segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Um anúncio de emprego supersincero


Cargo: Jornalista faz-tudo.

Exigências:

Agilidade para trabalhar por três jornalistas com o salário de um.
Importante não ter vida social.
Experiência em apuração jornalística pelo Google.
Facilidade de relacionamento com assessor de imprensa chato.
Suportar a dureza diária sem reclamar o tempo todo é diferencial.
Imprescindível ter estômago resistente às porcarias da padoca.
Equilíbrio para lidar com frustrações.
Bons conhecimentos de sobrevivência em redação.
Diploma de jornalista é interessante. Se não tiver, foda-se.

Benefícios:

Crachá para dar carteirada em eventos esportivos e culturais.
Oportunidade de ir a pautas com boca-livre e jabás.
Tapinha nas costas (se exceder as metas).

Salário: Incompatível com o mercado e seus gastos pessoais.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Saudade (poema do jornalista desempregado)


Saudade dos tempos de redação
Do café salvador das madrugadas
Das vozes ao telefone misturadas
Das tantas matérias apuradas.

Saudade dos tempos de redação
Do sofrer, tensão, xingamento
Do suspiro após fechamento
Do pedido em vão de aumento.

Saudade dos tempos de redação
Da chegada apressada da rua
Da piada mais tosca e chula
Do sonho com a foca nua.

Saudade dos tempos de redação
Da falta total de rotina
Dos planos pro boteco da esquina
Do rir da própria sina.

Da sina.


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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Festa de jornalista


Tem de todo tipo, mas festa de jornalista clássica é festa com ares de clandestinidade, que rola na casa de alguém.

O pessoal vai chegando aos picados, cada um à sua hora, ou melhor, cada um à hora do seu fechamento. O ingresso é uma bebida, ou mais bebidas, cerveja long neck, vodca, rum para os mojitos. Come-se pouco, mas se bebe demais, sô! É um abre geladeira, fecha geladeira, abre geladeira, fecha geladeira. A cozinha parece sacristia de igreja em dia de missa. Uma agitação só. Fuma-se também, principalmente aquela ervinha boa pra relaxar. Às vezes, fuma-se coletivamente, na sala, seda recheada que passa de mão em mão. Às vezes, busca-se clandestinidade ainda maior, no banheiro, no quartinho da empregada.

Tem gente que chega sozinha, tem gente que carrega um amigo não-jornalista a fim de se divertir com aquele povo excêntrico – eufemismo para esquisito. As pessoas vão se juntando pelos cantos, no sofá, no chão, entre as almofadas. A noite começa mais animada, com sons eletrônicos variados, e acaba com Chico ou Lou Reed. Os mais jovens insistem com Los Hermanos. A menina de saia florida e cabelinho loiro e crespo sempre leva o CD de seu grupo de maracatu – quase só de mulheres –, atração da Vila Madalena. Às vezes, leva o grupo, para uma canja no quintal.

Por causa da música, as conversas são múltiplas e ficam restritas, cada uma, aos pequenos grupos que se juntaram pelos cantos. Tem jornalistas de empresas concorrentes que só se encontram na loucura das pautas e na loucura das festas. Tem o sujeito que, empolgado com a vida, com a vodca e com a matéria de capa que conseguiu, pega um livro do Cortázar na estante e começa a ler algumas de suas histórias pela sala. Tem um amigo de jornalista não-jornalista louco pra comer a moça de óculos, vestido xadrez e meias verdes até os joelhos. É a grande oportunidade de uma foda intelectual para curtir a lembrança boa pelo resto da vida. Ou se arrepender na mesma noite. Mas a moça só tem ouvidos para o rapaz que fala de cronópios e famas.

As festas clandestinas de jornalista não têm dia certo para acontecer. Fim de semana, segunda, terça. Nem hora certa para chegar ao fim. Mesmo com trabalho no dia seguinte. Tem vizinho chato que liga pra polícia pra acabar com a putaria. Mas tem também vizinho gente boa que se junta à galera dos jornalistas. Para uma cervejinha, um cigarrinho e para ouvir as meninas de saia florida com seus agbês e ganzás no quintal.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Crônica sobre o frila fixo


Ela não é a mulher oficial, não está presente no almoço da Páscoa, nem na ceia de Natal. Mas também não é uma avulsa qualquer. Mora no flat modesto do centro que ele paga, local em que se consome o sexo clandestino. E frenético. Ser a amante fixa não é o que ela esperava para sua vida, mas é melhor do que ser uma solteirona amarga, como as amigas.

No jornalismo, o frila fixo tem o papel da amante fixa. Ele não tem vínculo empregatício com a empresa de comunicação. Mas também não é um avulso qualquer. Está diariamente na redação, explorado como qualquer outro, apenas sem direitos trabalhistas. Não é o que ele esperava para sua vida, mas é melhor do que estar desempregado, como os amigos.

Assim como a amante fixa sonha um dia ser a patroa, com direito aos eventos familiares e a uma vida estável, o frila fixo também deseja o vínculo oficial, com direito aos benefícios da carteira assinada. E a uma vida estável.

Comecei no jornalismo como frila fixo. Cobertura de férias da Cidinha, repórter de Turismo, que naquele ano foi com o marido descansar em Ubatuba. Ou foi Peruíbe? Faltava pouco tempo para a Cidinha voltar, naturalmente toda picada por borrachudos, e eu já me imaginava de novo na sarjeta. Foi quando descobri que a Norma, repórter de Economia, sairia de licença-maternidade. Graças ao milagre da vida, no caso da vida do filho da Norma, eu alcancei o milagre de ficar mais quatro meses como frila fixo.

Tão logo o jornalista se torna um frila fixo, conhece algumas artimanhas, como o esquema da nota fiscal. O frila fixo só recebe a miséria de seu “salário” se apresentar uma nota. O Reinaldo era o rei da nota fiscal na redação. “Duda, o esquema é muito bom, firma em Carapicuíba. Conhece Carapicuíba? Lá se paga uma merreca de imposto”, explicava. Por muito tempo, o Reinaldo foi o meu fornecedor de notas fiscais de Carapicuíba.

Como ocorre com muita gente, fui pulando de cobertura de férias em cobertura de férias, de licença-maternidade em licença-maternidade, até um dia ser oficialmente contratado. A amante virou esposa. FGTS, 13º salário e a esperança de uma vida melhor.

No início, você até se empolga, mas logo se dá conta de que a tal estabilidade não é grande coisa. No caso das amantes, muitas percebem que ser a oficial é até pior. E ficam cheias de saudade do sexo clandestino e frenético no flat modesto do centro.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Dia do professor (de jornalismo)


Em homenagem ao dia do professor, em especial ao de jornalismo, republico trechos de um antigo post sobre a arte (ou não, como diria Caetano) de ensinar a profissão.

Desempregado, já pensei em fazer cada coisa pra sobreviver que fico até constrangido em revelar aqui, neste blog quase decente, quase de família. Entre as idéias publicáveis, dar aulas de jornalismo foi uma delas. Seria um bom professor? Ou prestaria um grande desserviço ao ensino superior brasileiro? Em minhas divagações, rolou até um embate entre um Duda que quer muito ser professor e um Duda que deseja passar longe das salas de aula.

Duda que quer ser professor: O lance é dar aula, cara! Imagine a grande oportunidade que a gente teria de transmitir conhecimento aos jovens. Isso é o que vale a pena na vida!

Duda que não quer: Mas como? Numa sala de 80 alunos? Não vão nem ouvir a gente!

Duda que quer: Se metade ouvir já está ótimo. Você não percebe a nobreza da missão?

Duda que não quer: Metade vai ficar ouvindo música num iPod durante a nossa aula! E a outra metade, sei lá...

Duda que quer: Tá bom. Então esquece o lance nobre da coisa e sejamos práticos. Há quanto tempo as contas da luz e da água estão atrasadas? E o aluguel?

Duda que não quer: Você acha que a gente vai ganhar muito dinheiro como professor? Pagam uma miséria! Pior que redação. E a gente também nem tem mestrado.

Duda que quer: Tem um monte de faculdade que não exige mestrado. Até preferem, sabia?

Duda que não quer: A gente não vai dar aula e ponto final. A verdade é que a gente não gosta disso.

Duda que quer: Você não gosta. Fale por você!

Duda que não quer: Tá bom, tá bom. EU NÃO GOSTO.

Instantes de silêncio...

Duda que quer: E as menininhas? Nem por elas? Já imaginou quantas, daquelas bem gostosas, assistiriam às nossas aulas, loucas por aprender jornalismo, loucas por sei lá mais o quê?

Duda que não quer: (riso) Meu Deus, estamos velhos!

Duda que quer: Velho é você! Velho e viado!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Mancadas de um assessor de imprensa


Muitos assessores de imprensa são ótimos parceiros dos jornalistas de redação, colaborando na produção de matérias e, principalmente, dando um presentinho bacana vez ou outra. Mas, de uma forma geral, a relação entre as partes ainda é difícil e com muito desgaste. Alguns assessores mantêm a alcunha de chatos e, em casos mais graves, são demonizados, acusados, por exemplo, de serem favoráveis ao aborto ou de não acreditarem em Deus.

A nova enquete quer entender melhor esta relação cheia de amor e ódio, e ajudar o assessor a evitar atitudes que mancham a imagem do profissional, na maioria dos casos, também jornalista. Qual a mancada mais imperdoável de um assessor de imprensa? Enviar releases esdrúxulos? Criar um falso clima de intimidade, chamando o repórter de “tchutchuquinho”? Pedir para aprovar matéria antes da publicação? Estas e outras opções estão na coluna à direita da página para serem votadas. Participe!

A pesquisa encerrada – Qual best seller você daria de presente ao seu amigo jornalista? – teve um empate técnico, como diriam os institutos de pesquisa. A alternativa “Comer (apenas em evento), Rezar (por um aumento), Amar (se tiver tempo)” ficou em primeiro lugar, com 35% dos votos, e “Quem Mexeu no Meu Texto?” teve 33% da preferência dos eleitores. O amigo-secreto da redação está chegando. Ficam as dicas.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Redação em chamas


Paixão, intriga, mistério, plantões intermináveis, medo de perder o emprego e muito mais. “Redação em chamas” é o primeiro dramalhão mexicano produzido na Colômbia e exibido na televisão brasileira que trata exclusivamente do universo jornalístico. É também a primeira telenovela da história que não tem núcleo rico. Conheça a seguir os atores e os papéis mais importantes do folhetim que vai mexer com as suas emoções:

María José Villegas, a Francisca do caderno de Política, é a mocinha da trama, uma jovem pura que acredita no amor verdadeiro e na independência da imprensa. Ela deixa o interior para trabalhar, como foca, no principal jornal da capital. Em pouco tempo na redação, começa a conhecer os perigos da profissão, como falar mal do político apoiado pela casa. A vida de Francisca muda quando ela troca olhares furtivos com Ramón, o editor-executivo, ao lado da máquina de café. Tem início uma tórrida paixão, ameaçada pelo ciúme e pela ira de María Clara, repórter especial e namorada de Ramón.

Christian Caballos, o Ramón da edição-executiva, é um homem ambicioso que luta, há anos, para chegar ao cargo de diretor de redação, ocupado por seu pai, o senhor Alfredo. Octogenário excêntrico, o pai passa o dia caminhando pela redação com suas pernas mecânicas, fumando um cachimbo fedorento e bulinando estagiárias. O senhor Alfredo não confia na competência do filho e pensa em deixar o cargo a outro sucessor. Ramón, obcecado em conseguir a promoção e a confiança do pai, sofre uma grande transformação quando conhece a ingênua Francisca. Tem início uma tórrida paixão, ameaçada pelo ciúme e pela ira de María Clara, repórter especial e sua namorada.

Erika Mendoza, a María Clara da reportagem especial, é a vilã da trama. Sem talento e ética, conseguiu um cargo importante no jornal apenas por ser a namorada de Ramón. Quase não trabalha e passa o tempo todo na máquina de café, arquitetando planos diabólicos contra o pessoal do núcleo bonzinho, principalmente a doce Francisca. Tem também um relacionamento difícil com o senhor Alfredo por não suportar o fedor de seu cachimbo e a rejeição do velho a seu amado Ramón.

Pepe Morales, o Juan da diagramação, é o filho bastardo do senhor Alfredo com uma prostituta, concebido há mais de 20 anos, quando Alfredo ainda não havia perdido as duas pernas num trágico acidente automobilístico. Juan arruma um emprego no jornal para aproximar-se do pai, mas não tem coragem de fazer tão grande revelação ao velho, que desconhece a paternidade. O senhor Alfredo nutre grande carinho por Juan, a quem sonha um dia transformar em seu sucessor, aumentando o ódio de Ramón.

Pablo Montalba, o Ricardo do caderno de Esportes, integra o núcleo gay da novela. Repórter de futebol, vive em um ambiente machista e atormenta-se pelo fato de não assumir sua homossexualidade. Ao conhecer Carlos, o jovem delicado que passa a ser responsável pelo roteiro cultural do jornal, toma coragem para sair do armário. Ricardo sofrerá grande preconceito, mas seu amor por Carlos triunfará. No fim do folhetim, ele deve protagonizar o primeiro beijo gay jornalístico da televisão brasileira. E colombiana.

Luis Miguel Cárdenas, o Panchito da Fotografia, promete trazer para as redações o debate sobre o mal da dependência química. Mesmo na era da fotografia digital, Panchito, um homem de meia-idade, não consegue largar o vício por agentes químicos usados na revelação dos antigos filmes. Com os olhos vermelhos, o fotógrafo sempre chega atrasado à redação. Vive preso às suas viagens em um quarto de sua casa, onde segue revelando filmes em uma banheirinha de bebê.

Isabel Moreno, a Esmeralda do caderno de Geral, em um dos papéis mais difíceis e emocionantes de sua carreira, descobre, logo nos primeiros capítulos, que tem uma doença incurável e apenas dois meses de vida. Passa a aproveitar cada segundo com muita intensidade. Além de lutar pelo amor de Ricardo – sem saber que o repórter de Esportes é gay – Esmeralda assume o desafio de, enfim, escrever a grande matéria de sua vida. O que não conseguiu em 18 anos de carreira, terá de cumprir agora em 60 dias. Conseguirá?

Justiniano Escobar, o Rodolfo do caderno de Economia, é o destaque do núcleo engraçadinho. Além de contar velhas histórias de jornalistas com humor e sarcasmo, como a do repórter com surdez no ouvido direito que escutava as respostas dos entrevistados sempre pela metade, Rodolfo tem como ponto forte de seu repertório a imitação clandestina que faz do senhor Alfredo, caminhando, todo torto e desajeitado, pela redação.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O "rei" Roberto Carlos canta seus clássicos jornalísticos



Espaços (versão de Detalhes)

Espaços tão pequenos
Pra depois
Ter textos muito grandes
Pra escrever
E a toda hora eu fico
Aqui cortando
Para caber.


Jornalista à moda antiga
(versão de Amante à moda antiga)

Eu sou um jornalista à moda antiga
Do tipo que ainda fuma horrores
Apesar de umas safenas e a barriga avantajada
Ainda como uma picanha acebolada.


Tem dissídio (versão de Jesus Cristo)

Tem dissídio, tem dissídio
Tem dissídio me alegrando aqui.

(Agora todo mundo batendo palma)

Tem dissídio, tem dissídio
Tem dissídio me alegrando aqui.

(Agora só quem não recebe aumento há muito tempo)

Tem dissídio, tem dissídio
Tem dissídio me alegrando aqui.


Nossa senhora (versão de Nossa Senhora)

Nossa senhora do bom plantão
Cuida do meu domingão
Que ninguém morra-a
Neste período
Eu tô sozinho
Cuida de mim.


O descanso (versão de O portão – “Eu voltei”)

Eu folguei!
Nem deu pra acreditar
Consegui
Dormir e vegetar
Eu folguei!
Um dia lembrarei
Eu folguei...


Depressões (versão de Emoções)

Sei que a profissão
Eu quis abandonar
Até cafetão
Já pensei em virar
Só ralei e me fodi
Mas o importante
É que não desisti...

Só ralei e me fodi
Mas o importante
É que não desisti.

Leia também: Chico Buarque canta seus clássicos jornalísticos

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Unha encravada


Toda redação tem jornalista chato. É só olhar pro lado.

Tem o que chega atrasado à reunião de pauta e tenta saber tudo o que já rolou. O que lamenta que a pauta dos outros é sempre melhor. O que tem síndrome de perseguição. O desocupado que fica perguntando aos colegas, bem na hora do fechamento, se a Carolina Dieckmann vai ou não vai morrer na novela. O que faz a mesma piadinha sem graça em todo pescoção. O que vive pedindo a agenda de telefones dos outros emprestada. O que acha que sabe tudo. O que não pára de contar vantagem só porque deu um furinho de merda dia desses. O que adora dar palpite no texto alheio. O que tem piti quando dão palpite no seu texto. O que exige silêncio geral quando precisa fazer uma entrevista importante por telefone. O que corrige os erros de Português dos colegas até no café. O que trabalha em Esportes e só sabe falar de futebol. O que vende rifa com nome de mulher para aumentar a renda mensal. O que fica implorando voto para si próprio no concurso dos melhores jornalistas do ano. O que sacaneia quem vai ficar de plantão. O que inventa um novo passaralho a cada semana só para perturbar as almas mais aflitas. O que nunca vai ao bar porque a patroa não deixa. O que não pára de reclamar do trabalho, do salário, do chefe, do casamento, da unha encravada.

Toda redação tem jornalista chato. É impressão minha ou tem um monte de gente olhando pra você?

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Outros planos


- Onde eu fui parar? Me mandaram cobrir a guerra no Afeganistão?

(Um homem, com o rosto cheio de feridas, se aproxima)

- Tá falando comigo?

- Pode ser com você. Dá pra me dizer onde estou?

- Aqui é o umbral.

- Umbral?

Você tá morto, meu amigo! Não se ligou ainda?

- Morto?

- Morto e todo lascado. Aqui no umbral o bicho pega. Não viu o filme, não?

- Que filme?

- Nosso Lar.

- Ah, o dos espíritos? Putz, eu até queria assistir, mas fiquei esperando a cortesia da assessoria de imprensa. Mais fácil morrer do que conseguir um ingresso.

- O umbral só tem gente ferrada, barra-pesada. Suicida, político, advogado. Você é o quê?

- Sou jornalista. Repórter e crítico de TV. Ou melhor, eu era. Sei lá.

- Vixe, jornalista tá cheio aqui.

(Silêncio. Os dois sentam-se lado a lado)

- Mas por que o bicho pega?

- Maior dificuldade pra tudo: pra comer, pra dormir. Você nunca consegue ver sua família. Leva porrada da chefia o dia inteiro.

- Porra, com isso eu já tô acostumado. Vai trabalhar numa redação de hard news pra ver o que é bom! Lascado eu tava quando era vivo.

- Cê tá falando sério?

- Claro que eu tô. Esse umbral tá parecendo até bem tranqüilo.

(Silêncio longo)

- E você, o que fazia quando era vivo?

- Eu era ex-participante de reality show. Do Big Brother.

(O jornalista gargalha)

- Caraca, e você tava falando mal de jornalista.

- Peraí, eu não falei mal de jornalista. Só falei que tava cheio de jornalista aqui.

- Sei.

- E você, crítico de TV, nem me reconheceu, hein?

- Já viu quanta ferida tem aí na sua cara? Sem ferida, já seria difícil reconhecer.

- Sei.

(Mais um longo silêncio)

- Ô, ex-BBB, já que você manja tudo de umbral, me diz uma coisa: onde fica o boteco aqui? Tô começando a ficar com fome e sede.

- Boteco? Aqui não tem isso, não!

- Não brinca! Nem um vernissage, uma boquinha-livre?

- Que nada.

- Porra, aí complica.

(O jornalista abaixa a cabeça. Depois, a balança negativamente)

- Tô começando a achar que Afeganistão não seria tão ruim, viu?

- Oi?

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Bar de jornalista


Bar de jornalista não tem frescura.

É boteco, botequim. Simples. Não tem hostess na porta. É só chegar, entrar, sentar. Em cadeiras gastas, bambas, sem charme algum. Sem conforto algum. As mesinhas, unidas, viram mesonas e invadem as calçadas. Não tem regras de etiqueta.

Bar de jornalista é tosco. De tão feio, vira cult. A decoração não é assinada por designers. Nas paredes, de pintura descascada ou azulejos velhos, pôsteres de peças de teatro e filmes dividem espaço com a tubulação de água aparente e avisos de “Não aceitamos cheque”. Ar-condicionado aqui não entra. Só ventilador. LCD é luxo. TV tem que ser de tubo.

Bar de jornalista tem cardápio escrito com giz em lousas ou em folhas de sulfite plastificadas, remendadas com durex. Não tem garçom de mau humor. Não tem carta de vinho. Tem cerveja. Em garrafa. Tem moscas que sobrevoam as latinhas de Coca-Cola. Tem porção de calabresa, mandioca, provolone. Coisa boa, de entupir artéria.

Bar de jornalista é barulhento. São vozes que se cruzam, que discutem cultura, política, filosofia, sacanagem. Maledicências. Lamentações. Neuroses. Planos para mudar de vida que nunca saem do guardanapo.

Tem mulheres que pegam batata frita com a mão, homens que não têm vergonha de cruzar a perna como o Caetano Veloso. Tem gente feia, bonita, pobre, não tão pobre assim, branca, preta, multicolor. Tem artista. Tem gay. Tem artista gay. Tem intelectual. Tem gente metida a intelectual. Tem cheiro de mijo que vem do banheiro. Tem vida.

Bar de jornalista não tem frescura. Se tiver, desconfie.


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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Filmes sobre jornalismo


Uma pauta que cai

Os anos em que meus pais jornalistas não saíram de férias

Pauteiro neurótico, repórter nervosa

Corra, motorista, corra

Jornalista não veste Prada

Sexta-feira de pescoção 13

Quem nunca vai ser um milionário?

Focas desempregados à beira de um ataque de nervos

O dia em que a rotativa parou

O nada fabuloso dissídio de Amélie Poulain

A lenda do repórter anti-Serra sem cabeça

Que controle público de imprensa é esse, companheiro?

2001 (toques): uma matéria sem espaço

Matou o plantão e foi ao cinema

Duro de editar

E o Esso levou

As redações bárbaras


Releia também
Jornalismo e cinema
Jornalismo e cinema - parte 2
O crítico de cinema
A carteirada

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Os dias bons


Dia bom é dia de homicídio, parricídio, vizinhocídio. É a maldade humana que vende jornal. De atropelamento ninguém quer saber. Ainda mais se for de velhinha.

Alexandre já estava na terceira delegacia de sua ronda matutina e os boletins de ocorrência da noite e da madrugada só falavam do bêbado que bateu na mulher aqui, do carro roubado ali, da confusão no pagode acolá.

Dia bom é dia de chacina, carnificina e outras tristes sinas. É a história do menino trabalhador que estava no lugar errado e na hora errada quando o fuzilamento no bar começou que vende jornal. Ele só queria comprar um maço de cigarros pra mãe.

Alexandre ainda tinha esperança de salvar a página policial do dia seguinte nas duas delegacias que restavam. Essa busca o excitava. Quando encontrava "a notícia" em algum BO, burocrática e fria, anotava telefones e endereços dos parentes da vítima e voava para o carro de reportagem. Começava a melhor parte: a descoberta da história oculta, ainda mais sórdida, mais humana.

Dia bom é dia de velório com revolta, de desgraça sem volta.

É o que vende jornal.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Cinco dicas para uma entrevista de emprego


São tão raras as entrevistas de emprego que, quando o jornalista tem a oportunidade de ir a uma, deve se esforçar para não fazer feio. O blog preparou cinco dicas para você:

A questão da roupa e da aparência é sempre importante e depende muito de quem será o entrevistador. Se for um daqueles editores mauricinhos, de gravata amarela e gel nos cabelos, não se esqueça de fazer a barba e evite calças rasgadas e camisetas com a cara do Mussum. Se o entrevistador for do tipo galinha, apostar num decote até o umbigo é uma boa idéia para as mulheres. E nada de usar a camisa pólo que ganhou de jabá numa coletiva, com nome e logo de empresa de fios e cabos elétricos.

Atenção com o portfólio é fundamental. Se você é um jornalista jurássico que luta para voltar ao mercado, nem pense em levar a pasta mofada com recortes de suas matérias no Jornal de Carapicuíba de 1983. Se você é jovem e seu portfólio é tão pequeno que te mata de vergonha, destaque outras atividades, como trabalhos voluntários. Que tal dizer que você entrega sopão a repórteres desempregados que moram debaixo do viaduto ou participa do projeto de inclusão sexual do Retiro dos Jornalistas?

Não fale mal do ex-chefe e da empresa em que trabalhou. Evite desabafos do tipo “Deixei o meu último emprego, porque o meu editor sempre me dava as piores pautas” ou “Depois que coloquei o jornal no pau, aqueles exploradores vão ter que me pagar as horas extras”. Faça um esforço e tente mostrar o lado positivo da experiência anterior, como “Eu era um repórter tão dedicado que cheguei a trabalhar dois meses sem folga, em pautas desafiadoras. Um grande aprendizado!”.

O que é diferencial competitivo para um jornalista hoje? Dizer que você está com o aluguel atrasado, com o nome sujo no Serasa e dificuldade de comprar o leitinho dos meninos não comove mais o entrevistador. Seus concorrentes também farão voto de pobreza. O diferencial é a capacidade de lidar com a miséria. Diga, por exemplo, que, desde que cortaram a energia elétrica em sua casa, você trocou a TV alienante pela leitura dos clássicos à luz de velas. E tem ainda o lance de salvar o planeta, que pega superbem.

Sentir-se seguro é essencial. Aprenda a adequar seu perfil e defeitos às vagas para não perder tempo. Se você é fanho, nem vá à entrevista para a vaga de locutor de rádio; se você é feia, desista de ser apresentadora de telejornal; se você aprendeu Inglês dormindo, a vaga de repórter de Internacional não é para você; se você é comunista, esqueça a oportunidade na Veja; e se você tem um texto sem graça e todo clichê, desista do jornalismo. A menos que a vaga seja de redator da revista Caras.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Best seller


Esqueça Dostoiévski, Mann, Proust! Vamos nos limitar àqueles livros que lideram os rankings de vendas das revistas semanais. A idéia é proporcionar apenas uma leitura leve para os raros momentos de folga. Se você quisesse presentear um amigo jornalista com um best seller, qual seria a melhor opção? A nova enquete do blog está no ar! Vote na coluna à direita.

São cinco empolgantes alternativas: Casais de Jornalistas Não Enriquecem Juntos; Comer (apenas em evento), Rezar (por um aumento), Amar (se tiver tempo); Quem Mexeu no Meu Texto?; A Foca e o Editor-Executivo; e Por Que Os Assessores de Imprensa Amam as Pauteiras Poderosas? Notem que Paulo Coelho ficou fora da lista, porque aí também já seria demais! Bons votos!

A enquete que chegou ao fim – Você votaria em um jornalista para o cargo de deputado federal? – teve como vencedora a alternativa “Sim. É preciso aumentar a bancada jornalística no Congresso”, com 48% dos votos. Se até a representatividade dos palhaços será reforçada com a eleição de Tiririca, por que não podemos fortalecer a nossa classe também?

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Lembranças


Cabelo raspado. Tinta escorrendo pela barba malfeita.

Ônibus quebrado. Atrasos. Sono.

Emissor, mensagem, receptor. E muitos ruídos.

McLuhan, Marcuse, Adorno.

Paqueras. As teorias da comunicação na prática.

Boteco, cerveja, dor-de-corno.

Truco, ladrão!

Por que os alunos de Administração se vestem melhor?

A primeira greve pelo direito de dormir nas aulas de Sociologia.

Os mestres que nunca pisaram numa redação.

Festinhas.

Impresso, rádio ou TV?

Pastel de gordura na barraquinha da esquina.

CX3747-208c. Capa dura.

Textos xerocados. Grampos enferrujados.

Trabalhos em grupo. Na casa de quem?

As provas. As colas.

TCC.

Comissão de formatura? Tô fora.

Beca quente pra cacete.

Suborno ao garçom no baile.

Alívio.

Canudo.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Chico Buarque canta seus clássicos jornalísticos


História de uma jornalista
(versão de História de uma gata)

Nós, jornalistas, já nascemos pobres
Pior, não nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Aumento, jamais receberás.


Vai chegar (versão de Vai passar)

Ai que vida de merda, ô lerê
Ai que vida de bosta, ô lará
O anúncio do passaralho geral vai chegar.

Ai que vida de merda, ô lerê
Ai que vida de bosta, ô lará
O anúncio do passaralho geral... vai chegar.


Meu caro inimigo (versão de Meu caro amigo)

De madrugada rola muito besteirol
Tem piadinhas e papo de futebol
Compraram pizza e umas latas de Skol
Mas o que eu quero é lhe dizer...
Que a coisa aqui tá preta
Até as quatro vai ter muita ralação
Os olhos vão fechando, que cansaço, que maré
Trabalho e mais trabalho e também sem um café
Ninguém suporta o pescoção.


O emprego (versão de A banda)

O foca triste que vivia sem grana sorriu
O frila triste que vivia na lama curtiu
Jornalistada toda se assanhou
Pra ver o emprego chegar
Mesmo pra ser revisor.

Pra ver o emprego chegar
Mesmo pra ser revisor.


O que será (versão de O que será)
O que será, que será?
Que passa na cabeça
De um estudante
Que busca uma carreira
Gratificante
Mas faz uma besteira
E cai no abismo
Esquece Engenharia
Faz Jornalismo
E vive a ilusão
Dos infelizes
Está na profissão
Das maluquices
Na área dos fodidos
Incompreendidos
Em todos os sentidos
Que vida terá?
Que nunca deu dinheiro
Nem nunca vai dar
Que nunca deu futuro
Nem nunca vai dar
Mas tem o seu fascínio.


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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Me dá uma pauta aí


Ele até conseguia suportar a rejeição da menina que amava, do pai, que queria um filho médico, mas não a rejeição do pauteiro. Tem dor maior para a alma de um jovem repórter do que a dor de ficar sem pauta? Enquanto os outros repórteres estavam na rua, apurando, investigando, vivendo, o jovem repórter sem pauta estava condenado à melancolia da redação, lendo o horóscopo do dia, fazendo pesquisas no arquivo, fingindo viver.

Nas reuniões de pauta semanais, que definiam as matérias das edições seguintes, o jovem repórter ficava no seu canto, diminuído, invisível. Para passar o tempo e enganar o constrangimento, rabiscava, dezenas de vezes, o seu nome numa folha de papel. Quando estava muito irritado com a situação – quase sempre –, costumava rabiscar “pauteiro filho-da-puta”.

Todos já estavam deixando a sala de reunião e ele, tímido, esboçou uma reação.

- Oi, senhor... senhor pauteiro? Olha, eu fiquei sem pauta de novo esta semana. Não tem nada que eu possa fazer, ajudar em alguma matéria especial?

O pauteiro sugeriu a ele redigir mais um daqueles perfis de gaveta, que são publicados na ocasião da morte de pessoas famosas.

- Mas, senhor, a trajetória pessoal e profissional da Hebe Camargo eu já escrevi na semana passada. Passei dois dias no arquivo só fazendo pesquisa, o senhor não lembra? Não tem pelo menos alguém diferente pra gente matar esta semana?

Foi pra isso que eu estudei quatro anos?, refletia, no ônibus, na volta para casa. Quando a gente está na faculdade, não vê a hora de começar a trabalhar de verdade. Então eu chego à redação e é esse o meu destino, o ceifador de vidas de celebridades?

Já pensava em estudar Medicina – por que não ouvi o meu pai? – quando um repórter mais velho e gente boa lhe deu uma dica.

- Rapaz, não fique esperando pela pauta! Você é quem tem que sugerir a pauta. Pare de reclamar e coloque essa cabeça pra funcionar. Cadê a porra da pró-atividade?

Na reunião de pauta seguinte, chegou cheio de idéias. A excitação era tanta que nem se lembrou dos rabiscos. Mas a reunião foi mais breve e ele não conseguiu apresentar as sugestões ao pauteiro. Mesmo assim, estava empolgado. Sabia que a grande oportunidade chegaria. E só dependia dele. Naquela tarde, enquanto pesquisava a vida e a obra de Elza Soares no arquivo, até sorriu. Seus dias de jornalismo mórbido estavam perto do fim.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Porrada


Há quem diga que jornalistas adoram se passar por vítimas de agressões físicas, verbais, ameaças e não sei mais o quê. Que reclamam demais da violência contra a imprensa. E não temos razões para isso? Ano passado, no Brasil, foram registrados 58 casos de violência contra jornalistas. Fora os não denunciados. Pouca coisa, não é? Poderia ter sido pior, 200, 300, 500 casos. Mas não, foram só 58. Choramos à toa mesmo. Até desisti de lutar pela criação da Lei Tim Lopes, uma espécie de Lei Maria da Penha para a imprensa.

Dizem por aí que jornalistas têm mania de perseguição por denunciar o crime organizado. Esquisitice nossa. Na verdade, invejamos a bandidagem por sermos uma classe tão desorganizada. Acusamos até os políticos – coitados – de intimidação. Logo os políticos, gente tão honesta. Político trabalha bastante e não tem tempo de ligar pra jornal para pedir cabeça de repórter, não.

Tem gente que afirma que jornalistas adoram protestar contra a censura e as pegadinhas que pregam na imprensa livre. Balela. Em 2009, o Brasil ficou em 71º lugar no ranking da liberdade de expressão da Repórteres Sem Fronteiras, de 175 países. Tá ótimo. Chiar por quê? Só porque ficamos atrás do Haiti? Se fosse um país politicamente instável, com uma democracia de meia-tigela, tudo bem. Mas não, era o Haiti. Ficamos na frente da Coréia do Norte. Já não tá bom? Isso ninguém valoriza.

Atacam também os jornalistas que sofrem agressões das próprias empresas em que trabalham. Dizem que criamos até um nome bonito para isso: autocensura. Que mal existe em ter de engolir a linha editorial do jornal, em falar bem do político da casa, em não poder falar mal de um anunciante? Reclamamos pra cacete. Fomos os inventores daquela lenda do jornalista de TV pública demitido por desrespeitar a ordem lá de cima. Que nada. Se foi pra rua, é porque aprontou coisa feia. Sei lá, tava vendo sites de sacanagem na redação, fumando um baseadinho no banheiro.

Somos mesmo um bando de inconvenientes! Todos nós. De impresso, rádio, TV, internet. Fim da violência contra a imprensa? Que nada! A polícia não pode perder tempo com casos de pouca importância enquanto ladrões de galinha de alta periculosidade estiverem soltos por aí. Daqui a pouco vão nos acusar de fazer um puta dramalhão pelo aumento dos assassinatos de jornalistas, de lobby pelo título de mártires. Poxa, são casos isolados. Uma balinha perdida aqui, outra ali. A morte é uma fatalidade. Só isso.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A fantástica fábrica de notícias


Estava escrevendo a minha matéria. Compenetradíssimo. Queria loucamente comer alguma coisa, não tinha sequer almoçado, mas não podia parar para não perder a minha linha de raciocínio, que era uma merda, mas eu julgava sensacional. Uma mão pequena e delicada tocou o meu ombro. Quando me virei, vi uma menina de uns 10 anos, imóvel, olhar fixo. Que susto! Porra, ela parecia uma daquelas menininhas mortas de O Iluminado.

- Quer me matar do coração? É esse o seu plano macabro?, perguntei.

- O senhor é jornalista?

- Eu estou tentando escrever uma matéria importante, morto de fome, e você me surge do nada, me dá um susto enorme e agora quer saber se sou jornalista! Sim, eu sou. Tá feliz?

A menina ficou quieta.

Toda semana eram organizadas excursões escolares para a “fantástica fábrica de notícias”. Às vezes eram adolescentes, mas na maioria das ocasiões eram criancinhas como aquela menininha que queria me matar. Andavam sempre organizadamente, uma atrás da outra, como pediam as tias aos gritos. Mas sempre havia alguma criança que se perdia do grupo e começava a vagar sozinha entre jornalistas e suas sensacionais linhas de raciocínio.

O guia da garotada era um velho jornalista que, depois de se aposentar, decidiu apostar em uma nova carreira. Era um gozador. Sempre foi, desde os tempos de repórter. Ele levava as crianças à gráfica, ao setor comercial e à redação. Entre uma piada e outra, explicava como tudo funcionava, como nascia a notícia e como ela chegava à casa de todos. Na redação, gostava de falar, em voz bem alta, as principais regras a serem seguidas.

- Tomem muito cuidado com os jornalistas, crianças! A primeira regra é: jamais dêem comida aos jornalistas, mesmo que eles peçam. Regra dois: mantenham uma certa distância dos jornalistas. Alguns podem ser perigosos. E, por fim, regra 3: respeitem a tia de vocês e andem em grupos. Quem se perder corre o risco de ficar aqui para sempre.

E ria, sozinho.

- Você não tem medo de ficar perdida pra sempre na redação?, disse à menininha, que já não parecia mais querer me matar.

- Acho que eu gostaria de ficar aqui pra sempre. Eu quero ser jornalista.

- Ser jornalista? Você ficou maluca? Tanta coisa legal pra fazer nessa vida e você quer ser jornalista?

- Eu gosto, tio. Sabia que, na minha casa, eu fico lendo os jornais e as revistas do meu pai, imaginando um dia escrever as reportagens, ver meu nome lá nos textos?

Então surgiu a tia que, de longe e aos berros, chamava a menina de volta ao grupo.

- É, não vai ser desta vez que a senhorita ficará aqui pra sempre.

- É, mas um dia eu volto como jornalista formada. Se o senhor ainda estiver vivo, me verá.

- É bem provável que eu não esteja mais vivo.

A menina, sempre séria, agora sorriu e, antes de partir, abriu sua bolsinha, pegou um pacote com umas três bolachas recheadas que ainda restavam e me entregou.

- É pro senhor não morrer de fome, tio. Mas não conta pro guia que eu te dei comida, tá?


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