Tem o jornalista que não vê a hora de o segundo turno acabar para voltar a viver e se desintoxicar dos discursinhos, do beija-mão e de outras mentiras. Tem o jornalista que não vê a hora de o segundo turno acabar para não precisar mais ler tanta mensagem raivosa no Facebook. Tem o jornalista que trabalha na assessoria de um candidato, mas vota no outro e que ninguém saiba disso, ok? Tem o jornalista que não suporta o editorial do patrão, mas o que eu posso fazer se preciso deste emprego? Tem o jornalista com saudade da Copa do Mundo. Tem o jornalista que adora bastidor de debate na TV. Tem o jornalista que comenta pesquisa e, veja bem, este resultado pode significar isso, mas também pode significar aquilo e blá-blá-blá. Tem o jornalista que preferia ser mesário a trabalhar na cobertura da apuração, porque trampo de mesário acaba mais cedo e ainda rola um sanduba de mortadela. Tem o jornalista que se esforça para promover reflexões isentas e inteligentes nas redes sociais. Tem o jornalista que pensa e agora que o frila da eleição acabar o que eu vou fazer da vida? Tem o jornalista que compartilha o Reinaldo e tem o que compartilha o Gregório. Tem o jornalista todo orgulhoso por registrar um momento tão importante da história. Tem o jornalista todo feliz porque até o fim do mês cai a grana do frila da eleição, mas, claro, sempre com uma margem de erro de 30 dias para mais.
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quinta-feira, 23 de outubro de 2014
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Expediente
Se existe alguém que lê expediente de revista ou jornal, esse alguém é o próprio jornalista.
Tem o frila que visita bancas e livrarias bacanas à caça de contatos, contatos, contatos. É o tipo que anota tudo, mas não compra nada. Alguns preferem as bibliotecas. Os mais tecnológicos vasculham expedientes pela internet.
Tem o jornalista na cola de algum conhecido. Por onde anda o Wally? Gente curiosa em saber se um antigo colega de faculdade já virou editor-chefe. Nosso mundinho é tão pequeno quanto o nosso salário. Ainda mais numa época de redações anoréxicas.
Tem o assessor que rala para atualizar seus mailings. Com o entra-e-sai nas publicações, essas listas vendidas por aí envelhecem mais rápido do que o iPhone. Na hora de entupir com releases a caixa postal dos pauteiros, o mailing caseiro é mais confiável.
E tem, claro, o jornalista que saboreia o expediente da própria publicação. Ah, os focas. Ficam lá curtindo o nome estampado num pedaço de papel, sorriso besta na cara que diz sou jornalista de verdade, não tá vendo aqui, não?

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Tem o frila que visita bancas e livrarias bacanas à caça de contatos, contatos, contatos. É o tipo que anota tudo, mas não compra nada. Alguns preferem as bibliotecas. Os mais tecnológicos vasculham expedientes pela internet.
Tem o jornalista na cola de algum conhecido. Por onde anda o Wally? Gente curiosa em saber se um antigo colega de faculdade já virou editor-chefe. Nosso mundinho é tão pequeno quanto o nosso salário. Ainda mais numa época de redações anoréxicas.
Tem o assessor que rala para atualizar seus mailings. Com o entra-e-sai nas publicações, essas listas vendidas por aí envelhecem mais rápido do que o iPhone. Na hora de entupir com releases a caixa postal dos pauteiros, o mailing caseiro é mais confiável.
E tem, claro, o jornalista que saboreia o expediente da própria publicação. Ah, os focas. Ficam lá curtindo o nome estampado num pedaço de papel, sorriso besta na cara que diz sou jornalista de verdade, não tá vendo aqui, não?

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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
O que responder para um cara que oferece 10 reais pelo texto de um jornalista profissional
Prefiro fazer malabarismo com bolinhas no farol que eu ganho mais.
É por essas e outras que o mercado está uma bosta. Babaca.
Eu cobro 10 mil reais pelo meu texto. Mas a gente pode chegar a um meio-termo. Topa?
Eu não vou perder o meu tempo escrevendo para uma publicação furreca como a sua (gostaram da expressão “furreca”?).
Que jornalista ganha mal a gente já sabe, mas, meu amigo, também não precisa avacalhar, né?
Por que o digníssimo senhor não pega esta nota de 10 reais, faz um aviãozinho igual ao Silvio Santos e enfia no seu digníssimo cu?
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É por essas e outras que o mercado está uma bosta. Babaca.
Eu cobro 10 mil reais pelo meu texto. Mas a gente pode chegar a um meio-termo. Topa?
Eu não vou perder o meu tempo escrevendo para uma publicação furreca como a sua (gostaram da expressão “furreca”?).
Que jornalista ganha mal a gente já sabe, mas, meu amigo, também não precisa avacalhar, né?
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sexta-feira, 24 de agosto de 2012
A arte de conciliar empregos
Sabe aquele cara que tem umas três mulheres ao mesmo tempo, três famílias diferentes, uma em cada canto? Então, muito jornalista é adepto desta relação múltipla, mas no que diz respeito a emprego. Jornalista vive uma espécie de poligamia trabalhista.
Porque se a gente somar uma miséria aqui, uma miséria ali e uma miséria acolá, no fim do mês a gente pode ganhar uma miséria com mais sustância.
Ok, não são necessariamente três empregos. Pode ser um emprego fixo e, para complementar a renda, uns frilas ou bicos, que equivalem às puladas de cerca. Fidelidade e exclusividade são coisas bacanas, mas, no mundo jornalístico, não enchem barriga.
Os combos são variados. Peça pelo número: 1) assessor de imprensa na prefeitura pela manhã, redator no jornal diário à tarde, frilas de texto à noite; 2) repórter de rádio pela manhã, produtor de TV à tarde, voz e violão no barzinho à noite; 3) fotógrafa de revista pela manhã, de eventos corporativos à tarde, vendedora de Avon 24 horas por dia. E por aí vai.
Se com um único emprego já não é fácil descolar um tempo livre, imagine com três. É correria para comer, para escapar do trânsito entre um trabalho e outro. Time is money do inferno.
Agora, a gente aqui falando de poligamia trabalhista, mas há muito repórter que não tem sequer um emprego. Para este, meio-emprego já seria bom demais. Um quarto de emprego que fosse. Um blog?
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Porque se a gente somar uma miséria aqui, uma miséria ali e uma miséria acolá, no fim do mês a gente pode ganhar uma miséria com mais sustância.
Ok, não são necessariamente três empregos. Pode ser um emprego fixo e, para complementar a renda, uns frilas ou bicos, que equivalem às puladas de cerca. Fidelidade e exclusividade são coisas bacanas, mas, no mundo jornalístico, não enchem barriga.
Os combos são variados. Peça pelo número: 1) assessor de imprensa na prefeitura pela manhã, redator no jornal diário à tarde, frilas de texto à noite; 2) repórter de rádio pela manhã, produtor de TV à tarde, voz e violão no barzinho à noite; 3) fotógrafa de revista pela manhã, de eventos corporativos à tarde, vendedora de Avon 24 horas por dia. E por aí vai.
Se com um único emprego já não é fácil descolar um tempo livre, imagine com três. É correria para comer, para escapar do trânsito entre um trabalho e outro. Time is money do inferno.
Agora, a gente aqui falando de poligamia trabalhista, mas há muito repórter que não tem sequer um emprego. Para este, meio-emprego já seria bom demais. Um quarto de emprego que fosse. Um blog?
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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
O dia seguinte
Oi. Eu pensei que você fosse ligar.
Fiquei de ligar?
Não, mas eu esperei, sei lá. Imaginei que pudesse rolar algo mais.
Não devia esperar, sabe disso.
É que eu sou boba mesmo.
Eu avisei que era coisa momentânea.
Avisou, sim. Só me diz uma coisa.
O quê?
Sobre ontem.
O quê?
Não foi legal?
Foi ótimo.
Sério?
Claro, você é excelente.
Eu fico mais feliz assim.
O problema não é você. É que a gente não tem vaga mesmo.
Eu sempre me iludo com algo mais sério, tipo emprego, sabe?
Foi ótimo, mas foi só um frila.
Ok, ok, foi só um frila (risos). Se pintar outro, me avisa, tá? A grana é boa. E obrigada pelo “você é excelente”!
Sabe que eu gosto de você, né?
Então, tchau.
Peraí, moça.
O quê?
Quer sair comigo hoje à noite?
Hoje?
É. Hoje.
...
Vamos?
Tá bom, mas, ó, já vou avisando: é só sexo, tá? Sem compromisso.

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Não, mas eu esperei, sei lá. Imaginei que pudesse rolar algo mais.
Não devia esperar, sabe disso.
É que eu sou boba mesmo.
Eu avisei que era coisa momentânea.
Avisou, sim. Só me diz uma coisa.
O quê?
Sobre ontem.
O quê?
Não foi legal?
Foi ótimo.
Sério?
Claro, você é excelente.
Eu fico mais feliz assim.
O problema não é você. É que a gente não tem vaga mesmo.
Eu sempre me iludo com algo mais sério, tipo emprego, sabe?
Foi ótimo, mas foi só um frila.
Ok, ok, foi só um frila (risos). Se pintar outro, me avisa, tá? A grana é boa. E obrigada pelo “você é excelente”!
Sabe que eu gosto de você, né?
Então, tchau.
Peraí, moça.
O quê?
Quer sair comigo hoje à noite?
Hoje?
É. Hoje.
...
Vamos?
Tá bom, mas, ó, já vou avisando: é só sexo, tá? Sem compromisso.

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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Ah, essa nossa versatilidade
Como diz aquela famosa frase daquele famoso livro: “No princípio, Deus criou os céus, a terra e a jornada dupla (ou tripla) de trabalho para os jornalistas”.
Amanda passa o dia inteiro na redação, apurando, escrevendo, ajudando no fechamento. À noite, quando deveria descansar, dedica-se à carreira de escritora amadora. Sonha levar a coisa mais a sério um dia, perder a timidez, publicar seu livro de poemas, sobreviver de literatura, mandar o jornal à merda. Quando sobra um tempo, ainda ajuda a mãe a fazer artesanato em mosaico para vender na feirinha da Benedito Calixto.
Alex adoraria que seu dia tivesse 36 horas, única forma de poder conciliar o emprego de subeditor de um site sobre cinema com os vários frilas. Nos raros momentos de ócio na redação, aproveita para usar o telefone do patrão e escrever as matérias que faz por fora. Assina seus frilas com pseudônimos. Aliás, adora escolher pseudônimos. O último foi Raimundo Coppola, uma homenagem simultânea ao avô cearense e ao cineasta americano.
Repórter de uma revista mensal sobre variedades, Érica assumiu, recentemente, o cargo de “diretora de Comunicação” do grupo de empresas de sua família, que inclui duas lojas de 1,99 no centro da cidade e um açougue decadente. Vive dizendo ao pai que, sem estratégias de comunicação modernas e eficientes, o grupo irá à falência. Ganha uma remuneração bem baixa pelo nobre cargo de diretora, mas família é aquela coisa, né?
Desde que Boninho passou a reservar uma cota para jornalistas no Big Brother, o assessor de imprensa Jonas dedica as noites a criar artimanhas para conseguir vaga no programa. Sabe que o futuro dos jornalistas está nos reality shows. Planeja vídeos de inscrição. A imitação de William Bonner apresentando o JN de cueca tinha tudo para encantar, mas não deu certo. A de moça do tempo gostosa também naufragou, apesar do strip-tease no fim.
Heitor, cujo trabalho oficial é o de editor de imagens num programa esportivo de TV, descobriu que consegue ter um bom complemento de renda como professor de jornalismo. Começou com aulas de telejornalismo, sua área, empolgou-se e hoje também é responsável pelas disciplinas Teorias da Comunicação, Filosofia e Rádio. Não é um profundo conhecedor das disciplinas, mas a faculdade também não é lá essas coisas.
César Luís chega à emissora de rádio apenas à tarde para comandar o programa “A Notícia em Sua Casa” e aproveita as manhãs para fazer um bico no Supermercado Princesa. De óculos escuros e microfone na mão, é o locutor responsável por anunciar as promoções. “Vamos aproveitar, dona de casa, que hoje é o dia do peixe barato aqui no Princesa. O filé de merluza tá com preço especial. Tá esperando o quê, minha senhora?”
Amanda passa o dia inteiro na redação, apurando, escrevendo, ajudando no fechamento. À noite, quando deveria descansar, dedica-se à carreira de escritora amadora. Sonha levar a coisa mais a sério um dia, perder a timidez, publicar seu livro de poemas, sobreviver de literatura, mandar o jornal à merda. Quando sobra um tempo, ainda ajuda a mãe a fazer artesanato em mosaico para vender na feirinha da Benedito Calixto.
Alex adoraria que seu dia tivesse 36 horas, única forma de poder conciliar o emprego de subeditor de um site sobre cinema com os vários frilas. Nos raros momentos de ócio na redação, aproveita para usar o telefone do patrão e escrever as matérias que faz por fora. Assina seus frilas com pseudônimos. Aliás, adora escolher pseudônimos. O último foi Raimundo Coppola, uma homenagem simultânea ao avô cearense e ao cineasta americano.
Repórter de uma revista mensal sobre variedades, Érica assumiu, recentemente, o cargo de “diretora de Comunicação” do grupo de empresas de sua família, que inclui duas lojas de 1,99 no centro da cidade e um açougue decadente. Vive dizendo ao pai que, sem estratégias de comunicação modernas e eficientes, o grupo irá à falência. Ganha uma remuneração bem baixa pelo nobre cargo de diretora, mas família é aquela coisa, né?
Desde que Boninho passou a reservar uma cota para jornalistas no Big Brother, o assessor de imprensa Jonas dedica as noites a criar artimanhas para conseguir vaga no programa. Sabe que o futuro dos jornalistas está nos reality shows. Planeja vídeos de inscrição. A imitação de William Bonner apresentando o JN de cueca tinha tudo para encantar, mas não deu certo. A de moça do tempo gostosa também naufragou, apesar do strip-tease no fim.
Heitor, cujo trabalho oficial é o de editor de imagens num programa esportivo de TV, descobriu que consegue ter um bom complemento de renda como professor de jornalismo. Começou com aulas de telejornalismo, sua área, empolgou-se e hoje também é responsável pelas disciplinas Teorias da Comunicação, Filosofia e Rádio. Não é um profundo conhecedor das disciplinas, mas a faculdade também não é lá essas coisas.
César Luís chega à emissora de rádio apenas à tarde para comandar o programa “A Notícia em Sua Casa” e aproveita as manhãs para fazer um bico no Supermercado Princesa. De óculos escuros e microfone na mão, é o locutor responsável por anunciar as promoções. “Vamos aproveitar, dona de casa, que hoje é o dia do peixe barato aqui no Princesa. O filé de merluza tá com preço especial. Tá esperando o quê, minha senhora?”
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Quis porque quis fazer jornalismo
Depois de muitos anos, duas mães se reencontram num colégio, no dia de votação de uma eleição qualquer.
- Maria Helena? Você não é a mãe do Paulo Henrique, o amigo do Arturzinho, meu filho, nos tempos aqui do colégio?
- Claro! Sou a mãe do Paulo Henrique, sim. Quanto tempo, Célia! E como vai o Arturzinho?
- Arturzinho tá ótimo. Tá nos Estados Unidos. Acabou a faculdade de Economia na USP e está fazendo uma pós-graduação em Nova York. Tá todo empolgado! A família também. E o Paulo Henrique?
- Paulo é aquela coisa: nunca gostou de estudar. Quis porque quis fazer jornalismo. O pai não queria. Agora tá aí, desempregado. Diz que manda currículo todo dia, pra tudo que é lugar, mas a situação tá difícil.
- Mas isso é fase, Maria Helena.
- Deus te ouça, Célia. O Paulo Henrique passa o dia inteiro tocando guitarra no quarto. Diz que vai ser músico também. O pai não tá gostando nada. Eu queria tanto que ele fosse igual ao Arturzinho.
- Bem, Maria Helena, deixa eu ir. Sucesso pro Paulo Henrique.
Dois anos depois, numa outra eleição, novo reencontro.
- Oi, tudo bem? E o Paulo Henrique? Ainda sem emprego?
- Oi, Célia, tudo bem. O Paulo arrumou umas coisas, sim, mas tudo bico. Pelo menos tá pagando as contas dele.
- Que bom, já é alguma coisa, né?
- Ele diz que também está fazendo um blog. Acho que é esse o nome: blog. Não ganha nada. Diz que vai ganhar, mas até agora nada. Diz que é um blog sobre transparência política. Não entendo direito. Ah, esse moleque. E o Artur?
- Arturzinho tá ótimo. Já tá voltando pro Brasil. Mês que vem. Com a pós que ele fez lá nos Estados Unidos, já garantiu um superemprego aqui, num banco grande. Tão jovem e já vai ter um cargo importante, sabe? Salário excelente.
- Que bom. O Arturzinho sempre foi muito estudioso. Eu falava pro Paulo: segue o exemplo do seu amigo. Mas fazer o quê? Quis porque quis fazer essa bobagem de jornalismo...
Pelas mais diversas circunstâncias, o encontro seguinte só ocorreu depois de oito anos.
- Maria Helena, tudo bem? Lembrei de você esses dias!
- Sério?
- Me fala uma coisa: o Paulo Henrique Dias, o jornalista que denunciou o esquema de corrupção lá no Senado, é o seu filho?
- É o meu filho, sim.
- Jura?
- Paulinho tá trabalhando em Brasília há uns cinco anos ou mais. Gostou mesmo dessa coisa de política, investigação, transparência. Lembra que eu falei do blog? Arrumou até emprego por causa do blog.
- Lembro do blog, sim. Que coisa, né?
- Não ganha o salário do Arturzinho, mas tá muito feliz.
- Então, deixa eu te contar. O Artur não está mais no banco. Fez uma besteira lá num investimento alto, o banco perdeu muito dinheiro e mandou ele embora. O pai ficou uma fera. Vai estudar nos Estados Unidos pra fazer uma besteira dessas?
- Sério? Coitado...
- E quando é pra dar errado dá tudo junto. Ele tinha casado, mas depois da confusão com o banco até a mulher abandonou o Artur. Tá em depressão. Não vai nem mais às aulas de esgrima.
- O pai do Paulinho tá todo orgulhoso do filho. Eu também, sabe? Tenho uma pasta aqui com os recortes das matérias dele. Quer ver? Só matéria de capa.
- Nossa, que coisa, né?
- E não é que o Paulinho se encontrou mesmo no jornalismo?
- Maria Helena? Você não é a mãe do Paulo Henrique, o amigo do Arturzinho, meu filho, nos tempos aqui do colégio?
- Claro! Sou a mãe do Paulo Henrique, sim. Quanto tempo, Célia! E como vai o Arturzinho?
- Arturzinho tá ótimo. Tá nos Estados Unidos. Acabou a faculdade de Economia na USP e está fazendo uma pós-graduação em Nova York. Tá todo empolgado! A família também. E o Paulo Henrique?
- Paulo é aquela coisa: nunca gostou de estudar. Quis porque quis fazer jornalismo. O pai não queria. Agora tá aí, desempregado. Diz que manda currículo todo dia, pra tudo que é lugar, mas a situação tá difícil.
- Mas isso é fase, Maria Helena.
- Deus te ouça, Célia. O Paulo Henrique passa o dia inteiro tocando guitarra no quarto. Diz que vai ser músico também. O pai não tá gostando nada. Eu queria tanto que ele fosse igual ao Arturzinho.
- Bem, Maria Helena, deixa eu ir. Sucesso pro Paulo Henrique.
Dois anos depois, numa outra eleição, novo reencontro.
- Oi, tudo bem? E o Paulo Henrique? Ainda sem emprego?
- Oi, Célia, tudo bem. O Paulo arrumou umas coisas, sim, mas tudo bico. Pelo menos tá pagando as contas dele.
- Que bom, já é alguma coisa, né?
- Ele diz que também está fazendo um blog. Acho que é esse o nome: blog. Não ganha nada. Diz que vai ganhar, mas até agora nada. Diz que é um blog sobre transparência política. Não entendo direito. Ah, esse moleque. E o Artur?
- Arturzinho tá ótimo. Já tá voltando pro Brasil. Mês que vem. Com a pós que ele fez lá nos Estados Unidos, já garantiu um superemprego aqui, num banco grande. Tão jovem e já vai ter um cargo importante, sabe? Salário excelente.
- Que bom. O Arturzinho sempre foi muito estudioso. Eu falava pro Paulo: segue o exemplo do seu amigo. Mas fazer o quê? Quis porque quis fazer essa bobagem de jornalismo...
Pelas mais diversas circunstâncias, o encontro seguinte só ocorreu depois de oito anos.
- Maria Helena, tudo bem? Lembrei de você esses dias!
- Sério?
- Me fala uma coisa: o Paulo Henrique Dias, o jornalista que denunciou o esquema de corrupção lá no Senado, é o seu filho?
- É o meu filho, sim.
- Jura?
- Paulinho tá trabalhando em Brasília há uns cinco anos ou mais. Gostou mesmo dessa coisa de política, investigação, transparência. Lembra que eu falei do blog? Arrumou até emprego por causa do blog.
- Lembro do blog, sim. Que coisa, né?
- Não ganha o salário do Arturzinho, mas tá muito feliz.
- Então, deixa eu te contar. O Artur não está mais no banco. Fez uma besteira lá num investimento alto, o banco perdeu muito dinheiro e mandou ele embora. O pai ficou uma fera. Vai estudar nos Estados Unidos pra fazer uma besteira dessas?
- Sério? Coitado...
- E quando é pra dar errado dá tudo junto. Ele tinha casado, mas depois da confusão com o banco até a mulher abandonou o Artur. Tá em depressão. Não vai nem mais às aulas de esgrima.
- O pai do Paulinho tá todo orgulhoso do filho. Eu também, sabe? Tenho uma pasta aqui com os recortes das matérias dele. Quer ver? Só matéria de capa.
- Nossa, que coisa, né?
- E não é que o Paulinho se encontrou mesmo no jornalismo?
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Classificados
Como os profissionais da imprensa, loucos por um emprego ou por um frila, anunciariam seus préstimos jornalísticos em classificados iguais àqueles de sacanagem dos jornais.
Bianca, Dezinha e Lolita, universitárias, iniciantes
Amigas e loucas por um estágio. Servem até cafezinho na redação.
Cirilo, 28A, ativo e passivo
Atuo dos dois lados, como jornalista ou assessor de imprensa.
Disk Frila Privê 24 horas
20 jornalistas esperando por você. Sua matéria em ótimas mãos.
Emanuelle, coroa, faço de tudo
Repórter experiente. Apuro, checo, redijo, edito e reviso. Texto final garantido.
Escort homens e mulheres para viagens
Repórteres para acompanhar eventos. Bilíngües. Educados.
Fabinho, ético e sigiloso
Não revelo minhas fontes; guardo off sempre.
Michiko, 22A, oriental
R$ 150,00 a lauda. Atendimento em redação ou em minha casa.
Nando, fotógrafo, aventureiro
Para pautas radicais. Faço também festas de casamento e bailes de debutantes.
Pedrão, mulato bom de pauta, lauda de 30 linhas
Faço as leitoras enlouquecerem com os meus textos. A maior lauda do mercado.
Bianca, Dezinha e Lolita, universitárias, iniciantes
Amigas e loucas por um estágio. Servem até cafezinho na redação.
Cirilo, 28A, ativo e passivo
Atuo dos dois lados, como jornalista ou assessor de imprensa.
Disk Frila Privê 24 horas
20 jornalistas esperando por você. Sua matéria em ótimas mãos.
Emanuelle, coroa, faço de tudo
Repórter experiente. Apuro, checo, redijo, edito e reviso. Texto final garantido.
Escort homens e mulheres para viagens
Repórteres para acompanhar eventos. Bilíngües. Educados.
Fabinho, ético e sigiloso
Não revelo minhas fontes; guardo off sempre.
Michiko, 22A, oriental
R$ 150,00 a lauda. Atendimento em redação ou em minha casa.
Nando, fotógrafo, aventureiro
Para pautas radicais. Faço também festas de casamento e bailes de debutantes.
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segunda-feira, 31 de maio de 2010
Como estragar um caso amor
Logo depois de formado, ainda sem emprego, me vi diante de uma escolha: aceitar o convite de uma garota interessante que me chamara para sair ou aceitar um frila? Compromissos de um mesmo sábado à noite. Difícil decisão para um libriano indeciso, excitado com a proposta da moça e com míseros trocados no bolso. A menina não era jornalista. Será que entenderia a minha situação? Pensei em alternativas.
Se eu inventasse uma desculpa qualquer para não sair, tipo encontro familiar de última hora, ela não aceitaria. “Festa de família? Você vai encher a cara com os amigos e depois pegar alguma vagabunda por aí”, diria. Se eu falasse a verdade para não sair, ela também não aceitaria. “Trabalho no sábado à noite? Você vai encher a cara com os amigos e depois pegar alguma vagabunda por aí”, diria. Então, decidi conciliar as duas coisas e a convenci a ir para a pauta comigo. Um puta programa de índio.
Minha missão era conhecer um novo reduto de bares gays em São Paulo. Ela ficou ao meu lado o tempo todo, silenciosa. Não reclamou de nada. Admirei sua compreensão e seu respeito à diversidade. Naquela noite, como retribuição, a levei a um restaurante bacaninha que ela tanto queria conhecer e paguei a conta sozinho, com a última folha de cheque do talão. Uma facada. Metade do frila que eu acabara de apurar (e nem tinha recebido ainda) ficou naquele pedaço de papel.
Dois sábados depois, também à noite, a arrastei para outro trabalho: um bailão da terceira idade. Não podia recusar frilas. A vida de jornalista apaixonado me dava muita despesa. Nesta pauta, ela até me ajudou. Escolheu personagens, fez fotos e auxiliou um senhor com uma doença crônica a tomar seu remédio enquanto eu o entrevistava. Admirei seu companheirismo. Naquela noite, como retribuição, tomei coragem e disse a ela um “eu te amo”.
No dia seguinte, ela me acompanhou a uma reunião de trekkers, aqueles fãs da série Jornada nas Estrelas que se fantasiam com roupas ridículas. Admirei sua paciência e seu nível de tolerância a nerds. Na noite daquele domingo, como retribuição, deixei de ver os gols da rodada para levá-la a um filme da Meg Ryan no cinema. Era o que eu podia lhe oferecer.
No outro sábado, mais um frila. Desta vez, porém, fui sozinho. Já não tinha namorada. Antes de dar uma bicuda em minha bunda, um dia antes, ela me disse que não suportava mais sair com jornalista, raça complicada. Admirei sua sinceridade. Naquela noite, ao menos, não precisei me esforçar para ser romântico.
Se eu inventasse uma desculpa qualquer para não sair, tipo encontro familiar de última hora, ela não aceitaria. “Festa de família? Você vai encher a cara com os amigos e depois pegar alguma vagabunda por aí”, diria. Se eu falasse a verdade para não sair, ela também não aceitaria. “Trabalho no sábado à noite? Você vai encher a cara com os amigos e depois pegar alguma vagabunda por aí”, diria. Então, decidi conciliar as duas coisas e a convenci a ir para a pauta comigo. Um puta programa de índio.
Minha missão era conhecer um novo reduto de bares gays em São Paulo. Ela ficou ao meu lado o tempo todo, silenciosa. Não reclamou de nada. Admirei sua compreensão e seu respeito à diversidade. Naquela noite, como retribuição, a levei a um restaurante bacaninha que ela tanto queria conhecer e paguei a conta sozinho, com a última folha de cheque do talão. Uma facada. Metade do frila que eu acabara de apurar (e nem tinha recebido ainda) ficou naquele pedaço de papel.
Dois sábados depois, também à noite, a arrastei para outro trabalho: um bailão da terceira idade. Não podia recusar frilas. A vida de jornalista apaixonado me dava muita despesa. Nesta pauta, ela até me ajudou. Escolheu personagens, fez fotos e auxiliou um senhor com uma doença crônica a tomar seu remédio enquanto eu o entrevistava. Admirei seu companheirismo. Naquela noite, como retribuição, tomei coragem e disse a ela um “eu te amo”.
No dia seguinte, ela me acompanhou a uma reunião de trekkers, aqueles fãs da série Jornada nas Estrelas que se fantasiam com roupas ridículas. Admirei sua paciência e seu nível de tolerância a nerds. Na noite daquele domingo, como retribuição, deixei de ver os gols da rodada para levá-la a um filme da Meg Ryan no cinema. Era o que eu podia lhe oferecer.
No outro sábado, mais um frila. Desta vez, porém, fui sozinho. Já não tinha namorada. Antes de dar uma bicuda em minha bunda, um dia antes, ela me disse que não suportava mais sair com jornalista, raça complicada. Admirei sua sinceridade. Naquela noite, ao menos, não precisei me esforçar para ser romântico.
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sexta-feira, 16 de abril de 2010
O homem que não recusava frilas
Assim como aqueles pobres infelizes topavam tudo por dinheiro no programa do Silvio Santos – vendiam as próprias calças em praça pública –, Olavo Marques, jornalista desempregado, topava tudo por um frila. Pouca grana, prazo apertado ou assunto chato não eram problema para ele. Olavão, como era conhecido, sempre foi a salvação de pauteiros e editores de várias redações.
A grana é aquela coisa
- Olavão, tá muito ocupado, querido? Topa um frila?
- Opa, é claro que eu topo. O que manda?
- É pauta bem bacana. Você terá de ouvir uns oito advogados, ou melhor, não precisa ouvir tanta gente assim, não; uns sete advogados já são o suficiente. Mas tem de ser advogado famoso, bambambã. A pauta é sobre a redução da maioridade penal. Além de saber o que eles acham, se são a favor ou contra, quero que você busque um enfoque diferente, sem o blablablá de sempre, entende? Veja com eles também qual seria a idade ideal para uma redução. Dezesseis, quatorze, doze? Porque tem uma pivetada foda por aí hoje em dia, você sabe.
- Sim, sim.
- Você teria de me mandar o texto pronto, redondinho, até amanhã pela manhã, bem cedo. Acha que consegue?
- O prazo está ótimo.
- Agora, a grana é aquela coisa. A gente só pode pagar o valor de matéria com uma fonte, mesmo você ouvindo mais do que uma. Mas é pouca coisa a menos, bobageira, você sabe.
- Não se preocupe! Melhor isso do que nada, não?
Ah, as glândulas adrenais
- Alô, senhor Olavo, tudo bem? É Ellen, da Editora Medicina e Saúde. Precisamos de um jornalista para acompanhar as palestras de um congresso médico, todas as palestras, aliás, para depois escrever artigos técnicos para a revista de uma entidade. O senhor aceita este free lance?
- Opa, é claro que eu aceito.
- O congresso é da Sociedade Brasileira de Combate à Adrenoleucodistrofia. O assunto é gostoso. O senhor vai adorar!
- Tenho certeza disso. Só me fala uma coisa: que doença é essa?
- A adrenoleucodistrofia é uma doença que atinge as glândulas adrenais.
- Ah, claro, as glândulas adrenais!
- É também conhecida como a Doença de Lorenzo. Imagino que o senhor já tenha ouvido falar...
- Lorenzo? Mas é lógico! Grande Lorenzo!
A grana é aquela coisa
- Olavão, tá muito ocupado, querido? Topa um frila?
- Opa, é claro que eu topo. O que manda?
- É pauta bem bacana. Você terá de ouvir uns oito advogados, ou melhor, não precisa ouvir tanta gente assim, não; uns sete advogados já são o suficiente. Mas tem de ser advogado famoso, bambambã. A pauta é sobre a redução da maioridade penal. Além de saber o que eles acham, se são a favor ou contra, quero que você busque um enfoque diferente, sem o blablablá de sempre, entende? Veja com eles também qual seria a idade ideal para uma redução. Dezesseis, quatorze, doze? Porque tem uma pivetada foda por aí hoje em dia, você sabe.
- Sim, sim.
- Você teria de me mandar o texto pronto, redondinho, até amanhã pela manhã, bem cedo. Acha que consegue?
- O prazo está ótimo.
- Agora, a grana é aquela coisa. A gente só pode pagar o valor de matéria com uma fonte, mesmo você ouvindo mais do que uma. Mas é pouca coisa a menos, bobageira, você sabe.
- Não se preocupe! Melhor isso do que nada, não?
Ah, as glândulas adrenais
- Alô, senhor Olavo, tudo bem? É Ellen, da Editora Medicina e Saúde. Precisamos de um jornalista para acompanhar as palestras de um congresso médico, todas as palestras, aliás, para depois escrever artigos técnicos para a revista de uma entidade. O senhor aceita este free lance?
- Opa, é claro que eu aceito.
- O congresso é da Sociedade Brasileira de Combate à Adrenoleucodistrofia. O assunto é gostoso. O senhor vai adorar!
- Tenho certeza disso. Só me fala uma coisa: que doença é essa?
- A adrenoleucodistrofia é uma doença que atinge as glândulas adrenais.
- Ah, claro, as glândulas adrenais!
- É também conhecida como a Doença de Lorenzo. Imagino que o senhor já tenha ouvido falar...
- Lorenzo? Mas é lógico! Grande Lorenzo!
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segunda-feira, 1 de março de 2010
Medo de quê?
De cabeça baixa e com a silhueta curvada, estava estático na plataforma de bungee jump, como que hipnotizado por seus 40 metros de altura. Ariosvaldo – ou simplesmente Ari – era um jornalista de 70 anos que nunca admitiu se aposentar para ficar enterrado em casa. Sempre viveu a profissão intensamente. Detestava ficar preso na redação. Era um homem da rua, que não se contentava em relatar os fatos. Precisava viver os fatos. “As matérias ficam mais verdadeiras”, dizia.
Certa vez, quando jovem, virou garoto de programa para contar a dura vida dos michês. Em outra, morou embaixo de um viaduto por um mês, em companhia de mendigos, para escrever sobre a rotina violenta dos moradores de rua. Foram muitas aventuras. Para alguns colegas de profissão, Ari adorava chamar a atenção dos outros. Queria ser mais importante do que a notícia. Para outros, era simplesmente um louco apaixonado pelo jornalismo.
Com a aposentadoria, passou a viver de frilas. Seu trabalho atual era mostrar o interesse do pessoal da terceira idade pelos esportes radicais. “Ari, a pauta é a tua cara, coisa de maluco mesmo”, lhe afirmou o editor da revista. Estava animado com a empreitada. A empolgação, porém, contrastava com sua imobilidade fúnebre, instantes antes de saltar. O velhinho não se mexia. Seguia quieto, lá nas alturas. Ninguém entendia nada. Nem parentes, nem os curiosos que foram acompanhar o surpreendente espetáculo.
– É o que dá querer fazer o que não pode. Deveria estar em casa, escrevendo suas crônicas, de pijama – murmurou o fotógrafo da revista que o acompanhava na pauta.
O velho jornalista nunca dera atenção às fofocas. Não desejava provar nada a ninguém. Só queria trabalhar, sentir-se vivo, mas, naquela tarde, algo estava errado. Ari seguia imóvel, curvado. Parecia com medo. Logo ele, tão corajoso em suas aventuras jornalísticas! Teria se arrependido do desafio? Sentia-se mal?
Aflito, o fotógrafo decidiu que precisava tomar alguma iniciativa. Não agüentava mais ver aquela cena insólita. Correu até a plataforma e avançou com rapidez pela escada que levava ao topo. Como era alto lá de cima! Chamou pelo velhinho, que se virou para o rapaz. Estava pálido, coitado.
– Ari, o que aconteceu? Estão todos apreensivos lá embaixo.
– Não imaginei que esta hora pudesse chegar. Estou com muito medo.
– Medo de quê, Ari?
– De pular e perder uma das coisas mais preciosas que tenho.
– Sua linda vida?
– Não, meu amigo... a dentadura.
Certa vez, quando jovem, virou garoto de programa para contar a dura vida dos michês. Em outra, morou embaixo de um viaduto por um mês, em companhia de mendigos, para escrever sobre a rotina violenta dos moradores de rua. Foram muitas aventuras. Para alguns colegas de profissão, Ari adorava chamar a atenção dos outros. Queria ser mais importante do que a notícia. Para outros, era simplesmente um louco apaixonado pelo jornalismo.
Com a aposentadoria, passou a viver de frilas. Seu trabalho atual era mostrar o interesse do pessoal da terceira idade pelos esportes radicais. “Ari, a pauta é a tua cara, coisa de maluco mesmo”, lhe afirmou o editor da revista. Estava animado com a empreitada. A empolgação, porém, contrastava com sua imobilidade fúnebre, instantes antes de saltar. O velhinho não se mexia. Seguia quieto, lá nas alturas. Ninguém entendia nada. Nem parentes, nem os curiosos que foram acompanhar o surpreendente espetáculo.
– É o que dá querer fazer o que não pode. Deveria estar em casa, escrevendo suas crônicas, de pijama – murmurou o fotógrafo da revista que o acompanhava na pauta.
O velho jornalista nunca dera atenção às fofocas. Não desejava provar nada a ninguém. Só queria trabalhar, sentir-se vivo, mas, naquela tarde, algo estava errado. Ari seguia imóvel, curvado. Parecia com medo. Logo ele, tão corajoso em suas aventuras jornalísticas! Teria se arrependido do desafio? Sentia-se mal?
Aflito, o fotógrafo decidiu que precisava tomar alguma iniciativa. Não agüentava mais ver aquela cena insólita. Correu até a plataforma e avançou com rapidez pela escada que levava ao topo. Como era alto lá de cima! Chamou pelo velhinho, que se virou para o rapaz. Estava pálido, coitado.
– Ari, o que aconteceu? Estão todos apreensivos lá embaixo.
– Não imaginei que esta hora pudesse chegar. Estou com muito medo.
– Medo de quê, Ari?
– De pular e perder uma das coisas mais preciosas que tenho.
– Sua linda vida?
– Não, meu amigo... a dentadura.
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quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Experiência única
Dias atrás, uma amiga, sabendo que tenho vivido de frilas, encaminhou à minha caixa de e-mails um anúncio de trabalho, cuja fonte é o blog http://mktcomunicacao.blogspot.com. Não sei se ela esqueceu que fiquei velho ou se quis me sacanear mesmo. Já não tenho mais a disposição dos jovens, embora conserve o bom humor para enfrentar a dureza de nossa profissão.
Reproduzo abaixo o anúncio, inclusive com os erros de Português, com os meus comentários em negrito. Em alguns trechos, o anúncio parece piada pronta e mostra que ser jornalista é viver, muitas vezes, grandes aventuras.
São Paulo/SP - Requisitos:
O lema do evento, para atletas e staff, é: "durma quando puder, coma quando puder, tome banho quando puder". (Como o lema dos jornalistas é “viva quando puder”, temos tudo a ver com este evento. Aliás, adorei a sinceridade do anúncio! Comer pra quê? Dormir pra quê?) Portanto, aceitamos CVs de profissionais que realmente queiram fazer a narração de 10 dias de competição (com bases móveis, estilo Rally dos Sertões), onde os atletas têm apenas 4 horas de sono obrigatório durante todo o evento. Experiência única. (Realmente tem de querer muito! Adorei também as “4 horas de sono obrigatório”!)
Reproduzo abaixo o anúncio, inclusive com os erros de Português, com os meus comentários em negrito. Em alguns trechos, o anúncio parece piada pronta e mostra que ser jornalista é viver, muitas vezes, grandes aventuras.
São Paulo/SP - Requisitos:
- Graduação em jornalismo
- Experiência em apuração de fatos e redação para web
- Experiência em cobertura de eventos
- Inglês fluente
- Disponibilidade para viajar do dia 16 a 29 de novembro (SP-MG-SP)
- Ter notebook é imprescindível (Todos os jornalistas, principalmente os mais jovens, têm notebook, com internet wireless.)
- Espírito aventureiro, disposição, bom humor e gostar de esportes de aventura são diferenciais (Bom humor é diferencial, sim. Só rindo!)
- Jornalista jovem e com muita disposição para auxiliar na cobertura jornalística online de um evento esportivo de grande porte no cenário internacional.
O lema do evento, para atletas e staff, é: "durma quando puder, coma quando puder, tome banho quando puder". (Como o lema dos jornalistas é “viva quando puder”, temos tudo a ver com este evento. Aliás, adorei a sinceridade do anúncio! Comer pra quê? Dormir pra quê?) Portanto, aceitamos CVs de profissionais que realmente queiram fazer a narração de 10 dias de competição (com bases móveis, estilo Rally dos Sertões), onde os atletas têm apenas 4 horas de sono obrigatório durante todo o evento. Experiência única. (Realmente tem de querer muito! Adorei também as “4 horas de sono obrigatório”!)
O trabalho é freelancer e oferece:
- Verba de alimentação (Mas conseguiremos nos alimentar?)
- Hospedagem durante a viagem para o evento (Mas conseguiremos dormir?)
- Transporte de ida e volta para o local do evento (cidades históricas de Minas Gerais) (O que não vai faltar é igrejinha para rezarmos por dias melhores.)
- Valor para 10 dias de cobertura online: R$ 750,00 (Ou R$ 75,00 por dia, o valor de uma boa faxina em São Paulo, com direito a almoço e dispensa às 17 horas para ver as novelas da Globo. Haja bom humor!)
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Engarrafados
São oito horas. Em meu carro popular, sem ar-condicionado, sou mais uma vítima anônima dos engarrafamentos de São Paulo. É dia de chuva e de um frila que não posso perder. Ligo o rádio e sintonizo aquela famosa emissora especializada em trânsito. Já são mais de 100 quilômetros de lentidão na cidade. Que merda, penso. Vou chegar atrasado. Se chegar, é claro.
A rádio, embora preste um importante serviço jornalístico, me deixa deprimido toda vez que a escuto. É só desgraça. Caminhão quebrado na Bandeirantes, pontos de alagamento nas Marginais, acidente com curiosos na zona leste, algum protesto bloqueando a Paulista. Os ouvintes também participam, por gravações de voz ou torpedos. Competem para saber quem tem a pior história para contar. Isso que é jornalismo colaborativo.
Os repórteres da rádio dão dicas de rotas alternativas, mas nem sempre é possível escapar do caos. O negócio é ter paciência, uma virtude que desconheço. Nessas horas, não sei o que é pior: ouvir aquelas buzinas insuportáveis dos motoboys ou respirar o escapamento dos caminhões. Eu também detesto a sensação de ser observado pelos motoristas ao lado. Não se pode mais falar sozinho em voz alta ou retirar uma catota do nariz em paz.
O tempo passa, e minha ansiedade aumenta. Por que não fui de transporte público? Seria melhor? Olho o relógio e o marcador da temperatura de meu carro, que começa a subir. Só falta meu velho companheiro me deixar na mão agora! O apresentador da rádio tenta amenizar o sofrimento dos ouvintes com seu bom humor e curiosidades da metrópole.
– Vocês sabem por que o complexo do Cebolão, na ligação dos rios Tietê e Pinheiros, leva este nome? Porque suas várias pontes, umas sobre as outras, são como camadas de uma cebola.
Desligo o rádio. O que me resta é rezar. Do meu carro popular, sem ar-condicionado, surge uma fumaça estranha. Um cheirinho de churrasco. Acho que terei de atrasar o aluguel do meu apê de novo. Culpa do trânsito!
A rádio, embora preste um importante serviço jornalístico, me deixa deprimido toda vez que a escuto. É só desgraça. Caminhão quebrado na Bandeirantes, pontos de alagamento nas Marginais, acidente com curiosos na zona leste, algum protesto bloqueando a Paulista. Os ouvintes também participam, por gravações de voz ou torpedos. Competem para saber quem tem a pior história para contar. Isso que é jornalismo colaborativo.
Os repórteres da rádio dão dicas de rotas alternativas, mas nem sempre é possível escapar do caos. O negócio é ter paciência, uma virtude que desconheço. Nessas horas, não sei o que é pior: ouvir aquelas buzinas insuportáveis dos motoboys ou respirar o escapamento dos caminhões. Eu também detesto a sensação de ser observado pelos motoristas ao lado. Não se pode mais falar sozinho em voz alta ou retirar uma catota do nariz em paz.
O tempo passa, e minha ansiedade aumenta. Por que não fui de transporte público? Seria melhor? Olho o relógio e o marcador da temperatura de meu carro, que começa a subir. Só falta meu velho companheiro me deixar na mão agora! O apresentador da rádio tenta amenizar o sofrimento dos ouvintes com seu bom humor e curiosidades da metrópole.
– Vocês sabem por que o complexo do Cebolão, na ligação dos rios Tietê e Pinheiros, leva este nome? Porque suas várias pontes, umas sobre as outras, são como camadas de uma cebola.
Desligo o rádio. O que me resta é rezar. Do meu carro popular, sem ar-condicionado, surge uma fumaça estranha. Um cheirinho de churrasco. Acho que terei de atrasar o aluguel do meu apê de novo. Culpa do trânsito!
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Paixões proibidas
Quando eu tinha uns 15 anos, costumava passar os dias quentes de verão dentro de casa, ouvindo o meu LP dos Smiths. Meu pai, com medo de ver o filho se tornar um garoto muito introspectivo, talvez com alguma tendência suicida, resolveu dar um conselho.
- Filho, você precisa sair mais de casa. Por que não vai a um puteiro?
Aceitei o conselho. Achava que a visita ao local seria desastrosa, mas curti a experiência. A menina, só um pouco mais velha do que eu, tinha olhos e lábios lindos, era inteligente, gostava de conversar. Voltei para casa e fui falar com meu pai. Estava encantado pela moça, queria levá-la ao cinema no dia seguinte.
- Porra, meu filho, ficar apaixonado por puta não dá.
Não a levei ao cinema no dia seguinte. Nunca mais a vi.
Lembrei essa história muitos anos depois, quando fui tomar uma cerveja com um velho amigo da faculdade de jornalismo, que há tempos havia mudado de ramo e se tornado um pequeno empresário de sucesso. Contei a ele sobre meu desemprego, e ele quis me convencer a trabalhar como representante comercial (vendedor) de um purificador de água que a empresa dele fabrica. Um fixo todo mês, comissões, chance de ascensão.
Expliquei que, apesar de estar sem emprego, tenho me virado bem com meus frilas. Disse ainda que não consigo fazer outra coisa além de ser jornalista, que amo esta profissão.
- Porra, Duda, ser apaixonado pela profissão de jornalista não dá.
- Filho, você precisa sair mais de casa. Por que não vai a um puteiro?
Aceitei o conselho. Achava que a visita ao local seria desastrosa, mas curti a experiência. A menina, só um pouco mais velha do que eu, tinha olhos e lábios lindos, era inteligente, gostava de conversar. Voltei para casa e fui falar com meu pai. Estava encantado pela moça, queria levá-la ao cinema no dia seguinte.
- Porra, meu filho, ficar apaixonado por puta não dá.
Não a levei ao cinema no dia seguinte. Nunca mais a vi.
Lembrei essa história muitos anos depois, quando fui tomar uma cerveja com um velho amigo da faculdade de jornalismo, que há tempos havia mudado de ramo e se tornado um pequeno empresário de sucesso. Contei a ele sobre meu desemprego, e ele quis me convencer a trabalhar como representante comercial (vendedor) de um purificador de água que a empresa dele fabrica. Um fixo todo mês, comissões, chance de ascensão.
Expliquei que, apesar de estar sem emprego, tenho me virado bem com meus frilas. Disse ainda que não consigo fazer outra coisa além de ser jornalista, que amo esta profissão.
- Porra, Duda, ser apaixonado pela profissão de jornalista não dá.
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quarta-feira, 13 de maio de 2009
Tô rico, tô rico!
Hoje eu estou feliz. E estou feliz apesar de nem ter dormido direito por três noites seguidas, fato que normalmente me deixaria de mau humor. A última madrugada passei em frente ao computador, embriagado de tanto café e escrevendo um frila inesperado. E o melhor: por uma boa grana, coisa rara, mas que vez ou outra acontece. É como comer picanha na churrascaria barata que eu freqüento. O garçom raramente passa com uma no espeto pela minha mesa, mas vez ou outra acontece.
E por que será que esses frilas pintam aos 40 minutos do segundo tempo? São sempre para ontem. Deadline apertadíssimo, alerta o editor. Nos fazem parar tudo, sacrificar horas de sono, mas valem a pena. Tudo pela sobrevivência.
Quem também ficará feliz com essa grana extra é o Nestor. Ele vai ganhar até uma cama nova, ou melhor, vai ganhar a primeira cama dele aqui no meu apê, com direito a um cobertor zero bala e sem pulgas, para enfrentar as noites de inverno.
Seu Vitório, o velhinho que aluga o apê de 49 metros quadrados para mim, é outro que vai comemorar. Para minha desgraça, ele mora no mesmo prédio. “Já arrumou um trabalho, meu filho?”, me pergunta sempre, em nossos encontros casuais no elevador. Acho que ele andou remexendo o roteiro da minha vida e roubou essa fala do meu pai, dita tantas vezes em minha juventude.
O frila não valeu apenas pela grana boa. Era uma reportagem instigante para uma conceituada revista feminina, se é que isso existe. O tema? As mulheres que comandam o mercado de sexo nas ruas de São Paulo. A arte de proxenetar não é mais uma exclusividade daqueles cafetões truculentos e insensíveis. Conheci mulheres que começaram por baixo, literalmente, e hoje são verdadeiras executivas. Me deu até inveja dessa ascensão profissional toda.
E por que será que esses frilas pintam aos 40 minutos do segundo tempo? São sempre para ontem. Deadline apertadíssimo, alerta o editor. Nos fazem parar tudo, sacrificar horas de sono, mas valem a pena. Tudo pela sobrevivência.
Quem também ficará feliz com essa grana extra é o Nestor. Ele vai ganhar até uma cama nova, ou melhor, vai ganhar a primeira cama dele aqui no meu apê, com direito a um cobertor zero bala e sem pulgas, para enfrentar as noites de inverno.
Seu Vitório, o velhinho que aluga o apê de 49 metros quadrados para mim, é outro que vai comemorar. Para minha desgraça, ele mora no mesmo prédio. “Já arrumou um trabalho, meu filho?”, me pergunta sempre, em nossos encontros casuais no elevador. Acho que ele andou remexendo o roteiro da minha vida e roubou essa fala do meu pai, dita tantas vezes em minha juventude.
O frila não valeu apenas pela grana boa. Era uma reportagem instigante para uma conceituada revista feminina, se é que isso existe. O tema? As mulheres que comandam o mercado de sexo nas ruas de São Paulo. A arte de proxenetar não é mais uma exclusividade daqueles cafetões truculentos e insensíveis. Conheci mulheres que começaram por baixo, literalmente, e hoje são verdadeiras executivas. Me deu até inveja dessa ascensão profissional toda.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Canino, demasiado canino
Se esse papo de reencarnação for realmente verdadeiro – preciso checar tal informação com fontes confiáveis do além –, quero voltar cachorro na próxima vida. Invejo o Nestor. Tudo bem que ele passou por uma fase difícil nos últimos tempos com a separação dos pais, mas, no geral, sua vida é boa. Essa coisa de ficar o dia inteiro dormindo, comendo, cagando e brincando me seduz. E o melhor: ser irracional nos dias de hoje é uma grande vantagem. Pensar e querer entender o mundo cansa demais.
Uma amiga iniciada na questão de outras vidas contou-me certa vez que sempre evoluímos. Ou seja, voltamos cada vez melhores na vida seguinte. Considerando que ser jornalista é o atual último estágio de minha evolução, tenho até medo de saber o que fui em minhas vidas anteriores.
Tive a oportunidade de passar o último fim de semana com o Nestor. Sua vida canina é demasiadamente simples. No parque, percebi que sua angústia máxima era levantar a perna pela décima vez em menos de cinco minutos e não ter mais o que mijar. Enquanto isso, eu pensava no aluguel a ser pago, no porre de ter de ir ao supermercado e no frila que precisava escrever (uma empolgante entrevista médica sobre o aumento da incidência das hemorróidas em países tropicais).
O domingo acabou e, com o coração apertado, deixei o Nestor na casa de minha ex. Ainda tive de ver a scooter amarela do outro estacionada lá. À noite, voltei ao meu apê de 49 metros quadrados e, antes de escrever a matéria, fiquei imaginando minhas prováveis vidas passadas. Será que eu era o cara que mandava os cristãos para os leões? Um cafetão na Belle Époque? Será que já fui argentino? Meu Deus, será que eu já fui argentino?
Uma amiga iniciada na questão de outras vidas contou-me certa vez que sempre evoluímos. Ou seja, voltamos cada vez melhores na vida seguinte. Considerando que ser jornalista é o atual último estágio de minha evolução, tenho até medo de saber o que fui em minhas vidas anteriores.
Tive a oportunidade de passar o último fim de semana com o Nestor. Sua vida canina é demasiadamente simples. No parque, percebi que sua angústia máxima era levantar a perna pela décima vez em menos de cinco minutos e não ter mais o que mijar. Enquanto isso, eu pensava no aluguel a ser pago, no porre de ter de ir ao supermercado e no frila que precisava escrever (uma empolgante entrevista médica sobre o aumento da incidência das hemorróidas em países tropicais).
O domingo acabou e, com o coração apertado, deixei o Nestor na casa de minha ex. Ainda tive de ver a scooter amarela do outro estacionada lá. À noite, voltei ao meu apê de 49 metros quadrados e, antes de escrever a matéria, fiquei imaginando minhas prováveis vidas passadas. Será que eu era o cara que mandava os cristãos para os leões? Um cafetão na Belle Époque? Será que já fui argentino? Meu Deus, será que eu já fui argentino?
segunda-feira, 2 de março de 2009
Quase famosos
Por conta da vida modesta que tenho levado, a grana de minha indenização respira, ainda que por aparelhos. E, para garantir o biscrok quinzenal do Nestor, faço meus frilas, como todo bom jornalista desempregado. Semanas atrás, um amigo me ligou e ofereceu um job de assessoria de imprensa. A missão: divulgar o trabalho de seu cabeleireiro, “uma bicha vaidosa” como definiu, dono de um salão de bairro, o Pedrinhu’s Coiffeur. O nome bizarro, mistura do brega com o chique, me incomodou um pouco no início, mas superei o preconceito e aceitei a proposta.
Ao chegar, notei que o salão era bonito, organizado, com ares de alguma prosperidade.
- Meu sonho é dar uma entrevista para o Jô, disparou, logo de cara, o Pedrinho.
Conheci a história do salão, expliquei um pouco o trabalho de um assessor de imprensa e perguntei ao Pedrinho o que tornava seu salão especial, diferente dos demais.
- O nosso dia da noiva, naturalmente!
- Pedrinho, não sou especialista na área, mas acredito que dia da noiva tem em todo salão, não?
- Sim, querido, mas aqui a noiva fica muito mais bonita!
O salão não era freqüentado por celebridades, alguém de peso que ajudasse a “vender” a casa. O cabeleireiro falou apenas de uma moça de futuro promissor no mundo artístico, uma tal Gyslaynny Brasil. Mas hoje ela era apenas a sobrinha de uma dançarina gostosona de um grupo de pagode, além de rainha da bateria da Unidos de Piraporinha. Arrasaria no carnaval de Diadema este ano, segundo ele. A coisa tava difícil.
Expliquei ao Pedrinho que um bom trabalho de assessoria de imprensa tem como base o planejamento, com estratégias e um plano de ação bem definidos, tudo para fortalecer a imagem do salão e alavancar os negócios. Citei teóricos da comunicação empresarial e discorri sobre a importância de um relacionamento sustentável com a imprensa.
- Lindo, acho que você não entendeu. Me lixo para estratégias! Eu quero ficar famoso!
Mesmo desanimado com a situação, me comprometi a elaborar uma proposta de job para o Pedrinhu’s Coiffeur e, ao deixar o salão, tive uma nova surpresa.
- Duda, não sei se seu amigo lhe contou, mas não tenho dinheiro para pagar este trabalho. A crise tá pegando para todo mundo. Mas posso pagar em cortes de cabelo, por alguns meses. Aliás, você tá precisando dar uma modernizada nesse visual, né?
Pedrinho era uma bicha vaidosa. E extremamente mão-de-vaca!
Ao chegar, notei que o salão era bonito, organizado, com ares de alguma prosperidade.
- Meu sonho é dar uma entrevista para o Jô, disparou, logo de cara, o Pedrinho.
Conheci a história do salão, expliquei um pouco o trabalho de um assessor de imprensa e perguntei ao Pedrinho o que tornava seu salão especial, diferente dos demais.
- O nosso dia da noiva, naturalmente!
- Pedrinho, não sou especialista na área, mas acredito que dia da noiva tem em todo salão, não?
- Sim, querido, mas aqui a noiva fica muito mais bonita!
O salão não era freqüentado por celebridades, alguém de peso que ajudasse a “vender” a casa. O cabeleireiro falou apenas de uma moça de futuro promissor no mundo artístico, uma tal Gyslaynny Brasil. Mas hoje ela era apenas a sobrinha de uma dançarina gostosona de um grupo de pagode, além de rainha da bateria da Unidos de Piraporinha. Arrasaria no carnaval de Diadema este ano, segundo ele. A coisa tava difícil.
Expliquei ao Pedrinho que um bom trabalho de assessoria de imprensa tem como base o planejamento, com estratégias e um plano de ação bem definidos, tudo para fortalecer a imagem do salão e alavancar os negócios. Citei teóricos da comunicação empresarial e discorri sobre a importância de um relacionamento sustentável com a imprensa.
- Lindo, acho que você não entendeu. Me lixo para estratégias! Eu quero ficar famoso!
Mesmo desanimado com a situação, me comprometi a elaborar uma proposta de job para o Pedrinhu’s Coiffeur e, ao deixar o salão, tive uma nova surpresa.
- Duda, não sei se seu amigo lhe contou, mas não tenho dinheiro para pagar este trabalho. A crise tá pegando para todo mundo. Mas posso pagar em cortes de cabelo, por alguns meses. Aliás, você tá precisando dar uma modernizada nesse visual, né?
Pedrinho era uma bicha vaidosa. E extremamente mão-de-vaca!
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