sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
O jornalismo investigativo 2.0
– Por favor, eu gostaria de falar com o Tião Carvalho.
– É ele.
– Que honra!!! Tião, o maior repórter investigativo do Brasil.
– Quem fala?
– Gostaria de revelar um escândalo de corrupção.
– Amigo, ando sem tempo. Estou fazendo uma grande reportagem que exige horas de pesquisa no Google.
– É coisa quente, Tião. Esquema de mensalão. Sou ex-secretário do governador.
– Recebo denúncias a toda hora.
– Mas eu montei um dossiê completo sobre o caso.
– Dossiê? Já estamos falando a mesma língua.
– Tenho gravações de áudio e vídeo.
– É maracutaia nova? Esse negócio de dinheiro na cueca e na meia já não causa mais indignação.
– São cenas fortes, Tião. É o caso de um deputado conhecido por Papillon. O sujeito esconde dinheiro onde você nem imagina.
–Isso deve vender muito bem!
– E o material é exclusivo.
– A qualidade do som está boa? Não tenho saco de transcrever diálogos.
– Vem até com legenda, praticamente high definition, coisa de primeira. Tudo prontinho, do jeito que vocês, jornalistas, gostam.
– Maravilha. Preciso ver esse material.
– Eu até conheço um lugar bem discreto para a gente se encontrar, mas acho que você vai preferir que eu mande por e-mail, correto?
– Sim, mas, por favor, zipado, hein?
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Nenhum riso, ó, nenhuma alegria
A equilibrada enquete, que mediu o nível de chatice do noticiário para este ano, ainda teve destaque para as demais alternativas: “A participação do Corinthians na Libertadores no ano de seu centenário” ficou com 25% dos votos, e “A overdose de matérias sobre o continente africano por causa da Copa do Mundo” e “Futilidades em geral (reality shows e as novas namoradas do Adriano, o Imperador)” empataram com 23%.
Nenhum riso, ó, nenhuma alegria, mais de mil jornalistas na redação! A próxima enquete, que já está no ar, está em ritmo de carnaval, ou melhor, em ritmo de jornalista trabalhando no carnaval. Quer roubada maior do que essa? O blog quer saber o que é pior para um jornalista que trabalha nesta época do ano. Ficar de plantão na redação enquanto as pessoas normais viajam ou se entregam aos prazeres da carne? Entrevistar uma semi-analfabeta musa de bateria? Pegar uma palavrinha do presidente da escola de samba campeã tão logo termine a apuração? Estas são apenas algumas opções. Não deixe de votar!
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Tudo poderia ser tão diferente
- Duda, eu sei que você tem trabalhado pra caralho, que está precisando descansar, mas vou ter de cassar sua folga novamente neste fim de semana. Tô precisando reforçar a equipe e você é o meu cara de confiança. Depois, a gente dá um jeito de você folgar.
Por que eu nunca consegui ser sincero e explosivo nessas horas? Tudo poderia ser tão diferente:
- O quê? Cassar a minha folga novamente? Bebeu? Pirou? Você sabe, meu caro chefinho, quantos dias eu não trepo decentemente com a minha mulher? Sabe? Quer que eu seja mais um corno no jornalismo brasileiro? É isso o que você quer? Porque, do jeito que anda a minha rotina, daqui a pouco minha mulher vai sair com o diretor de Novos Negócios da empresa dela. Esses diretores de Novos Negócios adoram novos negócios, principalmente os novos negócios dos otários que trabalham sem folgar, como eu, sabia? E o meu sobrinho e afilhado? Você sabe há quanto tempo eu prometi levar o moleque ao teatro para assistir à peça O cachorrinho vagabundo e seu amigo hamster? Não, você não sabe. Você não sabe como é difícil dizer ao seu afilhado pela enésima vez “Não, meu querido, de novo não poderemos ver O cachorrinho vagabundo e seu amigo hamster. Fica pra outro dia, tá bom?” E os reparos na minha casa? É você quem vai consertar a porra da privada que tá vazando e fica pingando na porra da cabeça do meu vizinho do andar de baixo? Resumindo, meu caro chefe: não vou ter merda nenhuma de folga cassada! Entendeu? Mer-da ne-nhu-ma! Se quiser, casse a folga de algum outro idiota desta redação!
Mas nunca consegui ser sincero e explosivo nessas horas:
- Amanhã? Reforçar a equipe? Claro, entendo. Depois a gente acerta essa coisa de folga!
E tudo foi sempre tão igual.
Releia também o post “Pescoção”, este incompreendido
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Clássico é clássico. E vice-versa
Quando o jogador perde um jogo
“O time inteiro se esforçou, todo mundo correu muito, mas, infelizmente, não deu para conseguir o resultado positivo hoje. O importante agora é levantar a cabeça, ver naonde (sic) a gente errou e seguir trabalhando duro nesta semana.”
Quando o jogador ganha um jogo
“O time inteiro se esforçou, todo mundo correu muito e, felizmente, conseguimos o resultado positivo, que são os três pontos. O grupo todo tá de parabéns! O importante agora é seguir trabalhando duro nesta semana.”
Quando o jogador é contratado por um novo clube
“A gente tá vindo para um grande clube naonde (sic) todo jogador sonha em jogar e a gente tá preparado para ajudar os companheiros a ganhar os títulos. A minha principal característica? Tenho muita raça e prometo dar o máximo de si (sic) e muitas alegrias para essa torcida maravilhosa.”
Quando o jogador se concentra para um clássico
“O time tá bem preparado, focado no jogo de domingo e vai buscar o resultado positivo, que são os três pontos. São dois grandes times, dois excelentes treinadores, respeitamos o adversário e é aquela velha história: em clássico, não tem favorito.”
Quando o jogador perde no início da temporada
“O time sentiu muito este início de temporada. A equipe tá sem ritmo de jogo, porque quase não jogamos ainda. E o preparo físico tá bem abaixo do ideal.”
Quando o jogador perde no fim da temporada
“O time sentiu muito este fim de temporada. O time tá num ritmo de jogo muito forte, cansado, jogamos muitas partidas este ano.”
Quando o jogador é expulso
“Eu não fiz absolutamente nada. Vocês viram. O adversário que colocou a cara no meu cotovelo. Mas eu conheço esse juiz, ele é mal-intencionado. E o pior é que a gente não pode xingar esse filho-da-puta, porque acaba sendo prejudicado no tribunal.”
Quando o jogador ganha um título
“Acho que esse título é para calar a boca de muita gente que não acreditava na nossa equipe. Falaram muita merda o ano inteiro, que o time tava desunido, sem vontade de jogar. Tá aí a nossa resposta. O grupo todo tá de parabéns, o professor, que sempre motivou a gente, também. Agora é seguir trabalhando, quer dizer, agora é descansar um pouco.”
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Impressões particulares
Jornalista não mente. Jornalista distorce um pouco a realidade.
Jornalista não revela um segredo por falta de ética. Jornalista apenas esquece que a revelação deveria ser mantida em off.
Jornalista não ganha presentes interesseiros. Jornalista só recebe um jabazinho inocente.
Jornalista não vai a boteco para tomar um porre. Jornalista discute temas essenciais à humanidade enquanto bebe pra cacete.
Jornalista não olha pra bunda das mulheres. Jornalista apura seu olhar investigativo.
Jornalista não ouve fofoca. Jornalista recebe informação de suas fontes.
Jornalista não se vende para operadora de turismo. Jornalista viaja “a convite”.
Jornalista não comete erros crassos por desconhecer o Português. Jornalista comete erros por estar sempre com pressa.
Jornalista não tem utopias. Jornalista tem apenas a simples pretensão de mudar o mundo.
Jornalista não faz bicos. Jornalista se dedica a trabalho free lance.
Jornalista não perde o rumo profissional. Jornalista se permite um período de reciclagem de idéias em Londres.
Jornalista não é desleixado com a aparência. Jornalista tem um visual descolado e provocador.
Jornalista não se acha o fodão. Jornalista tem certeza que é.
Jornalista não morre. Jornalista alcança seu próprio deadline.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
São tantas emoções
A questão me voltou à mente ao ver o Jornal Nacional da última sexta-feira, quando os apresentadores, imbuídos de um sensacionalismo dateniano, anunciaram por todo o telejornal uma matéria sobre o resgate de uma haitiana presa sob os escombros, três dias após o terremoto em Porto Príncipe. O que me chamou a atenção foi a postura da repórter, que mesmo visivelmente emocionada, no local da tragédia, conseguiu relatar o trabalho de resgate feito por militares brasileiros.
Carlos Alberto Di Franco, um crítico da imprensa brasileira, escreveu certa vez: “Jornalismo não é ciência exata e jornalistas não são autômatos. Além disso, não se faz bom jornalismo sem emoção. A frieza é anti-humana e, portanto, antijornalística.” Concordo com ele. Em certas coberturas é muito difícil ficar indiferente a situações de extrema penúria humana, como acompanhar flagelados de uma catástrofe natural, sobreviventes de uma guerra ou fãs ensandecidos em um show da banda Calypso.
Um professor dizer que um jornalista não tem o direito de se emocionar – que precisa fazer o tipo durão – é o mesmo que um pai dizer para o filho que homem não chora, que isso é coisa de menininha. Tudo bem que não precisamos nos tornar uma Helena do Manoel Carlos diante de uma cena de terror. Mas um pouco de coração mole não faz mal à isenção jornalística de ninguém.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Entrevista com o Doutor – parte final
A Felizarda seguiu com o Doutor para uma sala da redação reservada a entrevistas, reuniões de pauta e eventuais barracos a portas fechadas. O problema é que a sala era toda de vidro e ficava fácil para as mulheres do lado de fora bisbilhotarem a dupla. Mal havia começado a entrevista e a Invejosa já havia tomado uns três cafés ali perto do vidro. O que mais irritou a Felizarda, contudo, foram as invasões da sala. A Recepcionista ("que vadia!") interrompeu a entrevista por duas vezes, a primeira para oferecer água e a segunda para oferecer chá ao Doutor. A Casada entrou outras duas vezes, a primeira para saber se estava tudo bem por lá e a segunda também para saber se estava tudo bem por lá.
Fora estes pequenos aborrecimentos, a entrevista transcorreu sem grandes problemas. A Felizarda ligou o gravador e o deixou bem pertinho do Doutor. Queria qualidade máxima naquela voz. A noite na banheira prometia. Como a Felizarda acumulou um vasto conhecimento sobre o tema (ah, quantas horas de pesquisa!), fez perguntas interessantes. A conversa teve fluidez e impressionou o Doutor, que elogiou o nível de informação da Felizarda. Ela fingiu um sorriso encabulado e convenceu-se de que a estratégia adotada (decote sem pudor + conhecimento) estava dando certo.
Era quase início da noite da sexta-feira quando a entrevista acabou. A Felizarda acreditava que a redação já estivesse vazia, mas ninguém havia arredado o pé de lá até o momento, principalmente a Invejosa, colada ao vidro e com seu oitavo ou novo copo de café nas mãos. O Doutor levantou-se, deixou seu cartão com a Felizarda e preparou a despedida.
- Ficou alguma dúvida?, perguntou ele.
- Nenhuma! Tudo compreendido!, respondeu a Felizarda.
- Que pena! Eu iria me colocar à sua disposição para solucionar qualquer dúvida. Se quisesse ligar depois para checar alguma informação...
- Bom, a gente sempre tem dúvida, né? Quem não tem dúvida? Posso não ter dúvida agora, mas com certeza vou ter dúvida depois, quando eu estiver ouvindo a fita na minha ban..., na minha bancada do escritório!
- Então, vou esperar você ter sua dúvida. Pode ligar mesmo no sábado, viu? Estarei em São Paulo neste fim de semana, sozinho.
A Felizarda acompanhou o Doutor até a saída da redação com um andar triunfante. Cruzou o ambiente sem medo, desprezando aquela mulherada que parecia fazer um corredor polonês. Tinha agora outra certeza: perguntas inteligentes numa entrevista podem não render uma promoção ou um aumento de salário; elas podem render muito mais!
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Poema ao jornalista (versão de Duda Rangel)
Que o mundo um dia quis mudar
Desde cedo um explorado
Teve o diploma furtado
Seu salário é um reles trocado
Mas não deixa de sonhar.
Não folga em suas batalhas
Vence o pescoção sem esmorecer
Contra o Ricardão precisa lutar
Não tem tempo de dormir e almoçar
Pensa no lead no banheiro ao cagar
E não vê o filho crescer.
Um heróico sobrevivente
Bravo biscateiro, malandro jabazeiro
Com boca-livre de fome não morre
Das contas a pagar foge e corre
Sua paz encontra no porre
E com carteiradas no puteiro.
Ó, ilustre amante das palavras
Contestador, denunciante, anarquista
Defensor da liberdade de expressão
Curioso escravo da informação
Que mesmo na lama não perde o tesão
De ser um apaixonado jornalista.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Entrevista com o Doutor
Parecia que a redação pegaria fogo naquela tarde. Algo sensacional estava para acontecer e não era aumento de salário. A revista sobre medicina e saúde, que tinha uma equipe formada basicamente por mulheres, esperava pela chegada do Doutor, um homem respeitadíssimo em sua área de atuação, charmoso, elegante (médico de terno e gravata é tudo de bom, diziam elas), solteiro e, principalmente, heterossexual. Ele tinha uma entrevista com uma repórter, a Felizarda, para a matéria de capa da edição seguinte. O Doutor, consultor da revista, era simpático e fazia questão de ir à redação para a entrevista.
A Felizarda, também solteira, colocou a melhor roupa (de decote nada sutil), o melhor perfume e rascunhou as perguntas mais inteligentes sobre o tema da entrevista (ah, quantas horas de pesquisa!). A Casada, editora da revista, era também só luxo e despudor naquela tarde, afinal era outra apaixonada pelo Doutor, homem bem mais atraente do que aquilo que ela tinha em casa. A única pessoa que não estava feliz era a Invejosa, também repórter, que fez de tudo para ficar com a pauta, mas não conseguiu. Quando a Felizarda disse que o Doutor parecia o José Mayer, a Invejosa retrucou na hora, justificando que o José Mayer estava um velho decadente. A Felizarda explicou então que não se referia ao José Mayer de hoje, mas ao de uma novela antiga, quando ele fazia o papel do médico gostosão.
As mulheres daquela redação, quase todas solteiras ou separadas, estavam encalhadas e suspiravam pelo Doutor. Mereciam a sorte grande! Não entendiam por que a vida era tão ingrata com elas. Eram jornalistas maduras, inteligentes, descoladas, sem preconceitos na cama, evoluídas espiritualmente (todas faziam meditação) e preocupadas com uma alimentação natureba e com a beleza. O único homem por perto era o Estagiário que respondia aos e-mails dos leitores, bonitinho até, com certeza tinha um pau bem duro (o que é muito importante, é claro), mas usava o dia inteiro aquele maldito boné. Jornalistas maduras, inteligentes e descoladas não trepam com garotos de boné, acreditavam todas.
A Felizarda costumava fazer as entrevistas com um bloquinho de anotações (tinha uma mão ágil), mas para a entrevista com o Doutor ressuscitou o velho gravador. Imaginou-se decupando a fita naquela mesma noite, deitada na minúscula banheira de seu apê, com sais de banho franceses e velas ao redor. A voz do Doutor era sedutora, mesmo falando de “procedimentos” e outros jargões médicos. A fita acabaria e ela continuaria na banheira (com os sais, as velas e a sua mão ágil com dedos ainda mais ágeis), ouvindo a voz do Doutor e fantasiando que ele lhe proporia outros procedimentos, nada médicos.
Os delírios da Felizarda foram interrompidos pela entrada triunfal do Doutor na redação, conduzido pela Recepcionista, a jovem gostosinha que representava uma grande ameaça a todas aquelas jornalistas maduras, inteligentes e descoladas. A Recepcionista era, logo, uma vadia! A única pessoa que não se abalou com a chegada do Doutor foi o Estagiário que, com seu boné, não tirou os olhos da tela do computador. A Casada logo se levantou da cadeira para dar as boas-vindas ao Doutor. A Invejosa rangeu os dentes de raiva e a Felizarda abriu um sorriso, com uma única certeza: o Doutor estava mais do que nunca a cara do José Mayer, o da novela antiga, quando ele fazia o papel do médico gostosão.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Crise de abstinência
Por mais que os jornais fiquem fininhos, com poucas páginas, sempre há um buraco a ser preenchido, no bom sentido, é claro. Com diversos colunistas de férias, sobra ainda mais espaço para o “cozidão de ano novo”, matérias frias, assuntos desinteressantes que jamais mereceriam algumas linhas em tempos normais, balanços intermináveis e projeções furadas para o ano que se inicia. Nestas horas de crise de abstinência de notícia, o jornalista valoriza até o release do assessor de imprensa chato que o perturba o ano inteiro.
Se a correria do dia-a-dia é desgastante, a morosidade pela falta de informação é frustrante. Redação sem agito, sem suor escorrendo pela testa, sem gritaria na hora do fechamento é igual a festa sem música, sem bebida, sem uma rapidinha no banheiro. As horas se arrastam em câmera lenta. Não podemos nem reclamar que somos explorados pelo chefe. Que 2010 comece logo. Ou a imprensa morre de tédio.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Eu voltei!
Este post de retomada fala de pesquisas. A que acabou de ser encerrada – Como jornalista, qual o seu principal sonho para o Ano Novo? – teve uma vitória apertada da alternativa “Trabalhar menos e viver mais, inclusive transar mais”, com 32% dos votos. Se o Lula for esperto, ele aproveita o ano eleitoral e lança um projeto especial só para jornalistas, o “Minha Trepada, Minha Vida”. Poderia ser o maior programa de inclusão sexual voltado a formadores de opinião carentes da história deste País.
A pesquisa teve ainda um empate na segunda posição. Com 24% dos votos, ficaram as alternativas “Arranjar simplesmente um emprego. Vale qualquer coisa” e “Ver meu pobre diploma voltar a ter algum valor”.
A nova pesquisa – Qual será a cobertura jornalística mais insuportável em 2010? – já está no ar. As opções vão da avalanche de matérias sobre o continente africano – afinal, é ano de Copa do Mundo – à campanha eleitoral, passando, naturalmente, pelo centenário do Corinthians. Bons votos e um ótimo 2010 a todos.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Até 2010, meus amigos!
Decidi que os dias que restam deste ano serão diferentes dos dias que restavam em anos passados. Por que tudo tem de ser sempre tão igual nesta época? O Especial do Roberto Carlos, o Especial da Xuxa, a Missa do Galo, as insuportáveis compras de presente no shopping lotado, as reuniões familiares de confraternização e briga, o chester esquartejado, o champanhe barato, a porra da caixinha do carteiro, do porteiro, do lixeiro e de outros "eiros", a São Silvestre com vitória de algum queniano, o arrependimento por tudo que não foi feito, as novas resoluções e ilusões.
Minhas “férias” do blog são uma incógnita. Só sei que serão diferentes. Posso me entregar aos prazeres carnais da colônia de férias de Mongaguá, que até hoje ainda não conheci, como posso partir para um retiro espiritual num templo budista. Posso perambular pela São Paulo vazia ou apenas ficar de bobeira em casa, ao lado do Nestor, sem perceber o tempo passar.
A única coisa certa é que preciso agradecer o carinho que recebi de muita gente ao longo deste ano! Adorei escrever neste blog e, por meio dele, conhecer pessoas de todos os cantos do Brasil e de fora dele, de todas as idades, jornalistas ou não. Fui até caso de estudo de TCC de um pessoal bacana da Bahia. E o melhor: eram estudantes de jornalismo e não de psiquiatria!
A todos um fim de ano diferente e um 2010 com muitos desafios. Ou a vida fica sem graça! Beijos e abraços do Duda!
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Dicas de presentes de Natal
Para um jornalista ecochato que trabalha com sustentabilidade: um belo pinheiro de origami feito com diplomas do curso de jornalismo.
Para um jornalista que cobre a guerra urbana no Rio de Janeiro: um plano de assistência funerária da empresa Vá com Deus, categoria SuperMegaPlus.
Para um jornalista que separa o sujeito do predicado com vírgula: o livro “Gramática Básica da Língua Portuguesa” (versão com ilustrações).
Para um jornalista cultural descolado: uma camiseta bordada da Cavalera ba-ca-nér-ri-ma ou óculos estilo Lady Gaga para ferver no réveillon.
Para um jornalista nerd da área de tecnologia: uma boneca do site Real Doll para ele vivenciar uma prática sexual mais próxima da realidade.
Para um jornalista militante de esquerda: um pôster da Dilma Rousseff de corpo inteiro em sua fase guerrilheira.
Para um jornalista militante de direita: uma coleção de luxo (capa dura) com as melhores reportagens da Veja de todos os tempos.
Para um assessor de imprensa que sempre liga para a redação no horário de fechamento: um relógio Rolex falsificado de uma banca de camelô.
Para um jornalista recém-formado que não consegue arranjar emprego: o livro de auto-ajuda “Os vencedores são aqueles que nunca desistem”.
Para um jornalista sem emprego: uma cesta básica e um vale-frila.
Para um jornalista com 30 anos de carreira: a obra completa “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust.
Para um jornalista que adora um CTRL C / CTRL V: o livro “Mil piadas pra Twitter”, com frases engraçadas já prontas de até 140 caracteres.
Para um fotógrafo doidão: um convite para uma balada num inferninho suspeitíssimo do centro de São Paulo com direito a todo tipo de loucura, em plena noite de Natal.
Para todo tipo de jornalista: um saco para treinamento de boxe com a cara do Gilmar Mendes para o jornalista encher de porrada e aliviar a tensão do dia-a-dia.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Eu, ranzinza
A conversa de bar fez lembrar-me de um ensaio do escritor peruano Mario Vargas Llosa, publicado na edição de outubro da revista Piauí, uma defesa do romance, da literatura. Entre outras coisas, Llosa fala do poder que a insatisfação humana, muitas vezes despertada pelos livros, tem de transformar o mundo. Talvez eu nem faça literatura – muitos dizem que blog não é literatura –, mas, ainda assim, acredito que posso, com as minhas palavras, desenvolver nos leitores “uma sensibilidade inconformista em relação à vida”, como escreve Llosa.
A seguir, destaco um trecho do ensaio que achei interessante:
“Viver insatisfeito, em luta contra a existência, significa empenhar-se, como dom Quixote, bater-se contra os moinhos de vento, condenar-se, de certa forma, a viver as batalhas travadas pelo coronel Aureliano Buendía, em Cem Anos de Solidão, sabendo que as perderia todas. Isso é provavelmente verdadeiro; mas também é verdadeiro que, sem a revolta contra a mediocridade e a sordidez da vida, nós, seres humanos, ainda viveríamos em condições primitivas, a história teria acabado, não teria nascido o indivíduo, a ciência e a tecnologia não se teriam desenvolvido, os direitos humanos não teriam sido reconhecidos, a liberdade não existiria, porque tudo isso nasceu de atos de insubmissão contra uma vida percebida como insuficiente e intolerável.”
Estou decidido: em 2010, continuarei um cara ranzinza, insuportavelmente ranzinza.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Carta de um jovem jornalista ao Papai Noel
Nem precisa ser um emprego muito bom. Para começar, vale qualquer coisa. Sei que vou ganhar um salário bem pequeno, mas já estou mais conformado com isso. Na verdade, eu estou louco para aprender jornalismo na prática. Estão dizendo que em 2010 a crise vai passar, que a vida vai melhorar e estou mais confiante. Meus amigos dizem que sou muito otimista, que acredito em tudo, até em Papai Noel. Mas a gente precisa ser assim.
Eu sei que cometi alguns erros em 2009, mas nada tão grave que não me faça merecer este emprego. O senhor vai compreender. Eu matei umas aulas na faculdade, fiquei de bobeira na internet, escrevendo bobagem no Twitter, fuçando o Orkut alheio, lendo o blog do Duda Rangel. Também gastei dinheiro com a Playboy da Fernanda Young e eu sei que isso não foi legal. O único vício que eu tenho mesmo é beber demais, embora falam que todo jornalista bebe. Também dou um tapa num baseado de vez em quando, mas só quando estou estressado e com dor de cabeça. E, se é para uso medicinal, não há problema, o senhor bem sabe.
No geral, eu até fui um aluno dedicado na faculdade. Fiz os trabalhos direitinho, li um monte de livros que eles indicaram. Eu também sou bem-informado. Não gosto de ler jornal, mas sigo todas as notícias na internet, até de política internacional. E o meu Português é bem correto também. O senhor pode notar que não tem nenhuma vírgula separando o sujeito do predicado nesta carta, não tem “menas” nem exceção com “ss”.
Em 2010, como jornalista real, estou louco para ver se todas aquelas coisas que o Duda Rangel escreve no blog dele são verdadeiras mesmo. Estou com um puta tesão (ops, desculpa!) de ir para a rua, fazer reportagens, buscar sempre a história mais bacana, denunciar as coisas que estão erradas, comer coxinha de frango na padoca, ganhar um monte de jabá e almoçar de graça nos eventos. Eu também quero conhecer o tal pescoção, trabalhar até altas horas da madrugada. Só não quero ser corno, mas este pedido fica para o outro Natal, está bom? Não vou abusar mais do senhor! Obrigado, Papai Noel. João."
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Imprensa Retrô 2009
Mas 2010 está aí, minha gente!
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Clô e os sonhos para 2010
Por estas e outras, Clô, mesmo já tendo passado desta para uma pior, foi o grande vencedor de nossa última enquete – Qual o entrevistado perfeito para uma matéria bem polêmica? – com 36% dos votos, superando fortes rivais como Caetano Veloso e FHC, que acabaram empatados com apenas 12% cada um.
Imaginei como seria uma entrevista psicografada com o Clodovil. Logo na primeira pergunta – Como está sua vida após a morte? –, já rolaria uma declaração polêmica: “Meu amor, estou odiando isso aqui. Muita gente sem educação, exagerada, gente que não sabe arder no fogo sem gritar. E como tem gente picareta também, está pior que o Congresso Nacional. Também não gostei do anfitrião, um sujeito de péssimo gosto. Ninguém mais usa aquele tridente cafona, nem em baile de carnaval de subúrbio. E o calor? Aqui, eles não sabem o que é ar-condicionado! Ai, meu amor, que saudade do vento fresco de Ubatuba...”
A próxima enquete já está em ritmo de Ano Novo. Como dizem que sonhar não custa nada, sonhemos. O que você, como jornalista, espera de 2010? Bons sonhos!
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
O plantador de notícias
- Redação, Ricardo, boa tarde.
- Oi, Ricardo. Aqui é o Guto Oliveira, assessor de imprensa das estrelas. Tudo bem?
- Tudo bom.
- Eu tenho uma notícia quentíssima da cantora Jessyca Motta.
- De quem?
- Como de quem? Não conhece a Jessyca Motta? A mulher que já bombou cantando música eletrônica, gospel...
- Ah, claro, desculpe. É que eu sou jornalista novo por aqui...
- Ricardo, é o seguinte: a Jessyca tá gravidíssima. Ela queria divulgar a notícia aos fãs pelo Twitter, mas eu não deixei. Quis dar o furo para vocês, que são o melhor site de celebridades do Brasil.
- Opa, Guto, que bacana. Vamos divulgar, sim!
- Vou mandar um release com mais detalhes. A Jessyca tá amando essa história de ser mãe. O pai, então, tá todo babão. Ela está tão feliz que vai até lançar um novo disco em breve, mas com uma pegada mais infantil, sabe? É novo público dela.
- Que ótimo! Manda o release, sim!
Guto desliga o telefone. A seu lado está a cantora Jessyca Motta.
- Guto, eu não acredito que você fez isso! Eu não estou grávida!
- Querida, você não queria voltar à mídia? Se prepara porque vai chover jornalista querendo saber mais sobre a sua gravidez, o sexo da criança, o nome...
- Mas eu tirei meu útero há dois anos! E se alguém descobre? E se falam com o médico?
- Com o médico eu já me entendi. Ele vai ficar quieto. E mais: esses jornalistas não investigam nada. Só querem saber de notícia fácil. Compram qualquer coisa.
- Ai, meu Deus, Guto, só você mesmo!
- E não esqueça, querida: daqui a dois meses, você vai perder esta criança! Então, aproveite para ser feliz agora, porque, depois, o babado vai ser você sofrer muito na mídia.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
A festa da firma
Após passar o ano inteiro explorando os pobres funcionários, principalmente os jornalistas, o dono do jornal decide promover uma festança. Para alguns, é um lampejo de humanidade do patrão, mas, para mim, é pura estratégia. Ele sabe que o jornalista é facilmente seduzido por uma boca-livre. Alimente um jornalista e ele se tornará seu amigo, dizia um filósofo de botequim. Ele esquecerá até que nunca lhe pagaram as horas extras trabalhadas.
A festa da firma é, portanto, um clássico exemplo da política “pão e circo”. Mas quem se importa com isso? Adoramos comida e bebida fartas, show com banda ao vivo e até sorteio de prêmios. Na minha época, começavam com brindes institucionais e acabavam com o prêmio máximo da noite, a cobiçada semana com a família numa colônia de férias em Mongaguá. Eu, que nessas ocasiões sempre preferi o pão ao circo, cheguei a criar um grupo de amigos batizado de “a nuvem dos gafanhotos”, que perambulava pelas mesas de comida deixando só devastação.
O evento de confraternização é uma excelente ocasião para os jornalistas interagirem com pessoas de outros departamentos, coisa rara, como a turma do administrativo e a turma do comercial, esta também chamada de “os vendedores de anúncio”. Quase todo jornalista vai à festa, até mesmo aqueles que nunca conseguem um alvará da patroa para as bebedeiras habituais pós-fechamento. Só não aparece a ala dos intelectuais, jornalistas que acreditam que a festa da firma não passa de uma forma primitiva de entretenimento, regada a axé music, cerveja e suor. Sociologicamente falando, é claro.
Na festa da firma, muita gente perde o pudor, se revela, paga mico ou arruma confusão, mesmo porque as taxas de sangue no álcool ficam baixíssimas. A vantagem de ficar um pouco sóbrio é poder testemunhar todas as aberrações da noite e ter matéria-prima para fofocar com os colegas no dia seguinte. Jamais esquecerei a festa em que o foca do caderno de Variedades, aquele moço tímido e de poucas palavras, foi subitamente arrebatado pela música do Abba, subiu na mesa, arrancou a camisa, rebolou como uma lagartixa e gritou: “I am the queen, I am the dancing queen!”. Depois disso, nunca mais foi visto na redação.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Jornalistas cornos, uni-vos
O e-mail contava a história da Ascron, Associação dos Cornos de Rondônia, entidade fundada há 25 anos por jornalistas de Porto Velho para prestar auxílio a vítimas de traição. Para eles, o jornalista é mais vulnerável a uma pulada de cerca por trabalhar demais e deixar a mulher carente e sozinha em casa. Aí, o bicho, quer dizer, o Ricardão pega. Na Ascron, grande parte da diretoria é formada por jornalistas, alguns com cargos vitalícios. E tem gente que reclama que nossa categoria é desunida!
A Ascron é uma entidade sem preconceitos, aberta a todos os sexos: homens, mulheres e nossos colegas da editoria de Cultura. Aceita também chifrudos de outras classes profissionais. Já são cerca de 8 mil associados em todo o Estado. Um dos atrativos é o clube de benefícios. Os membros recebem uma carteirinha para descontos em estabelecimentos comerciais, como farmácias, mercados e salões de cabeleireiros especializados em polimento de chifres. Até taxista cobra menos dos cornos de Rondônia.
A idéia dos colegas de Porto Velho é realmente interessante e deveria ser copiada por outros Estados. Quem sabe algum dia eu ainda não funde uma unidade em São Paulo? Criaria também um trabalho assistencial com focas, a Fundação Euclidinhos da Cunha, para orientar jovens em seus primeiros pescoções e plantões de fim de semana a lidar com a cornitude com menos sofrimento. Nos preocupamos demais com as campanhas por melhores salários e nos esquecemos de lutar por benefícios aos cornos da redação, essa gente desamparada e alvo de chacotas.