segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Estatuto do Jornalista


É direito de todo jornalista...

Gozar da liberdade de ir e vir, principalmente na área vip de festas ou grandes espetáculos.

Receber jabás decentes, e não canetinhas e agendinhas vagabundas com logo de empresa.

Ter assegurada uma alimentação digna em coletivas de imprensa e não ser segregado a uma mesa ao fundo, juntamente com o motorista do jornal.

Se entupir de comidas gordurosas sem que ninguém encha seu saco com aquele papo de que vai enfartar aos 35 anos.

Ter acesso a uma máquina de café a uma distância máxima de 20 metros de sua mesa de trabalho.

Trocar a redação pelo trabalho em assessoria de imprensa sem ser discriminado pelos colegas de profissão.

Ficar com o ego massageado ao emplacar uma matéria de capa.

Ter apoio psicológico caso sofra ofensas que atentem contra sua integridade moral, como ser chamado de cagão, jornaleiro ou reporterzinho de merda.

Ter acesso a atividades esportivas, como partidas de sinuca e pôquer, valendo ou não dinheiro.

Dar um cochilo em pautas chatas, como simpósios médicos, debates na Comissão de Ética do Senado e palestras motivacionais de algum guru indiano.

Fazer parte de programas de inclusão sexual – a exemplo do “trabalhe menos e trepe mais” –, como forma de promover a perpetuação da espécie.

Ficar em cela especial na prisão, com TV a cabo, frigobar e cama king size, mesmo que o diploma não valha mais porra nenhuma.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Ah, essa nossa versatilidade


Como diz aquela famosa frase daquele famoso livro: “No princípio, Deus criou os céus, a terra e a jornada dupla (ou tripla) de trabalho para os jornalistas”.

Amanda passa o dia inteiro na redação, apurando, escrevendo, ajudando no fechamento. À noite, quando deveria descansar, dedica-se à carreira de escritora amadora. Sonha levar a coisa mais a sério um dia, perder a timidez, publicar seu livro de poemas, sobreviver de literatura, mandar o jornal à merda. Quando sobra um tempo, ainda ajuda a mãe a fazer artesanato em mosaico para vender na feirinha da Benedito Calixto.

Alex adoraria que seu dia tivesse 36 horas, única forma de poder conciliar o emprego de subeditor de um site sobre cinema com os vários frilas. Nos raros momentos de ócio na redação, aproveita para usar o telefone do patrão e escrever as matérias que faz por fora. Assina seus frilas com pseudônimos. Aliás, adora escolher pseudônimos. O último foi Raimundo Coppola, uma homenagem simultânea ao avô cearense e ao cineasta americano.

Repórter de uma revista mensal sobre variedades, Érica assumiu, recentemente, o cargo de “diretora de Comunicação” do grupo de empresas de sua família, que inclui duas lojas de 1,99 no centro da cidade e um açougue decadente. Vive dizendo ao pai que, sem estratégias de comunicação modernas e eficientes, o grupo irá à falência. Ganha uma remuneração bem baixa pelo nobre cargo de diretora, mas família é aquela coisa, né?

Desde que Boninho passou a reservar uma cota para jornalistas no Big Brother, o assessor de imprensa Jonas dedica as noites a criar artimanhas para conseguir vaga no programa. Sabe que o futuro dos jornalistas está nos reality shows. Planeja vídeos de inscrição. A imitação de William Bonner apresentando o JN de cueca tinha tudo para encantar, mas não deu certo. A de moça do tempo gostosa também naufragou, apesar do strip-tease no fim.

Heitor, cujo trabalho oficial é o de editor de imagens num programa esportivo de TV, descobriu que consegue ter um bom complemento de renda como professor de jornalismo. Começou com aulas de telejornalismo, sua área, empolgou-se e hoje também é responsável pelas disciplinas Teorias da Comunicação, Filosofia e Rádio. Não é um profundo conhecedor das disciplinas, mas a faculdade também não é lá essas coisas.

César Luís chega à emissora de rádio apenas à tarde para comandar o programa “A Notícia em Sua Casa” e aproveita as manhãs para fazer um bico no Supermercado Princesa. De óculos escuros e microfone na mão, é o locutor responsável por anunciar as promoções. “Vamos aproveitar, dona de casa, que hoje é o dia do peixe barato aqui no Princesa. O filé de merluza tá com preço especial. Tá esperando o quê, minha senhora?”

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Cancioneiro jornalístico


Do Gutenberg ao portal – Tim Maia

Você não soube apurar – Blitz

O bêbado é o jornalista – Elis Regina

Geração Copia-e-Cola – Legião Urbana

Repórter velha (é que faz matéria boa) – Sérgio Reis

É bom para o jornal – Rita Cadillac

Chuva de pauta – Gal Costa

Pescoções psicodélicos – Lobão

É proibido filmar – Roberto Carlos

Não deixe o impresso morrer – Alcione

Tomar café (café não costuma faiá) – Gilberto Gil

Ilusão de estudante – Milton Nascimento

Codinome Assessor – Cazuza

Agora só falta escrever – Rita Lee

Liberdade pra dentro da imprensa – Natiruts

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Não basta ser mãe


Dona Maria torceu o nariz quando a filha, Luiza, revelou que seria jornalista. Só ficou mais calma quando Luiza explicou que a profissão dava futuro, sim! Disse mais: um dia, seria famosa, trabalharia numa TV – quem sabe na Globo? –, e sua mãe teria o maior orgulho dela. O emprego na Globo nunca chegou, mas Luiza, depois de perambular por umas publicações impressas, virou repórter em um canal fechado especializado em informações para o mercado financeiro.

- Mas, minha filha, alguém vê este canal?

- A senhora quer saber quem assiste? A nata do mercado financeiro! Só gente bambambã, os caras cheios do dinheiro.

Dona Maria sentiu-se novamente mais calma. Teve de ampliar a venda de produtos da Avon às amigas para conseguir pagar a assinatura de uma TV a cabo. Não queria perder um programa com as reportagens da filha. Mudou a rotina. Sentada no sofá, não piscava os olhos. Vez ou outra tinha a companhia da faxineira que ficava em pé ao seu lado, apoiada na vassoura.

- Ô, dona Maria, o que é comode?

- Não é comode, Cleuza! É comodite!

- E o que é isso?

- Eu sei lá o que é isso. Vai trabalhar, Cleuza, vai, vai...

Dona Maria não sabia o que era commodity, hedge fund ou alavancagem, mas isso tudo não importava. O que importava era ver Luiza todo dia em seus boletins financeiros. Chegava a fazer cafuné na cabeça da filha pela tela da televisão. Beijar suas bochechas. Checava se a maquiagem estava correta. Dona Maria sabia até quando a filha havia dormido mal – as olheiras não mentiam –, ou quando estava triste – pela melancolia de sua voz.

- Mãe, eu tô bem, sim. A minha voz estava triste, porque a notícia era ruim. Só isso. A gente só se empolga quando o fato é positivo. Pode ficar calma.

Dona Maria passou a gravar os programas da filha e fazer a maior propaganda de Luiza pela vizinhança, pros parentes, pras amigas que compravam Avon. E ai de quem ousasse falar mal da filha.

- Eu nunca vi a Luiza, dona Maria. Onde ela trabalha mesmo?, quis saber Laura, a mulher que arrumava o cabelo de Dona Maria.

- É no canal 59, só sobre notícias financeiras.

- Ah, sei, é tipo Canal do Boi, né, daqueles que ninguém assiste?

- Tá despeitada, hein, Laura? Sabe quem vê a Luiza? A nata do mercado financeiro. Só os caras do dinheiro, só os caras do dinheiro.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Moça com botas de borracha


Como a cobertura de enchentes é muito comum nesta época do ano, republico um post sobre o tema.

A jovem jornalista escolheu o rumo de sua carreira antes mesmo de se formar: queria trabalhar com moda. Gostava da vida de desfiles, badalação, coquetéis, gente famosa. Entendia tudo de roupas, tecidos, tendências. Era também elegante, bonita, magra. Decidiu que seria uma nova Erika Palomino.

Mas a vida é quase sempre ingrata com os focas, e seu primeiro emprego foi o de repórter de Geral de um jornal impresso. Fazia de tudo um pouco: ronda policial em delegacias, matérias sobre buracos nas ruas, a tubulação do gás natural que explodiu. Toda noite, antes de dormir, chorava de tanto desgosto. Pensou em desistir, mas logo lembrou que a coisa poderia ser pior, poderia nem ter emprego, como vários de seus colegas da faculdade.

Numa tarde em que estava de bobeira na redação, foi chamada à mesa do pauteiro. Recebeu a missão de visitar a região da cidade mais afetada pelas chuvas daqueles dias, entrar na favela, ver o que sobrou, conhecer as histórias de quem perdeu tudo.

- Bonitinha como você é, vai fazer o maior sucesso no pedaço, brincou o pauteiro.

- Mas eu não tenho nem sapato adequado para entrar numa favela submersa.

O pauteiro lhe indicou uma caixa no chão, com um par bem velho de botas de borracha, uns dois ou três números maiores do que o pé da moça. Não tinha opção. Deixou a redação já com as botas nos pés e ainda ouviu algum engraçadinho cantarolar: “É isso aí”.

A água já havia baixado quando ela chegou à favela. Caminhou pelas vielas, observou o lixo, a lama, o sofrimento no rosto de cada pessoa que tentava salvar os restos. Foi ganhando coragem. Visitou vários barracos, conversou com muita gente, conheceu dramas variados, do fogão novinho das Casas Bahia que virou sucata ao menino que desapareceu no córrego. Foi até convidada a tomar um café no barraco da dona Elza.

- A senhora acredita que nós, jornalistas, podemos fazer alguma coisa para mudar a situação de vocês aqui?

- Ninguém muda nada aqui, não, minha filha. Faz mais de 15 anos que a gente sofre com enchente. O bom é que, com os jornalistas aqui, a gente pode, pelo menos, falar mal das autoridades. Assim, a prefeitura vem mais rápido limpar a entulhada toda deste ano.

No barraco, saboreando o café feito de improviso, a jornalista conheceu o caçula de dona Elza que, quando crescesse, queria ser jornalista. Ou bombeiro. Achou graça. Tudo havia sido tão intenso na favela que ela até esqueceu que as botas grandes e velhas a incomodavam. Antes de partir, ainda teve tempo de brincar com um vira-lata sarnento, escorregar na lama e quase sujar a bunda.

Estava exausta e, à noite, antes de dormir, olhou para o teto e sorriu como havia muito tempo não sorria. Pensou até que a vida da Erika Palomino deveria ser, assim, meio sem graça, sabe?

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A ditadura das aspas


A dona de casa disse; o comandante do Bope afirmou; o presidente da República garantiu; o ministro da Educação explicou; o autor do gol da vitória ressaltou; o diretor teatral destacou; o delegado do 13º DP concluiu; o economista-chefe do BWY Investment avaliou; o secretário de Transportes salientou; a principal testemunha do homicídio contou; a prefeita prometeu; o técnico da seleção justificou; a ex-mulher do ex-chanceler de alguma ex-república soviética fez uma declaração bombástica; o presidente do Banco Central, por meio de nota, divulgou; o líder da bancada governista no Senado argumentou; o líder da oposição no Senado contra-argumentou; o Papa comunicou; a atriz global, em sua visita à Ilha de Caras, confidenciou; o gerente de Marketing anunciou; os refugiados de algum conflito na África relataram; o diretor do FMI para o Hemisfério Ocidental ponderou; o perito criminal analisou; os meteorologistas previram; a assessoria de imprensa, por meio de release, desmentiu; o vereador acusou; o advogado de defesa criticou; a ex-BBB revelou em seu Twitter.

E a imprensa, que merda, se tornou refém deste maldito jornalismo declaratório.


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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O furo


Obsessão na vida do jornalista. Do foca ao colunista. Repórteres perseguem um furo ordinário mais até que aumento de salário.

Dar furo não paga as contas do mês, mas deixa o jornalista em estado de embriaguez. O ego fica gigante. Quem não gosta de se sentir importante? É ser o primeiro. O único. É ver o que ninguém viu, ouvir o que ninguém ouviu. É fuga, carnaval, esquecer que se trabalha muito e se ganha mal.

Furo sempre tem pai. Ou mãe. Registrado, assinado, com nome e sobrenome.

Tomar furo pode não ser caso de demissão, mas dá uma maldita aporrinhação. Tem coisa pior do que correr atrás do concorrente? Dói mais que dor de dente. É jogo perdido, pra ser esquecido. Jornalista furado fica todo ferrado. Coitado!

É duro conseguir um furo. Algo raro pra turma do impresso diário. Furo exige faro, meu caro. É boa apuração. Precisão. Ter fonte pra lá de porreta. Fazer pacto até com o capeta. Não tente um tiro no escuro, senão o furo vira furada. Barrigada.

O furo incomoda.

O furo é foda.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

No princípio era o foca


Ser foca é o começo do caminho. Um começo sofrido, assim como também são sofridos o meio e o fim.

Ser foca é a libertação da condição de mero estudante de jornalismo. Como é insuportável ser por tantos anos um mero estudante. Agonia demais para quem tem pressa de viver tudo na prática. Já notaram como o foca enche a boca para dizer que é, enfim, jornalista?

Ser foca é não ter ainda experiência. É o menino virgem levado pelo pai ao puteiro. Medo danado de falhar. Mas tão grande quanto o frio na barriga é a vontade de descobrir um mundo novo.

Quando se é foca, não há perrengue que não se possa enfrentar. O foca aceita trabalhar por muito pouco ou de graça e não reclama. Pega pauta roubada e acha o máximo. O foca corre todos os riscos, paga todos os micos.

O foca tudo pode. Sensação de imortalidade da infância.

Ser foca é fazer clipping na madrugada, infográfico, notinha baseada em release, pesquisa para a matéria dos outros. É suplicar por uma pauta decente na reunião semanal, assim como o cachorro suplica um carinho do dono.

Ser foca é jogar paciência enquanto o mundo parece pegar fogo.

Ser foca é ter humildade de ouvir os mais velhos, inclusive o mais derrotado de todos. O jornalista velho de estrada não será, com certeza, nenhum modelo de herói para o foca, mas ensinará atalhos salvadores. Quem precisa de heróis é filme americano. O foca precisa aprender a não se perder no caminho.

Ser foca é ter a incrível capacidade – que vai desaparecendo com o tempo – de respirar fundo diante das dificuldades e dizer...

... Que se foda!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sete passos para um jornalista ambientalmente responsável


O planeta está cada vez mais ameaçado e é preciso parar de colocar tudo na conta do peido da vaca. Nós, jornalistas, também podemos contribuir para salvar o meio ambiente. Que tal fazermos a nossa parte? A seguir, sete propostas do blog.

1. Seria assinado um protocolo com o objetivo de reduzir a emissão de gases poluentes. Os jornalistas deveriam, num prazo de cinco anos, diminuir em 20% o consumo de calabresa apimentada, torresminho e carne seca com mandioca.

2. Os diplomas, que não valem mais nada, deveriam ser impressos pelas faculdades em papel semente. Tão logo o jornalista recebesse o seu certificado e chorasse abraçado aos pais, deveria picá-lo e plantar os pedacinhos em um vaso qualquer.

3. Seria criada uma reserva alcoológica para proteção do jornalista-que-bebe-pra-cacete-da-barriga-redonda, espécie ameaçada de extinção pelo jornalista-nerd-que-só-toma-suco-de-lichia-do-rabo-malhado.

4. Com o intuito de promover o uso racional da energia, os pescoções, nas madrugadas de sábado, passariam a ser realizados à luz de velas. As velas, juntamente com a pizza e o vinho safado, ainda garantiriam um clima de romantismo ao ambiente.

5. Para evitar as queimadas descontroladas, o consumo de maconha seria restrito às festinhas entre amigos uma única vez na semana. E, em um amplo programa de compensação ambiental, para cada baseado fumado, o jornalista deveria plantar um novo pé em sua casa.

6. Incentivo ao descarte seletivo do lixo jornalístico. Você sabia que uma coluna do Diogo Mainardi jogada num rio leva centenas de anos para se decompor? Em cestos plásticos azuis, por exemplo, seriam depositadas matérias sobre celebridades. Nos verdes, resenhas de jogos de futebol. Nos vermelhos, matérias com economistas fazendo projeções furadas.

7. Seria instituído o Dia Mundial Sem Carro de Reportagem. E também o Dia Mundial Sem Destruir a Planta que Fica ao Lado da Máquina de Café de Tanta Raiva pela Folga Cassada pelo Editor. E, claro, o Dia Mundial Sem Releases Tóxicos.


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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

As minhas retrospectivas


Estou entrando em férias. Nada como poder passar uns dias na praia, disputando um pedaço de areia com gente e bichos geográficos. Sim, blogueiros também têm direito a férias! Aviso os navegantes que este é o último post de 2010. Retorno ao blog em 11 de janeiro. Um detalhe: mesmo neste período de recesso do blog, seguirei no Twitter (@duda_rangel) com a retrospectiva dos melhores (ou piores) posts do ano.

2010 foi especial para o blog Desilusões perdidas. O número de leitores aumentou muito e o meu perfil no Twitter foi até escolhido como um dos melhores (ou piores) do ano pela Revista Bula. Deixo o meu singelo “obrigado pra caralho” a todos. Vocês são a minha motivação para continuar escrevendo. Obrigado aos que manifestaram sua opinião no blog e aos que não manifestaram também. Aos que sempre me apóiam, aos que ajudam a divulgar os meus escritos por aí.

Prometo que, em 2011, o blog será, enfim, adaptado em um livro. Se até a Vera Fischer lançou o seu livro, sinto que agora é uma questão de honra. Um maravilhoso novo ano a vocês, com todas as suas coisas boas e até os inevitáveis dissabores. Que a gente continue reclamando, amando o que faz (seja o que for) e, principalmente, sabendo rir sempre.

Como despedida, republico um post que tem tudo a ver com esta época do ano. Beijos e abraços do Duda.

Boa noite

Quando eu ainda era criança, sem pêlos no saco, descobri minha paixão pelo jornalismo. Eu achava o máximo acompanhar, entre o Natal e o réveillon, o noticiário da TV com o resumão dos acontecimentos do ano. Enquanto meus colegas sonhavam ser astronautas, pilotos de Fórmula 1 ou galãs de cinema, eu queria ser apresentador de retrospectiva. Meus pais não entendiam a minha escolha. "Pô, Duda, apresentador de retrospectiva?”

Era o despertar de um jornalista. Ao longo do ano, eu guardava jornais e revistas com informações sobre o Brasil e o mundo – nessa época, não havia descoberto ainda a Playboy, a Ele&Ela e as preciosidades suecas. Definia a pauta do programa, redigia as laudas para leitura. Tudo isso muitos anos antes de aprender (ou desaprender) jornalismo na faculdade. Me preparava para o grande dia: a apresentação da minha retrospectiva, que podia ser feita em qualquer parte da casa, desde que existisse uma mesa para servir de bancada.

Eu usava um paletó de meu pai, gigante para mim. Na parte de baixo, apenas bermuda e chinelos, afinal era assim que diziam trabalhar os apresentadores de TV. Adotei óculos, para dar mais seriedade. Não havia câmeras na minha frente; apenas uma platéia, ao vivo, composta por parentes e amigos da família. Gente que fazia o maior esforço para estar ali.

– Esse menino fala que seu sonho é ser jornalista. Isso é coisa de vagabundo! Ele não quer é estudar – murmurava uma tia.

Um dos meus maiores apoiadores era meu avô, que se dizia um visionário.

– Esse moleque ainda vai ser jornalista, trabalhar na Globo e comer toda a mulherada.

Como ele vibrava com o meu “boa noite” na abertura de cada edição do resumão de notícias, ano após ano. Para mim, aquele era também um momento mágico.

Aos poucos, a platéia e o meu desejo de apresentar retrospectivas foram diminuindo. Com o crescimento dos pêlos no saco, meus interesses de fim de ano mudaram. Ah, as preciosidades suecas! O programa morreu, mas a paixão pela profissão jamais. Tanto que virei jornalista, como previu vovô.

Só não cumpri o resto de sua profecia.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O que alguns jornalistas esperam para 2011


Fábio espera ser promovido de estagiário pessimamente remunerado sênior para repórter com salário de merda júnior.

Letícia espera fazer uma especialização em Jornalismo na Espanha. Ou um mestrado em Mídias Sociais na USP. Ou trabalho voluntário. Ou mudar o corte do cabelo.

Murilo espera cobrir uma guerra no Oriente Médio, mas, se não rolar, serve um morro no Rio de Janeiro.

Sérgio espera não esperar nada para depois não se frustrar.

Tatiana espera arrumar um emprego igualzinho ao da Ilze Scamparini.

Diogo espera deixar a revista Hidráulica Moderna, chata pra cacete, e escrever sobre cinema.

Joana espera roubar todos os clientes da agência de assessoria de imprensa de seu chefe canalha e abrir sua própria agência.

Pedro espera parar de fumar, beber e se entupir de comidas gordurosas. Mas só às segundas-feiras de lua cheia.

Patrícia espera que o jornal em que trabalha não vá à falência ou vire apenas uma edição eletrônica.

Fernanda espera arrumar um namorado novo. Mas, por favor, Deus, que não seja outro jornalista.

Roberto espera fazer menos plantão. E mais sexo.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O Evangelho segundo o assessor de imprensa


Começava a chover no calvário.

- Chefe, chefe, conversei com um ótimo advogado e conseguimos um habeas-corpus. Sua sentença está suspensa!

Era Pedro, assessor de imprensa de Jesus.

- A notícia já corre por todos os cantos.

Jesus arregalou os olhos. Não era esse o final que havia planejado. Mas como lei é lei, os soldados, também contrariados, tiveram que descer Jesus. O bandido mau sorriu com sarcasmo: “Neste país, só os pobres morrem na cruz.”

De volta à sua casa, Jesus teve os ferimentos tratados por sua mãe e por Maria Madalena, sua mulher, carinhosamente chamada por ele de Madá. Madá, que há pouquíssimo tempo já se considerava uma viúva, agora refazia os planos. Voltou a sonhar com uma casa no campo, cheia de crianças e ovelhas.

Jesus não entendia por que seu assessor de imprensa armou toda aquela estratégia para conseguir um habeas-corpus.

- Me responde, pelo amor do meu Pai: o que a gente combinou?

- Mas chefe...

- Não tem “mas chefe”. Era só escrever o release sobre a minha crucificação e a ressurreição no terceiro dia e disparar para a mídia. Só isso. É tão difícil para um assessor seguir o briefing?

O primeiro jantar de sua liberdade foi em família, coisa simples, nada da ostentação da santa ceia. Jesus era só desolação.

- Não comeu nada, filho. Assim você vai ficar fraco.

- Mãe, eu deveria morrer para salvar este povo. Agora, tudo será diferente. Como eu fico com a opinião pública?

Jesus caminhava pelas ruas sob olhares desconfiados. Os discípulos, sempre muito próximos, se afastaram. Não conseguia mais fazer milagres. Os leprosos continuavam leprosos. Os cegos jamais veriam o verde dos campos. Jesus começou a beber. Os cabelos e a barba foram crescendo cada vez mais.

- Meu filho, você está precisando arrumar um emprego.

Jesus tornou-se depressivo e passou a se entupir de Prozac.

Sem causar mais furor, Jesus foi esquecido. Seu assessor de imprensa, que ainda não havia sido perdoado, caiu fora por falta de pagamento. O processo de execução foi arquivado. Jesus estava condenado a jamais morrer na cruz. Ele pouco saía de casa e, numa destas raras vezes, foi comprar pão – já não conseguia multiplicá-los – e nunca mais voltou.

Madá chorou. Esqueceu a casa no campo, as crianças, as ovelhas.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Afinal, o que é Jornalismo?


Jornalismo é vocação. É mais ou menos como ser padre. É sacerdócio. Missão. Entrega total. Tem que fazer voto de pobreza. Voto de castidade também rola e, hoje, rola até mais para o jornalista do que para o padre. Enquanto os padres estão bem soltinhos por aí, os jornalistas são os reclusos. A redação é seu mosteiro. Seu claustro.

Jornalismo é a fé em dias melhores. É acreditar em milagres.

Jornalismo não é para aventureiros. Se você ainda não sabe o que quer da vida, descubra primeiro. Nem pense em estudar Jornalismo antes disso. Tem gente que está em dúvida entre Veterinária e Administração e, do nada, decide cursar Jornalismo. Porque é chique, porque a gente fica famoso, porque a gente fica importante. Fica porra nenhuma.

Jornalismo não se escolhe por causa da dica que você viu na caixa do Toddynho.

Jornalismo é dedicação. É perseverança.

Jornalismo é abdicar de um monte de coisa e gente.

Jornalismo é o marido boêmio e safado que seduz as moças no bar, o marido que você já prometeu largar um milhão de vezes, mas não larga, porque ele sempre te convence que você não saberia viver sem ele. E sem ele você não saberia mesmo viver.

Jornalismo é a trepada bem-dada. É gozar ao ver a matéria que deu tanto trabalho publicada. Matéria publicada na capa, então, é algo pra lá de sublime. É sexo tântrico. Jornalismo é o tesão de ir pra rua, é o tesão de conhecer gente que você não imaginava existir, é o tesão de viver essa coisa viva chamada História.

Jornalismo é o pau duro. Sem Viagra.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sintomas de um jornalista em crise


Ele vende o carro popular e vai passar um tempo em Londres.

Ela se inscreve num curso de gastronomia.

Ele começa a fazer uma fé na Mega-Sena.

Ela começa a visitar cartomantes.

Ele sonda os amigos do mundo corporativo para saber se rola alguma oportunidade em Comunicação por lá.

Ela considera tornar seu hobby (artesanato com garrafas PET) uma profissão de verdade.

Ele decide trocar a mesa do bar por um retiro espiritual num templo budista.

Ela decide criar um blog.

Ele já não sente pela pauta o mesmo tesão que sentia no início.

Ela olha o Jornalismo nos olhos e diz: “será que o meu amor por você acabou?”. E o convence a fazer terapia de casal.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Cantigas jornalísticas de Natal que a cantora Simone jamais ousaria gravar


Noite infeliz (versão de Noite feliz)

Noite infeliz, noite infeliz
Editor, por favor
Ou vou embora ou perco meu trem
Moro na Lapa e é longe, meu bem
Tem baldeação lá na Luz
Tem baldeação lá na Luz.


Soa o tiro (versão de Toca o sino, versão de Jingle bells)

Hoje a pauta é fera juntos eu e ela
Vamos à favela que o bicho vai pegar
Ao soar o tiro, tiro dos meninos
Sobe o Caveirão para apavorar.

Põe colete, minha filha, para o seu bem
Tem azul, amarelo e rosa também
Ligo a câmera, tudo pronto pra gente gravar
Só cuidado pruma bala não te encontrar.


Papel morreu? (versão de Anoiteceu)

Eu pensei que a internet fosse acabar com o papel
Os feirantes reclamaram, passarinhos protestaram
Brincadeira mais cruel.

Já faz tempo que o matam, mas o meu jornal-papel vai bem
Com certeza já morreu e morreu há muito tempo
Para aqueles que não lêem.


Até no Natal (versão de Bom Natal)

Quero ver você não chorar
Se um furo tomar
E um puta esporro levar.

Quero ver você não sofrer
Se o texto escrever
Mas no fim a pauta cair.

Se achar a grana ruim
Tão ruim assim vou dizer...

Glamour não existe
O dissídio é triste
Jornalismo é puro amor.

É Natal, até no Natal
Um plantão a mais pra você
Pra você.


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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Imprensa Retrô 2010


Depois de longa agonia, desligaram os aparelhos do velho JB, tadinho. O titio William Bonner humanizou-se e virou sensação no Twitter. Teve repórter, que pautada pelo microblog, divulgou notícia falsa de uma corrida de cadeiras de rodas com Hebe Camargo no hospital. A Carolina Dieckmann nos ensinou o que é ser uma jornalista fake, mas muito fake. A campanha “Cala Boca, Galvão” ficou famosa na mídia internacional. Um monte de jornalista brasileiro foi assaltado na Copa da África do Sul. Dunga chamou o repórter da Globo Alex Escobar de cagão. O Felipão chamou repórteres esportivos de palhaços. O Tiago Leifert, acreditem, conseguiu ficar mais bonito que o Evaristo Costa. O jornalista Duda Rangel conseguiu atrasar o pagamento de apenas três meses de aluguel em todo o ano. A lésbica do BBB10 chocou papai e mamãe quando revelou para todo o Brasil que era jornalista. Pimenta Neves completou uma década de liberdade desde que matou a ex-namorada pelas costas. Armando Nogueira se foi. O Glauco também. Mas a jornalista Carolina Dieckmann, que tinha que morrer, não morreu. Até a ONG Repórteres Sem Fronteiras concordou com sua execução. O senador Romeu Tuma partiu desta para uma melhor (ou pior) um mês depois de a Folha.com ter antecipado sua partida. Chico Buarque cantou seus clássicos jornalísticos no blog Desilusões perdidas. O “rei” Roberto Carlos também. O Datena continuou chato. O Lula continuou atacando a imprensa. E sendo atacado. Vários veículos de comunicação viraram partidos políticos na eleição. O Estadão, ainda sob censura da família Sarney, demitiu colunista por “delito de opinião”. A Folha de S.Paulo tratou de acabar com a Falha de S.Paulo. Teve jornalista que se envolveu em quebra de sigilo fiscal e virou notícia na campanha eleitoral. Cid Moreira lançou sua biografia no mesmo ano em que Fiuk e Geisy Arruda lançaram as suas. Nunca se discutiu tanto liberdade de imprensa e controle de mídia sem se chegar a lugar algum. O jornalista Duda Rangel, pelo vigésimo ano consecutivo, não ganhou o Prêmio Esso.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Carta de um jovem jornalista ao Papai Noel


"Olá, Papai Noel. Eu me chamo João e sou um jornalista recém-formado. Ainda estou chateado com essa história do diploma não ser mais obrigatório, mas não vou desistir da profissão que eu amo! Com ou sem diploma, o problema maior é que está muito difícil arrumar um emprego. Estou escrevendo para pedir uma oportunidade de trabalho neste Natal. Deixei uma meia pendurada na janela com meu currículo atualizado.

Nem precisa ser um emprego muito bom. Para começar, faço até plantão no carnaval. Sei que vou ganhar um salário pequeno. Estou ansioso para aprender jornalismo na prática e confiante que o próximo ano será bem melhor. Meus amigos dizem que sou muito otimista, que acredito em tudo, até em Papai Noel. Mas a gente precisa ser assim.

Cometi alguns erros este ano, mas nada tão grave que não me faça merecer este emprego. O senhor vai compreender. Fiquei de bobeira na internet, escrevendo bobagem no Facebook e lendo o blog do Duda Rangel. O único vício que eu tenho é beber demais, embora falam que todo jornalista bebe. Também dou um tapa num baseado de vez em quando, mas só quando estou estressado e com dor de cabeça. E se é para uso medicinal não há problema, o senhor bem sabe.

Na faculdade, eu sempre fui um aluno dedicado. Fazia os trabalhos direitinho. Li até livro do Diogo Mainardi que eles me obrigaram. Eu também sou bem-informado. Não gosto de ler jornal, mas sigo todas as notícias na internet. O meu Português é bem correto também. O senhor pode notar que não tem vírgula separando o sujeito do verbo nesta carta.

Estou louco para ver se todas aquelas coisas que o Duda Rangel escreve no blog dele acontecem mesmo. Estou com um puta tesão (ops, desculpa!) de ir para a rua, fazer reportagens, buscar sempre a história mais bacana, comer coxinha de frango na padoca, ganhar um monte de jabá e almoçar de graça nos eventos. Também quero conhecer o tal pescoção. Só não quero ser corno como o Duda, mas este pedido fica para o outro Natal, está bom? Não vou abusar mais do senhor! Obrigado, Papai Noel. João."


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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Quis porque quis fazer jornalismo


Depois de muitos anos, duas mães se reencontram num colégio, no dia de votação de uma eleição qualquer.

- Maria Helena? Você não é a mãe do Paulo Henrique, o amigo do Arturzinho, meu filho, nos tempos aqui do colégio?

- Claro! Sou a mãe do Paulo Henrique, sim. Quanto tempo, Célia! E como vai o Arturzinho?

- Arturzinho tá ótimo. Tá nos Estados Unidos. Acabou a faculdade de Economia na USP e está fazendo uma pós-graduação em Nova York. Tá todo empolgado! A família também. E o Paulo Henrique?

- Paulo é aquela coisa: nunca gostou de estudar. Quis porque quis fazer jornalismo. O pai não queria. Agora tá aí, desempregado. Diz que manda currículo todo dia, pra tudo que é lugar, mas a situação tá difícil.

- Mas isso é fase, Maria Helena.

- Deus te ouça, Célia. O Paulo Henrique passa o dia inteiro tocando guitarra no quarto. Diz que vai ser músico também. O pai não tá gostando nada. Eu queria tanto que ele fosse igual ao Arturzinho.

- Bem, Maria Helena, deixa eu ir. Sucesso pro Paulo Henrique.


Dois anos depois, numa outra eleição, novo reencontro.

- Oi, tudo bem? E o Paulo Henrique? Ainda sem emprego?

- Oi, Célia, tudo bem. O Paulo arrumou umas coisas, sim, mas tudo bico. Pelo menos tá pagando as contas dele.

- Que bom, já é alguma coisa, né?

- Ele diz que também está fazendo um blog. Acho que é esse o nome: blog. Não ganha nada. Diz que vai ganhar, mas até agora nada. Diz que é um blog sobre transparência política. Não entendo direito. Ah, esse moleque. E o Artur?

- Arturzinho tá ótimo. Já tá voltando pro Brasil. Mês que vem. Com a pós que ele fez lá nos Estados Unidos, já garantiu um superemprego aqui, num banco grande. Tão jovem e já vai ter um cargo importante, sabe? Salário excelente.

- Que bom. O Arturzinho sempre foi muito estudioso. Eu falava pro Paulo: segue o exemplo do seu amigo. Mas fazer o quê? Quis porque quis fazer essa bobagem de jornalismo...


Pelas mais diversas circunstâncias, o encontro seguinte só ocorreu depois de oito anos.

- Maria Helena, tudo bem? Lembrei de você esses dias!

- Sério?

- Me fala uma coisa: o Paulo Henrique Dias, o jornalista que denunciou o esquema de corrupção lá no Senado, é o seu filho?

- É o meu filho, sim.

- Jura?

- Paulinho tá trabalhando em Brasília há uns cinco anos ou mais. Gostou mesmo dessa coisa de política, investigação, transparência. Lembra que eu falei do blog? Arrumou até emprego por causa do blog.

- Lembro do blog, sim. Que coisa, né?

- Não ganha o salário do Arturzinho, mas tá muito feliz.

- Então, deixa eu te contar. O Artur não está mais no banco. Fez uma besteira lá num investimento alto, o banco perdeu muito dinheiro e mandou ele embora. O pai ficou uma fera. Vai estudar nos Estados Unidos pra fazer uma besteira dessas?

- Sério? Coitado...

- E quando é pra dar errado dá tudo junto. Ele tinha casado, mas depois da confusão com o banco até a mulher abandonou o Artur. Tá em depressão. Não vai nem mais às aulas de esgrima.

- O pai do Paulinho tá todo orgulhoso do filho. Eu também, sabe? Tenho uma pasta aqui com os recortes das matérias dele. Quer ver? Só matéria de capa.

- Nossa, que coisa, né?

- E não é que o Paulinho se encontrou mesmo no jornalismo?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A festa da firma


Como festa de fim de ano é sempre igual, um post para relembrar.

Na minha época de redação, dezembro chegava e o povo tinha que decidir a escala especial de folga – quem trabalha no Natal e quem trabalha no ano-novo. Ou quem trabalha nos dois, caso de alguns focas. Sobravam divergências e eventual ofensa à mãe alheia. Mas dezembro também era um tempo alegre, tempo de festa da firma.

Após passar o ano inteiro explorando os pobres funcionários, principalmente os jornalistas, o dono do jornal decide promover uma festança. Para alguns, um lampejo de humanidade do patrão, mas, para mim, pura estratégia. Ele sabe que o jornalista é facilmente seduzido por uma boca-livre. Alimente um jornalista e ele se tornará seu amigo, dizia um filósofo de botequim. Ele esquecerá até das horas extras não pagas.

A festa da firma é um clássico exemplo da política “pão e circo”. Mas quem se importa com isso? Adoramos comida e bebida fartas, show com banda ao vivo, sorteio de prêmios. No meu tempo, começavam com brindes institucionais e acabavam com o prêmio máximo da noite, uma semana com a família na colônia de férias em Mongaguá. Eu, que sempre preferi o pão ao circo, até criei um grupo de amigos batizado de “a nuvem dos gafanhotos”, que perambulava pelas mesas deixando só devastação.

O evento é uma grande chance para o jornalista conhecer pessoas de outros departamentos, a turma do administrativo, a turma do comercial - ou “os vendedores de anúncio”. Até os jornalistas que nunca conseguem um alvará da patroa para as bebedeiras habituais vão à festa. Só não aparece a ala dos intelectuais, jornalistas que acreditam que a festa da firma não passa de uma forma primitiva de entretenimento, regada a axé, cerveja e suor.

Na festa da firma, muita gente perde o pudor, paga mico, arruma confusão. As taxas de sangue no álcool ficam baixíssimas. A vantagem de ficar um pouco mais sóbrio é testemunhar as aberrações da noite e ter matéria-prima para fofocar nos dias seguintes. Jamais esquecerei a festa em que o foca do caderno de Variedades, moço tímido, foi arrebatado pela música do Abba, subiu na mesa, arrancou a camisa, rebolou como uma lagartixa e gritou: “I am the queen, I am the dancing queen!”.

Depois disso, nunca mais foi visto na redação.


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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

TCC


O TCC é uma aporrinhação para o estudante de Jornalismo. Um esforço danado pra quem passou quase quatro anos numa vida serena, entre aulinhas sem graça e a cervejinha no bar. Com o TCC, são meses de abstinência social. Pode ser monografia, livro-reportagem, documentário. Não importa. É um trabalho de conclusão de curso que teima em nunca acabar.

TCC requer criatividade pra escolher um tema original. Sorte pra descolar um orientador gente boa. Madrugadas de leitura. Debates em grupo de avivar gastrite nervosa. Pesquisas, entrevistas, páginas e páginas de citações teóricas. Revisa aqui, compila ali, encaixa acolá. Trabalhos que mais parecem um Frankenstein. Tem estudante que surta. Tem estudante que enfim descobre onde fica a biblioteca da faculdade.

TCC tem dedicatória brega do aluno à família que o apoiou. E penou para pagar o curso. À paciência do orientador, sempre com tempo curto e mil outros projetos para acompanhar. TCC tem a porra da formatação da ABNT. Papel branco A4, Times corpo 12, margem de 3 centímetros à esquerda, parágrafo com recuo de 2 centímetros, referência bibliográfica assim, sumário assado, não sei o quê em itálico, em caixa baixa, em caixa alta.

TCC exige sangue-frio do estudante para lidar com o furo de um dos membros da banca às vésperas da banca. Agilidade para conseguir um substituto pra ontem. É uma mistura de tensão e ansiedade até a apresentação final do trabalho, quando o professor-orientador, do alto de sua sabedoria acadêmica, atesta que seu pupilo está apto para ser JORNALISTA!!! Papai e mamãe ficam orgulhosos. Todos se abraçam, riem, choram.

Então, o jornalista cai no mercado de trabalho e descobre que fazer um TCC é algo até bem sossegado, sabe?


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