu triglicéride tá chegando nos 400. Fica esperto, vacilão.

Jornalista sofre pressão da consciência.

– Vai mesmo entrar nessa favela cheia de traficante? Você não ganha pra isso.

Jornalista sofre pressão do ego.

– Tá com medinho de traficante? Entra logo, porra. Não quer reconhecimento, prêmios?

E jornalista desconta toda a pressão nos assessores de imprensa.

– Tô te mandando 20 perguntas por e-mail. Mas, ó, quero as respostas pra ontem.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Você votaria nestes jornalistas?


O portal Comunique-se, pegando como gancho a possível candidatura de José Luiz Datena à prefeitura de São Paulo, quis saber de seus leitores o que eles achavam de jornalistas concorrerem a cargos públicos. A questão é polêmica. O blog aproveita a discussão para reproduzir uma breve lista de jornalistas-candidatos. Você votaria em algum deles?

Paulinho Foca
Você não me conhece! É que eu acabei de me formar e ainda estou desempregado. Minha principal bandeira é o trabalho decente para os jovens jornalistas. Chega de só ficar escrevendo notinha ou cuidando de tabelas e gráficos. Foca vota em foca!

Adílson do Sindicato
Em minha longa trajetória como dirigente sindical, não consegui bons dissídios para a categoria, nem tive sucesso em questões como direitos autorais aos jornalistas e defesa do diploma, mas preciso de seu voto para continuar lutando por você.

Rita de Cássia
Sou mulher, mãe, filha, cunhada, tia, jornalista, repórter, pauteira, fotógrafa, designer, faço frila nas horas vagas e doces para vender na redação e, de madrugada, ainda lavo as cuecas sujas do meu marido! Eleita, posso fazer muito mais!

Professor Eugênio
Por um curso superior de jornalismo de boa qualidade. Pela inclusão da disciplina “Introdução a Técnicas de Sobrevivência” no currículo. Pela legalização da maconha e do jogo de truco nas universidades públicas. E, claro, pela volta do diploma!

Mulher-nêspera
Sou mulher-fruta, modelo, atriz e jornalista. Meu lema é menas inteligência e mais beleza nas redações. Abaixo a Marília Gabriela! Prometo lutar para que toda gostosa tenha seu próprio programa de previsão do tempo ou de esportes radicais.

Tonhão
Você está cansado de trabalhar por dias e dias sem descanso? Não suporta mais perder o churrasco do domingo por ser obrigado a estar na redação? Chega de exploração! Contra o patrão, ou melhor, contra o plantão, vote Tonhão!

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Clark Kent e os superpoderes do jornalista



Ao chegar atrasado à redação do Planeta Diário no primeiro dia de trabalho, Clark Kent já foi logo tomando um esporro do chefe de reportagem.

- Tá pensando que isso aqui é vida na fazenda, Clark? Porra nenhuma! Isso aqui é cidade grande, meu amigo, metrópole. Não dá pra ser lerdão assim, não.

Foi quando Clark teve revelado o seu primeiro superpoder, o da paciência. Paciência para agüentar aquele chefe de reportagem escroto, paciência para agüentar entrevistado escroto.

Clark só descobriria seu segundo superpoder 15 dias depois, quando o mesmo chefe de reportagem lhe deu de presente uma pauta inesperada: exclusiva com o prefeito.

- Você só tem 15 minutos para chegar à prefeitura. E não pode atrasar, ouviu? Se vira, Clark. Vai voando.

Sem que o pessoal da redação percebesse, Clark pegou bloquinho e caneta, e abriu a janela do 15º andar.

O trabalho de jornalista ajudou Clark a concluir que ele só podia ser de outro planeta. Em menos de um ano, já havia descoberto vários outros superpoderes, como o da imortalidade (trabalhou dois meses sem folga e não morreu), o do sopro congelante (que estreou contra um assessor de imprensa chato) e o da invulnerabilidade (com exceção, claro, à kryptonita e ao filé mignon ao molho madeira que, sempre que devorado numa coletiva, lhe causava uma puta diarréia).

Lois Lane, sua namoradinha na redação, adorava o superpoder da velocidade de Clark. Transavam em 2 ou, no máximo, 3 segundos nas escadas entre o 15º e o 16º andar. Eram tantas pautas, tanta exploração, que não havia muito tempo para o amor naquele jornal. A rapidíssima, repetida três ou quatro vezes ao dia, ajudava Lois a suportar o estresse da profissão.

O único superpoder que Clark não conseguiu desenvolver foi o da resistência às suas crises de vaidade. Era só não emplacar a manchete do jornal que ele ficava todo nervosinho. Nesses dias, Clark descontava sua raiva em Lois, privada das alegres visitas às escadarias do prédio, e nos pobres assessores de imprensa que apareciam na redação. Demoravam horas para descongelar.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

10 dicas para um jornalista pedir emprego por e-mail sem queimar o filme


1. Jamais comece o e-mail com “venho por meio deste”. Porra, isso é mais clichê do que epitáfio iniciado com “aqui jaz fulano de tal”. A frase pronta mostra falta de criatividade ou que você se baseou numa antiga carta de apresentação do seu avô para redigir a mensagem.

2. Formalismo é um saco, mas gírias e linguagem de internet também não combinam com este tipo de e-mail. Nada de “vc”, “aki” ou “naum”. Nem “trampo”, pelo amor de Deus.

3. Erro de português rende eliminação imediata. Tome muito cuidado para não escrever certas aberrações, como “esperiência proficional”. É legal também seguir o novo acordo ortográfico, mesmo que você ainda seja apaixonado pelo acento em “ideia”.

4. Gerúndio: é bom estar evitando. A vaga não é para operador de telemarketing.

5. E-mail-padrão para enviar a um monte de gente individualmente sempre traz o risco de você escrever “prezado senhor Maria Clara”. Por mais que hoje a questão do gênero esteja muito diversificada, isso ainda será visto como erro de concordância. Ou desleixo.

6. Mandar um e-mail a um grupo de jornalistas, com todos os endereços eletrônicos abertos, é queimar ainda mais o filme. Pedido por atacado é bem desagradável. Você pode receber uma resposta ainda mais desagradável, com todo mundo copiado.

7. Seja sincero com seus sentimentos. Sempre. Se você não gosta de assessoria de imprensa, não escreva que “ama ser assessor de imprensa” só para conseguir a vaga. Esqueça compromissos de fachada. Ou terá um divórcio traumático em bem pouco tempo.

8. Seja conciso. Textos longos e cheios de detalhe são ótimos para cartas de suicídio, mas não para prospecção de trabalho. Foco no seu objetivo atual. Deixe para ser prolixo quando decidir cortar os pulsos. Provavelmente por não conseguir um emprego.

9. Anexo é uma espécie de doença venérea. As pessoas morrem de medo de contaminação. Mande o currículo sempre no corpo da mensagem. E, claro, mande um currículo breve. Não interessa ao editor saber que você foi líder dos escoteiros na infância.

10. Nunca se refira à empresa a qual você está pedindo emprego com elogios ou adjetivos exagerados, como “adoraria trabalhar neste prestigiado e renomado jornal”. Isso soa falso, mais falso do que a Claudia Leitte cantando em inglês.


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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A pior pauta do mundo


O que é pior para um repórter? Cobrir um velório num domingão de sol? A coletiva de lançamento do CD da cantora Wanessa? Passar o carnaval entrevistando foliões mijões na dispersão do sambódromo? A nova enquete do blog, que já está no ar, quer saber: qual a pauta mais roubada para um jornalista cobrir?. Para votar, basta ir à coluna à direita do blog. Se a sua pauta roubada-mor não está entre as alternativas propostas, manifeste-se no canal de comentários.

A pesquisa anterior – Qual a principal razão que levou você a ser jornalista? – teve a vitória da opção “Sabe que até hoje me faço esta mesma pergunta?”, com 34% dos votos, bem à frente da segunda colocada, a opção “Sempre tive a simples pretensão de mudar o mundo”, com 17%. O resultado mostra que a pergunta atormenta a cabeça de muitos jornalistas. Falta de razão danada!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Poema contra o achismo


O achismo tudo sabe. Não tem dúvidas. É autoconfiante. Arrogante. Teimoso. Tira suas próprias conclusões. Não deve satisfações. Não dá ouvido a ninguém. Vive de aparências. O achismo é cego.

O achismo seduz, envolve. Engana. Cria suas próprias leis. Não tem fundamento, ética. Julga. Condena. Destrói. Se alimenta da preguiça. Da presunção. Da ignorância. Da ingenuidade. O achismo é parasita.

O achismo rima até com jornalismo. Tá sempre na TV. Nos jornais. Na rádio. Na web. Tá na boca dos repórteres. No texto dos repórteres. O achismo é altamente transmissível.

O achismo é inimigo do fato. Da boa apuração. Do checar informação. Adora fofoca. Boato. Diz-que-diz. Aceita meia gravidez. O talvez. O é e não é. O achismo detesta compromisso.

O achismo se acha.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Sem vergonha


Repórter não pode ter vergonha de fuçar no dicionário quando tem dúvida. De admitir que é leigo num monte de assunto. De confessar ao entrevistado que não entendeu a resposta. De não ser um intelectual.

Não pode ter vergonha de ter medo. De errar. De pedir desculpas. De tomar furo.

Repórter não pode ter vergonha de fazer pergunta em coletiva. De soltar a voz na rádio. De meter as caras na TV. De entrar onde não foi chamado. De ligar 10 vezes pra fonte que não dá retorno.

Não pode ter vergonha de cobrir buraco na rua. De fazer notinha de rodapé.

Repórter não pode ter vergonha de chorar aumento de salário pro chefe. De implorar frilas pros amigos. De revelar pra namorada o saldo de sua conta bancária. De matar a fome na boca-livre.

Repórter não pode ter vergonha de se emocionar na cobertura de uma tragédia. De dizer pra que time torce. De soltar um “puta que pariu” no meio da redação se estiver estressado. De carregar bloquinho e caneta até quando sai com os amigos.

Repórter não pode ter vergonha de ser repórter.


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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Eduardo e Mônica (versão para jornalistas)


Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Quando se escolhe essa profissão?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

Eduardo abriu o livro, mas não quis nem estudar
As teorias que os mestres deram
Enquanto a Mônica tomava um esporro do editor
No fechamento, como eles disseram.

Eduardo e Mônica um dia se trombaram sem querer
A fumaça tava forte, foi difícil de se ver
Um carinha da facul do Eduardo que disse
“Tem uma festa legal, e a gente quer se divertir”
Gente estranha, festa de jornalista
“Eu não tô legal, já fumei mais que devia”
E a Mônica riu e quis saber um pouco mais
Sobre o mundinho que ele prometeu mudar
E o Eduardo, com larica, só pensava em ir pra casa
“A geladeira eu quero atacar”.

Eduardo e Mônica trocaram seus e-mails
Depois se escreveram e decidiram tuitar
O Eduardo sugeriu um call no Skype
Mas a Mônica queria ir pro Messenger teclar
Se encontraram ainda lá no tal de Orkut
A Mônica sem foto e o Eduardo sem cabelo
O Eduardo achou estranho e melhor não comentar
Mas a menina escrevia com um zelo.

Eduardo e Mônica eram nada parecidos
Ele tinha ilusão, ela sabia economês
Ela falava de finanças, cedebês e inflação
E ele ainda maltratava o português
Ela gostava do Basile, do Furtado
Do Marx, do Stiglitz, do Yunus e Cournot
E o Eduardo era um puta Zé Ruela
E vivia dia e noite vendo site pornô.

Ela falava coisas sobre a função social
Também de lead e do pescoção
E o Eduardo ainda tava no esquema
Adorno, cerveja, truco e Enecom.

E mesmo com tudo diferente
Veio mesmo de repente
Uma vontade de se ver
Os dois sonhavam transar todo dia
Só que dela a rotina era bem de foder (er-er).

Eduardo e Mônica estudaram locução, assessoria
Web, fotografia, pro CV melhorar
A Mônica explicava pro Eduardo
Coisas sobre fontes, off e formas de apurar.

Ele aprendeu a escrever, pegou o gosto por ler
E decidiu estagiar (não!)
E ela até chorou na primeira vez
Que ouviu a voz dele ir pro ar
E os dois já trabalharam juntos
E cobriram pautas juntos, muitas vezes depois
E todo mundo diz que a vida foi malucamente bela
Por ter juntado os dois.

Construíram os seus blogs uns seis meses atrás
Logo após que os passaralhos vieram
Batalharam frilas, mendigaram geral
Por muito pouco o fiofó não deram.

Eduardo e Mônica viraram assessores
Levantaram uma grana, já fizeram prestação...
Só que a vida dura não vai acabar
Porque na agência tem perrengue e a mesma ralação.

E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Quando se escolhe essa profissão?
E quem irá dizer
Que não existe razão?


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terça-feira, 30 de agosto de 2011

Entrevista: Euclides da Cunha, o corno, o mito


Ele podia ser um jornalista e escritor ilustre apenas por sua grande obra, “Os Sertões”, mas Euclides da Cunha ainda é muito lembrado por ter sido corno. Um dos cornos mais famosos da imprensa brasileira. Morto pelo próprio Ricardão no duelo por sua honra, Euclides calou-se. Um século e muitas piadinhas depois, ele resolveu romper o silêncio. O blog Desilusões perdidas, que adora polêmica e sensacionalismo, conseguiu esta exclusiva com Euclides, com a ajuda, claro, de um médium.

Euclides, como é carregar esta fama de jornalista traído por um século?

Duda, meu caro, em primeiro lugar, quero agradecer a oportunidade que você está me dando de falar sobre o assunto. É um tema muito espinhoso para mim, mas chegou a hora de me abrir. Apesar de toda minha contribuição ao jornalismo, à literatura, as pessoas ainda preferem dar um peso maior à futricagem, às maledicências. Há pouco, acompanhei a minissérie Desejo e o que vi foi degradante.

Você assistiu à minissérie? Como?

Desde que aquele gaúcho, o Werner Schünemann, assumiu o Ministério da Comunicação aqui no nosso lar, o acesso às tecnologias de comunicação ficou muito maior. Temos notebook, internet, 3G, wireless, TV a cabo. Note que minha linguagem está moderna. Incorporei até algumas gírias. Não vi Desejo em sua exibição original, apenas a reprise no Canal Viva.

E por que achou degradante?

Justamente pelo grande enfoque dado à minha cornitude. Não valorizam o meu trabalho. “Os Sertões” é sucesso internacional. A obra foi traduzida para vários idiomas. Isso muito antes de Paulo Coelho. E tem outra: a produção da minissérie ainda foi muito generosa com a minha ex-mulher. Vera Fischer? Tá maluco? Anna Emília sempre foi muito nota 3, nota 4. Se ela fosse um mulherão, eu teria me preocupado mais com ela. Sempre saí de viagem sossegado, porque sabia que ninguém cobiçaria a minha mulher nota 4. Mas cobiçaram. Neguinho não perdoa.

O trabalho árduo e as longas viagens são a principal razão da vulnerabilidade dos jornalistas?

Sem dúvida. Mas, hoje, pelo que tenho acompanhado, os jornalistas estão mais protegidos.

Mais protegidos? Como assim?

Mais protegidos. Veja o caso daquele repórter da Globo que foi para a Líbia, o carequinha...

Marcos Uchôa.

Esse mesmo. Marcos Uchôa. Note que aquele capacete que ele usa é especial para proteger os cornos. Isso dá segurança ao jornalista que tem de viajar para uma grande cobertura. O cara até levou uma bronca do Bonner quando estava sem o capacete.

Mas a cornitude é um problema ainda comum na imprensa brasileira.

O que mudou muito é a questão da aceitação. Hoje, os jornalistas aceitam mais a cornitude. Na minha época, a gente chamava para o duelo, tinha aquela coisa de limpar a honra. Hoje, o sujeito leva um chifre e faz o quê? Vai pro terapeuta? Faz um swing com o Ricardão? No meu tempo, havia um engajamento muito mais forte da imprensa contra o chifre.

Eu também fui vítima deste problema e, embora não tenha chamado o Ricardão para o duelo, não aceitei a minha cornitude numa boa. Sei que é uma questão bem complexa. Mas, hoje, consegui superar o chifre. Imagino que você, Euclides, também já superou este trauma, não?

Meu caso é mais difícil, porque tem sempre gente lembrando. Aqui mesmo no nosso lar, neguinho ainda me sacaneia. Tô na fila da reencarnação há mais de 50 anos, mas a minha senha ainda não foi chamada. Acho que só assim para o meu pesadelo acabar.

Quando reencarnar, toparia voltar como jornalista?

Fica complicado voltar como jornalista nos dias de hoje porque as grandes matérias que eu gostava de fazer não existem mais. Seria um retrocesso. E a proposta da reencarnação é a evolução.

Que dicas daria aos jornalistas para evitar o chifre?

Por mais que uma grande dedicação ao trabalho seja necessária, nunca esqueça de dar atenção à sua mulher, mesmo que ela não seja uma Vera Fischer. Uma Vera Fischer no auge, digo. Ligar para casa antes de chegar também é de bom-tom. Mas não adianta ligar quando já está chegando. Pelo menos, uma meia hora antes. O que os olhos não vêem a testa não sente. Outra coisa: caso a sua mulher não seja jornalista, não fique falando o tempo todo de trabalho com ela, porque isso, Duda, com o perdão da palavra, é chato pra cacete.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Para gostar de ler


Jornalista que não gosta de ler tem uma dificuldade danada de escrever.

Jornalista que não gosta de ler se expressa com a fluência de uma Luciana Gimenez.

Jornalista que não gosta de ler é o que mais protesta contra o preço alto dos livros.

Jornalista que não gosta de ler perde o senso crítico. E do ridículo.

Jornalista que não gosta de ler engole qualquer merda que escuta de um entrevistado.

Jornalista que não gosta de ler só sabe falar das fofocas da redação na mesa do bar.

Jornalista que não gosta de ler passa parte da coletiva de imprensa com a cabeça na lua.

Jornalista que não gosta de ler fica a reunião de pauta inteira rabiscando seu caderno.

Jornalista que não gosta de ler adora reclamar que está perdendo espaço no mercado de trabalho.

Jornalista que não gosta de ler é igual a atriz pornô que não gosta de sexo.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

20 tipos de jornalista sem noção


1. Tem um espaço de 10 linhas, mas escreve 30. E, depois, fica uma hora cortando o texto para caber.

2. Acha que sabe tudo e dá ordens até para um jornalista mais experiente.

3. Vai a uma pauta que exige traje social com a mesma calça jeans molambenta que usa na redação.

4. Enche a cara de prosecco e dá vexame no vernissage chique.

5. Fica parado ao lado do entrevistado bem na hora em que os fotógrafos querem fazer uma foto só do entrevistado.

6. Conta piadas aos colegas e ri alto na cobertura de velórios e enterros.

7. Atende o celular no meio de uma reportagem ao vivo na TV.

8. Pergunta ao editor sobre o plantão do sábado ainda na loucura do fechamento da terça.

9. Acredita que a matéria sobre “pressão cambial” deveria ser feita pelo pessoal do jornalismo automotivo.

10. Revela todos os podres dos colegas da redação, inclusive os seus, para os motoristas do jornal.

11. Faz uma matéria-denúncia contra o maior anunciante de sua revista.

12. Na véspera da folga, diz ao chefe que vai passar o fim de semana de bobeira em casa.

13. Começa uma entrevista de forma tão agressiva que faz o entrevistado desistir da conversa.

14. Quando vai fotografar um cego, dá a seguinte orientação: “Olhando pra janela azul agora”.

15. Liga para o celular do entrevistado no almoço de domingo para checar se o sobrenome dele é com um “L” ou dois.

16. Antes de fazer a pergunta na coletiva, demora 20 minutos contando experiências pessoais, fazendo análises de fatos, coisas que ninguém está a fim de ouvir.

17. Dá de presente de aniversário para a namorada um relógio e esquece de retirar da caixa o adesivo “brinde para a imprensa”.

18. Queima uma fonte superimportante por não ter sido capaz de guardar um off.

19. Esquece de ligar para casa para avisar a mulher que está voltando mais cedo do pescoção.

20. Mesmo com 20 anos de formado, ainda acredita que vai ficar rico com o Jornalismo.


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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Nova enquete: qual a principal razão que levou você a ser jornalista?


O coração tem razões que a própria razão desconhece. Com esta frase brega de Pascal, está aberta a nova enquete do blog: qual a principal razão que levou você a ser jornalista? Questão complexa, muito complexa. Você sempre odiou Matemática? Descobriu a profissão numa caixa de Toddynho? Não saberia fazer outra coisa? Participe da pesquisa. É só ir para a coluna à direita do blog e votar. Se o seu motivo não está entre as alternativas da enquete, deixe uma mensagem na área de comentários.

***

Ele troca de emissora de TV mais do que a Luana Piovani troca de namorado, ele garante que não faz jornalismo sensacionalista (convenceu alguém aí?), ele é o vencedor da última enquete deste blog. A pergunta Qual jornalista você levaria para uma ilha deserta e deixaria lá, mofando, sozinho? teve 22% dos votos para José Luiz Datena. Diogo Mainardi, é bem verdade, esforçou-se para ganhar a passagem só de ida, mas acabou na segunda colocação, com 17% dos votos, tecnicamente empatado com Galvão Bueno (16%). Os leitores destacaram que esta foi uma das enquetes mais difíceis. Alguns revelaram a vontade de mandar todos os jornalistas da lista para a ilha, de preferência para uma ilha norueguesa.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Agosto, mês do jornalista louco


Qual a maior loucura que um jornalista pode cometer? Ser jornalista? Quem, em sua perfeita sanidade mental, escolhe ser jornalista? Algum maluco aí pode me dizer? Que jornalista nunca travou batalhas contra entrevistados gigantes e furiosos quando estes eram apenas "moinhos de vento"? Que jornalista nunca pensou em fundar seu próprio periódico e mudar o mundo? Megalomaníacos? Nós? Tem ser humano mais bipolar que o jornalista, que no bar conta uma piada e, cinco segundos depois, entra em depressão? Quer vida mais alucinada que a do jornalista? Mais neurótica? Quem nunca teve a insânia de virar noites trabalhando, de escrever quatro matérias num mesmo dia, de ficar sem comer por horas e horas? Quem nunca conheceu um fotógrafo lelé, um motorista pinel, um ilustrador doidivanas, um foca aloprado? Um repórter esquizofrênico?

Mas não é linda essa maluquice? Não foi o Raulzito quem disse que a arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal? Já imaginou ser um sujeito normal? Tá doido?


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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Os dias e dias da vida de um jornalista


Tem dia que o lead não sai. A fonte me trai. O texto não vai.

Tem dia que a pauta emperra. O chefe só berra. O prazo me ferra.

Tem dia que assessor é um mala. Entrevistado não fala. Que o papo não embala.

Tem dia que plantão não tem fim. O humor é ruim. O almoço, chinfrim.

Tem dia que redação é um hospício. Pescoção, um suplício. Que o café é meu vício.

Tem dia que apurar é um apuro. Que eu me sinto inseguro. Que eu levo um furo.

Tem dia que fechamento é um drama. Que a gente reclama. A gastrite me chama.

Mas tem dia da grande matéria. Que a vida é pilhéria. Que esqueço a miséria.


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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Versinhos para não se ler numa sexta-feira


Tá bom, tá bom, eu já sei.

Preciso cair na real. Preciso ler mais jornal. Preciso estudar português. Preciso lembrar do inglês. Preciso ver menos TV. Preciso montar meu CV. Preciso pular já da cama. Preciso ralar por mais grana. Preciso trocar minhas pilhas. Preciso pegar alguns frilas. Preciso voltar com meu blog. Preciso manter algum hobby.

Tá bom, tá bom, eu já sei.

Preciso sair pela estrada. Preciso fazer caminhada. Preciso cortar as gorduras. Preciso comer mais verduras. Preciso baixar a glicose. Preciso tratar a lordose. Preciso ver meu analista. Preciso voltar ao dentista. Preciso vencer a fadiga. Preciso perder a barriga. Preciso hidratar o meu rim. Preciso cuidar mais de mim.

Tá bom, tá bom, eu já sei. Preciso partir para a ação. Preciso sentir mais paixão.

Mas é sexta, porra, me solta.

Segunda eu começo.

Sem falta.


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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sobre os plantões jornalísticos e o amor


Primeira parte – O baile de carnaval

Cris achou que ele estava fantasiado de repórter com aquele colete de imprensa.

- Ah, não é fantasia?

- Não. Eu não sou folião. Sou jornalista. Tô aqui trabalhando.

- Nossa, não sabia que beijar o pescoço das meninas no trenzinho fazia parte do trabalho de um jornalista.

- E não faz. Eu só tô curtindo um pouco o baile, sabe? Acabei de gravar todo material que precisava.

- Sei.

- É preciso parar um pouco e relaxar. Ninguém é de ferro nesse mundo.

- Sei. E você trabalha na televisão?

- Sim.

- Uau, sabia que eu sempre imaginei, assim, conhecer melhor um jornalista de televisão?


Segunda parte – Ah, ele não é da Globo?

- A que horas eu consigo ver seu namorado na Globo, minha filha?

- Mãe, eu já disse: o Fê não trabalha na Globo.

- Mas você não falou que ele é repórter de televisão?

- É, mãe, de televisão, mas não da Globo. É de um canal de TV fechado. Mas me garantiu que tem uns amigos na Globo e que um dia ainda vai trabalhar lá.

- E por que ele não vem almoçar com a gente amanhã, filha? É meu aniversário.

- Mãe, ele vai estar de plantão amanhã. Mas mandou um beijo pra senhora.

Cris estava tão apaixonada por Fernando que nem se importava com suas ausências. O melhor era saber que as amigas estavam morrendo de inveja. A Cris namorava um jornalista da TV.


Terceira parte – Ou o jornalismo ou eu

- Fernando César, eu não acredito que você vai trabalhar bem na virada do ano.

- Eu já tinha te avisado deste risco, meu amor.

- E a casa que eu e minhas amigas alugamos em Maresias? Eu também já tinha te avisado. Nosso primeiro réveillon e vamos passar separados. Eu não tô crendo nisso.

- Cris, meu amor, eu também queria muito estar com você, mas é a minha profissão. O que posso fazer?

- Sempre essa merda de plantão.

- Você acha que estou feliz por trabalhar na virada? Feliz por ter que cobrir o show do Maurício Manieri na Paulista? Odeio esse cara, porra! Pior que isso só show do Maurício Manieri com chuva. Porque costuma chover na noite da virada.

- Tomara que caia o mundo na Paulista, que teu microfone sofra uma descarga elétrica e que você morra eletrocutado.

Bateu a porta. Passou a virada na praia. Sem o Fernando.


Parte final – O réveillon na Paulista

A Fabiana tinha estudado com ele no colégio. Depois, nunca mais se viram. Ele nem sabia que ela também tinha cursado jornalismo. Por coincidência (ou destino), estavam os dois na Paulista.

- Pra falar a verdade, Fernando, era até minha folga hoje, mas eu pedi pra trabalhar.

- Sério?

- Pois é. Troquei. Pedi pra folgar no Natal. E se eu te contar uma coisa, você promete não rir?

- Claro.

- Pedi pra trabalhar só pra assistir ao show do Maurício Manieri hoje, aqui. Fê, eu adoro ele. Sei que tem muita gente que não curte, mas eu a-mo o Maurício Manieri!

- Ah, então foi por isso?

- Foi (rindo). E você também gosta dele?

- Não sou fã de carteirinha como você, mas gosto bastante, sim.

- Você tá sentindo?

- O quê?

- O pingo. Pingo de chuva. Tá começando a chover. Vamos pra área reservada da imprensa?

O mundo caiu na Paulista. Fernando gravou, se molhou todo, escapou de sofrer uma descarga elétrica fatal. Entre uma gravação e outra, arriscou até cantar alguma coisa do Maurício Manieri. E, claro, beijou a Fabiana.

Ninguém é de ferro nesse mundo.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Slogans publicitários aplicados ao jornalismo


A primeira matéria a gente nunca esquece. (Valisère)

Jornalista é fresquinho porque trabalha em Cultura? Ou trabalha em Cultura porque é fresquinho? (Tostines)

Dúvida por quê? Plantão é sofrê. (Ypê)

Porque a pauta é agora. (Visa)

QI. É melhor... ter. (Bradesco Seguros)

Existem razões para acreditar: os jornalistas fodidos são maioria. (Coca-Cola)

Quem disse que não dá? Com carteirada dá! (Fininvest)

Pescoção, lugar de gente infeliz. (Pão de Açúcar)

O tempo passa, o tempo voa e a censura contra a imprensa continua numa boa. (Bamerindus)

A cerveja é a nossa energia. (Petrobras)

Faculdade de jornalismo: 1001 inutilidades. (Bombril)

Reclamo muito de tudo isso. (McDonald´s)

Apaixonados por boca-livre, como todo jabazeiro. (Postos Ipiranga)

Existem empresas de comunicação que o dinheiro não compra. Para todas as outras existe a matéria paga. (MasterCard)

Johnnie Reporter, keep working. (Johnnie Walker)