quarta-feira, 29 de junho de 2011
A boa rabugice
Faz motim, reclama de tudo.
Do sistema capitalista
Do mercado canibal
Do dono de jornal fascista
Do piso salarial.
Do anúncio que entra
Do texto que sai
Do trampo que aumenta
Da folga que cai.
Do release safado
Da pauta furada
Do prazo apertado
Da fonte enrolada.
Da falta de tempo
Da falta de paz
Da bosta de aumento
Do lead que faz.
De ser oprimido
Do jogo imundo
De ser agredido
Das merdas do mundo.
Leia também: Eu, ranzinza
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Separação
Nossa relação acabou há 2 meses, 14 dias, 7 horas e 31 minutos. Hoje decidi que vou jogar fora os objetos que ainda me fazem lembrar dele: um bloquinho de anotações, uma caneta com o logo do último empregador e um gravador. Vai tudo para o rio. Quero que as águas fedidas levem meu passado para longe. O jornalismo foi meu primeiro e único amor. Me encantou ainda menina. Agora acabou. A vida segue. Mamãe até já meu apresentou um pretendente, o tal concurso para auditor da receita federal. Jura que é um partidão. O problema é que eu achei ele meio sem graça, mas, sei lá, preciso estar aberta aos novos amores. Chego ao rio. Não é um rio qualquer. É o rio-personagem da minha reportagem de estréia, o rio que num mês de janeiro distante transbordou com a chuva e alagou a avenida. Agora será o rio da despedida.
Nossa relação acabou há 2 meses, 14 dias, 7 horas e 34 minutos. Vejo uma movimentação estranha na ponte. Parece um carro de bombeiros. Sim, são bombeiros. Um cachorro vira-lata agitado. Me aproximo. Parece um salvamento. Alguém estava se afogando. Pergunto ao bombeiro quem estava se afogando. Ele aponta para o bebê no carro de resgate. Conta que alguém viu a mãe atirar o bebê da ponte. Caralho. Abro meu bloquinho de anotações. Pego a caneta. Eu pergunto quem é esse alguém que viu a mãe jogar o bebê da ponte e o bombeiro me diz que foi um mendigo, que pulou no rio para salvar o bebê. Eu anoto tudo. O mendigo salvou o bebê e desapareceu nas águas. E o cachorro do mendigo está na margem do rio. Que história! Pergunto mais isso, mais aquilo, tiro fotos com meu celular.
Demoro para me dar conta: estou tendo uma recaída. Ah, não, Deus, me ajuda, não me deixa ter uma recaída, não deixa esse jornalismo me seduzir de novo, por favor. Logo hoje, meu Deus, que eu iria completar dois meses e meio de separação?
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Marchas e outras mobilizações da moda para o jornalista que adora tumultuar
Ato de Resistência ao Novo Acordo Ortográfico (pelo direito de escrever idéia com acento).
Microfonaço (pelo direito de perguntar quando e a quem bem quiser).
Parada do Orgulho do Assessor de Imprensa.
Marcha pela Divulgação de Notícias Vagabundas (inspirada no movimento canadense SlutNewsWalk).
Marcha dos Motoristas de Carro de Reportagem pela Democratização da Boca-Livre.
Churrasco do Diploma Diferenciado (manifestação bem-humorada em defesa do diploma de jornalismo).
Marcha Nacional pela Máquina de Café na Redação.
Marcha da Maconha (liderada, enrolada e apertada pelos fotógrafos).
Twittaço pela Dignidade (com a divulgação da hashtag #SouJornalistaMasSouLimpinho).
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Existem razões para acreditar
Baseado em um estudo sobre o mundo jornalístico atual, o blog Desilusões perdidas revela qual tipo de jornalista é maioria. Assista ao vídeo postado no YouTube aqui e descubra.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Enquete: você tem medo de quê?
A enquete recém-encerrada – Qual o tipo mais chato de jornalista? – foi barbada. A alternativa “O que acha que sabe muito” venceu com 50% dos votos, bem à frente da segunda opção mais votada, “O que conta vantagem só porque deu um furo de merda”, com 18%. Enfim, para os leitores do blog, os colegas metidos a “fodões” são os mais insuportáveis. Um tipo que tem aos montes por aí.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Diploma, dois anos na marginalidade
Como tem sido sua vida nesses últimos dois anos?
É difícil você ser valorizado por décadas e, de uma hora pra outra, descobrir que não serve mais. Se não for numa redação, onde eu vou trabalhar com dignidade? Vou confessar pra você que passei necessidade. Muito amigo sumiu, inclusive gente de sindicato.
O que faz para sobreviver?
Nem eu sei como sobrevivo, ainda mais com quatro bacuris lá em casa pra criar. Faço bico, de toalha plastificada de mesa, forro gaiola de passarinho. Mas é complicado. Você sabe o que é ficar todo sujo de bosta de calopsita?
Algum rancor do doutor Gilmar Mendes?
Como bom cidadão, eu respeito qualquer decisão da Justiça, mas não vou negar que esse filho-da-p### fod## a minha vida. Vamos falar a verdade. Meu amigo, se hoje estou na marginalidade, bebendo pra cara###, a culpa é desse filho-da-p###.
É verdade que você tentou o suicídio?
Num momento de muita fragilidade eu quase fiz uma bobagem, sim. Pensei em pegar uma tesoura e me picar todinho. Eu já tinha perdido quase toda a minha fé. Foi quando eu encontrei alguém muito especial, que está iluminando o meu caminho, alguém que eu já tenho no coração.
Você encontrou Jesus?
Não, não foi Jesus, eu encontrei o diploma de datilografia. Anos atrás, o cara ficou na pior pela mesma razão, a barra pesou pra ele. Mas aprendeu a lidar com o vazio existencial. E está me ensinando muita coisa bacana. Camarada mesmo.
Alguns grupos ambientalistas pedem a entidades de ensino superior do Brasil que comecem a emitir o diploma de jornalismo em papel semente para que o graduado possa plantá-lo tão logo se forme. O que acha dessa idéia?
Acho legal ser responsável com a natureza, mas não pro meu lado. Essa coisa de virar plantinha seria mais uma humilhação pra mim. Esses ambientalistas deviam se preocupar com assuntos mais importantes, como o peido da vaca.
Você tem acompanhado a sua PEC no Congresso?
Estou meio desanimado com essa minha PEC. Meu lobby no Congresso tá mais fraco do que carro 1.0 subindo a ladeira.
Como mudar isso?
Sem o apoio da mídia, é impossível ter alguma perspectiva boa. É por isso que eu agradeço muito a oportunidade desta entrevista. Tenho batalhado também alguma coisa com as produções da Sônia Abrão e da Luciana Gimenez. Se eu puder expor meu drama no Superpop, acredito que muita gente possa me ajudar.
Uma mensagem final, por favor.
O diploma de datilografia sempre me diz que nessa vida tem espaço pra todo mundo. Eu acho que eu ainda posso dar muito de mim para o jornalismo e peço aos jovens estudantes que não me abandonem. Tá cheio de diploma por aí pagando de bonitinho, outros se prostituindo por qualquer curso de dois anos, mas a minha proposta ainda é séria, tá certo? Isso é importante ficar claro. E... eu também queria... eu... bom, acho que é isso... desculpa, gente... eu prometi pra mim mesmo que não ia chorar, mas... Sério, gente, desculpa...
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Cantigas juninas pro arraiá da redação
(versão de Cai, cai, balão)
Cai, cai, textão! Cai, cai, textão!
Adeus informação
Não vai dar! Não vai dar! Não vai dar!
Um anúncio tem que entrar.
Liga à pauteira
(versão de Pula a fogueira)
Liga à pauteira, Iaiá
Escreve à pauteira, Ioiô
Cuidado para não se ferrar
Olha que a pauteira não gosta de assessor.
O Bin Laden tá mortão
(versão de Capelinha de melão)
O Bin Laden tá mortão
Lá no Paquistão
É domingo, é de noite
É no meu plantão.
O editor me procurando
E eu com o cu na mão
Esperai, esperai
Vai embora, não.
O Ibope vai subindo
(versão de Um balão vai subindo ou Sonho de papel)
O Ibope vai subindo
Com desgraça da boa
O nível caindo
Tal peito de coroa
Mundo-cão, mundo-cão
Acende a audiência
Da televisão.
Pedro, Antônio e o furo bão
(versão de Pedro, Antônio e João)
Um furo pra lá de bão
Antônio ia publicar
Mas Pedro roubou a pauta
Na hora do Antônio apurar.
Chegou a hora verdadeira
(versão de Chegou a hora da fogueira)
Chegou a hora verdadeira
Início de profissão
Formado, com diploma avacalhado
Portfólio bagunçado
Mas com puta de um tesão.
Quando eu era estagiário
Em redação
Eu servia cafezinho
Para o meu patrão
E fazia umas notinhas
Que nem sempre entravam, não.
Isto é lá pra engenheiro
(versão de Isto é lá com Santo Antônio)
Eu pedi com emoção
Ao chefe de redação
Um emprego bem maneiro
O chefe disse que não
O chefe disse que não
Isto é lá pra engenheiro.
Eu pedi com emoção
Ao chefe de redação
Um emprego bem maneiro
Bem maneiro, bem maneiro (pã pã pã pã)
Isto é lá pra engenheiro.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Amar um jornalista é...
Amar um jornalista é...
Não se importar em passar o Natal sem ele, o carnaval sem ele, o aniversário sem ele.
Ficar acordada até as cinco esperando ele chegar do pescoção.
Empurrar o carro velho dele que sempre quebra de madrugada.
Suportar os amigos dele que não param de falar de jornalismo na mesa do bar.
Tolerar as reclamações de salário ruim, pauta ruim, editor ruim.
Acompanhá-lo em trabalhos free lance no sábado à noite ou domingo bem cedo.
Ler as matérias horríveis dele e dizer que ficaram ótimas.
Achar graça quando ele interrompe a transa para atender o pauteiro no celular.
Ouvir as histórias fantásticas da carreira dele quando vocês dois ficarem velhinhos sem dizer “querido, você já contou isso um milhão de vezes”.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Loucura em três atos
- A matéria já está pronta, editor. Que matéria, que manchete! Vou arrebentar!
- Ótimo, Luís. Já estamos fechando o jornal.
- Eu sou foda, editor!
- Você é foda, Luís Cláudio! O melhor repórter que eu já conheci.
- Que dia perfeito!
- Preparado para logo mais, para receber o prêmio?
- Claro que estou, editor. Não é sempre que se ganha um Esso, né? E melhor: minha mulher e meu filho estarão presentes.
- Parabéns, Luís, parabéns!
Ato 2 – Pra que tudo isso?
- Vamos, filho, já está em cima da hora. Seu pai não vai gostar se chegarmos atrasados para a premiação. Ele sempre sonhou com esse Esso.
- Mãe, eles não vão começar a premiação sem a gente.
- Corre, Júnior. Não quero deixar o seu pai esperando.
- Não quero colocar terno, mãe. Pra que tudo isso?
- Coloca o terno rápido. Seu pai vai ficar feliz de te ver de terno.
Ato 3 – O grande momento
- Oi, doutor, como o Luís está?
- Ele está muito bem hoje, dona Carmem. Nem precisamos entrar com a medicação mais pesada.
- Que bom, doutor. Então, pode dizer a ele que nós já chegamos.
- Se a senhora e o Júnior quiserem, podem ir para a sala aqui ao lado. Os enfermeiros já estão todos lá. São eles que vão participar da cerimônia de entrega do prêmio a seu marido.
- Vamos, sim, doutor.
- Dona Carmem, só mais uma coisa: a partir de agora, não sou mais o doutor, OK? Sou o editor.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
A imprensa segundo G.H.
- Sim, senhor.
- Mas me diga, seu Onofre, em que posso ajudar? O senhor parece aporrinhado.
- E não é pra estar, seu Genival Herculano?
- Me chame de G.H., por favor.
- É sobre a notícia de minha pastelaria na edição da semana de seu jornal, seu G.H..
- Seu Onofre, acabo de voltar de viagem. Minha senhora quis ir pra Miami. Como aquela lá adora ter contato com uma nova cultura e, claro, fazer umas comprinhas. Nem acompanhei direito a nossa última edição.
- O seu jornal publicou uma nota dizendo que um cliente mastigou uma barata em um de meus pastéis.
- Não acredito, seu Onofre!
- Pois foi verdade, seu G.H..
- A barata?
- Não, a nota. A barata também... mas era uma barata miudinha. Não era pra tanto estardalhaço, entende?
- Não foi nenhuma baratona, cascuda, voadora.
- Longe disso, seu G.H..
- Entendo.
- Meu filho, que é metido com essas coisas de internet, me contou que a pastelaria virou até piada no Tuide, Tuite, sei lá.
- Seu Onofre, isso com certeza foi coisa do Clayton Júnior. O menino é bom repórter, mas tem mania de achar que jornalismo é denúncia, investigação. Já falei pra ele que aqui na cidade não podemos nos indispor com os amigos, com o prefeito Paulão, os comerciantes...
- A pastelaria tem anúncio de página inteira toda semana no seu jornal. Não é justo, o senhor sabe.
- Claro que não, seu Onofre. Mas o erro será reparado.
- Como?
- Pra semana que vem, vamos fazer uma matéria de capa com sua pastelaria. Haverá um grande pastelaço na cidade! O que o senhor acha? Eu mesmo vou aparecer numa foto comendo o seu pastel. Vamos mostrar que a barata não passou de um mal-entendido!
- Isso parece muito bom, seu G.H..
- Isso é ótimo. E peça pra seu filho divulgar o pastelaço no Twitter!
- O senhor é um grande homem da comunicação, seu Genival.
- G.H., por favor!
- G.H.!
- E tome logo esse café, seu Onofre, porque está esfriando. O senhor prefere açúcar ou adoçante?
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Vai que vai
Ou pra onde o chefe manda mesmo.
Vai pra delegacia. Vai pra guerra no morro. Vai pra guerra no campo. Vai pra enchente. Vai pra hospital. Vai pra velório. Vai pra enterro. Vai pra protesto na rua. Vai pro Congresso. Vai pro fim do mundo, pra onde Judas perdeu as pautas.
Mas vai.
Vai de carro da reportagem. Vai de avião. Vai de táxi. Vai de busão. Vai com pressa. Vai com a língua de fora. Vai com a orelha de pé. Vai pela sombra. Vai pelo sol. Vai pela chuva. Vai ao cair da noite. Vai ao cair da cama. Vai com remela nos olhos.
Mas vai.
Vai com bloquinho. Vai com gravador. Vai com máquina fotográfica. Vai com Bic quase seca. Vai com perguntas na cabeça. Vai sem nada na cabeça. Vai com o coração na boca. Vai com o cu na mão.
Mas vai.
Vai com frio. Vai com calor. Vai com sede. Vai com vontade de mijar. Vai com vontade de cagar. Vai sem vontade nenhuma. Vai de barriga vazia. Vai de saco cheio. Vai reclamando. Vai molengando. Vai aos trancos. Vai aos barrancos.
Repórter vai que vai.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Dia da imprensa
E se a imprensa realmente não existisse?
Quem denunciaria as contas secretas, as maracutaias, os dólares na cueca? O novo CD da Preta Gil, que perigo, chegaria às lojas imune de críticas. Não haveria os bares de jornalista e as filosofias de botequim de jornalista. Quem avisaria sobre as greves de trem, as ruas congestionadas e as chuvas de fim de tarde? A arte da investigação não teria conhecido o talento de Zé Bob. Pescoção seria apenas o cidadão interessado em olhar o decote da moça ao lado. A liberdade de expressão não teria tanto valor. O Nelson Rodrigues teria sido... o que o Nelson Rodrigues teria sido? Talvez médico? Ginecologista? Meu Deus! Não existiria o blog “Desilusões perdidas” para falar mal (e às vezes bem) da profissão. Jamais teríamos conhecido as histórias do bebê-diabo do ABC e do homem que torrou o pênis na tomada divulgadas pelo saudoso Notícias Populares. O Pedro Bial teria, muito provavelmente, dedicado toda a sua carreira a reality shows. Não haveria o caderno de Esportes da segunda-feira para a gente ler os elogios à vitória do nosso time. Eu jamais teria acordado com o Jornal da Manhã da Jovem Pan. Repita: eu jamais teria acordado com o Jornal da Manhã da Jovem Pan. Os fotógrafos só sobreviveriam com casamentos, batizados e festas de debutante. O furo seria apenas um orifício qualquer.

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segunda-feira, 30 de maio de 2011
Enquete: qual o tipo mais chato de jornalista?
Vá até a coluna à direita e participe. O quê? Não quer votar? Está sem tempo? Não tem saco para enquetes em blogs? Deixa de ser chato, pô! Não custa nada dar uma votadinha.
Ser jornalista e ter liberdade é, mais ou menos, como trabalhar numa segunda-feira e ficar todo empolgado. Coisas que não combinam. A pesquisa encerrada – Você se considera um jornalista livre? – teve a vitória da alternativa “Só um instante: preciso de autorização do meu chefe para responder esta enquete”, com 30% dos votos.
Em segundo lugar, com 23%, ficaram as opções “Não. Liberdade de imprensa é como disco voador; dizem que existe, mas eu nunca vi” e “Muito livre, principalmente agora que estou desempregado”.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Crônica sobre a ingenuidade do repórter
Tem quem fale que repórter ingênuo devia nascer morto.
Sexta-feira à noite, véspera de minha folga, e o editor vem cheio de graça. Ô, Duda, você tem alguma coisa programada pro fim de semana? Só os ingênuos dizem “não, não tenho”. Se não tem, invente! Diga qualquer coisa. Diga que está rolando um ciclo de filmes romenos mudos imperdível, que você vai pegar um bronze numa praia qualquer – logo você que odeia sol. E praia.
É comum também, após um passaralho, o patrão reunir os repórteres sobreviventes e avisar que, por ora, as vagas estão congeladas e que todos deverão se esforçar mais, trabalhar pelos colegas demitidos. Mas é só por um tempo! Depois as vagas serão descongeladas. Tem repórter que acredita. Descongelam porra nenhuma! Tenho vontade é de congelar o patrão no freezer lá de casa. Em partes. Cabeça, mãos, vísceras, tudo embalado a vácuo.
Tem repórter que enche a boca para dizer que trabalha na grande imprensa, que é independente, sem o rabicó preso. Quanta ingenuidade! Alguns acreditam ser insubstituíveis numa redação. Quando eu sair, essa merda afunda. Mas merda não afunda, seu bobinho! Virão outros, ganhando um salário ainda menor. E o barco seguirá seu rumo.
Ingenuidade não combina com o trabalho de repórter. Desconfie de tudo e de todos, dos Malufs e Sarneys, da tal gente de bem, dos projetos artísticos de ex-BBB, dos releases infestados de superlativos. Desconfie até do que se vê com os próprios olhos.
Repórter tem que ser como puta velha, sabida das coisas da vida.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Ciranda do Jornalista
(de A Grande Redação Mística)
Procurando bem
Todo mundo tem descanso
Almoço feliz em família
Tem preguiça, folga, tem rede de balanço
Só o jornalista que não tem
Nem dia festivo
Domingo esportivo
Nem ócio criativo
Ele não tem.
Futucando bem
Todo mundo tem poupança
Ou um plano de previdência
Todo mundo tem um fundo de segurança
Só o jornalista que não tem
Nem grana escondida
Herança prometida
De tia suicida
Ele não tem.
Não livra ninguém
Todo mundo tem futuro
Riscos de menor gravidade
Tem salubridade
Emprego sem apuro
Só o jornalista que não tem
Medo de viver, gente
Medo de morrer, gente
Medo do inferno
Ele não tem.
Confessando bem
Todo mundo tem transado
Logo que o dia termina
Todo mundo tem atenção pro namorado
Só o jornalista que não tem
Fone desligado
Note desplugado
Sono relaxado
Ele não tem.
Os outros também
Podem ter a triste sina
Da mesmice ou trampo sem graça
Reparando bem, todo mundo tem rotina
Só o jornalista que não tem
Empreguinho chato
Dia bem pacato
Total anonimato
Quem não tem?
Procurando bem
Todo mundo tem...
Só o jornalista que não tem...
Procurando bem
Todo mundo tem...
Só o jornalista que não tem...
Leia também: Chico Buarque canta seus clássicos jornalísticos
Veja aqui a versão original, com Chico coçando o dedão do pé.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
15 coisas simples e boas da vida (de jornalista)
1. Tomar café e ler o jornal na padoca, num domingo de folga, sem se preocupar com nada.
2. Encontrar os amigos de copo sujo no fim de noite.
3. Aprender sobre nanotecnologia, rúgbi ou cartas de tarô.
4. Conhecer gente interessante, não em Zurique, mas no Capão Redondo.
5. Saber que sua crônica mexeu com uma simples dona de casa.
6. Saber que seu filho ainda tem orgulho do seu trabalho, apesar do padrasto desembargador.
7. Descobrir que seu Bruno, o motorista do jornal, sonha ter um sebo em Paris.
8. Contemplar a beleza (e a feiúra) da cidade durante uma pauta.
9. Rir da piada tosca do fotógrafo no longo plantão no hospital.
10. Comer esfiha do Habib´s no longo plantão no hospital.
11. Comer pizza mezzo mussarela mezzo calabresa no pescoção.
12. Receber um sorriso do assessor de imprensa que você ama.
13. Contar histórias lindamente banais que corriam o risco de jamais serem contadas.
14. Reler os primeiros bloquinhos de anotação de sua carreira ainda guardados na casa da mãe.
15. Acabar o café e o jornal na padoca e continuar o resto do domingo sem se preocupar com nada.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
A luta continua
João: A gente precisa ver essa parada de gestão revolucionária que prometeu pra galera. Logo vão cobrar. Ganhamos por causa da porra da revolução.
Paulo: É, as pessoas vão querer saber da revolução!
Diego: Mas que revolução a gente vai fazer mesmo?
João: Então, cara, é isso que a gente precisa pensar agora.
Paulo: Tem que ser algo que mude a vida dos estudantes!
(Silêncio)
Diego: Já sei, véio! Vamos lutar contra o abuso do valor das mensalidades!
João: Porra, Diego, tá louco? A gente estuda numa universidade pública. Esqueceu que você não tá mais num colégio de playboy?
Paulo: Que merda de revolucionário você é, hein?
Diego: Pô, galera, confundi. Foi mal.
(Silêncio)
Paulo: Se vocês quiserem, posso falar com um tio jornalista. O cara é velho, lutou contra a ditadura, apanhou, foi preso, essas paradas todas. Ele deve entender alguma coisa de revolução.
João: A gente tem que pensar no que os jovens de hoje querem.
Paulo: Mas os jovens de hoje querem alguma coisa?
João: Devem querer, sei lá.
Paulo: Diego, cê tá muito quieto, cara. Tá com medo de falar outra merda?
Diego: Véio, tô pensando numa revolução maneira!
João: Já sei! Vamos lutar por liberdade!
Paulo: Liberdade? Você não consegue nem se libertar dos seus pais! Disse que iria morar sozinho, fazer festa todo dia. Que moral você tem pra lutar por liberdade?
João: Porra, cara, é que eu ainda não tenho grana. Mas quando rolar um trampo, me liberto dos velhos.
(Silêncio)
Diego: Na boa, véio, essa parada de revolução é chata pra caralho! A gente precisa mesmo definir isso agora?
João: Agora, agora, não. Mas a gente não pode esquecer. Lembrem-se: somos futuros jornalistas. Se a gente não fizer as próximas revoluções, quem vai fazer?
Paulo: Verdade.
Diego: Tá certo.
(Silêncio)
Diego: Bom, já que não vai rolar revolução agora, que tal a gente jogar um playstation? Tô com o Pro Evolution Soccer 2011 aqui.
Paulo: Sério? Caraca! Champions League?
Diego: Champions League, véio. Liga a TV aí.
Paulo: Eu vou ser o Manchester!
João: Sou o Barcelona!
Diego: Tá maluco, João? Eu sou o Barça!
João: Mas nem fodendo. Eu sou o Barça!
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Simpatias para jornalistas
Pegue o diploma que você tinha plastificado para usar como toalha em refeições rápidas. Junte a ele um baralho de truco virgem, um livro de Marshall McLuhan e pétalas de duas rosas amarelas. Guarde tudo em uma gaveta e feche com chave. Costure uma foto do doutor Gilmar Mendes na boca de um sapo e enterre o sapo no lixão mais nojento que conhecer. Se milhares de jornalistas fizerem a simpatia, há grande chance de a PEC do diploma ser votada no Senado.
Para fazer a puta matéria e ganhar um Prêmio Esso:
Está amarrado? Sua carreira não progride? Livre-se da preguiça que te impede de sair às ruas para fazer grandes reportagens. Em uma bacia, coloque três copos de água, pedaços limpos de papel do seu bloquinho de anotações e pétalas de quatro rosas brancas. Molhe uma toalha amarela na água e a passe por todo o corpo. O ritual de purificação liberta o repórter de energias negativas, como o Google e o ar-condicionado da redação.
Para filar um rango mais decente em coletivas:
Se você não suporta mais comer canapezinho ou filé ao molho madeira com arroz e batatas, prepare um carré de cordeiro com cuscuz marroquino, harmonize com um Bordeaux tinto e leve tudo a uma encruzilhada. Velas especiais dão um charme à oferenda. Infalível. Em poucos dias, vai chover boca-livre chique. E, para não pagar mico à mesa, faça um curso de etiqueta, mesmo porque ainda não inventaram simpatia com este objetivo.
Para casar com alguém de outra profissão:
É uma simpatia três em uma. Ao casar com um(a) não-jornalista, você também atrai mais dinheiro e um parceiro mais estável (emocionalmente, profissionalmente, sexualmente e outros advérbios de modo). Mas não se trata de uma simpatia fácil. Depende de muita reza, muita vela, muito mel e muito sacrifício para trocar os deliciosos bares de jornalista por baladas cheias de gente careta e com um papo chato do caralho.
Para arrumar um emprego:
Descole uma imagem pequena de Santo Antônio do Bom Emprego, aquela em que ele segura uma pastinha com seu portfólio de matérias publicadas. Coloque o santo de cabeça para baixo em um copo de água e retire a pastinha de suas mãos. Só livre o danado do afogamento e lhe devolva o portfólio quando conseguir o emprego. Se em uma semana você não for chamado nem para uma entrevista, esqueça simpatias e melhore sua rede de contatos.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Sete sintomas da pobreza de um jornalista
1. Ir a um encontro romântico, ostentando o jabá recebido dias antes numa coletiva para a imprensa. Tudo bem que o restaurante não é nenhum francês bacanérrimo, mas é muito decepcionante para uma mulher jantar com um homem – ela chegou até a imaginar que ele poderia ser o futuro pai de seus filhos – que veste uma camisa pólo azul-cafona com os dizeres “Tubos e Conexões Tigre”.
2. Embolsar o dinheiro do táxi e seguir para a pauta de ônibus. Lotado, claro. Além de poder chegar atrasado ao local da reportagem, o jornalista ficará com a roupa toda amassada e também poderá perder o gravador e o bloquinho de anotações no trajeto. Se o motorista do ônibus for daqueles que dão uma freada brusca antes de parar em cada ponto, há ainda o risco de uma gravidez indesejada.
3. Ir a uma coletiva de imprensa que não despertou o menor interesse do jornal apenas para filar o almoço. O jornalista finge que prestou atenção na entrevista, finge para o assessor de imprensa que vai dar um espaço legal para o assunto na edição do dia seguinte e devora o filé mignon ao molho madeira sem qualquer outro fingimento.
4. Pedir para o garçom do almoço acima preparar uma quentinha que o jornalista finge que vai levar ao motorista. É um dos sintomas mais tristes da pobreza. Na verdade, será o jantar do jornalista naquela mesma noite.
5. Participar de uma entrevista concorrida, cheia de empurra-empurra, com dois microfones e um gravador nas mãos. O repórter de rádio/TV/internet chega a lembrar um daqueles deuses hindus que têm um monte de braços. Faz malabarismos para conseguir captar o áudio. Se falhar, pode perder um de seus três empregos. Ah, ele tem também um quarto trabalho, um bico como assessor de imprensa na prefeitura.
6. Levar o filho, que mora com a ex-mulher, ao cinema para assistir ao filme “O Guerreiro Didi e a Ninja Lili”, com um par de ingressos que estava esquecido numa mesa da redação. Ao fim do filme, o filho, que já tem uns 15 anos, vai dizer ao pai: “Da próxima vez, a gente poderia ver X-Men ou, sei lá, pai, um filme em 3D?”.
7. Ficar do lado de fora de um evento chique, de artistas ou políticos, e tentar descolar comida e bebida com um segurança da casa. O grupo é liderado por um fotógrafo desinibido – aliás, fotógrafos são todos desinibidos –, que faz a negociação com o segurança. Quando enfim chegam os salgadinhos gelados e o prosecco sem gás, os jornalistas disputam os restos numa cena comovente e chocante, digna de ser registrada pelas lentes de Sebastião Salgado.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Crendices de jornalista
Você pode até quebrar um espelho, mas se quebrar o sigilo prometido a uma fonte, estará condenado a sete anos de desconfiança.
Ao entrar na sala de reunião de pauta, pise sempre com o pé direito. Caso contrário, ficará com as piores pautas, como cobrir buraco de rua ou a agenda política do Gilberto Kassab.
O número 13 traz mau agouro. Nunca aceite um frila com 13 fontes para entrevistar. Até porque vão te pagar por uma matéria de, no máximo, duas fontes. Se pagarem, é claro.
Quando o editor se dirigir à equipe de reportagem no fim do expediente com uma pauta de última hora, evite passar por baixo da mesa para se esconder. Isso dá mais azar do que passar por baixo de escada. O editor não é bobo. A pauta roubada, com certeza, será sua.
Numa coletiva, pular a vez do colega para fazer uma pergunta traz um infortúnio danado. Existe o risco de, na hora de ir embora, o jabá acabar bem no instante de você recebê-lo. E não adianta bater três vezes na madeira.
Nunca decida ser jornalista em noites de lua cheia. A lua enfeitiça. Você vai ficar aprisionado a uma profissão apaixonante e cruel para o resto da vida.
Cruzar com assessor de imprensa chato na redação é pior do que cruzar com gato preto na rua. Azar do cacete. O cara vai querer vender pra você uma pauta sem graça como se fosse “a matéria”.