1) Beber com os amigos da redação até as cinco da manhã de uma segunda-feira (para celebrar não sei o quê), mesmo tendo de estar de volta ao jornal em poucas horas.
2) Fazer uma entrevista extremamente perigosa com, por exemplo, um traficante ou um psicopata tipo Hannibal Lecter, sem “focinheira” e dentro de uma cela de prisão.
3) Sair à rua para fazer uma reportagem com uma pauta nas mãos e voltar à redação com uma matéria apurada de um assunto totalmente diferente.
4) Libertar-se dos plantões cruéis e passar o maior número de Natais em família, para descobrir o verdadeiro sentido do amor e do ódio por aquela parentada toda.
5) Fazer uma grande viagem internacional a trabalho, para conhecer as belezas de outra cultura e, naturalmente, para comer e beber bem pra caralho às custas do jornal.
6) Dormir na rua como mendigo, mergulhar num tanque com um tubarão, ser stripper por uma noite ou trabalhar como gari, para descrever com mais realismo as suas histórias.
7) Mandar à merda aquele editor filho-da-puta – que tinha o maior prazer de colocar na sua bunda – e dar início a uma emocionante carreira de jornalista free lancer.
8) Pedir ao editor de arte para ele fazer uma fotomontagem em que você aparece como o executivo do ano na capa da Forbes, para você mostrar aos netos como era importante.
9) Pagar todas as contas sem atraso, pelo menos em um único mês de sua vida.
10) Negociar com o seu chefe uns dias a mais de folga, para você poder ter um filho. Ou plantar uma árvore. Ou escrever um livro.
sexta-feira, 19 de março de 2010
quarta-feira, 17 de março de 2010
Que porra é essa?
Na manhã daquela sexta-feira, eu, ainda um jovem Duda, cheguei à redação tranqüilo. Não estava na pauta do dia, tinha apenas uns textos para escrever para o fim de semana. Daria para almoçar com calma, fazer algumas pesquisas e paquerar a menina do arquivo. Mas como eu sempre me dou mal neste blog, a história deste post não poderia ser diferente. O pauteiro, que me via de longe, apesar de minha discrição, aproximou-se rapidamente.
- Oi, Duda, que bom que você chegou. O Roberto, que não pôde vir hoje por causa de suas cólicas renais, tem uma entrevista marcada para as 11 horas com o embaixador brasileiro nos Estados Unidos, lá no prédio da Bolsa. Você vai ter de segurar essa.
- Mas olha a minha roupa. Não vim preparado para entrevistar um embaixador.
- Você está ótimo, Duda, e agora não dá para ficar preocupado com isso. A pauta é sobre aquela polêmica da propriedade intelectual, da quebra de patentes e tal.
- Eu preciso pesquisar algo no arquivo antes de ir.
- Duda, voa para a Bolsa porque a entrevista é daqui a meia hora!
Voei. Aliás, um vôo cheio de turbulência no carro de reportagem. Estava desesperado, inseguro. Comecei a ter dor de barriga, as mãos suavam. Não tinha qualquer idéia do que seria a polêmica da propriedade intelectual com os Estados Unidos. Que porra era aquela? Naquele tempo, não havia BlackBerry, internet móvel, Google ou Wikipedia para me socorrer. Éramos apenas eu e minha ignorância no carro. Ou melhor, ao meu lado também estava o seu Péricles, motorista do jornal, cantarolando uma música sertaneja que tocava na rádio.
- Ô, seu Péricles, o senhor sabe alguma coisa sobre esse caso de propriedade intelectual, da polêmica com os Estados Unidos?
- Olha, seu Duda, a única polêmica com propriedade que eu tô sabendo é a questão da regularização das casas lá onde eu moro.
E começou a contar que morava num terreno invadido havia anos, que era área de manancial, mas que a prefeitura estava querendo dar o título de propriedade aos moradores. A minha cabeça viajava, não ouvia mais nada da história do motorista. Pensei em fazer a mesma consulta ao rapaz que vendia Suflair no farol, mas logo percebi que esta tentativa seria pior do que a primeira. E não era só o meu desconhecimento sobre o assunto que me perturbava. O que eram aquelas roupas? Calça velha, tênis velhos, camisa amarrotada. Ainda tinha a barba cerrada. O embaixador, com certeza, me olharia com cara de nojo.
Enfim cheguei ao prédio da Bolsa, com um ligeiro atraso e uma dor de barriga ainda maior. Subi, me apresentei e, minutos depois, fui recebido pelo embaixador. Com cara de nojo, é claro. Só fiquei mais aliviado quando apelei para a sinceridade. Contei das pedras no rim do meu colega de trabalho, que eu havia sido pego de surpresa pela pauta e que desconhecia o assunto. O embaixador riu e o que era para ser uma entrevista transformou-se num monólogo, ou uma aula sobre a polêmica da propriedade intelectual com os Estados Unidos. Entendi tudo e perfeitamente, e tive material abundante para, naquela tarde, escrever uma incrível notinha de sete linhas.
- Oi, Duda, que bom que você chegou. O Roberto, que não pôde vir hoje por causa de suas cólicas renais, tem uma entrevista marcada para as 11 horas com o embaixador brasileiro nos Estados Unidos, lá no prédio da Bolsa. Você vai ter de segurar essa.
- Mas olha a minha roupa. Não vim preparado para entrevistar um embaixador.
- Você está ótimo, Duda, e agora não dá para ficar preocupado com isso. A pauta é sobre aquela polêmica da propriedade intelectual, da quebra de patentes e tal.
- Eu preciso pesquisar algo no arquivo antes de ir.
- Duda, voa para a Bolsa porque a entrevista é daqui a meia hora!
Voei. Aliás, um vôo cheio de turbulência no carro de reportagem. Estava desesperado, inseguro. Comecei a ter dor de barriga, as mãos suavam. Não tinha qualquer idéia do que seria a polêmica da propriedade intelectual com os Estados Unidos. Que porra era aquela? Naquele tempo, não havia BlackBerry, internet móvel, Google ou Wikipedia para me socorrer. Éramos apenas eu e minha ignorância no carro. Ou melhor, ao meu lado também estava o seu Péricles, motorista do jornal, cantarolando uma música sertaneja que tocava na rádio.
- Ô, seu Péricles, o senhor sabe alguma coisa sobre esse caso de propriedade intelectual, da polêmica com os Estados Unidos?
- Olha, seu Duda, a única polêmica com propriedade que eu tô sabendo é a questão da regularização das casas lá onde eu moro.
E começou a contar que morava num terreno invadido havia anos, que era área de manancial, mas que a prefeitura estava querendo dar o título de propriedade aos moradores. A minha cabeça viajava, não ouvia mais nada da história do motorista. Pensei em fazer a mesma consulta ao rapaz que vendia Suflair no farol, mas logo percebi que esta tentativa seria pior do que a primeira. E não era só o meu desconhecimento sobre o assunto que me perturbava. O que eram aquelas roupas? Calça velha, tênis velhos, camisa amarrotada. Ainda tinha a barba cerrada. O embaixador, com certeza, me olharia com cara de nojo.
Enfim cheguei ao prédio da Bolsa, com um ligeiro atraso e uma dor de barriga ainda maior. Subi, me apresentei e, minutos depois, fui recebido pelo embaixador. Com cara de nojo, é claro. Só fiquei mais aliviado quando apelei para a sinceridade. Contei das pedras no rim do meu colega de trabalho, que eu havia sido pego de surpresa pela pauta e que desconhecia o assunto. O embaixador riu e o que era para ser uma entrevista transformou-se num monólogo, ou uma aula sobre a polêmica da propriedade intelectual com os Estados Unidos. Entendi tudo e perfeitamente, e tive material abundante para, naquela tarde, escrever uma incrível notinha de sete linhas.
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segunda-feira, 15 de março de 2010
A redação mais vigiada do Brasil
Já imaginou um Big Brother Brasil só com jornalistas? Conheça a seguir alguns candidatos ao grande prêmio do reality show: o kit jornalista feliz (um plano de saúde top do sindicato, uma carteirinha vitalícia da Fenaj, um fim de semana com acompanhante numa colônia de férias e meia dúzia de elogios).
A gostosa: a jovem jornalista tem tudo para ser a menina do tempo, mas quer mais: quer ter seu próprio programa de televisão. Pode ser um daqueles com dicas de beleza ou de esportes radicais. Antes de entrar “na redação mais vigiada do Brasil”, onde passará grande parte do tempo de minissaia cruzando e descruzando as pernas e exibindo os novos peitos siliconados, trabalhava como repórter num programa de subcelebridades. Sonha provar para o País, assim como sete mais sete são quinze, que, além de gostosa, também tem conteúdo.
O enrustido: o experiente repórter de Cultura, especializado em teatro, abandonou a carreira sólida para arriscar-se na “grande aventura da vida”, como ele define o programa. Seus amigos não acreditaram quando ouviram ele dizer isso na vinheta de apresentação. Logo ele, um homem que só falava de Brecht, Shakespeare e Tchecov, e odiava os reality shows da vida. Sua participação promete ser polêmica por causa de sua sexualidade. Será que ele sairá do armário, ou melhor, do confessionário?
O tosco: quando foi escolhido para participar do programa, recebeu uma dura advertência: nada de usar aqueles bonés com propaganda de cachaça ou material de construção como fazia nos campos de futebol como repórter esportivo de rádio. Está liberado, por outro lado, para falar putaria à vontade. Promete beber todas nas festas da redação, bolinar a gostosa e sacanear o enrustido. Acredita que pode sensibilizar o Brasil ao revelar o valor de seu salário. Diz que, por ser o mais miserável, é quem mais merece ganhar o kit jornalista feliz.
O gente boa: é um jovem desprovido de beleza, mas com um coração do tamanho dos peitos novos da gostosa. Seu jeitão nerd não deixa de ter certo encanto. Sonha fazer matérias sobre direitos humanos e focar sua carreira na área de sustentabilidade. Só toma sucos naturais (sem açucar) e é vítima de piadinhas por causa disso. Quer acabar com o mito de que todo jornalista é cachaceiro e putanheiro e mostrar um outro lado. O enrustido, com certeza, vai gostar desse lance do outro lado.
A marginalizada: a assessora de imprensa imagina que vai sofrer muito preconceito, simplesmente por ser a única assessora de imprensa do programa. Os demais participantes, todos jornalistas "convencionais", vão vir com aquele papo chato de que ela traiu a profissão, de que assessor não é jornalista e coisa e tal. Ganhar o jogo será uma missão mais árdua do que vender uma matéria sobre aquele decorador fracassado que era seu cliente.
A caipira: participar do reality show representa a conquista do mundo para a jovem do interior catarinense. É a primeira vez que deixa a sua cidadezinha, onde atuava como repórter no jornal do prefeito. Faz o tipo “sou tímida, mas topo ficar pelada na Playboy se rolar um convite”. Acredita que a mistura de caipirice e sensualidade pode conquistar o Brasil. Não descarta viver um grande amor no programa, desde que seja um sentimento verdadeiro, ou uma linda amizade, ou pelo menos uma matéria escrita a quatro mãos.
Já comprou o livro do Duda Rangel? Conheça a loja aqui, curta, compartilhe. Frete grátis para todo o Brasil.
A gostosa: a jovem jornalista tem tudo para ser a menina do tempo, mas quer mais: quer ter seu próprio programa de televisão. Pode ser um daqueles com dicas de beleza ou de esportes radicais. Antes de entrar “na redação mais vigiada do Brasil”, onde passará grande parte do tempo de minissaia cruzando e descruzando as pernas e exibindo os novos peitos siliconados, trabalhava como repórter num programa de subcelebridades. Sonha provar para o País, assim como sete mais sete são quinze, que, além de gostosa, também tem conteúdo.
O enrustido: o experiente repórter de Cultura, especializado em teatro, abandonou a carreira sólida para arriscar-se na “grande aventura da vida”, como ele define o programa. Seus amigos não acreditaram quando ouviram ele dizer isso na vinheta de apresentação. Logo ele, um homem que só falava de Brecht, Shakespeare e Tchecov, e odiava os reality shows da vida. Sua participação promete ser polêmica por causa de sua sexualidade. Será que ele sairá do armário, ou melhor, do confessionário?
O tosco: quando foi escolhido para participar do programa, recebeu uma dura advertência: nada de usar aqueles bonés com propaganda de cachaça ou material de construção como fazia nos campos de futebol como repórter esportivo de rádio. Está liberado, por outro lado, para falar putaria à vontade. Promete beber todas nas festas da redação, bolinar a gostosa e sacanear o enrustido. Acredita que pode sensibilizar o Brasil ao revelar o valor de seu salário. Diz que, por ser o mais miserável, é quem mais merece ganhar o kit jornalista feliz.
O gente boa: é um jovem desprovido de beleza, mas com um coração do tamanho dos peitos novos da gostosa. Seu jeitão nerd não deixa de ter certo encanto. Sonha fazer matérias sobre direitos humanos e focar sua carreira na área de sustentabilidade. Só toma sucos naturais (sem açucar) e é vítima de piadinhas por causa disso. Quer acabar com o mito de que todo jornalista é cachaceiro e putanheiro e mostrar um outro lado. O enrustido, com certeza, vai gostar desse lance do outro lado.
A marginalizada: a assessora de imprensa imagina que vai sofrer muito preconceito, simplesmente por ser a única assessora de imprensa do programa. Os demais participantes, todos jornalistas "convencionais", vão vir com aquele papo chato de que ela traiu a profissão, de que assessor não é jornalista e coisa e tal. Ganhar o jogo será uma missão mais árdua do que vender uma matéria sobre aquele decorador fracassado que era seu cliente.
A caipira: participar do reality show representa a conquista do mundo para a jovem do interior catarinense. É a primeira vez que deixa a sua cidadezinha, onde atuava como repórter no jornal do prefeito. Faz o tipo “sou tímida, mas topo ficar pelada na Playboy se rolar um convite”. Acredita que a mistura de caipirice e sensualidade pode conquistar o Brasil. Não descarta viver um grande amor no programa, desde que seja um sentimento verdadeiro, ou uma linda amizade, ou pelo menos uma matéria escrita a quatro mãos.
Já comprou o livro do Duda Rangel? Conheça a loja aqui, curta, compartilhe. Frete grátis para todo o Brasil.
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sexta-feira, 12 de março de 2010
Epitáfios
Como já escrito aqui, neste blog, jornalista não morre; jornalista alcança o seu próprio deadline. E, quando o dia deste indesejado (ou desejado) fechamento está para chegar, não há o que fazer. Ou melhor, há sim: deixar um último texto, o famoso epitáfio. A pesquisa, que acaba de entrar no ar, quer saber qual dos epitáfios de jornalista é o mais espirituoso. Do final miserável, mas feliz, a uma última viagem, feita a convite do Capeta. Qual o seu voto?
A enquete que chegou ao fim – O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, defensor do canudo, quer filiar não-diplomados. Você é a favor? – teve como vencedora a alternativa “Não. Isso seria uma contradição do sindicato. Ele só quer encher a burra de dinheiro.”, com 48% dos votos. Em segundo lugar ficou a opção “Sei lá. Pra que serve o sindicato dos jornalistas mesmo?”, com 26%. A entidade está mesmo em descrédito. Quanta ingratidão dos jornalistas! Logo o sindicato, cuja luta por nossa categoria sempre foi tão nobre e eficaz quanto à luta de José Sarney pela liberdade de imprensa.
A enquete que chegou ao fim – O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, defensor do canudo, quer filiar não-diplomados. Você é a favor? – teve como vencedora a alternativa “Não. Isso seria uma contradição do sindicato. Ele só quer encher a burra de dinheiro.”, com 48% dos votos. Em segundo lugar ficou a opção “Sei lá. Pra que serve o sindicato dos jornalistas mesmo?”, com 26%. A entidade está mesmo em descrédito. Quanta ingratidão dos jornalistas! Logo o sindicato, cuja luta por nossa categoria sempre foi tão nobre e eficaz quanto à luta de José Sarney pela liberdade de imprensa.
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quarta-feira, 10 de março de 2010
S.O.S. Jornalista
A rotina do jornalista é dura, cheia de apertos. Tudo seria mais simples se pudéssemos nos agarrar a remédios que resolvessem, de forma mágica, os nossos dramas. Mas, com exceção da vida de BBB, que não faz porra nenhuma o dia inteiro, nada é fácil em nossa existência terrena. Qualquer ajuda milagrosa seria surreal.
Sim, jornalista, você pode mudar a sua vida!
Um escritor qualquer de livros de auto-ajuda poderia, tranqüilamente, criar palestras motivacionais com foco específico nos jornalistas: “Você está sem perspectiva de crescimento na carreira? Acha que vai ficar 20 anos fazendo a mesma coisa na redação? Não desanime. O sucesso depende só de você!”. Ou “Você ainda quer ser um famoso apresentador de TV e dar autógrafos na rua? Acredite no seu sonho!”. Os jornalistas também poderiam participar de atividades em grupo, aquele lance da troca de energia, mentalização coletiva.
– Isso mesmo, se abracem, sintam as vibrações positivas, pensem que vocês estão recebendo um prêmio Esso, uma promoção do editor. O desejo de vocês vai se transformar em realidade.
– Professor, posso mentalizar também meu discurso de agradecimento pelo prêmio Esso?
Sai, capeta!
Alguém com nobres ideais religiosos poderia fundar a Igreja Nacional do Jornalista Desgraçado e promover o encontro dos 308 repórteres desempregados, em vigília por um frila urgente para pagar as contas em atraso. Mas a cereja do bolo seriam as sessões de descarrego. A igreja atenderia o fiel dominado pelas forças do mal. Aquele cara que, em uma semana, tomou dois furos da concorrência, não foi escalado para a principal cobertura do caderno no ano, perdeu a folga do fim de semana e ainda descobriu que não teria mais o aumento de salário prometido. Tanta coisa ruim junta só pode ser encosto.
– Desaloja, satanás, sai do corpo deste nosso irmão!!!
– Pastor, o senhor poderia também desalojar o meu chefe de reportagem?
Ouvido amigo
Existem alguns casos bem graves, de desesperança total. São profissionais que chegaram ao fundo do poço e pensam em deixar a vida terrena, cortando os pulsos ou fazendo uma matéria sobre a derrota da Gaviões da Fiel no carnaval paulistano com a camisa do Palmeiras. A salvação poderia vir por meio de uma central de atendimento por telefone, espécie de CVV, com voluntários altamente capacitados para lidar com depressivos da imprensa.
– Por favor, eu preciso de ajuda, acho que nunca serei um jornalista. Me considero um bosta. Não sei escrever, não sei fazer uma entrevista, não consigo arranjar um emprego decente. Até meu diploma não vale mais nada.
– Calma, meu amigo, o jornalismo não é tudo na vida. O senhor já pensou em fazer gastronomia?
Sim, jornalista, você pode mudar a sua vida!
Um escritor qualquer de livros de auto-ajuda poderia, tranqüilamente, criar palestras motivacionais com foco específico nos jornalistas: “Você está sem perspectiva de crescimento na carreira? Acha que vai ficar 20 anos fazendo a mesma coisa na redação? Não desanime. O sucesso depende só de você!”. Ou “Você ainda quer ser um famoso apresentador de TV e dar autógrafos na rua? Acredite no seu sonho!”. Os jornalistas também poderiam participar de atividades em grupo, aquele lance da troca de energia, mentalização coletiva.
– Isso mesmo, se abracem, sintam as vibrações positivas, pensem que vocês estão recebendo um prêmio Esso, uma promoção do editor. O desejo de vocês vai se transformar em realidade.
– Professor, posso mentalizar também meu discurso de agradecimento pelo prêmio Esso?
Sai, capeta!
Alguém com nobres ideais religiosos poderia fundar a Igreja Nacional do Jornalista Desgraçado e promover o encontro dos 308 repórteres desempregados, em vigília por um frila urgente para pagar as contas em atraso. Mas a cereja do bolo seriam as sessões de descarrego. A igreja atenderia o fiel dominado pelas forças do mal. Aquele cara que, em uma semana, tomou dois furos da concorrência, não foi escalado para a principal cobertura do caderno no ano, perdeu a folga do fim de semana e ainda descobriu que não teria mais o aumento de salário prometido. Tanta coisa ruim junta só pode ser encosto.
– Desaloja, satanás, sai do corpo deste nosso irmão!!!
– Pastor, o senhor poderia também desalojar o meu chefe de reportagem?
Ouvido amigo
Existem alguns casos bem graves, de desesperança total. São profissionais que chegaram ao fundo do poço e pensam em deixar a vida terrena, cortando os pulsos ou fazendo uma matéria sobre a derrota da Gaviões da Fiel no carnaval paulistano com a camisa do Palmeiras. A salvação poderia vir por meio de uma central de atendimento por telefone, espécie de CVV, com voluntários altamente capacitados para lidar com depressivos da imprensa.
– Por favor, eu preciso de ajuda, acho que nunca serei um jornalista. Me considero um bosta. Não sei escrever, não sei fazer uma entrevista, não consigo arranjar um emprego decente. Até meu diploma não vale mais nada.
– Calma, meu amigo, o jornalismo não é tudo na vida. O senhor já pensou em fazer gastronomia?
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segunda-feira, 8 de março de 2010
Um (T)exto (P)ara as (M)ulheres
Ela tinha um filho de dois anos para sustentar, um monte de contas para pagar, um ex-marido que não depositava o dinheiro da pensão. E trabalhava como jornalista. Nos dias de TPM, que eram muitos, ela tinha a certeza de que o pior de toda essa história era ser jornalista, porque, se tivesse uma profissão e um salário decentes, os outros problemas simplesmente não existiriam. Nos dias sem TPM, que eram os outros poucos, sentia-se orgulhosa de ser jornalista, apesar do salário de merda. Amava o que fazia.
Ela sabia que o menino, quando crescesse, teria orgulho da mãe, jornalista dedicada e, principalmente, corajosa, que enfrentava tudo e todos. Era uma mulher que nunca teve medo de se arriscar, inclusive no dia em que transou com o pai do seu filho, bêbado e sem camisinha. Nos dias de TPM, batia um puta arrependimento de seus atos inconseqüentes. Por que eu fui me apaixonar por um safado daqueles? Nos dias sem TPM, não se arrependia de nada. Achava até que o filho, aquela coisa linda, era a cara do pai.
Nos últimos tempos, ela estava bem distante do filho. Trabalhava como uma maluca no jornal e ainda fazia vários frilas fora da redação. O moleque passava mais tempo na creche ou com babás. Nos dias de TPM, sentia-se culpada, detestava ser o tipo de mãe ausente. Chegava a pensar em abandonar o jornalismo nos picos de crise. Nos dias sem TPM, até levou o filho para a pauta. A babá faltou bem na ocasião em que deveria fazer uma matéria na Bolsa de Valores. Naquela tarde, seu filho foi a alegria do pregão.
Ela sabia que o menino, quando crescesse, teria orgulho da mãe, jornalista dedicada e, principalmente, corajosa, que enfrentava tudo e todos. Era uma mulher que nunca teve medo de se arriscar, inclusive no dia em que transou com o pai do seu filho, bêbado e sem camisinha. Nos dias de TPM, batia um puta arrependimento de seus atos inconseqüentes. Por que eu fui me apaixonar por um safado daqueles? Nos dias sem TPM, não se arrependia de nada. Achava até que o filho, aquela coisa linda, era a cara do pai.
Nos últimos tempos, ela estava bem distante do filho. Trabalhava como uma maluca no jornal e ainda fazia vários frilas fora da redação. O moleque passava mais tempo na creche ou com babás. Nos dias de TPM, sentia-se culpada, detestava ser o tipo de mãe ausente. Chegava a pensar em abandonar o jornalismo nos picos de crise. Nos dias sem TPM, até levou o filho para a pauta. A babá faltou bem na ocasião em que deveria fazer uma matéria na Bolsa de Valores. Naquela tarde, seu filho foi a alegria do pregão.
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sexta-feira, 5 de março de 2010
O nosso pasquim
Uma das experiências mais divertidas que tive na faculdade foi quando criei, ao lado de alguns amigos, um jornal sobre minha turma do curso de jornalismo. Nossa linha editorial era sacanear geral e ter a liberdade de criticar, com humor e ironia, o que a gente achava que não caminhava bem. Os deslizes dos professores, as aulas insuportáveis, os defeitos de nossos colegas e, acreditem, de nós mesmos. Minha inspiração vinha da leitura de O Planeta Diário e das antigas edições de O Pasquim. Não ganhávamos um puto por isso, mas éramos felizes.
Ganhamos, na verdade, a oportunidade de aprender, na prática e por conta própria, o que é fazer jornalismo. Com muita improvisação, cuidávamos de todo o processo de criação, da pauta até a distribuição do jornal aos leitores, nossos amigos de curso. A diagramação era precária, feita com colagens em papel sulfite. As impressões não tinham cores. Nossa redação era flutuante – a mesa do bar ou até mesmo o fundão da sala de aula. Eu gostava das reuniões de pauta, regadas a cerveja e gargalhadas, um grandioso brainstorm de merdas.
A gente escrevia o que dava vontade. Não tinha rabo preso com ninguém. Certa vez, fizemos, com foto-montagem, um provocante ensaio sensual da professora de Sociologia, uma italiana chata de mais de 60 anos. Em outra, num trabalho de jornalismo erótico-investigativo, revelamos as perversões secretas do diretor da faculdade. Os bastidores sórdidos das festinhas das repúblicas de alunos também eram pauta certa. Tudo escrito com muita irreverência e criatividade, é claro.
Conquistamos fãs, que esperavam ansiosamente a impressão da edição seguinte, sem prazo definido para sair. O compromisso com os leitores nunca foi nosso forte. A periodicidade do jornal era a “sai quando der”. Conquistamos também desafetos entre a turma e olhares atravessados de alguns professores. Tudo bem que, às vezes, nossas palavras eram assustadoramente ácidas, mas, no geral, o pessoal levava aquilo numa boa.
Por mais que a realidade de um jornal de faculdade, feito por amigos, seja bem diferente da encontrada no mercado de trabalho, esta experiência empreendedora é fascinante. Acho que todos os estudantes de jornalismo deveriam criar as suas publicações, aproveitando as facilidades das novas tecnologias e o incontrolável desejo de jogar bosta no ventilador. O humor e a ironia nunca saem de moda e são formas inteligentes de denunciar as cagadas do homem. Vale a pena tentar!
Ganhamos, na verdade, a oportunidade de aprender, na prática e por conta própria, o que é fazer jornalismo. Com muita improvisação, cuidávamos de todo o processo de criação, da pauta até a distribuição do jornal aos leitores, nossos amigos de curso. A diagramação era precária, feita com colagens em papel sulfite. As impressões não tinham cores. Nossa redação era flutuante – a mesa do bar ou até mesmo o fundão da sala de aula. Eu gostava das reuniões de pauta, regadas a cerveja e gargalhadas, um grandioso brainstorm de merdas.
A gente escrevia o que dava vontade. Não tinha rabo preso com ninguém. Certa vez, fizemos, com foto-montagem, um provocante ensaio sensual da professora de Sociologia, uma italiana chata de mais de 60 anos. Em outra, num trabalho de jornalismo erótico-investigativo, revelamos as perversões secretas do diretor da faculdade. Os bastidores sórdidos das festinhas das repúblicas de alunos também eram pauta certa. Tudo escrito com muita irreverência e criatividade, é claro.
Conquistamos fãs, que esperavam ansiosamente a impressão da edição seguinte, sem prazo definido para sair. O compromisso com os leitores nunca foi nosso forte. A periodicidade do jornal era a “sai quando der”. Conquistamos também desafetos entre a turma e olhares atravessados de alguns professores. Tudo bem que, às vezes, nossas palavras eram assustadoramente ácidas, mas, no geral, o pessoal levava aquilo numa boa.
Por mais que a realidade de um jornal de faculdade, feito por amigos, seja bem diferente da encontrada no mercado de trabalho, esta experiência empreendedora é fascinante. Acho que todos os estudantes de jornalismo deveriam criar as suas publicações, aproveitando as facilidades das novas tecnologias e o incontrolável desejo de jogar bosta no ventilador. O humor e a ironia nunca saem de moda e são formas inteligentes de denunciar as cagadas do homem. Vale a pena tentar!
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quarta-feira, 3 de março de 2010
Jamais trabalharam como jornalista
A presença de jornalistas sem diploma no mercado de trabalho deve ser cada vez maior a partir de agora. É a nova realidade. Por outro lado, existe um grupo de jornalistas – bem grande, por sinal –, que cursou a faculdade, pegou o canudo, mas jamais viveu a profissão na prática. A mudança de rumo deve-se às mais variadas razões e circunstâncias. A seguir, conheça breves histórias de quem estudou para ser, mas nunca foi um jornalista.
No segundo ano da faculdade de jornalismo – sua grande paixão –, Janaína convenceu-se de que faltava algo à sua futura carreira. Desejava uma formação humana mais completa. Foi quando decidiu fazer, simultaneamente, o curso de História. Passaram-se dois anos, graduou-se em jornalismo, mas a sensação de lacuna em sua carreira permanecia. Prestou, então, vestibular para Ciências Sociais. Acumulou três diplomas e seguia insatisfeita. Partiu para um mestrado e, depois, para um doutorado. Jamais trabalhou como jornalista. Não sabe sequer como é o ar que se respira em uma redação. Semana que vem parte para os Estados Unidos para uma temporada de pesquisa numa universidade. Sua mala já está pronta, com roupas, livros e os vazios de sempre.
O pai insistiu para que Regina prestasse o vestibular. É importante ter um curso superior, dizia. Poderia ser qualquer um. Será que é apenas para ter uma cela especial quando cometesse um crime?, pensava ela. Optou por jornalismo, profissão chique. Não suportava as aulas de Filosofia e as teorias de comunicação, mas cumpriu sua missão. Após quatro anos, já tinha o diploma nas mãos, para orgulho de seu pai. Na semana seguinte, também com o apoio do pai, abriu uma loja de lingeries em um shopping e hoje é a rainha das calcinhas e dos sutiãs do pedaço. Jamais trabalhou como jornalista. Não sabe sequer como é a neurose do fechamento em uma redação. O principal aprendizado da faculdade foi descobrir que a carta mais importante do truco atende pelo nome de “zap”.
Fernando sempre conciliou a faculdade de jornalismo com a atividade de professor de Inglês. Trabalhava em escolas, dava aulas em sua casa. Com o dinheiro do árduo trabalho, conseguia pagar a faculdade e financiar os deleites sexuais de sua juventude. Ao se formar, não conseguia arrumar um emprego como jornalista. Mas, tudo bem, ele tinha as aulas de Inglês, que sempre o ajudaram. O tempo foi passando, o volume de aulas aumentando e a motivação de ser jornalista diminuindo. Hoje, tem sua própria escola de idiomas. Jamais trabalhou como jornalista. Não sabe sequer o que é uma reunião de pauta na prática.
Célia sempre foi uma menina ansiosa e um pouco medrosa. Desde a adolescência, freqüentava consultórios de psicólogos. Mas a faculdade de jornalismo lhe fazia bem, foi seu melhor remédio. Adorava aquilo tudo e tinha a certeza de que sua carreira seria um sucesso. No último ano do curso, contudo, durante uma atividade prática em sala de aula, seu texto recebeu uma crítica pesada do professor. Entrou em pânico, ficou paralisada. Se não conseguia suportar um revés na faculdade, não teria condições de enfrentar a pressão do dia-a-dia da profissão, refletia. Jamais trabalhou como jornalista. Não sabe sequer o que são os momentos de descontração numa redação, as piadinhas, o riso coletivo. Hoje, trabalha como vendedora de calcinhas e sutiãs na loja de lingeries de uma antiga amiga da faculdade.
No segundo ano da faculdade de jornalismo – sua grande paixão –, Janaína convenceu-se de que faltava algo à sua futura carreira. Desejava uma formação humana mais completa. Foi quando decidiu fazer, simultaneamente, o curso de História. Passaram-se dois anos, graduou-se em jornalismo, mas a sensação de lacuna em sua carreira permanecia. Prestou, então, vestibular para Ciências Sociais. Acumulou três diplomas e seguia insatisfeita. Partiu para um mestrado e, depois, para um doutorado. Jamais trabalhou como jornalista. Não sabe sequer como é o ar que se respira em uma redação. Semana que vem parte para os Estados Unidos para uma temporada de pesquisa numa universidade. Sua mala já está pronta, com roupas, livros e os vazios de sempre.
O pai insistiu para que Regina prestasse o vestibular. É importante ter um curso superior, dizia. Poderia ser qualquer um. Será que é apenas para ter uma cela especial quando cometesse um crime?, pensava ela. Optou por jornalismo, profissão chique. Não suportava as aulas de Filosofia e as teorias de comunicação, mas cumpriu sua missão. Após quatro anos, já tinha o diploma nas mãos, para orgulho de seu pai. Na semana seguinte, também com o apoio do pai, abriu uma loja de lingeries em um shopping e hoje é a rainha das calcinhas e dos sutiãs do pedaço. Jamais trabalhou como jornalista. Não sabe sequer como é a neurose do fechamento em uma redação. O principal aprendizado da faculdade foi descobrir que a carta mais importante do truco atende pelo nome de “zap”.
Fernando sempre conciliou a faculdade de jornalismo com a atividade de professor de Inglês. Trabalhava em escolas, dava aulas em sua casa. Com o dinheiro do árduo trabalho, conseguia pagar a faculdade e financiar os deleites sexuais de sua juventude. Ao se formar, não conseguia arrumar um emprego como jornalista. Mas, tudo bem, ele tinha as aulas de Inglês, que sempre o ajudaram. O tempo foi passando, o volume de aulas aumentando e a motivação de ser jornalista diminuindo. Hoje, tem sua própria escola de idiomas. Jamais trabalhou como jornalista. Não sabe sequer o que é uma reunião de pauta na prática.
Célia sempre foi uma menina ansiosa e um pouco medrosa. Desde a adolescência, freqüentava consultórios de psicólogos. Mas a faculdade de jornalismo lhe fazia bem, foi seu melhor remédio. Adorava aquilo tudo e tinha a certeza de que sua carreira seria um sucesso. No último ano do curso, contudo, durante uma atividade prática em sala de aula, seu texto recebeu uma crítica pesada do professor. Entrou em pânico, ficou paralisada. Se não conseguia suportar um revés na faculdade, não teria condições de enfrentar a pressão do dia-a-dia da profissão, refletia. Jamais trabalhou como jornalista. Não sabe sequer o que são os momentos de descontração numa redação, as piadinhas, o riso coletivo. Hoje, trabalha como vendedora de calcinhas e sutiãs na loja de lingeries de uma antiga amiga da faculdade.
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segunda-feira, 1 de março de 2010
Medo de quê?
De cabeça baixa e com a silhueta curvada, estava estático na plataforma de bungee jump, como que hipnotizado por seus 40 metros de altura. Ariosvaldo – ou simplesmente Ari – era um jornalista de 70 anos que nunca admitiu se aposentar para ficar enterrado em casa. Sempre viveu a profissão intensamente. Detestava ficar preso na redação. Era um homem da rua, que não se contentava em relatar os fatos. Precisava viver os fatos. “As matérias ficam mais verdadeiras”, dizia.
Certa vez, quando jovem, virou garoto de programa para contar a dura vida dos michês. Em outra, morou embaixo de um viaduto por um mês, em companhia de mendigos, para escrever sobre a rotina violenta dos moradores de rua. Foram muitas aventuras. Para alguns colegas de profissão, Ari adorava chamar a atenção dos outros. Queria ser mais importante do que a notícia. Para outros, era simplesmente um louco apaixonado pelo jornalismo.
Com a aposentadoria, passou a viver de frilas. Seu trabalho atual era mostrar o interesse do pessoal da terceira idade pelos esportes radicais. “Ari, a pauta é a tua cara, coisa de maluco mesmo”, lhe afirmou o editor da revista. Estava animado com a empreitada. A empolgação, porém, contrastava com sua imobilidade fúnebre, instantes antes de saltar. O velhinho não se mexia. Seguia quieto, lá nas alturas. Ninguém entendia nada. Nem parentes, nem os curiosos que foram acompanhar o surpreendente espetáculo.
– É o que dá querer fazer o que não pode. Deveria estar em casa, escrevendo suas crônicas, de pijama – murmurou o fotógrafo da revista que o acompanhava na pauta.
O velho jornalista nunca dera atenção às fofocas. Não desejava provar nada a ninguém. Só queria trabalhar, sentir-se vivo, mas, naquela tarde, algo estava errado. Ari seguia imóvel, curvado. Parecia com medo. Logo ele, tão corajoso em suas aventuras jornalísticas! Teria se arrependido do desafio? Sentia-se mal?
Aflito, o fotógrafo decidiu que precisava tomar alguma iniciativa. Não agüentava mais ver aquela cena insólita. Correu até a plataforma e avançou com rapidez pela escada que levava ao topo. Como era alto lá de cima! Chamou pelo velhinho, que se virou para o rapaz. Estava pálido, coitado.
– Ari, o que aconteceu? Estão todos apreensivos lá embaixo.
– Não imaginei que esta hora pudesse chegar. Estou com muito medo.
– Medo de quê, Ari?
– De pular e perder uma das coisas mais preciosas que tenho.
– Sua linda vida?
– Não, meu amigo... a dentadura.
Certa vez, quando jovem, virou garoto de programa para contar a dura vida dos michês. Em outra, morou embaixo de um viaduto por um mês, em companhia de mendigos, para escrever sobre a rotina violenta dos moradores de rua. Foram muitas aventuras. Para alguns colegas de profissão, Ari adorava chamar a atenção dos outros. Queria ser mais importante do que a notícia. Para outros, era simplesmente um louco apaixonado pelo jornalismo.
Com a aposentadoria, passou a viver de frilas. Seu trabalho atual era mostrar o interesse do pessoal da terceira idade pelos esportes radicais. “Ari, a pauta é a tua cara, coisa de maluco mesmo”, lhe afirmou o editor da revista. Estava animado com a empreitada. A empolgação, porém, contrastava com sua imobilidade fúnebre, instantes antes de saltar. O velhinho não se mexia. Seguia quieto, lá nas alturas. Ninguém entendia nada. Nem parentes, nem os curiosos que foram acompanhar o surpreendente espetáculo.
– É o que dá querer fazer o que não pode. Deveria estar em casa, escrevendo suas crônicas, de pijama – murmurou o fotógrafo da revista que o acompanhava na pauta.
O velho jornalista nunca dera atenção às fofocas. Não desejava provar nada a ninguém. Só queria trabalhar, sentir-se vivo, mas, naquela tarde, algo estava errado. Ari seguia imóvel, curvado. Parecia com medo. Logo ele, tão corajoso em suas aventuras jornalísticas! Teria se arrependido do desafio? Sentia-se mal?
Aflito, o fotógrafo decidiu que precisava tomar alguma iniciativa. Não agüentava mais ver aquela cena insólita. Correu até a plataforma e avançou com rapidez pela escada que levava ao topo. Como era alto lá de cima! Chamou pelo velhinho, que se virou para o rapaz. Estava pálido, coitado.
– Ari, o que aconteceu? Estão todos apreensivos lá embaixo.
– Não imaginei que esta hora pudesse chegar. Estou com muito medo.
– Medo de quê, Ari?
– De pular e perder uma das coisas mais preciosas que tenho.
– Sua linda vida?
– Não, meu amigo... a dentadura.
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Moça com botas de borracha
A jovem jornalista já havia traçado um plano para sua carreira antes mesmo de se formar: queria trabalhar com moda, sua grande paixão. Gostava daquela vida de desfiles, badalação, coquetéis, gente famosa, além de entender bem de roupas, tecidos, tendências. Era também elegante, bonita, magra. Estava decidida a ser uma nova Erika Palomino.
Mas a vida é quase sempre ingrata com os jovens jornalistas, e seu primeiro emprego foi o de repórter no caderno geral de um jornal impresso. Pensou em desistir logo no dia de estréia, mas logo lembrou que a coisa poderia ser pior, poderia nem ter emprego, como vários de seus colegas da faculdade. Melhor isso do que nada. Fazia de tudo um pouco: ronda policial em delegacias, matérias sobre buracos nas ruas, a tubulação de gás natural que explodiu, uma passeata de garis no centro da cidade em protesto ao Boris Casoy. Brincadeira, eles só queriam melhores salários.
Um dia, estava de bobeira na redação, quando foi chamada à mesa do pauteiro. Recebeu uma inglória missão: visitar a região da cidade mais afetada pelas chuvas daqueles dias, entrar na favela, ver o que sobrou, conhecer as histórias de quem perdeu tudo.
- Bonitinha como você é, vai fazer o maior sucesso no pedaço, brincou o pauteiro.
- Mas eu não tenho nem sapato adequado para entrar numa favela submersa, retrucou.
O pauteiro lhe indicou uma caixa no chão, com um par bem velho de botas de borracha, uns dois ou três números maiores do que o pé da moça. Melhor isso do que nada. Já estava se acostumando a este tipo de resignação. Deixou a redação já com as botas enormes nos pés e ainda ouviu alguém cantarolar: “É isso aí”.
A água já havia baixado quando ela chegou à favela. Muito lixo, lama, cheiro forte. Meio desajeitada com tudo, caminhou pelo lugar, observou cada detalhe com atenção, a expressão no rosto de cada pessoa que trabalhava para salvar o que restou. Foi ganhando coragem. Visitou vários barracos, conversou com muita gente, conheceu dramas variados, do fogão novinho das Casas Bahia que virou sucata ao menino que desapareceu no córrego. Foi até convidada a tomar um café no barraco da dona Elza, uma velha muito simpática.
- A senhora acredita que nós, jornalistas, podemos fazer alguma coisa para mudar a situação de vocês aqui?
- Ninguém muda nada aqui, não, minha filha. Faz mais de 15 anos que a gente sofre com enchente. O bom é que, com os jornalistas aqui, a gente pode, pelo menos, falar mal das autoridades. Assim, a prefeitura vem mais rápido limpar a entulhada toda deste ano.
O café no barraco da dona Elza, feito num fogo improvisado, foi longo. A jornalista teve oportunidade de conhecer toda a família que ali morava, inclusive o caçula que, quando crescesse, queria ser jornalista. Ou bombeiro. Tudo havia sido tão intenso na favela que ela até esqueceu que as botas grandes e velhas a incomodavam. Antes de partir, ainda teve tempo de brincar com um vira-lata bem sujo, escorregar na lama e sujar a bunda.
Naquela noite, antes de dormir, estava feliz, ao contrário dos primeiros dias no jornal. Pensou até que a vida da Erika Palomino deveria ser, assim, meio sem graça, sabe?
Mas a vida é quase sempre ingrata com os jovens jornalistas, e seu primeiro emprego foi o de repórter no caderno geral de um jornal impresso. Pensou em desistir logo no dia de estréia, mas logo lembrou que a coisa poderia ser pior, poderia nem ter emprego, como vários de seus colegas da faculdade. Melhor isso do que nada. Fazia de tudo um pouco: ronda policial em delegacias, matérias sobre buracos nas ruas, a tubulação de gás natural que explodiu, uma passeata de garis no centro da cidade em protesto ao Boris Casoy. Brincadeira, eles só queriam melhores salários.
Um dia, estava de bobeira na redação, quando foi chamada à mesa do pauteiro. Recebeu uma inglória missão: visitar a região da cidade mais afetada pelas chuvas daqueles dias, entrar na favela, ver o que sobrou, conhecer as histórias de quem perdeu tudo.
- Bonitinha como você é, vai fazer o maior sucesso no pedaço, brincou o pauteiro.
- Mas eu não tenho nem sapato adequado para entrar numa favela submersa, retrucou.
O pauteiro lhe indicou uma caixa no chão, com um par bem velho de botas de borracha, uns dois ou três números maiores do que o pé da moça. Melhor isso do que nada. Já estava se acostumando a este tipo de resignação. Deixou a redação já com as botas enormes nos pés e ainda ouviu alguém cantarolar: “É isso aí”.
A água já havia baixado quando ela chegou à favela. Muito lixo, lama, cheiro forte. Meio desajeitada com tudo, caminhou pelo lugar, observou cada detalhe com atenção, a expressão no rosto de cada pessoa que trabalhava para salvar o que restou. Foi ganhando coragem. Visitou vários barracos, conversou com muita gente, conheceu dramas variados, do fogão novinho das Casas Bahia que virou sucata ao menino que desapareceu no córrego. Foi até convidada a tomar um café no barraco da dona Elza, uma velha muito simpática.
- A senhora acredita que nós, jornalistas, podemos fazer alguma coisa para mudar a situação de vocês aqui?
- Ninguém muda nada aqui, não, minha filha. Faz mais de 15 anos que a gente sofre com enchente. O bom é que, com os jornalistas aqui, a gente pode, pelo menos, falar mal das autoridades. Assim, a prefeitura vem mais rápido limpar a entulhada toda deste ano.
O café no barraco da dona Elza, feito num fogo improvisado, foi longo. A jornalista teve oportunidade de conhecer toda a família que ali morava, inclusive o caçula que, quando crescesse, queria ser jornalista. Ou bombeiro. Tudo havia sido tão intenso na favela que ela até esqueceu que as botas grandes e velhas a incomodavam. Antes de partir, ainda teve tempo de brincar com um vira-lata bem sujo, escorregar na lama e sujar a bunda.
Naquela noite, antes de dormir, estava feliz, ao contrário dos primeiros dias no jornal. Pensou até que a vida da Erika Palomino deveria ser, assim, meio sem graça, sabe?
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
O encantado mundo dos jornalistas
Existe, sim, uma maneira de um jornalista ou aspirante a jornalista ficar rico e famoso. E nem será preciso ganhar na loteria ou fazer o teste do sofá com o editor-executivo. Basta desembolsar 17,99 libras, um pouco mais de 50 reais, pelo jogo “Imagine: Journalist”, criado pela Nintendo para o console portátil DS. O game permite ao jogador “começar como colunista em um jornal local e terminar como um repórter internacional, com seu próprio programa de TV". Isso que é ascensão profissional.O jogo exige que os participantes realizem tarefas cotidianas de um jornalista (fazer uma entrevista, escrever um texto, apresentar uma notícia na TV). A simulação é tão simples e inocente que qualquer pessoa pode brincar, inclusive os sem-diploma. Apresenta um universo de glamour, em que o jornalista vive cercado de celebridades e encerra a carreira pilotando o seu próprio helicóptero. É um mundo de faz-de-conta, ideal para as crianças criarem as suas primeiras fantasias sobre a profissão. Pobrezinhas!
Se eu fosse o desenvolvedor deste jogo, acrescentaria alguns ingredientes de ação e terror, para dar um tom mais realista à aventura. Do tipo, se o repórter-jogador tomar um furo, terá de correr atrás da concorrência como um maluco, pressionado pelo chefe, sem folgas no trabalho. Se descumprir o deadline e entregar a matéria com atraso, será esquecido na redação, condenado a pautas banais. Se for mandado embora do emprego, será obrigado a lutar por frilas, num mercado de trevas e trocados.
– Duda, você é muito pessimista, me acusou um amigo que ouvira minhas sugestões para apimentar o game. É só um joguinho.
Ele tem razão: o jornalista pode, sim, viver num mundo feliz. Pelo menos, no mundo virtual.
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Travessura de velho
As ilusões do jovem jornalista são prejudiciais à saúde. No verso da ficha de inscrição das faculdades de jornalismo, o Ministério da Saúde deveria fazer tal advertência. Crenças num poder ilimitado de mudar o mundo ou numa vida cheia de glamour e dinheiro são perigosíssimas. Um dia a realidade vence a utopia, as ilusões viram desilusões e, para superar, só com o tempo ou terapia. No meu caso, virei blogueiro para me libertar de minhas desilusões (meu antigo drama está no post de estréia para quem quiser reler).
Há alguns deslumbramentos de jovem jornalista, que poderiam ser vistos de forma negativa também, mas são mais inofensivos e até gostosos de sentir. São mais modestos em suas pretensões. Há sensações na carreira de um jornalista bem típicas da juventude e precisam ser saboreadas na hora certa. Uma delas são as primeiras matérias assinadas num jornal.
Para um iniciante, é um prazer quase sexual, melhor, é um prazer bem maior do que o sexual. A minha primeira vez, jornalisticamente falando, foi na publicação da faculdade que funcionava como laboratório para os alunos. Matéria boba, assunto sem importância, mas eu não via a hora de ter a impressão final nas mãos. A razão: ver meu nome estampado na matéria me faria (e me fez) sentir, enfim, jornalista de verdade.
As primeiras matérias assinadas são saboreadas à exaustão. Não tem jeito: somos, desde cedo, impregnados de narcisismo e adoramos lamber a nossa cria. Somos como o pai orgulhoso que desfila com um bebê lindo no parque com cara de “fui eu que fiz”.
Minha primeira matéria assinada já levava o nome de Duda Rangel. O nome completo, de batismo, Carlos Eduardo Rangel, não caía bem. E isso nunca teve nada a ver com numerologia, juro por tudo de sagrado e profano deste mundo. Sempre acreditei que nome composto cansaria o leitor, não teria impacto, além do fato de nome composto lembrar bronca de mãe quando se é criança e apronta alguma travessura.
Às vezes, parecia até que eu corria até a pasta com as minhas matérias só para me certificar de que a assinatura ainda estava lá, que não tinha fugido. “A sua assinatura empreendeu fuga nesta manhã, mas dois investigadores já estão nas ruas para tentar encontrá-la e devolvê-la à sua matéria”, me diria um delegado qualquer se eu cobrasse providências. Mas assinaturas não empreendem fugas. Ficam lá, imóveis. Meu zelo era paranóico.
Nos últimos dias, eu me lembrei dessa história das assinaturas, fiquei resgatando as gostosas sensações passadas. Senti muita falta da juventude, dos tempos que não voltam mais. Como é estranho ter saudade de si mesmo, escreveu o dinamarquês Jacobsen. Certa nostalgia é indício de que não estamos sabendo envelhecer. “Carlos Eduardo, pare com essa coisa de nostalgia boba, meu filho. Viva seu presente!”, me diria a minha mãe, diante dessa minha última travessura.
Há alguns deslumbramentos de jovem jornalista, que poderiam ser vistos de forma negativa também, mas são mais inofensivos e até gostosos de sentir. São mais modestos em suas pretensões. Há sensações na carreira de um jornalista bem típicas da juventude e precisam ser saboreadas na hora certa. Uma delas são as primeiras matérias assinadas num jornal.
Para um iniciante, é um prazer quase sexual, melhor, é um prazer bem maior do que o sexual. A minha primeira vez, jornalisticamente falando, foi na publicação da faculdade que funcionava como laboratório para os alunos. Matéria boba, assunto sem importância, mas eu não via a hora de ter a impressão final nas mãos. A razão: ver meu nome estampado na matéria me faria (e me fez) sentir, enfim, jornalista de verdade.
As primeiras matérias assinadas são saboreadas à exaustão. Não tem jeito: somos, desde cedo, impregnados de narcisismo e adoramos lamber a nossa cria. Somos como o pai orgulhoso que desfila com um bebê lindo no parque com cara de “fui eu que fiz”.
Minha primeira matéria assinada já levava o nome de Duda Rangel. O nome completo, de batismo, Carlos Eduardo Rangel, não caía bem. E isso nunca teve nada a ver com numerologia, juro por tudo de sagrado e profano deste mundo. Sempre acreditei que nome composto cansaria o leitor, não teria impacto, além do fato de nome composto lembrar bronca de mãe quando se é criança e apronta alguma travessura.
Às vezes, parecia até que eu corria até a pasta com as minhas matérias só para me certificar de que a assinatura ainda estava lá, que não tinha fugido. “A sua assinatura empreendeu fuga nesta manhã, mas dois investigadores já estão nas ruas para tentar encontrá-la e devolvê-la à sua matéria”, me diria um delegado qualquer se eu cobrasse providências. Mas assinaturas não empreendem fugas. Ficam lá, imóveis. Meu zelo era paranóico.
Nos últimos dias, eu me lembrei dessa história das assinaturas, fiquei resgatando as gostosas sensações passadas. Senti muita falta da juventude, dos tempos que não voltam mais. Como é estranho ter saudade de si mesmo, escreveu o dinamarquês Jacobsen. Certa nostalgia é indício de que não estamos sabendo envelhecer. “Carlos Eduardo, pare com essa coisa de nostalgia boba, meu filho. Viva seu presente!”, me diria a minha mãe, diante dessa minha última travessura.
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
A sindicalização dos sem-canudo
Com o fim do carnaval (ufa!) e o início oficial de 2010 no Brasil, passamos a debater um tema de extrema importância para os novos rumos do jornalismo. Calma, pessoal, não falo dos modelitos de vestido da Patrícia Poeta no Fantástico, mas da possibilidade de o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo – que defende o diploma como parte da regulamentação da profissão – aceitar a filiação de profissionais sem o bendito canudo. Leia aqui o manifesto dos companheiros paulistas. A polêmica é pauta da próxima enquete, já no ar. Você é a favor ou contra a idéia?
Aproveito também este post para anunciar o resultado da última pesquisa – O que é pior para um jornalista no carnaval?. A alternativa vencedora foi “Ficar, simplesmente, de plantão enquanto a maior parte das pessoas se diverte”, com 33% dos votos, prova que jornalista não agüenta mais trabalhar em feriadão. Além de morrer de inveja de quem está no bem-bom.
Mas o negócio é ficar em alerta. Com tanto jornalista sem diploma ciscando por aí, estou começando a achar até perigoso folgar nos dias atuais. No carnaval, por exemplo, a RedeTV! montou uma equipe talentosíssima de repórteres sem graduação em jornalismo, com Iris Stefanelli, Carla Perez, Mirella Santos, Viviane Araújo e outras mais. A concorrência está cruel, minha gente, muito cruel.
Aproveito também este post para anunciar o resultado da última pesquisa – O que é pior para um jornalista no carnaval?. A alternativa vencedora foi “Ficar, simplesmente, de plantão enquanto a maior parte das pessoas se diverte”, com 33% dos votos, prova que jornalista não agüenta mais trabalhar em feriadão. Além de morrer de inveja de quem está no bem-bom.
Mas o negócio é ficar em alerta. Com tanto jornalista sem diploma ciscando por aí, estou começando a achar até perigoso folgar nos dias atuais. No carnaval, por exemplo, a RedeTV! montou uma equipe talentosíssima de repórteres sem graduação em jornalismo, com Iris Stefanelli, Carla Perez, Mirella Santos, Viviane Araújo e outras mais. A concorrência está cruel, minha gente, muito cruel.
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Esse estranho desejo de trabalhar
Passado o período do rebolation, o Brasil volta ao seu ritmo normal de trabalho (o enrolation). Contagiado por esse estranho desejo de ser produtivo e economicamente ativo, o jornalista recém-formado e desempregado decide fazer seu currículo e batalhar a entrada no mercado de trabalho. Por que as propagandas de faculdade sempre dizem que o sucesso profissional está garantido?, pensa. Por que todo mundo sempre acredita nessa mentira? Mas agora não adianta conjecturar. O carnaval acabou e o currículo precisa estar pronto. Rapidamente.
Criar um currículo atraente quando se está iniciando a carreira é como seduzir uma daquelas gostosas do carnaval de Salvador sendo feio e pobre. Quase impossível, ou melhor, impossível. Já que não dá para fazer um currículo atraente, o jovem jornalista busca, ao menos, não queimar o filme. Há quem acredite que, hoje em dia, o currículo de um jovem jornalista sem erros grosseiros de Português já é um currículo diferenciado.
O jovem jornalista fica imóvel em frente ao computador. Caraca, o que eu coloco aqui nesta parte de “experiência profissional”?, reflete, intrigado. Será que vale a pena dizer que eu animava festinhas num bufê infantil? Que eu me vestia de Palhaço Carequinha? Isso pode não ter nada a ver com jornalismo, mas mostra que eu sou um cara versátil, não? No final das contas, acabou omitindo a experiência como palhaço. Mencionou apenas o trabalho como office-boy no escritório do pai e o jornalzinho que fazia em casa quando criança.
Navegou pelo Google (ah, o Google!) e visitou páginas com dicas de como fazer um currículo legal. Gostou principalmente do conselho para evitar páginas e mais páginas. Concisão é tudo num currículo, anotou num bloquinho. Quer coisa mais concisa do que o currículo de um iniciante? Ponto para mim, disse em voz alta.
Depois de algum tempo, o currículo estava pronto. Havia descolado um mailing com uma amiga da faculdade com o contato de diversos jornalistas importantes. Agora, era só mandar um e-mail para todos eles suplicando uma oportunidade de trabalho. Vai que dá certo, não? Mas isso seria a missão do dia seguinte. Já era noite quando desligou o computador, com a sensação de dever cumprido. Desceu correndo para a sala e ligou a televisão, empolgado. O rebolation já acabou, mas o Big Brother ainda não.
Criar um currículo atraente quando se está iniciando a carreira é como seduzir uma daquelas gostosas do carnaval de Salvador sendo feio e pobre. Quase impossível, ou melhor, impossível. Já que não dá para fazer um currículo atraente, o jovem jornalista busca, ao menos, não queimar o filme. Há quem acredite que, hoje em dia, o currículo de um jovem jornalista sem erros grosseiros de Português já é um currículo diferenciado.
O jovem jornalista fica imóvel em frente ao computador. Caraca, o que eu coloco aqui nesta parte de “experiência profissional”?, reflete, intrigado. Será que vale a pena dizer que eu animava festinhas num bufê infantil? Que eu me vestia de Palhaço Carequinha? Isso pode não ter nada a ver com jornalismo, mas mostra que eu sou um cara versátil, não? No final das contas, acabou omitindo a experiência como palhaço. Mencionou apenas o trabalho como office-boy no escritório do pai e o jornalzinho que fazia em casa quando criança.
Navegou pelo Google (ah, o Google!) e visitou páginas com dicas de como fazer um currículo legal. Gostou principalmente do conselho para evitar páginas e mais páginas. Concisão é tudo num currículo, anotou num bloquinho. Quer coisa mais concisa do que o currículo de um iniciante? Ponto para mim, disse em voz alta.
Depois de algum tempo, o currículo estava pronto. Havia descolado um mailing com uma amiga da faculdade com o contato de diversos jornalistas importantes. Agora, era só mandar um e-mail para todos eles suplicando uma oportunidade de trabalho. Vai que dá certo, não? Mas isso seria a missão do dia seguinte. Já era noite quando desligou o computador, com a sensação de dever cumprido. Desceu correndo para a sala e ligou a televisão, empolgado. O rebolation já acabou, mas o Big Brother ainda não.
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Pequenas histórias de carnaval
História 1: Baile gay, 4 horas da manhã, jornalista de TV batalha entrevista no meio do salão com um folião (ou foliã) ao som de “Cabeleira do Zezé” em altíssimos decibéis.
- Tá curtindo o baile?
- Não entendi (voz de traveco bem afetada).
- Tá curtindo o baile? (quase gritando)
- Se eu tô curtindo o baile?
- Isso. Carnaval tá muito quente?
- Loucura!
- E qual o seu nome, querida?
- Milão.
- Miltão?
- Milão, moro em Milão.
- Não, perguntei qual o seu nome!
- Ah, o meu nome?
- Sim!
- Sharon Cristina (voz ainda mais afetada).
- Primeira vez?
- Minha primeira vez? Foi com 15 anos.
História 2: Sambódromo, 7 horas da manhã, intervalo da transmissão da TV, narrador conversa com o produtor.
- Pelo amor de Deus, mais um café bem forte! Rápido!
- Calma, ainda faltam duas escolas de samba...
História 3: Camarote na avenida, 3 horas da manhã, jornalista de TV desinformado aborda atriz ao vivo.
- Primeira vez que você acompanha os desfiles?
- Não, não, já é a décima vez.
- Curtiu a Portela? É sua escola de coração, né?
- Querido, sou Mangueira desde criança.
- E a novela na Globo, como está?
- (Risos debochados) Gente, tô na Record há um ano!
História 4: Praça da Apoteose, Quarta-feira de Cinzas, fim da apuração, repórter, em meio a outros 32 jornalistas, tenta entrevistar o presidente da escola campeã.
- Uma palavrinha, presidente... Presidente?... Emoção?... Calma aí, gente, sem empurrar! Mão na bunda, não, mão na bunda, não...
Já comprou o livro do Duda Rangel? Conheça a loja aqui, curta, compartilhe. Frete grátis para todo o Brasil.
- Tá curtindo o baile?
- Não entendi (voz de traveco bem afetada).
- Tá curtindo o baile? (quase gritando)
- Se eu tô curtindo o baile?
- Isso. Carnaval tá muito quente?
- Loucura!
- E qual o seu nome, querida?
- Milão.
- Miltão?
- Milão, moro em Milão.
- Não, perguntei qual o seu nome!
- Ah, o meu nome?
- Sim!
- Sharon Cristina (voz ainda mais afetada).
- Primeira vez?
- Minha primeira vez? Foi com 15 anos.
História 2: Sambódromo, 7 horas da manhã, intervalo da transmissão da TV, narrador conversa com o produtor.
- Pelo amor de Deus, mais um café bem forte! Rápido!
- Calma, ainda faltam duas escolas de samba...
História 3: Camarote na avenida, 3 horas da manhã, jornalista de TV desinformado aborda atriz ao vivo.
- Primeira vez que você acompanha os desfiles?
- Não, não, já é a décima vez.
- Curtiu a Portela? É sua escola de coração, né?
- Querido, sou Mangueira desde criança.
- E a novela na Globo, como está?
- (Risos debochados) Gente, tô na Record há um ano!
História 4: Praça da Apoteose, Quarta-feira de Cinzas, fim da apuração, repórter, em meio a outros 32 jornalistas, tenta entrevistar o presidente da escola campeã.
- Uma palavrinha, presidente... Presidente?... Emoção?... Calma aí, gente, sem empurrar! Mão na bunda, não, mão na bunda, não...
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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
O que seria...
... do jornalista sem a paixão pelo trabalho e o desapego total ao dinheiro? Do Boris Casoy sem a hipocrisia? Do furo sem o faro? Do assessor de imprensa sem o mailing do Maxpress? Da estagiária ambiciosa-incompetente-mas-gostosinha-pra-caralho sem o editor-executivo-mulherengo-devorador-de-ninfetas? Da Fátima Bernardes sem o William Bonner? Do William Bonner sem a Fátima Bernardes? Do Milton Neves sem o merchandising? Da mesa-redonda esportiva sem os erros do juiz? Do jornalismo político em Brasília sem o Congresso? Da Sônia Abraão sem os dramalhões das subcelebridades? Do jornal de domingo sem os anúncios de lançamentos imobiliários? Do salário dos jornalistas sem o mísero dissídio anual? Do fotógrafo endividado sem os frilas de festa de casamento? Do estagiário da redação sem as notinhas e os infográficos? Do César Tralli sem a sua extraordinária capacidade de cultivar bons relacionamentos? Da cobertura das catástrofes sem o interesse mórbido do leitor? Dos eventos empresariais para a imprensa na hora do almoço sem o filé mignon ao molho madeira? Do repórter musical sem o sonho de um dia entrevistar seu ídolo de infância? Do repórter engomadinho que aparece na TV sem o produtor faz-tudo que não aparece na TV? Da moça do tempo sem a doce ilusão de um dia ser a apresentadora do telejornal? Da reunião de pauta do telejornal sem os jornais impressos do dia? Da formação do estudante de jornalismo sem o boteco ao lado da faculdade para o jogo de truco? Do jornalismo investigativo sem a bravura de Zé Bob? Do correspondente internacional sem a Reuters, a Associated Press e os jornais locais? Dos caluniadores e difamadores sem a conversão da pena em cestas básicas? Do ombudsman sem as cagadas da imprensa?
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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
O testemunhal
O intervalo chega ao fim. O apresentador de TV ajeita a gravata segundos antes de seu programa jornalístico voltar ao ar. Em programa ao vivo não se pode vacilar. Mas ele é um cara experiente, não erra. O programa volta. Momento importante. Momento do testemunhal. No teleprompter, o texto sobre a empresa X, previamente preparado, é lido pelo apresentador, com ar de credibilidade. Dois minutos depois, o testemunhal acaba e emissora e apresentador estão um pouco mais ricos.
A história do testemunhal se repete por meses. Neste período, a empresa X é citada várias vezes no noticiário do programa. Curiosamente, sempre de forma positiva.
Até que, num certo dia, o apresentador começa a descer a porrada na empresa X. Faz duras críticas no ar, ao vivo. Chega a pegar pesado. Cadê o respeito com o consumidor?, cobra, em frente às câmeras. Fim do bloco, intervalo. O apresentador solta a gravata e coloca um sorriso leve no rosto, antes sisudo por tanta indignação com a empresa X. Passa pelo diretor e comenta: “Quero só ver se eles não vão voltar a pagar o testemunhal rapidinho.”
A história do testemunhal se repete por meses. Neste período, a empresa X é citada várias vezes no noticiário do programa. Curiosamente, sempre de forma positiva.
Até que, num certo dia, o apresentador começa a descer a porrada na empresa X. Faz duras críticas no ar, ao vivo. Chega a pegar pesado. Cadê o respeito com o consumidor?, cobra, em frente às câmeras. Fim do bloco, intervalo. O apresentador solta a gravata e coloca um sorriso leve no rosto, antes sisudo por tanta indignação com a empresa X. Passa pelo diretor e comenta: “Quero só ver se eles não vão voltar a pagar o testemunhal rapidinho.”
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Pais
Mãe: Que cara é essa? Você está muito estranho hoje...
Pai: Nada, não.
Mãe: Como se eu não te conhecesse! Fale o que te aborrece.
Pai: Nada. Já disse.
Após alguns segundos de silêncio.
Pai: É a Cris, nossa filha. Não estou gostando dessa idéia dela trabalhar na sucursal de Brasília do jornal, cobrir o Congresso Nacional...
Mãe: Mas é o que ela sempre sonhou! E nossa filha já é bem crescidinha.
Pai: Ela estava tão bem aqui, fazendo matéria de comportamento...
Mãe: Ela sempre odiou isso. É a grande chance dela!
Pai: Mas ela vai ficar lá, no Congresso, no meio daqueles... no meio daqueles...
Mãe: No meio daqueles...
Pai: Daqueles deputados, daqueles senadores!
Mãe: E qual o problema?
Pai: Qual o problema? Essa gente é perigosa. São piores que o pessoal da cracolândia!
Mãe: Deixa de bobagem, homem!
Pai: Eu conheço a Cris, vai querer denunciar podridão, mensalão, e vão tentar fazer mal pra nossa menina. A violência contra jornalista é absurda no Brasil.
Mãe: Já disse, nossa filha é adulta, sabe com quem se mete, sabe se defender. Por favor, não vá estragar o sonho dela, por favor!
Pai: Tá bom, tá bom...
Mais um tempo de silêncio, agora mais longo.
Mãe: Continua chateado, hein? Você já não disse que “estava bom”? O que foi agora?
Pai: Acho que não revelei o pior, o que mais me assusta.
Mãe: E o que é? Nossa filha ser corrompida? Este risco ela também não corre, viu?
Pai: Você já imaginou se a nossa filhota fica... se a nossa filhota fica grávida de um senador? E pior: já imaginou se ela fica grávida de um senador alagoano?
Pai: Nada, não.
Mãe: Como se eu não te conhecesse! Fale o que te aborrece.
Pai: Nada. Já disse.
Após alguns segundos de silêncio.
Pai: É a Cris, nossa filha. Não estou gostando dessa idéia dela trabalhar na sucursal de Brasília do jornal, cobrir o Congresso Nacional...
Mãe: Mas é o que ela sempre sonhou! E nossa filha já é bem crescidinha.
Pai: Ela estava tão bem aqui, fazendo matéria de comportamento...
Mãe: Ela sempre odiou isso. É a grande chance dela!
Pai: Mas ela vai ficar lá, no Congresso, no meio daqueles... no meio daqueles...
Mãe: No meio daqueles...
Pai: Daqueles deputados, daqueles senadores!
Mãe: E qual o problema?
Pai: Qual o problema? Essa gente é perigosa. São piores que o pessoal da cracolândia!
Mãe: Deixa de bobagem, homem!
Pai: Eu conheço a Cris, vai querer denunciar podridão, mensalão, e vão tentar fazer mal pra nossa menina. A violência contra jornalista é absurda no Brasil.
Mãe: Já disse, nossa filha é adulta, sabe com quem se mete, sabe se defender. Por favor, não vá estragar o sonho dela, por favor!
Pai: Tá bom, tá bom...
Mais um tempo de silêncio, agora mais longo.
Mãe: Continua chateado, hein? Você já não disse que “estava bom”? O que foi agora?
Pai: Acho que não revelei o pior, o que mais me assusta.
Mãe: E o que é? Nossa filha ser corrompida? Este risco ela também não corre, viu?
Pai: Você já imaginou se a nossa filhota fica... se a nossa filhota fica grávida de um senador? E pior: já imaginou se ela fica grávida de um senador alagoano?
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
O Twitter e a barriga jornalística
Barriga não é apenas a saliência arredondada (e ridícula) cultivada por muitos jornalistas que comem e bebem demais. Barriga é a informação falsa divulgada como verdadeira por jornalistas que não têm o cuidado de checar o que lêem ou escutam por aí. Engolem qualquer abobrinha pelo furo imediato. Um caso recente é o da Jovem Pan e a corrida de cadeiras de roda de Hebe Camargo no hospital, fato extraído de um perfil fake da apresentadora no Twitter.
É claro que a barriga jornalística existe desde o surgimento da imprensa, quando Hebe Camargo ainda promovia corrida de carrinhos de bebê na maternidade. Mas tal mancada tende a aumentar com o uso das mídias sociais como fonte de informação. Por isso, criei uma lista de frases do Twitter, de perfis falsos, que não podem ser usadas em uma matéria. Certas declarações jamais seriam dadas pelos famosos abaixo. O negócio é manter o desconfiômetro ligado.
“Admito que a cidade de São Paulo não está preparada para enfrentar as enchentes.”
Twitter do Gilberto Kassab
“Não sei o que seria da limpeza das ruas do meu bairro sem o nobre trabalho dos garis.”
Twitter do Boris Casoy
“Considero o Lula o melhor presidente que o Brasil já teve.”
Twitter do Diogo Mainardi
“Nunca comi pilhas no jantar, pois, à noite, elas são muito indigestas.”
Twitter do Rafael Ilha
“Estou muito feliz. No treino de hoje, com a nova Williams, cheguei na frente de meu companheiro de equipe.”
Twitter do Rubens Barrichello
“Desde que comecei a tomar aquele comprimidinho azul, as mulheres dizem que pareço um jovem de 18 anos.”
Twitter do Oscar Niemeyer
“Já tive mulheres de todas as cores. De várias idades, de muitos amores.”
Twitter do Richarlyson
É claro que a barriga jornalística existe desde o surgimento da imprensa, quando Hebe Camargo ainda promovia corrida de carrinhos de bebê na maternidade. Mas tal mancada tende a aumentar com o uso das mídias sociais como fonte de informação. Por isso, criei uma lista de frases do Twitter, de perfis falsos, que não podem ser usadas em uma matéria. Certas declarações jamais seriam dadas pelos famosos abaixo. O negócio é manter o desconfiômetro ligado.
“Admito que a cidade de São Paulo não está preparada para enfrentar as enchentes.”
Twitter do Gilberto Kassab
“Não sei o que seria da limpeza das ruas do meu bairro sem o nobre trabalho dos garis.”
Twitter do Boris Casoy
“Considero o Lula o melhor presidente que o Brasil já teve.”
Twitter do Diogo Mainardi
“Nunca comi pilhas no jantar, pois, à noite, elas são muito indigestas.”
Twitter do Rafael Ilha
“Estou muito feliz. No treino de hoje, com a nova Williams, cheguei na frente de meu companheiro de equipe.”
Twitter do Rubens Barrichello
“Desde que comecei a tomar aquele comprimidinho azul, as mulheres dizem que pareço um jovem de 18 anos.”
Twitter do Oscar Niemeyer
“Já tive mulheres de todas as cores. De várias idades, de muitos amores.”
Twitter do Richarlyson
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
A cartomante
Acordei com o telefone. Era uma amiga, também jornalista, com uma proposta indecente. Ela queria me levar a uma cartomante, mãe Alzira. Insistiu, disse que a mulher era boa, que acertava tudo e sempre. Desde que li o conto “A cartomante”, do Machado de Assis, ainda na juventude, passei a desacreditar nessa gente que adivinha o futuro. E mais: estamos velhos demais para novas ilusões, disse à minha amiga. Mas ela insistia. As cartas poderiam dar uma pista sobre meu futuro profissional, quando voltaria a arranjar um novo trabalho legal. Será que rola um “trago seu emprego de volta em 10 dias?”, pensei.
- Na semana passada, mãe Alzira me disse que o meu ex-namorado, aquele que tinha me abandonado, voltaria a me procurar. Batata, Duda! Anteontem, ele reapareceu em casa!
Não teve jeito. Foi o tempo de tomar um banho e estávamos, minha amiga e eu, no metrô, rumo à casa da mãe Alzira. Eu fazia uma imagem clássica da vidente, estilo cigana, roupa colorida, maquiagem forte. Mas mãe Alzira era clean até demais.
- É problema de amor, meu querido?
- É problema de emprego, respondeu minha amiga. Ele está procurando emprego.
Mãe Alzira puxou umas três cartas, virou uma delas na mesa.
- Estou vendo um novo emprego para você, meu querido. E é coisa boa, salário alto, cargo importante, talvez diretor.
- Acho que a senhora tá fazendo confusão. Sou jornalista. Talvez as suas cartas não saibam, mas jornalista ganha mal demais.
- Está aqui, meu querido. Sabe que arcano é esse? Ele indica sucesso profissional, grande prosperidade financeira. Você vai brilhar muito no seu novo emprego.
- Me desculpe, mãe Alzira, mas está rolando um grande mal-entendido aqui. Já falei, sou jornalista, não sou engenheiro, nem fiz MBA em Marketing ou Gestão Estratégica...
- De repente, você vai mudar de área. Novos caminhos...
- Não consigo mudar. Eu adoro a minha profissão, mesmo ganhando mal ou nem ganhando.
Poucos minutos depois, minha amiga e eu estávamos novamente no metrô, sentados lado a lado, calados.
- Você ficou bravo comigo, né, Duda? Não curtiu a mãe Alzira.
- Achei a experiência ótima. Está me dando até inspiração para escrever um post sobre isso no blog.
Ela sorriu. E novamente ficamos calados.
- E você não me contou sobre a volta de seu ex-namorado! Estão juntos novamente?
- Então, Duda, ele voltou anteontem para a nossa casa, mas foi só para pegar um joystick do videogame que ele tinha esquecido. Disse que rolaria um “supercampeonato” com os amigos. A mãe Alzira acertou que ele voltaria, só omitiu essa parte do joystick...
Olhamos um para outro e gargalhamos, gargalhadas nada discretas no metrô.
- Na semana passada, mãe Alzira me disse que o meu ex-namorado, aquele que tinha me abandonado, voltaria a me procurar. Batata, Duda! Anteontem, ele reapareceu em casa!
Não teve jeito. Foi o tempo de tomar um banho e estávamos, minha amiga e eu, no metrô, rumo à casa da mãe Alzira. Eu fazia uma imagem clássica da vidente, estilo cigana, roupa colorida, maquiagem forte. Mas mãe Alzira era clean até demais.
- É problema de amor, meu querido?
- É problema de emprego, respondeu minha amiga. Ele está procurando emprego.
Mãe Alzira puxou umas três cartas, virou uma delas na mesa.
- Estou vendo um novo emprego para você, meu querido. E é coisa boa, salário alto, cargo importante, talvez diretor.
- Acho que a senhora tá fazendo confusão. Sou jornalista. Talvez as suas cartas não saibam, mas jornalista ganha mal demais.
- Está aqui, meu querido. Sabe que arcano é esse? Ele indica sucesso profissional, grande prosperidade financeira. Você vai brilhar muito no seu novo emprego.
- Me desculpe, mãe Alzira, mas está rolando um grande mal-entendido aqui. Já falei, sou jornalista, não sou engenheiro, nem fiz MBA em Marketing ou Gestão Estratégica...
- De repente, você vai mudar de área. Novos caminhos...
- Não consigo mudar. Eu adoro a minha profissão, mesmo ganhando mal ou nem ganhando.
Poucos minutos depois, minha amiga e eu estávamos novamente no metrô, sentados lado a lado, calados.
- Você ficou bravo comigo, né, Duda? Não curtiu a mãe Alzira.
- Achei a experiência ótima. Está me dando até inspiração para escrever um post sobre isso no blog.
Ela sorriu. E novamente ficamos calados.
- E você não me contou sobre a volta de seu ex-namorado! Estão juntos novamente?
- Então, Duda, ele voltou anteontem para a nossa casa, mas foi só para pegar um joystick do videogame que ele tinha esquecido. Disse que rolaria um “supercampeonato” com os amigos. A mãe Alzira acertou que ele voltaria, só omitiu essa parte do joystick...
Olhamos um para outro e gargalhamos, gargalhadas nada discretas no metrô.
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