segunda-feira, 29 de junho de 2009
Sombras e gargalhadas sádicas
- Uma esmola pro ceguinho, pelo amor de Deus. Pode dar dez centavos, senhor, cinco centavos, o que tiver. Deus vai lhe devolver em dobro.
Eu conheço essa voz. Sim, eu conheço. Chego mais perto e identifico o sujeito. O ceguinho é o Amaral, meu antigo colega de redação, o editor de Economia. Logo ele, um cara fino, de ações sempre nobres, elegantes.
- Amaral, desde quando você é cego, rapaz?
- Duda?! Ô, meu amigo, fala baixo, por favor.
Amaral me conta que, desde que o diploma para os jornalistas perdeu o seu valor, ele e vários outros velhos colegas perderam o emprego, perderam tudo. Ele poderia estar roubando, como me explica, mas preferia pedir ajuda pro ceguinho.
- Triste é o caso do Fonseca, o repórter de Turismo. Lembra dele, Duda? Sem diploma, caiu na marginalidade. Vivia aqui na praça assaltando aposentados até ser preso.
Fico chocado com a história do Fonseca. Depois, o Amaral me revela histórias ainda piores de outros amigos, que fazem de tudo para sobreviver num mundo sem diploma, gente vendendo DVD pirata nas ruas, vendendo o corpo, a alma.
Minha cabeça começa a girar e, de repente, não estou mais naquela praça triste. Estou agora num grande campo aberto, um gramado imenso e bonito. Vejo os ministros do STF felizes. Eles pulam, riem, viram cambalhotas, como crianças ou loucos de um sanatório. Gilmar Mendes saltita de mãos dadas com o Daniel Dantas. De repente, quem aparece? O office-boy que roubou a minha mulher! Sádico e cheio de soberba, ele gargalha e me mostra um diploma do curso de farramenteiro do Senai. “O meu vale, o seu, não; o meu vale, o seu, não.”
Acordo assustado, suado, cheio de tremedeiras.
- Filhos-da-puta!
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Meu caro diploma
Vamos considerar, apenas para efeito de cálculo, que a mensalidade de um curso de jornalismo custe 800 reais. Em um ano, um estudante gastaria 8 mil reais (10 mensalidades). Em quatro anos, esta facada subiria para 32 mil, sem contar gastos com transporte, alimentação, livros e cachaça (mais uns 5 mil reais). Tudo isso para conquistar o precioso diploma.
É certo que, além do canudo, o aluno adquire conhecimentos para toda a vida. Eu, por exemplo, aprendi a jogar truco e nunca mais esqueci. Mas, cá entre nós, 37 mil reais por um pedaço de papel que não vale mais nada é coisa pra cacete. Então fica a pergunta: o que você teria feito com a grana investida no diploma? A nova enquete está no ar. Custa nada participar!
A pesquisa que acabou de ser encerrada – Você acha que um jabá pode corromper um jornalista? – teve como grande vitoriosa a alternativa “Não. Acredito na ética, apesar de ganhar um salário de merda”, com 41% dos votos. Isso não significa, porém, que estes jornalistas cheios de nobres intenções recusem o presentinho. Apenas não deixarão que o mimo influencie no texto final, quer dizer, acho que não deixarão, sei lá, mil coisas...
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Pobre, mas limpinho

Meio século depois, é possível encontrar Marcellos aos montes por aí. Como tem jornalista que adora bajular uma atriz famosa ou uma estrela do futebol. Parece que, por um momento, deixam toda a sua insignificância de lado e se tornam importantes. A Via Veneto de Fellini, cheia de celebridades, são hoje as boates badaladas de Rio e São Paulo, o Projac, a porta das igrejas em dia de casamento de gente distinta como o Roberto Justus.
Ser amigo de um famoso pode garantir aos jornalistas algumas facilidades, como entrar em uma festa reservada a poucos ou o acesso a um camarote vip. Já vi repórter esportivo se aproveitar de um suposto bom relacionamento com um jogador de futebol para pedir dinheiro emprestado. Ou para ir a baladas com os boleiros só para impressionar as marias-chuteiras.
Sou um jornalista miserável, sim, do que tipo que aluga DVDs de catálogo, mas mantenho a minha dignidade intacta. Isso significa dizer que jamais precisarei elogiar o “corpinho” da Susana Vieira só para ficar amigo de tal senhora. Deus me livre um dia ser amigo de tal senhora. Sou pobre, mas sou limpinho.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Domingo eu quero ver o domingo acabar
9:30: Vejo a foto do Nestor no porta-retratos ao lado de minha cama. Era o meu fim de semana com ele, mas a ex viajou e levou o pobrezinho junto. O juiz saberá disso.
10:15: Café da manhã na padoca. O pedido de sempre: pão na chapa e um pingado.
10:53: Compro jornais do dia na banca e sigo de volta ao meu apê.
11:15: Deitado no sofá, descubro novos atos secretos, novas fraudes e novas picaretagens em geral no Senado: e eu fazendo mau juízo do Irã.
12:00: Um amigo me telefona, conversamos um monte de besteira. Ele me lembra que a Telefônica está proibida de vender o Speedy. Morremos de rir.
13:30: Esquento, no microondas, um resto de lasanha perdido na geladeira há uns três ou quatro dias. Rezo para que o rango não me faça mal.
14:00: Queria ir ao cinema, gastando pouco naturalmente (algo como um ciclo de filmes poloneses a R$ 2 o ingresso), mas estou indisposto. Decido ficar em casa. Procuro um sal de fruta Eno.
15:10: Corro ao banheiro desesperadamente. Lasanha maldita.
15:12: Sentado no trono, jogo sudoku em meu celular, para aliviar a tensão.
15:30: Bem, amigos da Rede Globo! Me preparo para assistir a Brasil versus Itália em todas as suas emoções, grande clássico do futebol mundial.
15:40: Zzzzzzzzzzzzzzzzz...
18:00: Acordo assustado. Perdi o jogo. O Brasil já não me empolga mais. Caraca, como a camisa do Faustão é feia!
18:12: Corro para o banheiro. Nunca mais como resto de lasanha perdido há uns três ou quatro dias na geladeira.
18:14: Sentado no trono, lembro o nome da mulher que poderia ter roubado os meus rins: Rita, dona de uma loja de roupas íntimas num shopping. Ou será que ela era vendedora?
19:00: Vejo o meu diploma de jornalista pendurado na parede do quarto: descanse em paz, meu amigo.
19:15: Tomo três comprimidos de Floratil 200 de uma única vez para tentar salvar minha noite. Reboco até a alma.
20:25: Não estou com saco de ler livros hoje. Checo os e-mails.
21:30: Vejo o reality show A Fazenda: quem é Theo Becker?
22:00: Desligo a TV e fico ouvindo música, de bobeira. Faço um monte de reflexões e decido que preciso me alimentar melhor. Vou começar a cozinhar, afinal jornalistas devem saber cozinhar. Tomo um banho.
23:56: Deitado em minha cama, tento dormir, mas não consigo. Lembrei: Rita, a que não roubou os meus rins, é a vendedora de Herba Life. Quem é a mulher do shopping mesmo?
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Diploma, ascensão e queda
A única certeza que tenho é que, a partir de hoje, serei cozinheiro profissional, inspirado nas sábias palavras do Gilmar Mendes. Sem diploma, é claro. Aliás, alguém pode me ensinar aquela técnica de cortar legumes de uma forma bem rapidinha?
segunda-feira, 15 de junho de 2009
A minha retrospectiva
Era o despertar de um jornalista. Ao longo do ano, eu guardava jornais e revistas com informações sobre o Brasil e o mundo – nessa época, não havia descoberto ainda a Playboy, a Ele&Ela e as preciosidades suecas. Lia tudo o que podia, selecionava os fatos mais importantes, definia a pauta do programa, editava os textos e redigia as laudas para leitura. Tudo isso muitos anos antes de aprender jornalismo na faculdade. Me preparava para o grande dia: a apresentação da minha retrospectiva, que podia ser feita em qualquer parte da casa, desde que existisse uma mesa para ser a bancada.
Eu usava o paletó de um terno emprestado de meu pai, gigante para mim. Na parte de baixo, apenas bermuda e chinelos, afinal era assim que diziam que trabalhavam os apresentadores de TV. Adotei óculos, para dar mais seriedade ao trabalho. Não havia câmeras na minha frente; apenas uma platéia, ao vivo, composta por parentes e alguns amigos da família. Gente que fazia o maior esforço para estar ali.
– Esse menino diz que seu sonho é ser jornalista. Isso é coisa de vagabundo! Ele não quer é estudar – murmurava uma tia solteirona, pelos cantos da casa.
Um dos meus maiores apoiadores era meu avô, que se dizia um visionário.
– Esse moleque ainda vai ser um jornalista famoso, trabalhar na Globo e comer toda a mulherada.
Como ele vibrava com o meu “boa noite” na abertura de cada edição do resumão de notícias, ano após ano. Para mim, aquele era também um momento mágico.
Aos poucos, a platéia e o meu desejo de apresentar retrospectivas foram diminuindo. Com o crescimento dos pêlos no saco, meus interesses de fim de ano mudaram. O programa acabou, mas mantive viva a paixão pelo jornalismo, com a esperança de um dia cumprir a profecia do vovô.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Em busca do feriado perdido
Ah, quantos Natais eu já passei numa redação. Quantos plantões de carnaval. Tem quem goste, é claro, mas eu odiei cobrir certa vez o desfile no sambódromo. Era um foca, louco para estar na praia com os amigos, mas tive de ficar na avenida, entrevistando populares ensandecidos, aquele barulho desgraçado, um cheiro insuportável de mijo na dispersão. Trabalhar no carnaval é um porre. E eu que, quando criança, sonhava em cobrir, algum dia, o concurso A Mais Bela Mulher Casada, no Ilha Porchat.
Nas redações, a definição de quem trabalha e de quem folga nos feriados é uma verdadeira batalha. Escalas e mais escalas, privilégios para uns, reclamações dos outros. Cansei de ouvir e dizer frases do tipo “já fiz plantão no carnaval, meu amigo, nem fodendo que eu vou trabalhar na Páscoa” ou “o problema é teu se você não vê a tua querida mãezinha há cinco anos; eu vou folgar no Natal e ponto final”.
Hoje, todos os dias são feriados para mim, mas o feriado desta semana, de Corpus Christi, será especial, porque terei quatro dias com o Nestor. Estou com a maior saudade daquele cachorro danado. Se o frio continuar, vamos passar todos os dias debaixo do edredom, comendo pipoca e vendo uns filminhos. O Nestor adora uns filminhos.
Aos amigos jornalistas que vão trabalhar no feriadão, muita paciência e a fé de que nenhuma tragédia vai acontecer, ninguém famoso morrerá. Descansarei por vocês!
segunda-feira, 8 de junho de 2009
As agruras de um assessor
A opção "Ser obrigado a conquistar uma puta matéria, de página inteira ou na Globo, mesmo sem ter um puta assunto para divulgar" venceu, com 43% dos votos. Na segunda colocação, bem coladinha, ficou a alternativa "Reunir uma galera numa coletiva sem graça, sem coffee break, numa manhã de chuva", com 39%. Como comentou uma leitora aqui neste blog, coletiva que bomba só no cinema ou na novela Celebridade.
A nova enquete, que já está no ar, quer saber se o jabá, aquele famoso presentinho que os jornalistas ganham de vez em quando, é um inocente mimo ou um eficaz meio de sedução ou corrupção. Bons votos a todos.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Sobre desgraças e cervejas
Dias atrás, uma amiga e leitora me enviou uma matéria sobre o fim da Gazeta Mercantil. Sexta-feira, dia 29 de maio, circulou sua última edição. Nelson Tanure, dono da CBM, uma espécie de Lex Luthor tupiniquim, decidiu romper o contrato pelo uso da marca Gazeta Mercantil. Os jornalistas ganharam férias coletivas e a promessa de que receberão todos os seus direitos. Alguns ainda podem ser aproveitados em outras publicações de Tanure. É óbvio que os jornalistas acreditaram na promessa assim como acreditam no Papai Noel.
Mas o que mais chamou a atenção na tal matéria, da Folha de S.Paulo, se não me engano, foi o seguinte trecho: Apesar de acreditarem ser difícil a volta da publicação, os funcionários tentaram evitar o clima pesado no último dia. Após o fechamento da última edição do jornal, na noite de quinta (dia 28), houve cervejada na redação. Segundo jornalistas, o clima era de "dever cumprido e cabeça erguida”.
Isso que é despedida honrosa: encher a cara de cerveja.
Além do dever cumprido, eles devem ter celebrado também a libertação de Tanure. Ou a capacidade desenvolvida ao longo dos anos de enfrentar tanta coisa ruim. Com o tempo, nós, jornalistas, criamos anticorpos poderosíssimos contra desgraças em geral!
quarta-feira, 3 de junho de 2009
E depois criticam a mãe Dinah
A falta de informação aliada à necessidade de furar a concorrência é uma mistura desastrosa. Choveu especialista comentando o que ninguém sabe ao certo o que aconteceu. Hipóteses aqui, suspeitas ali, análises vazias acolá. Um jogo de adivinhações. A princípio, um raio poderia ter sido a causa principal da “queda”. Horas mais tarde, essa versão passou a ser absurda. Já falaram em pane elétrica, zona de convergência intertropical, turbulência, bomba. Daqui a pouco a culpa será do Dunga. Depois criticam quando a mãe Dinah fala alguma besteira.
É fato que, no primeiro dia da cobertura, era mais fácil encontrar um político honesto em Brasília do que algum dado oficial sobre a tragédia. Nessas horas, o problema para o jornalista é ter a obrigação de informar o público a todo o momento sem ter nada de novo para acrescentar. Vira um vale-tudo danado. Alguns coleguinhas chegaram a matar 80 brasileiros; depois este número caiu para 59, 58. Jornalista é ruim de matemática mesmo!
A carga de dramaticidade também é proporcional ao tamanho da tragédia. O desespero dos familiares em busca de notícias nos aeroportos, por exemplo, sempre foi um prato cheio para os urubus de plantão, principalmente de programas sensacionalistas. A Air France, pelo menos, reservou uma área especial para receber parentes e amigos dos passageiros e não deixá-los tão expostos. Bem, podem meter o pau na imprensa, mas o público também adora se deliciar com todos os detalhes da desgraça alheia. Coisa de ser humano.
E como não poderia ser diferente, a partir de agora vão pipocar as matérias sobre segurança nos vôos, o papel das autoridades, a responsabilidade das empresas aéreas e aquele blablablá todo que já conhecemos. Depois, a gente esquece a tragédia e tudo volta ao normal, sem soluções para os problemas. A vida e a pauta diária seguem. Até a queda do próximo avião.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
O plano B, o C, o D...
O jovem, confuso, às vésperas de prestar o vestibular, acaba de deixar o encontro de orientação vocacional do colégio. “Se nada der certo, eu viro hippie”, pensa. Na semana seguinte, após conversar com uma psicóloga sobre o mesmo assunto, faz nova reflexão: “Se nada der certo, inclusive ser hippie, eu viro jornalista”. Dias depois, já mais seguro de seu futuro, decide que quer mesmo um curso de jornalismo. Na vida, teremos sempre um plano B ou C ou D. Se nada der certo, inclusive ser hippie e jornalista, esse jovem, que já não será mais tão jovem, ainda poderá virar professor de jornalismo.
Ser professor de jornalismo hoje em dia tem sido a salvação para muita gente. Se faltam empregos nas redações, invadimos as assessorias de imprensa; se faltam empregos nas assessorias, invadimos as universidades. Ser professor de jornalismo é mais um campo profissional ou um complemento de renda. Alguns mais jovens terminam a graduação e já vão fazer um mestrado, porque, assim, terão mais chance em uma carreira docente.
Eu mesmo, jornalista desempregado, já pensei algumas vezes em dar aula. Seria um ótimo professor? Talvez sim. Ou prestaria um grande desserviço ao ensino superior brasileiro. Abaixo, transcrevo um cruel embate que rolou recentemente em minha consciência, entre um Duda que quer ser professor e um Duda que acha a idéia a maior roubada.
Duda que quer ser professor: O lance é dar aula, cara! Imagine a grande oportunidade que nós teremos de transmitir conhecimento aos jovens. Isso é o que vale a pena na vida!
Duda que não quer: Mas como? Numa sala de 80 alunos? Ninguém vai nos ouvir...
Duda que quer: Se metade ouvir já estará ótimo. Você não percebe a nobreza da missão?
Duda que não quer: Metade vai estar ouvindo música num Ipod durante a nossa aula! E a outra metade, sei lá...
Duda que quer: Tá bom. Então esqueça o lance nobre da coisa e sejamos práticos. Há quanto tempo estamos em atraso com as contas da luz e da água? E o aluguel?
Duda que não quer: Mas você acha que vamos ganhar muito dinheiro como professor? Pagam uma miséria! E, além disso, não temos nem mestrado.
Duda que quer: Tem um monte de faculdade que não exige mestrado. Até preferem, sabia?
Duda que não quer: Não vamos dar aula. A verdade é que não gostamos disso.
Duda que quer: Você não gosta. Fale apenas por você!
Duda que não quer: Tá bom, eu não gosto.
Alguns segundos de silêncio...
Duda que quer: E as menininhas? Nem pelas menininhas? Imagine quantas assistiriam às nossas aulas, ávidas por aprender jornalismo e algo mais...
Duda que não quer: (riso sarcástico) Estamos velhos, estamos velhos!
Duda que quer: Viado! E falo apenas de você, é claro!
quinta-feira, 28 de maio de 2009
A ditadura da centimetragem
Por muito tempo, o que imperou absoluto no mercado foi o modelo da centimetragem, que é medir na régua o que foi publicado nas colunas de texto de jornais e revistas. Eu, desde muito jovem, sempre fui contra essa coisa de contar os centímetros, principalmente quando eu tomava banho com os meus amigos no vestiário do clube após o futebol. Mas essa é uma outra história e não é o caso lembrá-la em detalhes neste post.
O importante para os assessores de imprensa, nesses anos todos, foi juntar o máximo de centímetros possíveis para colocar no relatório final a ser entregue ao cliente. O tamanho era documento, sim! A polêmica deste modelo começou quando alguém, um pouco mais perspicaz, resolveu fazer a seguinte perguntinha: vale mais uma notinha bem pequena numa coluna badalada de um jornal importante ou uma página inteira em um jornal sem tanto prestígio? A coisa mudou. Começaram a desconfiar daquela exuberância toda dos centímetros. E eu voltei a tomar banho em público, feliz e sem constrangimentos.
Um outro modelo de mensuração de resultados, mais recente, é o modelo do “positivo” e “negativo”. As matérias publicadas passam por um critério subjetivo de avaliação: essa aqui é ótima para a imagem da empresa (positiva), aquela outra queima o filme da empresa (negativa). E tem também a coluna do meio, a matéria “neutra”. E qual a polêmica suscitada por este modelo? O que é “bom” para a empresa pode ser “ruim” para os seus funcionários, para os clientes, para a comunidade.
Hoje, estudiosos da comunicação fazem todos os esforços para tentar descobrir o inovador modelo que revolucionará o trabalho das assessorias de imprensa. Comentam até que as pesquisas estão mais avançadas do que as relacionadas à cura da aids. Eu, que sou muito desconfiado, prefiro aguardar sentado. E, no mais, desde que perdi o emprego, a única coisa que tenho mensurado é a circunferência da minha barriga. Essa história de almoçar e jantar de verdade acrescentou alguns centímetros a ela. Será que isso é positivo ou negativo?
terça-feira, 26 de maio de 2009
Quem é morto sempre aparece
O velhinho levantava cedo para pegar o jornal. Nem via a manchete de capa. Seguia diretamente para a seção dos mortos. Conferia todos os nomes, um por um, de homens e mulheres, de todas as idades. “Coitado, esse foi cedo, tinha só 21 anos”, lamentou certa vez. Outros, privilegiados, viviam quase um século. Por que tamanha injustiça? Ele mesmo admitia que estava no lucro. Já passava dos 90, apesar de sua queda pelo álcool.
Nonô sempre imaginou como seria o seu obituário. Escreveu o texto e orientou a família sobre a maneira como queria ver o anúncio fúnebre no jornal. Tinha de ser em letras garrafais, em negrito, para que todos os vivos soubessem de sua partida. “Aposentado não enxerga essa letrinha de merda que publicam por aí”, dizia.
Numa manhã, Nonô pegou o jornal e não encontrou a tal seção dos mortos. Teve uma sensação estranha. Em quase 20 anos, isso nunca tinha acontecido. Pegou o telefone e ligou para a redação. A voz estava embargada. Ficou sabendo, então, que o velhinho que fazia o obituário tinha morrido na tarde anterior. Desligou o telefone e foi para o quarto dormir. Desejava acordar só na manhã seguinte. Naquele dia, nem bebeu sua cachaça.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
O que eu ganho com isso?
A pauta começa cedo. Segue pela tarde. Muito trabalho. Pressão. Sem tempo para almoço. Apenas uma coxinha. Cheia de gordura. Correria. Uma entrevista aqui. Outra ali. Um puta calor. Entro no carro do jornal. Sem ar-condicionado. Trânsito caótico. Motorista xinga. Fotógrafo reclama. Fumaça. Buzinas. Motoboys. Olho para o relógio. Uma coletiva me espera. Será que chego? Vontade de ir ao banheiro. Número 1. Sem chances. Aperto. Lentidão. O tempo passa. Surgem os atalhos. Agora vai. Checo o endereço do hotel. Estamos perto. Fecha o farol. Caralho! Sempre nessas horas! Destampo a caneta. Tampo a caneta. Destampo de novo. A porra do farol não abre. Vendedores enchem o saco. Abre o farol. Arrumo minha roupa. Pego o bloquinho. Chegamos. Corro. Fila na porta. Credenciamento. Entro. Cansaço. Bafo de coxinha. Nem escovo os dentes. Coletiva atrasa. Passo no banheiro. Alívio. Tiro uma salsinha dos dentes. Com o dedo. Volto pro auditório. Repórteres armados. Fotógrafos brigam por espaço. Barulho. Pedidos de silêncio. Tudo pronto. Perguntas. Respostas. Réplicas. Tréplicas. Intromissões. Discussões. Todos querem falar. Que zona! Questiono. Anoto. Reflito. Fim de papo. Vôo pro carro. Pressa. Mais trânsito. Mais fumaça. Mais buzinas. Mais motoboys. O tempo é curto. Pego o bloquinho. Rascunho o lead. Letra horrível. Penso na matéria. Mordo os lábios. Vontade de ir ao banheiro. Número 2. Aperto. Que bosta! Logo agora! Boca seca. Pressa. O farol fecha. Mais vendedores. Limpadores de vidro. Espera. Olho para o relógio. O farol abre. O motorista corre. Falta pouco. Chego ao jornal. Corro. Fila no elevador. Caralho! Espero. Entro. Aperto. Solto um peido. Disfarço. Subo. Desço. Corro. A redação está cheia. Fechamento. O tempo é ainda mais curto. Terei muito espaço? Terei pouco espaço? Tensão. Corro de novo. Tropeço. Paro. Vejo meu editor.
– Duda, relaxa, tua pauta caiu.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
O lance é um dia visitar o Sebrae
Na segunda colocação, ficou a alternativa “Torraria o FGTS numa viagem à Índia de descoberta do verdadeiro ‘eu’”, com 27% dos votos. Além da proposta espiritual, muitas jornalistas (e alguns do sexo masculino) aproveitariam a viagem para tentar descobrir também o endereço do Raj, o indiano gostosão da novela da Globo. Tenho uma amiga que confessou ter orgasmos múltiplos toda vez que o cara dá aquela balançadinha de cabeça. Hare baba!
E menção honrosa para a alternativa “Viveria de pequenos golpes em gente de bem”, que amealhou incríveis 22% dos votos, uma clara evidência de que por trás do ser humano sofrido que é o jornalista há também o nobre ideal de se dar bem nessa vida, independentemente dos meios.
A nova pesquisa, já no ar, quer saber qual o maior perrengue enfrentado por um assessor de imprensa, o que mais aflige a alma deste pobre profissional. Como nada é fácil para nós, a disputa promete ser grande outra vez. Façam suas apostas!
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Viciado em nariz-de-cera
– Sou um jovem e angustiado repórter de política. De jornal diário.
– Entendo, senhor.
– Não consigo escrever um lead conciso.
– Entendo, senhor.
– Sempre achei essa coisa de "o que, quem, quando, onde, como e por quê" a maior cascata. Deixa nosso texto pobre, limita a criatividade.
– Mas os textos jornalísticos precisam ser claros e objetivos, senhor.
– Quando abro um arquivo novo no computador, o espaço vazio me desperta a volúpia de escrever sem parar.
– A simplicidade exige técnica, senhor.
– Já escrevi leads de mais de 20 linhas.
– O caso do senhor parece grave, mas confie em nós. Já curamos alguns figurões da imprensa.
– Figurões?
– Esse mal não é exclusivo dos focas. Alguns colegas experientes adoram divagar, romancear. Talvez sejam escritores frustrados.
– Na redação, sou alvo de chacotas. Meu apelido é Nariga. Dizem que sou o rei do nariz-de-cera.
– O senhor já procurou tratamento antes?
– Uma vez, participei de um grupo de ajuda chamado "Repórteres que escrevem demais". Aqueles encontros eram uma enrolação. Fiquei pior.
– Imagino, senhor.
– Estou desesperado. Vou desistir do Jornalismo para estudar Direito.
– Tente se controlar, senhor.
– Vou me inscrever hoje mesmo numa daquelas faculdades que dão diploma em dois anos.
– Fique tranqüilo, por favor. Está sozinho em casa?
– Como advogado, poderei escrever páginas e mais páginas de petições, processos...
– Procure manter o equilíbrio, senhor.
– Mandarei a concisão e a clareza para a casa do caralho.
– Calma, senhor. Não faça nenhuma besteira. Estou aqui para ajudá-lo.
– ...
– Senhor? Senhor?
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Sem generalizar, por favor
Eu leio desde muito jovem. Com 11, 12 anos, já devorava a Playboy todinha e a seção “Fórum”, da revista Ele & Ela. Pouco depois, já me dedicava às revistas suecas, que exigiam um entendimento mais elaborado da vida, além de um segundo idioma. Hoje, leio de tudo, de análises macroeconômicas a bula de remédio.
O problema da falta de informação também afeta um outro tipo de jornalista: o generalista. Pelos dicionários, generalista é a pessoa que não tem uma especialização, mas que entende de vários assuntos. No caso do jornalista generalista, trata-se do cara que não entende porra nenhuma de vários assuntos. Fica pingando de pauta em pauta, totalmente desconexas, entrevista o analista financeiro e o jogador de futebol numa mesma tarde. Em TV, rolava muito disso.
Estava certa vez em um treino da Fórmula 1, em Interlagos. Encontro um amigo repórter de TV, ofegante, terno desarrumado, jeitão de quem está perdido. “Porra, Duda, me ajuda aí, cara. O que tá rolando aqui hoje? Me mandaram para cá, caí de pára-quedas. Tenho uma entrada ao vivo daqui a pouco.” Poucas horas antes, ele estava na inauguração de um hospital pelo governador. Pensei em sacaneá-lo, dizer que a notícia era o melhor tempo do Rubinho, mas acabei ajudando o coitado.
O jornalista generalista de TV tem sempre aquele olhar que clama por piedade e uma informação que lhe traga de volta ao planeta Terra. A malandragem também funciona. O cara se aproxima de um bolo de repórteres que entrevista um ilustre empresário, manda ligar a câmera, coloca o microfone na boca do sujeito e grava tudo, sem fazer uma pergunta sequer. Vai só na carona dos outros jornalistas. Por fim, ainda tem a cara-de-pau de virar para o lado e dizer: “Amigo, como chama esse empresário mesmo?”
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Tô rico, tô rico!
E por que será que esses frilas pintam aos 40 minutos do segundo tempo? São sempre para ontem. Deadline apertadíssimo, alerta o editor. Nos fazem parar tudo, sacrificar horas de sono, mas valem a pena. Tudo pela sobrevivência.
Quem também ficará feliz com essa grana extra é o Nestor. Ele vai ganhar até uma cama nova, ou melhor, vai ganhar a primeira cama dele aqui no meu apê, com direito a um cobertor zero bala e sem pulgas, para enfrentar as noites de inverno.
Seu Vitório, o velhinho que aluga o apê de 49 metros quadrados para mim, é outro que vai comemorar. Para minha desgraça, ele mora no mesmo prédio. “Já arrumou um trabalho, meu filho?”, me pergunta sempre, em nossos encontros casuais no elevador. Acho que ele andou remexendo o roteiro da minha vida e roubou essa fala do meu pai, dita tantas vezes em minha juventude.
O frila não valeu apenas pela grana boa. Era uma reportagem instigante para uma conceituada revista feminina, se é que isso existe. O tema? As mulheres que comandam o mercado de sexo nas ruas de São Paulo. A arte de proxenetar não é mais uma exclusividade daqueles cafetões truculentos e insensíveis. Conheci mulheres que começaram por baixo, literalmente, e hoje são verdadeiras executivas. Me deu até inveja dessa ascensão profissional toda.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Condenados à liberdade
Já conheci jornalistas – e sou um deles – que passam a vida blasfemando contra a dureza das redações, o trabalho insalubre, o chefe chato. Até o dia em que, por vontade própria ou não, libertam-se. Vão traçar seus próprios caminhos, bem longe da empresa que os explorava. Mas muitos jamais saberão ser, simplesmente, livres, assim como os ex-escravos negros de Manderlay. Ficam loucos para voltar à redação, aos antigos senhores, como se fosse impossível viver sem eles. Agarram-se aos antigos hábitos da dominação.
Há um outro tipo de jornalista, mais jovem, que adoraria ter vivido a época da ditadura. Bons tempos, pensam esses ingênuos, eram aqueles do chumbo grosso. Deveria ser irado protestar, subverter, ser preso ou criar um grupo revolucionário com aqueles nomes cheios de siglas. Veio a democracia, suspendeu-se a censura e a graça acabou. Com a liberdade política, este jovem é um acomodado. E nem se dá conta de que neste mundo de hoje ainda há espaço para muitas lutas, contra racismos, morais religiosas e outros tantos males.
Até a liberdade pós-casamento é de uma estranheza só. Quando, tempos atrás, minha mulher me trocou por um garotão, sofri a dor dos seres desprezados. Meu tormento, contudo, durou pouco. Pensei: “Duda, você está livre de um casamento: não precisará mais assistir àqueles filmes chatérrimos da Meg Ryan! Poderá comer todas sem culpa”. Mas logo minha euforia também acabou. A solteirice, às vezes, não faz o menor sentido para mim. Eu, definitivamente, sou um ser meio esquisito.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
A pastinha vagabunda
Enquanto ele falava, fiz uma viagem aos meus 20 e poucos anos. A pastinha, apesar de ordinária, reunia minhas grandes matérias. Estava esquecida num armário qualquer, ao lado de uma pilha de jornais que nunca tive coragem de arquivar. Coisa de gente preguiçosa. Resgatar aquela papelada seria um reencontro com o início de minha carreira. Lembranças de uma época de descobertas, entusiasmo com o jornalismo, erros inocentes que hoje me fariam rir. Bons tempos que, infelizmente, não voltam.
O cubano Pedro Juan Gutiérrez, no livro Trilogia suja de Havana, escreve: “É impossível me livrar das saudades porque é impossível se livrar da memória. Você não pode se livrar daquilo que amou”. Ele tem razão.
- E vê se escaneia essa porra direito, completou o meu amigo.